quarta-feira, 8 de abril de 2015

Belas artes no sótão e Da Vinci no banco

Por João Paulo Guerra, o diário, 
26 de Fevereiro de 1981

A recente realização de quatro importantes exposições integradas nas comemorações do bicentenário da Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) veio permitir o acesso a parte do riquíssimo património artístico e cultural da Escola. Oportunidade única, já que nem mesmo para efeitos pedagógicos a ESBAP tem condições para organizar a mostra do que acervo de que é depositária.



         As colecções da ESBAP, nomeadamente de desenho e gravura da Renascença italiana, são das mais completas e ricas da Europa. Um património de valor incalculável, ou pelo menos incalculado, uma vez que, como revelou a “o diário” o presidente do Conselho Directivo, professor Júlio Resende, «nunca houve condições para fazer na sua totalidade o inventário do património». A ESBAP comemorou agora 200 anos, mas só por volta de 1950 se fez um primeiro e muito incompleto inventário.
         Entretanto, milhares de obras de arte – da gravura ao desenho, da pintura à escultura – jazem no sótão do edifício de São Lázaro, arredadas da sua função cultural e social, ameaçadas de deterioração e destruição, mal precavidas contra a humidade ou o perigo de um incêndio.
         «A Escola tem a consciência de que é responsável por um património valiosíssimo e sente mágoa por este espólio não estar em condições totalmente a coberto de prejuízos – afirmou-nos o pintor Júlio Resende. E o presidente do Conselho Directivo da ESBAP acrescentou: «Muito nos incomoda também ter este património fechado, quando estas colecções, pelo seu alto interesse, deveriam estar abertas ao público». 
         «Não temos meios nem estruturas», afirma por seu lado o professor José Coelho dos santos, membro do Conselho Directivo e encarregado do curso de História de Arte, em resposta à questão da ESBAP não tomar a iniciativa de proceder ao inventário do espólio artístico e à sua divulgação.
         Na falta de uma resolução para o problema, a ESBAP tem procurado compensações de solução. Alimentou-se o projecto de acrescentar um novo espaço, a construir nos jardins, o que permitiria o aceso às coleções sem perturbar o funcionamento da Escola; pensou-se num terreno situado em frente da Escola, anexo à Biblioteca Municipal; encarou-se a realização de exposições temporárias, periódicas, com carácter temático. Mas «a falta de meios e de estruturas» também se faz sentir para todas estas saídas. Para realizar as exposições do bicentenário, a ESBAP teve que ocupar um espaço onde funcionam habitualmente aulas do curso de arquitectura.
         Quando da sua recente visita ao Porto e após uma breve passagem pela ESBAP, o secretário de Estado da Cultura, interrogado por “o diário”, aventou a hipótese da transferência de parte das colecções da Escola, particularmente dos desenhos italianos do século XVI, para o Museu Soares dos Reis. Mas a Escola tem um entendimento bem diverso, pois preza prioritariamente a função didáctica e pedagógica das suas colecções, o que implica o acesso imediato dos alunos.
         «É intenção da Escola retomar todos os projectos antigos e estudar qual poderá ser o mais adequado, elucida Júlio Resende. O que é certo é que a ESBAP não pode, por si só, resolver a situação. E, como afirma o presidente do Conselho Directivo, «raras vezes a voz da Escola é escutada, porque não se considera esta situação como prioritária».

Da Vinci no banco
         Aqui há anos, um perito inglês que estudou parte do espólio artístico da ESBAP, atribuiu um dos desenhos do inestimável património a Leonardo Da Vinci. Está depositado num banco do Porto e foi exposto recentemente com outros desenhos italianos atribuídos a Miguel Ângelo, Raphael, Veronese, Vasari, Tiepolo, Andrea del Sartho.
         No catálogo de uma anterior exposição de desenhos italianos explicava-se como tão valioso património se tornou propriedade da Escola. Rezam velhos documentos que, não raras vezes, um ou outro “pensionista” – assim se designava então todo aquele que, pelo seu mérito, adquirira o direito a frequentar oficinas de mestres estrangeiros – terminados os seus estudos e de regresso á Pátria trazia na bagagem desenhos que «desenhos que adquirira ao desbarato», pelas paragens onde andara. Sendo que ao tempo e para uma melhor formação todos os caminhos conduziam a Roma centenas e centenas de artistas e estudantes de todo o mundo. Desenhos andavam de mão em mão, comprados e recomprados, vendidos e revendidos. «E assim se foi amontoando um património de valores didático e intrínseco, este por ora incalculável», podia ler-se no catálogo.
         Mas, para além dos desenhos e gravuras da Renascença italiana, muitas outras obras integram o espólio da ESBAP. Basta dizer que pertencem à Escola todas as obras que, ao longo de muitas gerações, constituíram as provas dos concursos para professores. As exposições do bicentenário mostraram assim obras de Soares dos Reis, Henrique Posão, Augusto Gomes, Júlio Resende, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Ângelo de Sousa e muitos outros.
Em relação a muitas obras arrecadadas é difícil atribuir-lhes autoria. Muitas outras apresentam-se já danificadas, irrecuperáveis, algumas delas. Gerações inteiras passam pela Escola sem conhecer o seu património artístico.
A ESBAP bate-se por uma solução que sirva pedagógica e didacticamente a Escola e que, simultaneamente, lhe permita cumprir a sua função social. A ideia de património implica necessariamente a sua divulgação. Amontoadas num velho sótão, subtraídas à sua função social e cultural, as colecções da ESBAP só serão património no sentido restrito da propriedade, fonte viva de estudo e de beleza, é que não são. 
João Paulo Guerra, o diário, 26 de Fevereiro de 1981
        

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