sexta-feira, 10 de abril de 2015

Gládio actuou em Portugal

Por João Paulo Guerra, 
O Jornal, 16 de Novembro de 1990

A rede clandestina montada no seio da NATO e financiada pela CIA, cuja existência foi recentemente revelada no Parlamento italiano por Giullio Andreotti, teve um ramo em Portugal nos anos 60 e 70. Chamava-se “Aginter Press” e esteve associada ao assassínio de Eduardo Mondlane e, possivelmente, ao de Humberto Delgado.



         Um antigo chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas disse a “O Jornal” que qualquer ramificação da rede “Gládio”, a ter operado em Portugal o fez à margem da orgânica e da linha de comando das estruturas militares da NATO. O mesmo oficial admitiu, no entanto, que existiram e operaram em Portugal e nas colónias estruturas de informações e de operações paralelas, cujo financiamento e comando escapava às Forças Armadas, mas dependia dos Ministérios da Defesa, do Ultramar e do Interior e mantinha ligações directas com a PIDE e a Legião Portuguesa.
         Tal era o caso dos serviços de operações e de informações comandados por Jorge Jardim, um grande empresário radicado em Moçambique que também se dedicou a actividades de espionagem. Segundo a nossa fonte, tais serviços eram financiados secretamente pelos ministérios da Defesa e do Ultramar, com fundos orçamentais de origem desconhecida. Tais fundos eram utilizados por Jorge Jardim em operações realizadas em Portugal, Moçambique e outros países, sem qualquer controlo ou enquadramento da cadeia de comando militar.
         Com tais fundos, Jardim montou em Moçambique uma estrutura de informações e milícias operacionais e financiou dispendiosas operações de propaganda. Foi o caso da deslocação a Moçambique de um propagandista francês, Dominique de Roux, que nos termos da visita publicou um livro intitulado “Ne traversez pas le Zambeze”.
         De Roux, de nacionalidade francesa, trabalhava para os serviços secretos italianos e participara na fundação e direcção de organizações clandestinas de extrema-direita. Em Itália firam referenciadas as suas ligações com Guido Giannetti, acusado de envolvimento num atentado terrorista cometido em Milão, em Maio de 1973, e com a organização extremista “Rosa dos Ventos”, que agora aparece a público como uma das malhas da rede “Gládio”.
         Em relação a Portugal, país que visitava regularmente, Dominique de Roux mantinha relações particulares, para além de Jardim, com o agente secreto francês que fazia de oficial de ligação com a PIDE, Pierre la Gaillarde, com Yves-Guerin Sérac, antigo oficial da OAS que dirigia em Lisboa a “Aginter Pressa”, com Pierre Leroussel, redactor da Aginter e do programa “A Voz do Ocidente”, da então Emissora Nacional.

Forças da Marinha na sede a PIDE
         “A Voz do Ocidente”
Militares e civis que participaram na extinção da PIDE e da Legião Portuguesa disseram a “O Jornal” que a “Aginter Press” era «um centro de relações e de operações internacionais de extrema-direita” que operava em Lisboa sob a capa de agência de notícias. A agência criou em Lisboa o embrião de uma associação política denominada “Ordem e Tradição” e era o principal fornecedor de textos de propaganda para o programa “A Voz do Ocidente”, da EN. Mantinha também relações funcionais com a RARET, um retransmissor dedicado à propaganda para o Leste europeu.
Os escritórios da “Aginter Press”, ocupados por militares da Armada em 22 de Maio de3 1974, estavam desertos. A documentação apreendida permitiu aos militares e à Comissão de Extinção da PIDE e da Legião definir os contornos, actividades e ligações da organização. Segundo militares que trabalharam na coordenação da Comissão de Extinção da PIDE e LP, a “Aginter” mantinha contactos nos Ministérios da Defesa e dos Negócios Estrangeiros e com sectores políticos da ultra-direita associados em torno dos jornais “Agora” e “Vanguarda”. Ligada a organizações internacionais como a “Rosa dos Ventos” e a “Paladine” e comandando a “Organização de Acção contra o Comunismo Internacional”, a “Aginter” tinha também contratos firmados com a PIDE para a execução de acções de espionagem e de operações especiais.
Segundo Frederic Laurent e Nicolle Sutton, autores do livro “Dirty Wok: The CIA in África”, a “Aginter” esteve envolvida, em Fevereiro de 1969, no assassínio de Eduardo Mondlane, então presidente da FRELIMO. Citando um relatório dos serviços secretos italianos, os autores dizem que a “Aginter Press” tinha infiltrado um pseudo-jornalista e pseudo-maoista no quartel-general da FRELIMO em Dar-es-Salaam que participou na conspiração para eliminar a líder da Frente de Libertação de Moçambique. Como operacional, interveio na conspiração Casimiro Monteiro, chefe de brigada da PIDE. Quatro anos antes, Monteiro tinha participado numa outra conspiração, a «Operação Outono», e mais tarde um tribunal português veio a dar como provado que Casimiro Monteiro tinha saído o autor material da morte do general Humberto Delgado.

Rua das Praças, 13: sede da Aginter
O “Agente X”
O cerco a Humberto Delgado, que veio a culminar coim o seu assassínio em Fevereiro de 1965, foi montado pela PIDE com recurso a agentes e meios estabelecidos no estrangeiro, particularmente na cidade de Roma. Tudo começou em 17 de Julho de 1962 com uma carta datada de Roma e dirigida ao ministro do Interior denunciando os propósitos do general para uma acção revolucionária em Portugal. Segundo antigos membros da Comissão de Extinção da PIDE que estudaram os dossiers da “Operação Outono”, a carta foi escrita por Ernesto Maria Bisogno, um médico italiano que tinha travado conhecimento com Delgado na capital italiana. O Ministério português do Interior acionou as suas ligações em Roma para averiguar da veracidade da denúncia e tirar partido da relação entre Bisogno e Delgado.
Local da morte e sepultura do corpo de Delgado
É aqui que entra em cena uma figura misteriosa, identificada nos diversos dossiers apenas como “Agente X”. Em Dezembro de 1962, o “Agente X” tirou as suas primeiras conclusões dos contactos estabelecidos e das informações recolhidas e apresentou propostas de acção: «neutralizar Delgado”, oferecendo-lhe a «possibilidade de regressar a Portugal» ou, não sendo possível esta solução, «atraí-lo a local conveniente e assassina-lo».
Pela análise dos dossiers, investigadores da Comissão de Extinção concluíram que o “Agente X” era estrangeiro, provavelmente italiano, viajava com frequência entre Roma, Paris, Madrid e Lisboa, estava relacionado com diversos serviços secretos e com meios políticos de extrema-direita, tinha montado e financiava em Itália uma verdadeira rede de espionagem e de diversão política, conhecia a realidade política portuguesa, tinha contactos de alto nível em Lisboa e exercia influência junto da RARET e de meios da rádio do Estado.
Alguns investigadores contactados por “O Jornal” consideraram que o perfil do “Agente X” correspondia aos dos operacionais da “Aginter Press”, o que foi sustentado pelo único lapso que o “Agente” cometeu quanto ao encobrimento da sua verdadeira identidade: num dos relatórios, acrescentou à assinatura de “Agente X” a referência “Voz do Ocidente”, designação do programa de propaganda que a “Aginter” mantinha na Emissora Nacional. 
De acordo com as mesmas fontes, a pista da “Aginter” e dos seus agentes perdeu-se com o desvio do respectivo processo, quando o dossier “Aginter Press” veio a ser subtraído à Comissão de Extinção da PIDE e LP, transitando para a 2ª Divisão do Estado-Maior General. 
As notícias recentes sobre a rede “Gládio”, desencadeadas pela denúncia de Giullio Andreotti no Parlamento italiano, o facto de existir uma malha comum, a organização “Rosa dos Ventos”, entre a rede montada clandestinamente no seio da NATO a partir de Itália e a “Aginter Press” que funcionou em Portugal, fez soar de novo as campainhas.
João Paulo Guerra, semanário O Jornal, 16 de Novembro de 1990.
Este artigo teve sequência nos seguintes:
«Gládio em Portugal tinha punho italiano», 7.12.90;
«Nuno Álvares deu nome à Gládio», 4.01.1991;
«Legião trabalhava na rede», 15.02.91;
«Gládio: Uma lança em África», 19.04.91.
As reportagens em O Jornal, entre Novembro de 1990 e Abril de 1991, identificaram alguns dos ramos e agentes da “Gládio” em Portugal, particularmente a Aginter Press, fundada e operada pelo grupo do ex-capitão e desertor francês Yves Guillou / Guérin Sérac, a possível ligação da Aginter aos assassínios do general Humberto Delgado e de Eduardo Mondlane, ex-presidente da FRELIMO, e a outras conspirações, atentados e redes terroristas internacionais, nomeadamente ao terrorismo em Itália e também em outros países da Europa e em África.
A série de reportagens do autor no semanário “O Jornal” constitui a principal fonte relativa a Portugal da obra “OTAN’s Secret Armies. Operation Gladio and Terrorism in Western Europe”. de Daniele Ganser, edição Frank Cass, Londres, 2005.
O livro “A contra-revolução no 25 de Abril”, centrado na actividade do “ELP” e da “Aginter Press”, de Maria José Tíscar, edições Colibri, cita igualmente entre as suas fontes, o artigo “Gládio actuou em Portugal”, O Jornal, 16 de Novembro de 1990. 
Esta pesquisa jornalística está também na base da primeira obra de ficção do autor, Romance de uma Conspiração, publicado em 2010 pela Oficina do Livro. 

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