terça-feira, 22 de novembro de 2016

«O arcebispo de Braga absolveu-nos»

Sanches Osório,
 ex-major do MFA 
ex-dirigente  MDLP


Entrevista de João Paulo Guerra / Abril 1999

José Eduardo de Sanches Osório era major de Engenharia em 1974 e fez parte do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, no quartel da Pontinha, na madrugada de 25 de Abril. De formação monárquica e católica e pertencendo à casta dos oficiais do Corpo de Estado-Maior, Sanches Osório aderiu ao Movimento dos Capitães em 1973 para derrubar Marcelo Caetano. Ministro da Comunicação Social no II Governo Provisório, o primeiro de Vasco Gonçalves, entrou em ruptura com a revolução por alturas do 28 de Setembro. E na sequência do 11 de Março foi expulso do Exército e deixou o país clandestinamente para fugir a um mandado de captura. No exílio participou na fundação do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), liderado por Spínola e chefiado por Alpoim Calvão. Desempenhou funções de embaixador itinerante da contrarrevolução, mas diz que não levava a sério o plano do general para invadir Portugal e reconquistar o poder.



Posto de Comando na Pontinha,
de 24 para 25 de Abril
Foi como dirigente do MDLP que participou na montagem de uma armadilha ao arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva, destinada a virar a hierarquia da Igreja contra o chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC). A armadilha funcionou, o arcebispado transformou-se no centro aglutinador da contestação ao PREC e os arcanjos de D. Francisco no braço armado da contrarrevolução.

À data desta entrevista (Abril de 1999) exercia a advocacia e defendia com firmeza o 25 de Abril. O seu emblema era o cravo vermelho e o seu hino a «Grândola, Vila Morena».

Diário Económico - Onde estava de 24 para 25 de Abril de 1974?
Sanches Osório - Dia 24, à noite, fui para o quartel da Pontinha, o Posto de Comando do Movimento. Estive toda a noite a acompanhar as operações e a passar a stencil o Programa, para posteriormente ser distribuído.
DE - Estava no Movimento desde quando?
S.O. - Estava desde 73, ainda o motor do Movimento eram os decretos sobre as promoções...
DE - ... que já não o abrangiam. Já era oficial superior...
S.O. - Não, não me abrangiam. Fui aliciado para o Movimento pelo então major, hoje brigadeiro,  Mariz Fernandes, porque, dizia ele, eram precisos oficiais de patente superior. Tempos mais tarde, convidei por minha vez o então major Vitor Alves e, mais tarde ainda, o então tenente-coronel Franco Charais.
28 de Setembro 1974: Sanches Osório,
à direita, entre Spínola e Galvão de Melo
DE - O seu envolvimento não foi pela questão corporativa, mas por uma questão política?
S.O. - O meu envolvimento procurou sempre ser político. Na reunião que houve em casa do coronel Marcelino Marques declarei expressamente que sendo os militares responsáveis pelo 28 de Maio e sustentáculo da ditadura, não era nosso papel fazer qualquer reivindicação sindical mas, muito simplesmente, fazermos uma revolução e  derrubarmos o governo.
DE - O consenso que se estabeleceu entre os militares que fizeram o 25 de Abril, para derrubar o Governo, por onde é que veio a quebrar-se?
S.O. - Para derrubar o governo, estávamos todos de acordo. Mas não estávamos quanto à execução do Programa e às questões partidárias.
DE - Questões partidárias quer dizer o quê? Questões quanto ao Partido Comunista?
S.O. - Quem arranjou a primeira sede para o Partido Comunista, na rua António Serpa, fui eu. Isto para que fique perfeitamente claro que eu não tenho nenhum preconceito anticomunista e que a colocação que me quiseram fazer na extrema-direita era porque as pessoas não ouviam, ou não entediam, o que eu dizia.
DE - No 28 de Setembro era ministro da comunicação social e leu aos microfones da Emissora um comunicado a apelar ao levantamento das barricadas que cercavam os acessos a Lisboa. Qual era a origem desse comunicado?
S.O. - O comunicado era assinado pelo coronel Vasco Gonçalves mas fora redigido pelo general Costa Gomes.
DE - Mas era um comunicado ambíguo que funcionava a favor de Spínola e contra o MFA...
S.O. - Era uma tentativa de pôr um pouco de água na fervura.
DE - As pessoas não seguiram o conselho do comunicado, não levantaram as barricadas e a manifestação da «maioria silenciosa», em apoio de Spínola, foi desconvocada. Estava de acordo com a manifestação?
S.O. - Pessoalmente não estava de acordo. Eu não era spinolista, era ministro por escolha do Movimento. Mas no Ministério era alvo de contestação por parte da extrema-esquerda, dirigida por funcionários conservadores da ex-Secretaria de Estado da Informação e Turismo, como o Mega Ferreira. Essa contestação chegou ao ponto de um jornalista se recusar a participar numa reunião comigo dizendo que não se sentava à mesa com fascistas. O fascista era eu e o jornalista era o Vitor Direito.
DE - Recusa a conotação com a direita mas, quando saiu do governo, foi secretário-geral do PDC...
S.O. - Eu participei num comício do PDC, que acabou à tareia, onde eu disse que era de direita. E toda a gente me apedrejou porque a moda era ser de esquerda.
DE - E o PDC era de esquerda?
S.O. - A democracia cristã, do ponto de vista social, é de esquerda.
DE - Isso explica um comunicado do PDC, no 11 de Março, afirmando-se ao lado do Governo, do «gonçalvismo» digamos assim, e declarando que não sabia do paradeiro do seu secretário-geral. De si, portanto...
S.O. - Eu tinha-me comprometido com o general Spínola a acompanhá-lo se ele tivesse que sair do país. Tinha mantido contactos com o general Spínola e perante o insucesso do 11 de Março cumpri a minha palavra.
DE - Mas não saiu com o general, de helicóptero, para Espanha. Saiu de outra forma, um pouco acidentada...
S.O. - ... não foi nada acidentada. Saí a pé pela fronteira, em Alfaiates, na Beira e apanhei um comboio para Madrid. Fui da Golegã, onde estava, para Fátima, no meu carro. Depois, no carro do cónego Galamba de Oliveira, fui para S. Romão, Seia e Alfaiates.
DE - E considerava-se na clandestinidade?
S.O. - Estava na clandestinidade. Tinha sido expulso do Exército a 13 de Março e era procurado como criminoso. Segui para Madrid, depois para Paris e para o Rio de Janeiro.
DE - Onde participou na fundação do MDLP...
S.O. - Encontrei-me com o general Spínola no Rio de Janeiro e participei na fundação do MDLP. Depois regressei a Paris, onde era o meu posto de combate.
DE - Qual era o combate?
S.O. - Contra a conquista do poder pelo Partido Comunista.
DE - E que funções tinha nesse combate?
S.O. - Era representante do general Spínola na Europa.
DE - No MDLP, a certa altura, houve certa confusão entre política e negócios. Vendas de armas, o roubo das joias na igreja de Guimarães...
S.O. - ...não sei, não faço a menor ideia, não tenho nada com isso, nem quero saber. Eu só discutia com o general Spínola as minhas missões de contacto com governos estrangeiros, especialmente com o francês. Encontrei-me duas vezes, em Paris, com o general Spínola.
DE - E o general encontrou-se com quem?
S.O. - Com o conde de Marenches, que era o chefe dos serviços de informações franceses.
DE - Os serviços secretos franceses apoiavam os planos do MDLP?
Com Otelo, Garcia dos Santos e Vítor Crespo:
o 25 de Abril como efeméride
S.O. - A partir do encontro com o general Spínola deixaram de apoiar. O plano do general Spínola era completamente megalómano. Não lho vou descrever, mas tratava-se de uma invasão clássica  do território nacional com apoio americano e francês. Era alguma coisa de delirante.
DE - Em Paris que actividade desenvolvia?
S.O. - Fazia a contra-revolução e sobrava-me tempo. De maneira que estudava e comecei a fazer o meu curso de Direito.
DE - Acompanhava a situação em Portugal?
S.O. - Sim. Tinha contactos frequentes com o tenente-coronel Vitor Alves.
DE - Na qualidade de dirigente do MDLP?
S.O. - Sim. Eram contactos de solidariedade entre pessoas que fizeram o 25 de Abril e não queriam cair num novo sistema ditatorial.
DE - Veio alguma vez a Portugal nesse tempo, clandestinamente?
S.O. -  Vim uma vez, ao Norte, fazer uma visita.
DE - Encontrou-se com quem?
S.O. - Com ninguém em especial.
DE - E como é que encontrou o país?
S.O. - Estava uma respeitável confusão.
DE - Veio encontrar-se com o arcebispo de Braga, com o cónego Melo, participar na manifestação em Braga?
S.O. - Não lhe vou dizer. Mas quanto à manifestação de Braga, participei, de alguma maneira. Isso posso-lhe dizer. Eu e determinadas pessoas fizemos uma denúncia falsa ao COPCON, dizendo que o arcebispo de Braga, que ía participar num congresso eucarístico em S. Paulo, levava divisas de contrabando. De maneira que o arcebispo foi retido e revistado pelo COPCON no aeroporto da Portela. A denúncia falsa foi nossa, para lhe provocar a reacção que ele veio a ter, que foi convocar a manifestação de Braga. Depois explicámos-lhe o assunto e pedimos-lhe desculpa. E o arcebispo de Braga absolveu-nos.
DE - Isso é o género de «operação» do engenheiro Jorge Jardim?
S.O. - Foi, foi de facto do engenheiro Jorge Jardim, uma personalidade notável.
DE - Jorge Jardim também era dirigente do MDLP?
S.O. - Não. Era um free-lancer.
DE - E como é que essa denúncia falsa chegou ao COPCON?
S.O. - O engenheiro Jorge Jardim tinha contactos frequentes com o major Otelo Saraiva de Carvalho.
DE - E no 25 de Novembro...
S.O. - ...no 25 de Novembro entendi que as coisas iam entrar nos eixos e que a actividade do MDLP deveria cessar.
DE - Quando é que voltou a Portugal?
S.O. - No dia 3 de Março de 1976. Fui preso para Caxias a fim de me fazerem o processo que não fizeram em 1975 quando me expulsaram do Exército. Estive uma semana em Caxias e o processo foi arquivado.
DE - E, apesar de tudo isto, em cada comemoração do 25 de Abril, lá aparece de cravo ao peito...
S.O. - O cravo mantém-se como um símbolo. Normalmente tenho cravos em casa e, por disposição testamentária, quando morrer quero ser sepultado ao som da «Grândola, Vila Morena».

J.P.G. 

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