segunda-feira, 25 de maio de 2015

Código dos Painéis

Livro
Será excessivo falar-se de um «Código de S. Vicente». Mas os Painéis atribuídos a Nuno Gonçalves envolvem mistérios ainda hoje não descodificados.


Por João Paulo Guerra, Diário Económico,
‎17‎ de ‎Maio‎ de ‎2006




Arcebispo
          Os Painéis de S. Vicente de Fora sempre estiveram rodeados de mistérios, polémicas, interpretações e especulações desde que, na passagem do século XIX para o século XX, foram identificados e recuperados. Atribuídos a Nuno Gonçalves, pintor da corte de D. Afonso V, que reinou entre 1438 e 1481, os Painéis foram datados há cinco anos, por métodos científicos, de 1445, como ano plausível da sua conclusão, o que contrariou versões anteriores que os localizavam em outras décadas do século XV. De resto, mais nenhuma polémica sobre os Painéis se revelou conclusiva.



A primeira questão com os Painéis envolve a sua autoria. A primeira referência a Nuno Gonçalves como autor das tábuas de S. Vicente é de Francisco da Holanda, pintor e humanista do século XVI, que se referiu, na sua obra «Da pintura antiga», ao «pintor português» Nuno Gonçalves «que pintou na Sé de Lisboa o altar de S. Vicente».
Infante
As tábuas de madeira de carvalho pintadas a óleo e têmpera andaram transviadas no Paço Patriarcal de S. Vicente de Fora até que foram redescobertas em 1882. Posteriormente assentou-se na formulação sobre a autoria, sendo a obra «atribuída» a Nuno Gonçalves, o «Fernão Lopes da nossa pintura», como lhe chamou Guerra Junqueiro. Supostamente, segundo alguns autores, a obra encontra-se assinada no peito da bota direita de D. Afonso V, no Painel do Infante. Simultaneamente fixou-se a designação e sequência dos Painéis – conforme a exposição no Museu Nacional de Arte Antiga – de acordo com o que supõe que tenha sido a ordem original, da esquerda para a direita: painéis dos Frades, dos Pescadores, do Infante, do Arcebispo, dos Cavaleiros e da Relíquia.
Cavaleiros
Outro dos mistérios que envolvem os Painéis de S. Vicente de Fora tem a ver com as personagens que figuram no políptico e que reconstituem a organização social da época: clero, nobreza e povo. São 58 e apenas S. Vicente figura em duas das seis tábuas, na do Infante e na do Arcebispo. De resto, admite-se que figurem nos Painéis D. Afonso V, de joelho em terra no Painel do Infante, e o futuro D. João II, a criança do mesmo painel. Mas a figura que tradicionalmente se identifica com a imagem do Infante D. Henrique já foi descrita como sendo D. Duarte, situando-se o verdadeiro Infante de Sagres ajoelhado no Painel dos Cavaleiros. E não é certo que a última figura do canto superior direito do Painel do Infante seja a do próprio Nuno Gonçalves. Como não é seguro que seja D. Fernando, irmão do rei, quem se vê à direita do Santo no painel do Arcebispo.

«Charada» 
Pescadores
Uma das polémicas sem redor dos Painéis de S. Vicente de Fora envolveu, nos anos vinte do século passado, Almada Negreiros e outros artistas do modernismo português. Atacado pelos defensores do academismo, que contrapunham à «degenerescência» dos seus «mamarrachos» o «maravilhoso políptico» atribuído a Nuno Gonçalves, Almada argumentou que, subjacente aos Painéis, havia uma «matriz matemática», teorizou em 1926 sobre «a perspectiva dos ladrilhos» e chegou a ver, no Painel do Arcebispo, o mapa de Portugal.
     Mais ou menos académicas, artísticas ou científicas, as interpretações dos Painéis derraparam para o completo absurdo quando, nos anos 30, coincidindo com a intensa propaganda do «Estado Novo» desencadeada por António Ferro, o Notícias Ilustrado chegou a vislumbrar a efígie de Salazar premonitoriamente representada numa das tábuas do século XV, na última fila, ao centro, no Painel dos Pescadores.  
Relíquia
Uma das mais recentes interpretações dos Painéis, parcialmente disponível na Internet (http://paineis.org/), é da autoria de António Salvador Marques e segue o título «Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização». O autor, com base na argumentação e não na pesquisa histórica, defende que os Painéis «são uma charada intencional», para cuja interpretação se socorre de «memórias de infância», «cavaleiros verdes, rainhas vermelhas e chapeleiros loucos, capacetes luminosos e coroas de pérolas».
Frades
O autor «julga saber» que existe «uma tradição política» à volta dos Painéis, que situa nos alvores da «geração republicana», e defende que «os pontos de vista oficiais ou semi-oficiais não são menos absurdos que os outros: têm apenas atrás de si o peso de algumas autoridades».  

Os mistérios dos Painéis, dos pontos de vista histórico, artístico, iconográfico e até esotérico, interessaram investigadores tão diversos como Joaquim de Vasconcelos, o autor da descoberta das tábuas e da primeira tese, publicada em 1895, Vitorino Magalhães Godinho, Jorge de Sena, Jaime Cortesão, Belard da Fonseca, José Hermano Saraiva, Dagoberto Markl, Paulo Pereira, Dalila Pereira da Costa, Jorge Filipe de Almeida e Maria Barroso de Albuquerque. Mas, ao fim de cinco séculos e meio da pintura do políptico e de 100 anos de interpretações, permanecem os mistérios.

Painéis de S. Vicente de Fora
Museu Nacional de Arte Antiga
Rua das Janelas Verdes, Lisboa
Horário: terça a domingo: 10h00-18h00
Ingresso: Bilhete: 6,00 €. Descontos: idosos, estudantes, cartão jovem, bilhete de família.

3 comentários:

Bate n-avó disse...

O titulo tem uma "gralha"!

João Paulo Guerra disse...

Obrigado, já não tem.
JPG

Clemente Baeta disse...

Caro João Paulo Guerra

Deixo aqui o link de um dos meus blogues no qual exponho o meu ponto de vista e interpretação sobre os Painéis e que corresponde o meu primeiro estudo sobre os Painéis:

http://clemente-baeta.blogspot.pt/

Este já teve uma continuação com um segundo volume, cujo índice poderá consultar em:

http://paineissvicentedefora.blogspot.pt/search?updated-min=2014-01-01T00:00:00Z&updated-max=2015-01-01T00:00:00Z&max-results=12

Presentemente estou a investigar e a escrever o que será o terceiro tomo relativo a esta temática.

Abraço.
Clemente Baeta