Reportagem
João Paulo Guerra, Setembro e Outubro, 1999,
Diário Económico
Diário Económico
Uma coluna de fumo indica a
direcção do centro da cidade.
«São os armazéns da Intendência» – diz-me, no caminho entre o
aeroporto de Comoro e o centro de Díli, Francisco Leão, antigo corneteiro do
Exército português, noutros tempos camarada de outras armas do furriel José
Ramos-Horta e do 1º cabo Xanana Gusmão. E esclarece que os indonésios pegam
fogo a cada edifício que abandonam na administração de Timor-Leste.
«Ontem durante o dia ardeu a sede do Departamento de Educação. À noite
começaram a arder os armazéns da antiga Intendência, mesmo ao lado do Palácio
do Governo», acrescenta.
O bairro de Comoro já dá os
primeiros sinais da destruição, mas ainda não é nada que eu não tenha visto na
destruição de povoações arrasadas por guerras ou na degradação de zonas
suburbanas de grandes cidades do Terceiro Mundo. Depois, passadas algumas
barricadas da tropa, vem o cordão de vivendas luxuosas e intactas, com vista
para o mar, do bairro dos líderes integracionistas, agora ocupado pelos
comandantes militares javaneses, na vizinhança da igreja e da clínica de
Motael. Chega-se então à zona do porto, partilhada por tropas indonésias e da
Força Internacional para Timor-Leste / INTERFET, cenário de um imenso e
improvisado acampamento dos que ficaram na cidade após a onda de terror das
primeiras semanas de Setembro. A seguir é que se entra verdadeiramente no inferno,
calcinado e fumegante de Díli.
Ao sexto dia da entrada das
forças da INTERFET, a capital de Timor-Leste é ainda uma cidade praticamente
deserta e, como dirá nessa manhã o major-general Peter Cosgrove, comandante da
Força Multinacional, no primeiro briefing
a que vou assistir no Hotel Turismo, «um
local ainda muito perigoso para toda a gente». Convoco a memória de
cenários de outras guerras que visitei, em mais de trinta anos de repórter, e
não me ocorre nada mais inquietante e inseguro que uma cidade sem gente. Esta
cidade, Díli, em Setembro de 1999.
Sigo a visita guiada pelos
escombros. Díli cheira a cinza fria e a gasóleo queimado, os detritos de todas
as modalidades de vandalismo amontoam-se e apodrecem ao sol escaldante no campo
de uma batalha que ninguém venceu. Aqui são as ruínas do Hotel Makhota e lá ao
fundo, à direita, o que resta do Mercado, três vezes assaltado e arrasado. Pelo
caminho ficam os destroços do Liceu Dr. Francisco Machado, com a fachada
lambida pelas chamas. Por todo o lado, pintada sobre os sinais bestiais de
destruição, a assinatura, ou melhor dizendo, a impressão digital da pata da
besta: Aitarak. E ninguém nas ruas, para além de episódicas
patrulhas motorizadas da Força Multinacional ou das viaturas de vidros fumados
dos oficiais de alta patente das Forças Armadas Nacionais Indonésias / TNI (Tentara Nasional Indonesia).
«Good morning», dizem acenando os jovens militares australianos
expedidos para Timor como força de «manutenção
da paz». «Peacekeeping», sublinha
Cosgrove. E toda a gente se interroga sobre que paz de cemitério é esta que se
quer manter.
Ainda neste primeiro dia em Díli
subo a encosta do bairro de Lahane, a seguir ao cemitério de Santa Cruz, o
primeiro trilho do caminho para as montanhas. Vista de cima, a cidade exibe o
mapa de escombros em cinzas de uma verdadeira política de terra queimada.
Poucas vezes a expressão terá sido tão justamente aplicada. Segundo cálculos
das Nações Unidas, 50 por cento das casas de Díli foram incendiadas e todos os
edifícios públicos da cidade foram devassados, vandalizados ou saqueados.
Na encosta de Lahane, a
residência de Leandro Isaac, dirigente local do Conselho Nacional da
Resistência Timorense / CNRT, está desfeita. Mas do outro lado da rua foi
poupada a casa de Fernando Corte Real, professor do ensino secundário. Aceito o
convite para um chá ao fim da manhã. O professor é neto do régulo D. Aleixo
Corte Real que, durante a ocupação japonesa de Timor, na II Guerra Mundial,
pagou com a vida a sua lealdade à bandeira portuguesa. Hei-de encontrar dias
depois, por entre os destroços do Bank
Pembagunan Daerah, no centro de Díli, a efígie do régulo D. Aleixo numa
nota meia queimada de 100 escudos emitida pelo Banco Nacional Ultramarino.
Neste dia de uma calma
inquietante, há em Díli uma pequena mas significativa mudança. A bandeira da
Indonésia deixou de flutuar no mastro do Palácio do Governo, em plena avenida
marginal. É esse o único sinal exterior da discreta cerimónia, à porta fechada,
da transmissão do poder das tropas de Jacarta para as forças da INTERFET. Um
acto formal que não altera a realidade destes dias na capital de Timor-Leste. A
Força Multinacional e as TNI coabitam pacificamente uma cidade que os segundos
continuam a destruir perante a passividade dos primeiros. E os militares de
Jacarta, apesar de estarem em retirada, ocupam pontos de importância
estratégica – o comando da polícia e o comando naval, a central eléctrica e a
telefónica - e detêm poderes tão decisivos como o da segurança e policiamento
de Díli. E é assim que cada agente das Milícias
preso pela INTERFET é entregue às autoridades indonésias que o libertam no
momento seguinte pela porta das traseiras.
O general Cosgrove desdramatiza
a situação, fazendo notar que neste domínio a primeira preocupação das forças
que comanda é desarmar os agentes das Milícias.
Se os indonésios os armam de novo, quando os põem em liberdade, é questão que
nem merece resposta do general no briefing
do Hotel Turismo. Cosgrove passa adiante para afirmar que a Força Multinacional
está a investigar as circunstâncias da morte de timorenses cujos corpos começam
agora a ser descobertos em poços e valas na cidade e arredores.
E este é de facto um motivo de
conversa entre a população refugiada nas tendas improvisadas na área do porto
de Díli. Francisco Leão viveu os dias de terror em Aileu e tem registado na
memória o mapa das valas comuns onde a Milícia
AHI enterrou as suas vítimas.
«Aqui, em Díli, há corpos lançados em poços e valas. Não muitos. A maior
parte dos corpos foi deitada ao mar, ao largo da costa. Nunca mais serão
encontrados. Nem nunca saberemos quantas pessoas foram mortas pelas Milícias»,
diz-me o antigo militar português. Nos dias seguintes, são encontrados nove
corpos numa vala em Comoro, mais dois corpos carbonizados, dentro de um armário
no Hotel Makhota, outros três num poço em Bécora. Mas o número de vítimas vai
ficar muito aquém dos horrores de um holocausto que alguma imprensa apregoou. E
há mesmo alguns «mortos» pela
imprensa que vão renascer das cinzas da cidade, agora que os jornalistas
regressaram após a entrada da Força Multinacional. A irmã Margarida, da diocese
de Díli, «assassinada» nos jornais de
10 de Setembro, vai matar a fome e a sede a muitos de nós, nestes dias em que
falta tudo em Díli.
«Já tomou café hoje? Quer um copo de água? Um prato de arroz?», pergunta docemente a velha, terna e
pequena irmã Margarida, que se agigantava ao enfrentar os desmandos dos Aitarak.
O Banco Mundial fará as suas
previsões sobre o número de vítimas, já nos primeiros dias de Novembro, e
haverá de concluir que cerca de 10 por cento dos agregados familiares perderam
o chefe de família. Anteriormente, nas primeiras semanas de Outubro, a igreja
de Díli fez um primeiro recenseamento das famílias e, segundo me diz o padre
Jovito, chegou à conclusão que em cada grupo familiar falta sempre alguém. Mas
por esta altura há ainda a dúvida e a esperança que os desaparecidos se contem
entre os deportados para Timor Ocidental ou entre os refugiados nas montanhas.
Marciano Correia da Silva, de 37
anos, desconhece o paradeiro da mulher e do filho. Quando o terror tomou conta
de Díli, levou-os para casa de familiares nos subúrbios da cidade e voltou à
sede da UNAMET, onde prestava serviço como intérprete. Ao procurá-los, dias
depois, os vizinhos disseram-lhe que a família foi levada pelos indonésios.
«Talvez estejam em Kupang», diz-me, com mais esperança que
convicção.
População regressa às suas ruínas
Dare, uma localidade de 2.000
habitantes a 10 quilómetros para sul de Díli, sempre a subir no banco traseiro
de uma motoreta que faz serviço de táxi, ao longo de precipícios por uma
esburacada estrada de montanha. A localidade acolhe cerca de 35 mil refugiados
da capital. Alimentam-se de dietas reduzidas de arroz e mandioca, falta-lhes
água potável, roupas, medicamentos e assistência para milhares de crianças
desnutridas. David Ximenes, dirigente do CNRT que coordena este gigantesco
acampamento que se espalha a partir do largo da igreja de Dare pelas matas,
diz-me que a maior parte destes refugiados permanece na montanha apenas porque
aqui tem a segurança que Díli ainda não lhe garante.
«As pessoas estão a ficar ansiosas e em breve vão querer regressar às
suas ruínas» – diz-me o dirigente da Resistência. «Mas a maior parte dos refugiados são mulheres e crianças, muitos deles
com graves problemas de saúde, e o seu regresso levanta um sério problema de
segurança, pelo menos enquanto não terminarem as operações de caça às Milícias»,
acrescenta.
De regresso a Díli passo a ponte
sobre a ribeira de Kulu-Hum que dá acesso ao bairro de Bécora. Aqui, quatro
dias após a chegada das tropas da INTERFET, foi assassinado na rua o jornalista
holandês Sander Thoenes, correspondente do Financial
Times, num ritual macabro: os assassinos cortaram-lhe as orelhas e a
língua, num aviso para que ninguém ouvisse ou dissesse o que havia para ouvir e
dizer sobre Bécora.
Neste bairro periférico de Díli,
à saída da cidade para o Leste da ilha, Baucau e Los Palos, confrontaram-se
extremismos de diferentes matizes. De um lado os jovens e exaltados partidários
da Resistência, do outro os marginais desesperados recrutados pelas tropas
indonésias para constituir a Milícia
Aitarak. Num bairro politicamente dividido, a destruição foi cirúrgica: as
casas dos pro-independentistas estão reduzidas a cinzas e escombros e são muito
mais numerosas que as residências intactas dos pro-integracionistas. O bairro
está povoado, mas os sinais de insegurança marcam todos os rostos, como a
desconfiança assinala mesmo as mais elementares relações entre as pessoas. De
qualquer modo, Bécora já não é, como chegou a ser considerado semanas antes
pela imprensa internacional, «o lugar
mais perigoso do mundo». Aqui decorre agora a «caça» de que me falou David Ximenes.
«Milícia! Milícia!», gritam as crianças de Bécora, entusiasmadas com
este jogo que não é brincadeira. E disparam as correrias da caça ao homem. Toda
a gente em Bécora conhece os Milícia.
São timorenses, com familiares e conhecidos do outro lado da barricada. Mas nem
todos os pro-integracionistas fizeram parte dos esquadrões da morte das Milícias.
«Não demos orientação, nem damos autorização, para que se faça justiça
pelas próprias mãos», disse-me Ximenes em Dare. Por vezes, os suspeitos não
escapam ao espancamento pelos seus captores. Mas em geral, os alegados «milicianos» são denunciados à INTERFET
ou apanhados à mão e entregues às tropas multinacionais, que têm uma força de Gurkhas aquartelada no bairro, entre a
igreja e a cadeia. A cadeia de Bécora, no entanto, está vazia.
Em algum lado haverão de estar
os homens que semearam o terror em Timor-Leste por conta dos militares
indonésios. Ainda em Darwin, à espera de transporte para Díli, visitei o
acampamento de refugiados timorenses de Kalymnian
Center, em Batten Road. Até ali, na Tent
City, foram detectados dois agentes das Milícias
e mesmo um militar indonésio acompanhado por toda a família.
Em Díli, um oficial da INTERFET
ligado ao sector das informações diz-me que é bem possível que haja elementos
destacados das Milícias refugiados
nas instalações que a tropa indonésia ainda ocupa na cidade. Quanto ao interior
do território, sabe-se apenas que são vistos com frequência grupos em fuga
quando se aproximam os helicópteros de reconhecimento da Força Multinacional.
De resto, a INTERFET não
controla o território. As colunas militares partem de Díli, em reconhecimento
ou em missão de escolta a comboios de ajuda humanitária, mas regressam à
cidade. Não se fixam nem estabelecem qualquer quadrícula para garantir a segurança no interior, o que está a
atrasar o regresso das populações refugiadas nas montanhas às cidades, vilas e
aldeias de Timor-Leste. Para mais, a INTERFET leva ao extremo rigor da letra os
termos do seu mandato e desarma de igual modo agentes das Milícias ou guerrilheiros das FALINTIL. A questão é que são estes
últimos guerrilheiros do século, mal preparados e mal armados, mas que
resistiram 24 anos à ocupação militar indonésia sem qualquer apoio externo e
sem fronteiras que lhes garantissem uma retaguarda para a sua luta, que nestes
dias de Setembro de 1999 protegem as populações que procuraram refúgio nas
montanhas de Timor-Leste.
Viajo com um pequeno grupo de
jovens aderentes das FALINTIL, a bordo de uma velha e desconjuntada camioneta
de carga, através dos cerca de 60 quilómetros para sudoeste que separam Díli de
Ermera, a cidade que resistiu até Abril de 1976 à invasão indonésia de Dezembro
de 75. Esta é a região do café de Timor, que em 1998 assegurou aos ocupantes
indonésios e seus capatazes um rendimento de 20 milhões de dólares.
As plantações, para norte de
Ermera e para sul de Liquiçá, foram totalmente queimadas. A população de cerca
de oito mil habitantes foi, na sua maior parte, deportada para Atambua e
Kupang, em Timor Ocidental. Nas ruas de Ermera, nas primeiras semanas de
Setembro, amontoaram-se dezenas de corpos que os refugiados nas montanhas
sepultaram quando começaram a descer à cidade, conta-me o comandante Gil, da 4ª
região militar das FALINTIL. Os corpos estavam já em decomposição e
parcialmente devorados pelos cães, nas ruas de Ermera.
Nesta região, e mais
particularmente na povoação de Gleno, a onda de violência não esperou sequer
pelos resultados da consulta. No próprio dia 30 de Agosto, militares comandados
por um major das TNI e agentes das Milícias
incendiaram casas de activistas do CNRT e atacaram pessoal da UNAMET.
Alguns quilómetros para Norte, em Liquiçá, a violência foi desencadeada a 3 de
Setembro, na véspera da divulgação dos resultados.
«Agora já não há Milícias. Fomos nós que corremos com eles. Mas ainda
não há tropa», diz o comandante, acrescentando que «entregar as armas não é política das FALINTIL. É de nós que depende a
segurança dos refugiados de Ermera e dos que vieram do Norte, de Liquiçá. Ao
todo são cerca de 30 mil».
A pequena e decrépita cidade do
café é um amontoado de ruínas e de miséria. Mas o comandante das FALINTIL quer
fixar as populações na região. Por isso faz a viagem de Ermera para Díli, onde
vai analisar com o CNRT e com as organizações humanitárias a criação de
condições para evitar um êxodo em larga escala que vá desertificar o interior e
agravar ainda mais os problemas da capital.
Milhares de refugiados começam a
descer das montanhas para Díli, duas semanas após a chegada da INTERFET e a
situação alimentar e sanitária é caótica. A distribuição das rações de arroz no
estádio da cidade de Díli não chega para todas as necessidades. E à margem da
multidão de regressados carentes de tudo, há também uma pequena pobreza
envergonhada que tem pudor de ir para as filas do arroz, como me disse o
professor Fernando Corte Real, descendente de uma família de nobres régulos
timorenses.
A retirada gradual dos
indonésios, além da destruição de uma parte da cidade, significa também o
completo colapso de toda a organização administrativa e económica. Em Díli não
há, entre o final de Setembro e as primeiras semanas de Outubro, abastecimentos
organizados e não há salários desde Julho. A presença de um vasto contingente
de estrangeiros – militares, elementos de organizações humanitárias e
jornalistas - inflaciona os custos dos serviços prestados, pagos em dólares
americanos ou australianos, ou em rupias indonésias, e por qualquer preço.
Nas imediações do porto de Díli
começam a surgir por essa altura pequenos mercados que, ao fim de poucos dias,
se unem numa imensa feira que se estende das ruínas do Hotel Makhota ao longo
do arame farpado da zona portuária. Os primeiros géneros vendidos são o produto
do saque a que os militares indonésios se dedicaram antes da retirada e de que
agora se desfazem. Até automóveis e mobílias se vendem na zona do porto, embora
os compradores corram o risco de deparar na cidade com o verdadeiro
proprietário. Um frango ou um quilo de duvidosa carne de porco, dois litros de
gasolina, cinco maços de cigarros ou quatro pacotes de bolachas, meio quilo de
detergente ou um quilo de margarina, cinco litros de petróleo, custam em rupias
indonésias metade do salário médio de um timorense, enquanto os timorenses
receberam salário. E no dia seguinte tudo subiu de preço. O «requinte» deste improvisado mercado de
rua é o acondicionamento das compras em sacos da lavandaria do Hotel Makhota.
Com o regresso de milhares de
refugiados a Díli, nos primeiros dias de Outubro, diminuiu a insegurança na
cidade, mas aumentaram os problemas sociais, do défice dos abastecimentos ao
aparecimento da criminalidade.
«A maior parte das pessoas não come uma refeição há três semanas»,
diz Patrice Charpentier, que dirige uma das agências humanitárias que começaram
a distribuir nos jardins da residência destruída do bispo de Díli e na igreja
de Bécora, no início de Outubro, sacos de 50 quilos de arroz, o que corresponde
às necessidades alimentares mínimas de uma família de cinco pessoas durante um
mês.
Nada está organizado para
assegurar as condições de vida em Timor-Leste, a não ser a segurança relativa,
garantida pela tropa da INTERFET, em particular pelos Gurkha Rifles, a ajuda humanitária distribuída pelas agências
internacionais e a assistência sanitária dos Médicos do Mundo, da AMI, da OIKOS
e, quase simbolicamente, da Missão Humanitária portuguesa Timor 99. Para todas
as acções, as Nações Unidas e as suas agências contam como parceiros o CNRT,
definido como «líder da comunidade local»,
e a Igreja, omnipresente em Timor-Leste, intimamente ligada ao sofrimento e à
resistência do povo timorense.
Uma Igreja militante, como a
definiu o padre timorense Hermenegildo de Deus, da diocese de Díli, ao
afirmar-me que «é difícil dizer a uma mãe
que perdeu todos os filhos que, quando se leva uma bofetada, devemos dar a
outra face». Reside certamente aqui a razão pela qual a Igreja conquistou
uma tão íntima e profunda implantação entre o povo de Timor-Leste. Em 1975, ao
cabo de 455 anos de colonização e evangelização portuguesa, os católicos não
chegavam a 30 por cento da população. No final do século, e após 24 anos de
ocupação militar javanesa, de «indonesianização»
e islamização, os católicos representam 89 por cento dos timorenses.
O padre João Felgueiras diz-me,
por sua vez, que a islamização foi um dos objectivos da ocupação militar e que
a religião católica, a par da língua portuguesa, constituiu uma das formas de
resistência à integração. «Hoje, a
religião é um dos factores de identidade e de unidade nacional em Timor-Leste»,
diz o padre Felgueiras. Acrescenta, no entanto, que a hierarquia católica
indonésia, ao contrário da Igreja timorense, sempre alinhou pelas posições da potência
ocupante. «Até agora, não tomou qualquer
posição em relação à violência sobre o povo de Timor-Leste», conclui.
Um plano militar para a destruição de Timor
Agora, do porto de Díli todos os
dias partem contingentes das TNI. Durante 24 anos consecutivos mantiveram uma
presença militar que chegou a atingir cerca de 7 por cento da população do
território e uma colonização civil que atingiu os 20 por cento, controlando a
administração, explorando o comércio e todos os recursos económicos, mantendo uma
colossal rede de usurpação das riquezas e de corrupção. Deixam Timor-Leste,
entre Setembro e Outubro de 1999, escorraçados pelo resultado esmagador da
consulta de 30 de Agosto: votaram 98,6 por cento dos 446.953 eleitores e 78,5
por cento (344.500) rejeitaram a «autonomia»
proposta por Jacarta. O sorriso arrogante, que exibiam nos primeiros dias da
intervenção da Força Multinacional, desapareceu dos rostos dos militares
javaneses agora que estão em franca minoria e que os timorenses ganharam
confiança para os apupar à partida.
O que é certo é que a INTERFET
assistiu à retirada, tomando como boas as informações prestadas pelos generais
de Jacarta quanto aos efectivos que foram deixando o território. Mas ninguém os
contou à partida, como me frevela um oficial do sector das informações da Força
Multinacional. Do interior do território, pelo contrário, chegam informações
que alguns militares das TNI se limitaram a mudar de farda, trocando o caqui
verde-azeitona dos uniformes pelas t-shirts
das Milícias. O mesmo circuito de
informações revela que foram detectados cunhetes vazios de granadas e minas
perto de localidades da fronteira.
Fontes das FALINTIL informam-me,
por outro lado, que militares indonésios e dirigentes das Milícias estão a recrutar jovens timorenses deportados para
Timor-Ocidental para novos grupos paramilitares, ficando as suas famílias,
retidas em Kupang e Atambua, como reféns da sua lealdade aos objectivos dos
generais de Jacarta. Ao mesmo tempo, e segundo as mesmas fontes, estão a ser
recrutados cidadãos indonésios, em nome do Islão, para uma «Guerra Santa» em Timor-Leste. Estas
informações chegam de deslocados timorenses em Atambua, pela rede de
comunicações criada pelas FALINTIL, que agora associa os meios mais artesanais
- que funcionaram durante os longos anos da resistência - aos telefones
satélite fornecidos, ao que me dizem, por militares portugueses.
Na INTERFET não só me confirmam
as informações sobre a reconstituição dos grupos de mercenários, como
acrescentam que se realizou recentemente em Kupang uma reunião de altas
patentes indonésias com dirigentes das Milícias,
entre os quais João Tavares e Eurico Guterres. Do encontro saiu a decisão de
constituir uma auto-denominada «Frente de
Unidade Nacional», definida como uma «frente
anti-neocolonialista», com dois objectivos precisos: a desestabilização e a
islamização de Timor-Leste. Os «infiéis»
desta Jihad seriam os cristãos
timorenses e os estrangeiros das Nações Unidas e das agências humanitárias.
Tratar-se-ia, de acordo com as
mesmas fontes, do desenvolvimento do plano dos generais javaneses para sabotar
a independência, parcialmente executado na sequência da divulgação dos
resultados da consulta ao povo timorense sobre o seu destino.
«Uma estratégia concebida e dirigida centralmente, com o objectivo de
impedir a independência de Timor-Leste, mas também com objectivos internos na
Indonésia», diz-me o major australiano Mark Tanzer, citando um relatório de
situação a que acabara de ter acesso.
«Um plano. Tudo correspondeu a um plano», diz por sua vez David
Winhurst, porta-voz da UNAMET, enunciando e relacionando a sucessão dos
acontecimentos. A criação ou activação de grupos de Milícias em Timor-Leste simultaneamente com o anúncio, em Jacarta,
da realização da consulta; o envolvimento de militares indonésios e de Milícias em acções de intimidação,
antes do referendo, e de repressão, a partir da divulgação dos resultados, de
forma planeada e coordenada em todo o território; a tentativa de eliminação das
elites timorenses e a deportação em massa para Timor-Ocidental.
Seguir-se-ia, de acordo com o
Plano dos generais indonésios, a divisão de Timor-Leste: de Díli para Oeste,
até à fronteira, e para o Sul, até ao mar, o território mais produtivo seria
atribuído aos pro-integracionistas e anexado na prática pelo Timor indonésio; o
Leste do território, devastado e despovoado, seria concedido aos
pro-independentistas. A fase derradeira do Plano, no desespero e na vingança de
todas as derrotas e humilhações, seria então a «desestabilização e islamização».
Um país a construir: Timor Lorosae
Se tudo o que aconteceu em
Timor-Leste, antes e depois da consulta, correspondeu a um Plano dos generais
de Jacarta, não é menos verdade que tudo foi possível devido a um tremendo e
trágico equívoco por parte da chamada «comunidade internacional» – ONU e
Portugal incluídos –, permitindo que a consulta decorresse sob o controlo
militar e policial do território por parte das tropas ocupantes. Ou seja:
Portugal, a «potência administrante»
de Timor-Leste, e as Nações Unidas, que reconheceram e atribuíram esse estatuto
a Portugal, entregaram à potência ocupante a fase derradeira da descolonização
de Timor-Leste.
E no entanto, em Timor-Leste,
ninguém é nestes dias de Setembro e Outubro de 1999 mais desejado e esperado
que «os portugueses».
Em Ermera, Florentino Martins
sai a medo à estrada, à aproximação do camião conduzido por jovens das
FALINTIL, acena e pergunta-me: «Português?
Vêm aí os portugueses?». No
acampamento de deslocados da zona do porto de Díli, Tomás Duarte recorre à
memória para falar da partida do governador e das tropas portuguesas para
Ataúro, em 1975, simultânea com a entrada das primeiras forças indonésias: «Nessa altura traíram-nos, abandonaram-nos».
Mas admite que na crise de Setembro de 1999 Portugal desempenhou um papel
único: «Foram os portugueses, nas ruas de
Portugal e na ONU, que nos salvaram». E está agora atento ao futuro: «Os portugueses têm obrigações para com
Timor. Estamos à espera». Nas encostas de Dare, à entrada para as montanhas
de Timor, uma mulher ensina uma criança a agradecer o chocolate oferecido por
um soldado australiano: «Diz obrigado ao
senhor». Mas o «senhor» afinal é
um «mister» e a mulher suspira: «E os portugueses? Quando chegam os
portugueses?». Em Lahane, os bombeiros portugueses limpam e restauram o
hospital. Paulo da Costa Martins, antigo funcionário da administração colonial,
observa, incrédulo e comovido, as viaturas dos bombeiros do Sardoal, de Águeda
e de Esposende e pergunta-me, timidamente: «São
da Metrópole? Vieram da Metrópole?».
Estranhos são os desígnios e os
«labirintos da saudade». Portugal
deixou Timor, em 1975, mergulhado numa guerra civil e com as tropas indonésias
a precipitarem-se para o vazio aberto pela fuga da administração colonial. Para
trás ficou um povo esquecido e um território subdesenvolvido. Os estudos para o
IV Plano de Fomento (1974/76) indicam que em Timor, em 1973, o Produto Interno
Bruto per capita era inferior a três
mil escudos / ano; que o Estado, o maior empregador do território, pagava 40
contos por ano a cada um dos dois mil funcionários públicos; que o nível
alimentar da população era «extremamente
deficiente e debilitante»; que as exportações estavam limitadas ao café e à
copra; que o sector pesqueiro estava em plena regressão e que as indústrias
extractivas eram insignificantes; que para a Timor Oil Ltd as reservas
disponíveis «não justificavam» a exploração do petróleo.
Mas querem lá saber do PIB de
1973 os timorenses de 1999, após 24 anos de ocupação indonésia. Aliás, as
contas que Portugal fez aos resultados da «indonesianização»
também não são de molde a que os javaneses tenham deixado saudades: 48 por
cento da população abaixo do limiar de pobreza; 52,8 por cento das crianças até
aos cinco anos sofrendo de má nutrição e 10 por cento dos adultos de anemia e
deficiência de vitamina A; taxa de mortalidade infantil de 57 por mil
nascimentos com vida; esperança de vida de 46,7 anos para os homens e 48,4 para
as mulheres. Tudo isto somado ao genocídio, à utilização de crianças e mulheres
como «escudos humanos» para as
operações militares de ocupação e «limpeza»,
à eliminação selectiva das elites, à esterilização de mulheres, à liquidação de
todos os factores de identidade, à discriminação e humilhação na vida social. «Quando voltam os portugueses?». Portugal
é para Timor-Leste uma referência e um mito. E acima de tudo, nestes tempos
duríssimos de transição para o povo timorense, uma imensa expectativa.
Após a assinatura do acordo para
a realização da consulta aos timorenses, Portugal traçou um Plano de Apoio a
Timor-Leste no Período de Transição, prevendo três cenários: transição pacífica
para a independência, vitória da chamada autonomia, ou interrupção do processo
definido em Nova Iorque por uma situação de «violência generalizada», hipótese contida, aliás, em relatórios de
diplomatas, alertas dramáticos da Resistência e da Igreja e notícias da
imprensa.
A realidade no terreno
ultrapassou as piores previsões e modificou todas as perspectivas traçadas e
todas as contas feitas. João Gomes Cravinho, coordenador do grupo de trabalho
que elaborou o relatório sobre o Apoio do Estado Português a Timor-Leste,
diz-me em Darwin que as prioridades foram reconsideradas. «Timor tem necessidade, pelo menos, de 12 meses de ajuda humanitária,
alimentar e para a reconstrução, o que altera todas as prioridades. Trata-se de
uma verdadeira situação de emergência», acrescenta.
Xanana Gusmão, que a poucos dias
da consulta aos timorenses anunciou um programa de política económica para a
construção de um país independente, responde-me a uma pergunta, numa
conferência de imprensa em Darwin, para dizer que os pontos essenciais do
programa se mantêm, mas as linhas de intervenção têm de ser revistas por
completo. «É o que vamos agora discutir,
no CNRT, a nova ordem das prioridades», adianta.
Nas primeiras semanas de
Outubro, a Missão da Nações Unidas para Timor-Leste / UNAMET, a INTERFET e o
CNRT constituem uma Comissão Mista destinada à administração municipal de Díli.
No final do mês, as Nações Unidas vão instalar no território uma Administração
Transnacional, através da UNTAET, para o período de transição até à proclamação
da independência. Mas, para já, esta Comissão Mista tem trabalho a fazer. David
Winhurst, o porta-voz da UNAMET, explica-me que as primeiras preocupações dizem
respeito ao estudo das complexas questões patrimoniais, num país ocupado e
saqueado ao longo de um quarto de século. E de imediato, haverá que inventariar
e impedir o saque dos edifícios da cidade.
O Palácio do Governo, por
exemplo, passou intacto das mãos dos indonésios para a Força Multinacional. Mas
já depois de arreada a bandeira vermelha e branca da Indonésia, o edifício foi
devassado e saqueado e, por estes dias, era frequente ver nas ruas de Díli as
mobílias do Palácio, empilhadas em carripanas ou equilibradas em motoretas, em
mudanças para casas semi-destruídas dos bairros da cidade.
No sótão do Palácio, escuro e
sufocante, jazia a memória da administração colonial portuguesa e da ocupação
militar indonésia de Timor, um património documental insubstituível a caminho
do irremediável esquecimento e da destruição. Amassados na poeira dos tempos e
espezinhados pelas botas das tropas ocupantes antes de baterem em retirada,
estavam ali cinco séculos de história - colonização e descolonização, ocupação
e libertação, dos tempos do sândalo e das especiarias à época do petróleo -, o
passado de um povo que agora começa a construir o futuro.
Timor é uma ilha rodeada de dor
por todos os lados, neste final do século XX. A derradeira imagem que conservo,
antes de deixar Díli, é a de crianças do bairro de Comoro, que perderam toda a
família na onda de violência dos primeiros dias de Setembro de 1999. Acolhidas
pelas Irmãs Carmelitas, as crianças de Comoro têm no passado das suas vidas
breves um pesadelo terrível. Como futuro têm as palavras de uma canção que fala
do sofrimento de um país de montanhas rodeado de mar, um país a construir,
Timor Lorosae.
Insegurança à prova de bomba…
Em Setembro de 1999, Díli era
uma cidade deserta patrulhada por tropas da força internacional de interposição
constituída pelas Nações Unidas. A população timorense refugiara-se nas
montanhas e na cidade os jornalistas abancavam onde podiam, numa cidade arrasada,
por entre destroços fumegantes.
Eu tivera a sorte de ser
acolhido por um grupo de jornalistas que ocupara a casa, abandonada, do padre
da Clínica de Motael (na foto). Um luxo, com um fio de água que dava para encher meia
banheira desde manhã até ao fim do dia, suficiente para uma rodada de duches de
púcaro, e com electricidade. A questão é que a casa era vizinha do bairro
ocupado pelos oficiais indonésios e, por esse motivo, a barbárie das Milícias não chegara ali. E lá
estávamos, o Jorge Araújo e a Ana Baião (Independente),
o Luciano Alvarez e o João Pedro Henriques (Público),
o Mário Ramires (Expresso), o Leonel
de Castro (Jornal de Notícias) e eu
próprio (Diário Económico).
Durante o dia, cada um
desenrascava-se como podia. Muitos dias me alimentei de um prato de arroz
cozido, dado generosamente pela Irmã Margarida. À noite, com o recolher
obrigatório a partir das 18 horas locais, depois de enviarmos os trabalhos para
Lisboa, o Jorge Araújo disfarçava o «arroz
nosso de cada dia» com um leve refogado, uma conserva, uns legumes. Ele
partira um ou dois dias antes para Díli e pedira-me, pelo telefone-satélite,
que lhe levasse de Darwin uma garrafa de azeite. O mais parecido que encontrei
foi um spray de azeite. Mas os
jantares eram o único momento de descontracção e confraternização e com
frequência tínhamos convidados. Para além do jantar, os convivas desfrutar da
atracção da casa: um gigantesco crocodilo, que habitava um enorme tanque de
águas turvas. Para as tropas da INTERFET, o crocodilo de Motael era mesmo o
circo de Díli.
A casa era de uma insegurança á
prova de bala ou de bomba numa das cidades mais perigosas do Mundo naqueles
dias. De maneira que, cada dia, um de nós ficava a montar vigilância à casa,
aos computadores e outro equipamento. Quer dizer: se a casa fosse atacada, o
jornalista de sentinela era o primeiro a marchar, pois de maneira alguma
poderia resistir.
Uma manhã, estava eu de
sentinela, apresentou-se diante da bela varanda colonial da casa de Motael um
indivíduo, falando razoavelmente português e que se disse na posse de valiosas
informações sobre o paradeiro dos chefes das milícias que tinham escapado.
Dispus-me a ouvi-lo mas o homem insistiu que seria preferível entrarmos em casa
pois temia ser visto a falar com um jornalista português. Convidei-o a entrar e
duas coisas não me passaram minimamente pela cabeça naquele momento: nem que o
indivíduo era um aitarak dos que dias
antes mutilaram e assassinaram um jornalista do Financial Times no bairro de Bécora, ali mesmo, em Dili; nem que o
indivíduo apenas queria afastar-me de onde eu pudesse avistar o portão da casa.
Como vim a saber, tratava-se da segunda hipótese.
As alegadas informações eram uma
confusão, que repisava o que toda a gente sabia: que os dirigentes das Milícias, com as costas quentes pelos
militares javaneses, andariam pelo bairro de Bécora, onde nem a tropa
multinacional entrava à vontade. E disse. E dito, foi-se. Quando voltei à
varanda vi que o portão de ferro da casa tinha ficado aberto. E só não o fui
fechar porque um dos jornalistas residentes, o Leonel de Castro, repórter
fotográfico do JN, vinha a entrar
para recolher uma recarga de rolos fotográficos. Vinha com pressa pelo que
trocámos breves palavras e ele voltou a sair, correndo o pesado portão de
ferro. Foi então que uma explosão ecoou nos ares. Enquanto eu estivera dentro
de casa, retido a ouvir uma conversa que não levou a nada, alguém
armadilhara com explosivos o portão da casa dos jornalistas…
Não houve vítimas. E pouco
depois, tropas da INTERFET analisaram os vestígios da armadilha montada no
portão da casa e não tiveram dúvidas: era material militar indonésio.
Timor-Leste, Setembro / Outubro 1999
Texto e fotos
de João Paulo Guerra
Condensado
de reportagens para o Diário Económico,
Setembro e Outubro 1999
Texto e fotos
de João Paulo Guerra
Condensado
de reportagens para o Diário Económico,
Setembro e Outubro 1999







2 comentários:
João Paulo Guerra,
Só hoje li este(s) texto(s). Maravilhoso trabalho jornalístico e magnífica sensibilidade na análise! Espero que tenhas tido oportunidade de voltar a Timor. Uma emoção que nem imagino. Como diz, meio no gozo um colega teu, continuam as obras e "qualquer dia isto não tem piadinha nenhuma". O poço da morte da casa dos Carrascalão foi tapado para não se tornar lugar de peregrinação e a casa é hoje o mais importante centro cultural de Díli: a Fundação Oriente; com um orçamento ínfimo a Graça vai renovando atividades semanalmente. A embaixada parece que também não tem cheta; mas não tem alma, o que é bem pior... Como anciã branca, passo o dia a fugir de timorenses que não se contentam com uma retribuição sorridente ao seu "bôtardi" e me querem beijar a mão. Ao contrário da Díli deserta que descreveste, o primeiro "choque" são as crianças: milhares e milhares e milhares... Com fardas identificativas das escolas, que são uma beleza, nada daquelas coisas que nós tivemos durante o fascismo. E perguntas-te: se continua a ser tão deficiente o abastecimento de água, como conseguem estar sempre tão aprumados, tão limpinhos, numa terra onde a diferença de temperatura do dia para a noite tem dias de ser insignificante, um bafo peganhento que não vê vento nem refresco à beira mar? (Por falar em beira-mar: vi hoje o meu primeiro crocodilo de água salgada, mesmo em frente do Palácio, agora do Governo. Parecia um adereço de filme rasca, com uma cauda de escamas largas amarelo limão-maduro e manchas escuras. Naquele sítio em que agora se acede aos barcos para Ataúro e Oe-Cusse, onde as crianças brincam nuas na água... O National Geographic está cheio de cenas arrepiantes de bichos como este - que era relativamente pequeno, com cerca de 2 metros e meio - que, num piscar de olhos levavam umas dezenas de timorenses para dentro de água, para se banquetear, tão perto lhe estavam das mandíbulas. Mas nada: é mesmo um país de brandos contrastes. Agora, querem turismo, com estes espécimes completamente descontrolados?!? Toda a costa tem avisos amarelos a dizer que há crocodilos no mar. É verdade: em um ano e meio, nunca tinha visto nenhum. E se fosse um encontro dentro de água, comigo a flutuar por cima do mais belo recife de coral do mundo, o sítio onde morrer tranquilo seria acabar literalmente em beleza e em paz com o mundo?...)
Podia continuar, mas prefiro que seja um dia que voltes a Díli - porque Timor te merece! Senão, havemos de nos ver no Alentejo, na Boa Fé. Abraço grande Ana Cardoso Pires
Não voltei a Timor e dificilmente voltarei, pois não vejo nenhum jornal, rádio ou tv que me envie ali à esquina quanto mais ao outro lado do mundo.
Mas o reencontro em Freguises ou na Boa-Fé fica combinado.
João Paulo Guerra
Enviar um comentário