segunda-feira, 22 de agosto de 2016

ANGOLA: Nos intervalos de uma reportagem de guerra


Crónicas à margem de uma reportagem na guerra em Angola

Por João Paulo Guerra, suplemento de O Diário, Junho de 1985


Kuilo-Kuango 1985
Na última semana de Abril [1985], saímos da cidade do Lubango a caminho da fronteira no Cunene, iniciando a viagem a bordo de um helicóptero Mig 15 que transportava, para além de dois jornalistas, um bidão atestado com 500 litros de gasolina. Indesejável companhia. Voávamos para sul da Cahama, Môngua e Xangongo, tínhamos passado os cenários de terríveis batalhas entre as tropas cubano-angolanas e as sul-africanas, seguíamos com destino ao que restava de Onjiva, onde talvez apanhássemos um camião para Namacunde e depois seria a pé, dali até à fronteira, em Ochikango, seguindo o trilho por entre campos de minas.


Éramos dois jornalistas, um angolano e um português. Quem me acompanhava era o David Mestre, jornalista da Angop e poeta. David Mestre era o pseudónimo de um homem de uma coerência à prova da maior coragem e despojamento, que trocara um sonante apelido português pela condição de cidadão de Angola. Para além disso era um grande companheiro de viagem. Tínhamos desenrascado boleia a bordo de um transporte militar para chegar à fronteira com a Namíbia, onde queríamos verificar se os sul-africanos, como diziam, se tinham retirado do território de Angola. E a verdade é que não tinham, ao contrário do que anunciaram ao mundo. O grosso das tropas sul-africanas estava, à vista, do outro lado da fronteira de Angola com a Namíbia, ocupada ilegalmente pelos sul-africanos. Mas havia destacamentos de tropas sul-africanas nas barragens de Ruacaná e Calueque, 12 km para o interior da linha de fronteira.
Desta vez percorri Angola, verdadeiramente de Cabinda ao Cunene, como reza a palavra de ordem do Governo do MPLA, sempre a desenrascar boleias aéreas. Não sei se o momento mais dramático de toda esta digressão aérea foi o risco do voo de helicóptero com 500 litros de gasolina a bordo sobre cenários de um país em guerra; se foi a tempestade que apanhou o voo nocturno do Lubango para Luanda, com o avião aos tombos, carga a rolar pela cabina, adultos aos gritos, crianças a chorar; se foi o voo numa serena manhã de Abril de Luanda para Kuilo Kuango, um lugar que não vem nos mapas, localizado no Nordeste da província do Uige, na linha de fronteira com o Zaire, e nos tempos da guerra colonial uma base inexpugnável da FNLA. Admito que o momento mais perigoso tenha sido este.
Viajámos então a bordo de um helicóptero com tripulação soviética, à boleia do ministro da Segurança, Dino Matross, e a viagem, que nos disseram que duraria menos de uma hora, já ia em hora e meia quando, subitamente, a inquietação se instalou a bordo. Era apenas isto: os pilotos soviéticos tinham-se perdido e pelo tempo e a direcção do voo estaríamos nesse momento violando em profundidade o espaço aéreo do Zaire. Ora um helicóptero tripulado por soviéticos, transportando um ministro angolano, em violação flagrante do espaço aéreo do Zaire seria belo pretexto para Mobutu Sese Seko, sempre à procura de motivos para manter-se em guerra com Angola. Em pleno conflito bipolar, éramos passageiros de um transporte aéreo do Leste, aliado de Luanda, a violar o espaço aéreo de um protegido pelo Oeste, armado com mísseis terrar-ar Stinger capazes de abater o helicóptero…
À minha pequeníssima dimensão, foi o que de mais parecido vivi com a crise dos mísseis…

Ochikango, a última fronteira
Beber no Lubango

Ao contrário de Luanda, onde neste ano de 1985 não é possível sair de casa e comprar uma garrafa ou beber um copo de água em nenhum estabelecimento, no Lubango há cervejarias abertas e até uma fábrica de cervejas que, como quase tudo no Sul de Angola, pertence a Venâncio Guimarães Sobrinho, o sogro do empresário português Cardoso e Cunha.
Propus-me fazer uma reportagem na Fábrica da Cerveja Ngola e lá fui, ao volante de um jipe que tínhamos desenrascado, até à Fábrica, nos subúrbios do Lubango. Falei com os directores e com trabalhadores da Fábrica, observei o processo de produção, provei a cerveja gelada que pinga no termo da linha da filtragem e preparava-me para me vir embora quando o director me perguntou:
«Como veio até cá?»
Respondi-lhe que tinha um jipe à porta e ele retorquiu:
«Ponha-o cá dentro».
Assim fiz e o director deu ordem para carregarem 300 garrafas de cerveja no jipe. Não sei se isto pode ser considerado um suborno, mas garanto que a gentileza, que é um uso da terra de Angola, nestes tempos, em nada se intrometeu com a reportagem.
Voltei ao Hotel mas sabia que não podia deixar o jipe nem um minuto, sob pena de ficar sem uma única garrafa. Buzinei, veio o porteiro e pedi-lhe para mandar chamar o David Mestre que estava a dormir a sesta no quarto número tal. Chegou ensonado mas despertou num ápice quando lhe disse que tinha 300 garrafas de cerveja a bordo.
«Vamos beber para casa do Zé Pequeno», alvitrou.
E lá iniciámos a marcha. Acontece que o David conhecia mesmo toda a gente no Lubango, onde tinha sido correspondente da Angop, e pelo caminho cumprimentava os amigos com um convite:
«Temos 300 cervejas e vamos para casa do Zé Pequeno».
Cada um que se juntava á caravana chamava, por sua vez, outros amigos.
«Temos 300 cervejas e vamos para casa do Zé Pequeno».
Chegámos a casa do Zé Pequeno com uma multidão a seguir o jipe em passo de corrida. Não cabíamos todos em casa do Zé Pequeno e as 300 cervejas não davam grande coisa a dividir por tanta gente.
Dias depois, fui com o David Mestre a outra unidade de produção a laborar na cidade, neste caso uma fábrica de destilados. Nunca mais vamos esquecer a declinação da linha de produção da fábrica, que vai dos fermentados caseiros filtrados em capim, aos destilados industriais:


Rum, Blunga, Macau, Gorgorinho, Bichoacho e Aguardente Tempestade.

Passámos a usar entre nós, como senha e contra-senha, esta ordem crescente na sucessão das bebidas explosivas do Lubango. Dizia-se que à Aguardente Tempestade bastava tirar a rolha para cair para o lado.
Mas foi o que nos valeu, foi a garrafa de aguardente que nos ofereceram como recordação na fábrica de destilados do Lubango, quando no regresso muito turbulento para Luanda, num voo nocturno, o avião foi apanhado por uma tremenda e verdadeira tempestade. Sinceramente, toda a gente a bordo estava a admitir que não chegaria a Luanda. Era pois a derradeira ocasião para abrir a garrafa. Abrimos, bebemos, e os tripulantes não entendiam por que razão se ria tanto um par de jornalistas brancos mesmo quando o avião estava em vias de se despenhar.
Avião? Mas qual avião? Naquela noite, do Lubango para Luanda, nós viajámos transportados nas asas da Tempestade

Noites do Lubango

Numa das noites no Lubango, durante o périplo por Angola, na companhia do jornalista angolano David Mestre, fomos despejados do Hotel, pois tínhamos excedido o prazo da nossa marcação e havia outros hóspedes a chegar. Mudámo-nos então para uma pensão de um brasileiro.
Não havia de ser nada. Na primeira noite no Lubango, ainda sem marcação no Hotel, ficámos numa casa da juventude, onde costumam hospedar-se equipas desportivas que visitam a cidade. As casas de banho não têm luz e o chão apresenta uma consistência viscosa, dormimos em tarimbas, cobertos por mantas encardidas, e de manhã eu acordei sentindo qualquer coisa a passear por cima da minha manta. Pareceu-me ser uma galinha mas não me atrevi a olhar e decidi pedir o parecer do David. Chamei-o e quando consegui que ele respondesse perguntei:
«David: anda alguma galinha a passear em cima da minha manta?».
Ele abriu um olho, olhou e respondeu:
«Anda».
E virou-se para o outro lado.
Ondjiva
Quanto à primeira dormida na pensão do brasileiro recolhemos tarde, depois de muito trabalho e de muita conversa em casa de amigos do David. Acordei estremunhado, manhã cedo, com alguém a bater insistentemente à porta do quarto. E como estava num país estrangeiro achei melhor que fosse o angolano a ver quem era. Chamei por ele, insisti, até que o David acordou e foi abrir. Eram sete da manhã e quem batia à porta do quarto eram umas miúdas. Na pensão do brasileiro estava hospedado um cantor angolano de intervenção muito em voga, que cantava grandes arrazoados políticos e usava o sugestivo nome artístico de Proletário.
David Mestre
(1948 - 1998)
E perguntaram as miúdas que batiam à porta do nosso quarto:
«É aqui que está o Proletário?».
E o David Mestre, impassível, sonolento mas de resposta imediata:
«Não. Aqui só está a pequena burguesia».


Por João Paulo Guerra, suplemento de O Diário, Junho de 1985

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