sexta-feira, 22 de julho de 2016

Siza Vieira: «Os arquitectos não inventam, transformam»

Bairro da Bouça, SAAL, Porto
Álvaro Siza Vieira 
entrevistado por João Paulo Guerra,
o diário, 13 de Abril de 1981

         Álvaro Siza Vieira, português, arquitecto, 48 anos de idade [em 1981], é considerado lá fora como «um dos dez arquitectos mundiais da sua geração capazes de transformar a arquitectura numa forma de expressão autêntica», como «um homem acima da moda», cuja obra «não se situa em nenhuma das correntes contemporâneas».
         «Os arquitectos não inventam coisa alguma. Transformam de acordo com as circunstâncias», diz, à conversa com “o diário”, este homem socialmente preocupado e politicamente empenhado na transformação da cidade e que considera a intervenção popular como a base justa e sólida dessa transformação.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A basílica arranha-céus e a sagração dos crocodilos

O país designa-se Côte d'Ivoire e a Constituição
proíbe a tradução do nome
Costa do Marfim, pelo nosso enviado João Paulo Guerra
O Diário, 23 Dezembro 1989

Um crocodilo devora uma galinha em dois tempos rápidos: abocanha-a, tritura-a e acabou-se a galinha. Ao terceiro tempo há apenas o bolo alimentar do crocodilo, um paté de penas, carne, ossos, vísceras, amassado em cabidela.
O número da refeição dos crocodilos, servido a meio da tarde, faz parte do cartaz turístico de Yamoussoukro, capital administrativa da Costa do Marfim. A ementa consta de galinhas vivas e o espectáculo consiste na luta desigual entre uma dúzia de galinhas tontas e dezenas de vorazes e possantes sáurios. O número termina em apoteose de cacarejos aflitos, esguichos de sangue e voltear de penas. Os visitantes de Yamoussoukro veem e ouvem o espectáculo e depois, eventualmente com muita pena das galinhas, vão recolher-se na Basílica de Nossa Senhora da Paz, que se ergue na savana e capricha por ter uns centímetros mais que a Basílica de S. Pedro.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Timor-Leste 1999: VIAGEM AO FIM DO IMPÉRIO



Reportagem
 João Paulo Guerra, Setembro e Outubro, 1999, 
Diário Económico 

Uma coluna de fumo indica a direcção do centro da cidade.
«São os armazéns da Intendência» – diz-me, no caminho entre o aeroporto de Comoro e o centro de Díli, Francisco Leão, antigo corneteiro do Exército português, noutros tempos camarada de outras armas do furriel José Ramos-Horta e do 1º cabo Xanana Gusmão. E esclarece que os indonésios pegam fogo a cada edifício que abandonam na administração de Timor-Leste.
«Ontem durante o dia ardeu a sede do Departamento de Educação. À noite começaram a arder os armazéns da antiga Intendência, mesmo ao lado do Palácio do Governo», acrescenta. 


terça-feira, 19 de julho de 2016

ENTREVISTA: Coveiro de Santa Comba na paz dos cemitérios

Dois anos após a morte de Salazar, dois jornalistas, Adelino Gomes e João Paulo Guerra, passaram pelo cemitério de Santa Cruz do Vimieiro e, à conversa com o Sr. Vicente, o respectivo coveiro, ficaram a conhecer melhor a realidade de um país mergulhado na ordem e na paz dos cemitérios. A mentalidade da ditadura rural que atrasou Portugal ao longo de meio século estava ali, ao vivo, no cemitério do Vimieiro, debaixo daquelas pedras tumulares. O Sr. Vicente tinha conhecido Salazar em vida. Recordava-se dos seus passeios, sozinho entre os pinhais.

Entrevista de Adelino Gomes e João Paulo Guerra, Setembro 1972

A Censura, que por vezes andava distraída, deixou passar a entrevista que foi para o ar na Rádio Renascença, em Julho de 1972. 
Por acaso ou não, menos de um mês depois, porém, os programas da RR para os quais trabalhavam os dois jornalistas, Página Um e Tempo Zip, foram suspensos pela Secretaria de Estado da Informação.  

sábado, 16 de julho de 2016

A emoção não está prevista no manual de jornalismno

Por João Paulo Guerra, em Moçambique, O Diário, 7 de Maio de 1988


O Luís Lázaro é três anos de gente e tem um braço, o direito, com fracturas múltiplas e expostas. Nos olhos, o Luís Lázaro tem o espanto de todas as perguntas sem resposta, porque o Luís Lázaro não faz as perguntas que fazem os miúdos de três anos e porque não há respostas para as perguntas dos olhos deste miúdo de fraldas, ligaduras e aparelho de gesso. Porquê?

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A saga da família angolana


Reportagem de João Paulo Guerra, 
Diário Económico, Fevereiro 2001

NOTA: ESTE TEXTO É DE 2001; 
TODOS OS DADOS AQUI REFERIDOS SÃO RELATIVOS A ESSA DATA
As fotos são de arquivos na internet (A foto da bandeira de Angola na fronteira sul com a Namíbia é dos arquivos do autor). 

O angolano Nendela Amorim Liahuca faz 40 anos em 2001. Tantos como a guerra em Angola. A vida da sua família é a história de 40 anos de guerra no seu país. 
A guerra em Angola começou há 40 anos, em 4 de Fevereiro de 1961. Em Junho desse ano Nendela fugiu de Portugal para França na barriga da mãe. Nasceu em Julho, em Versalhes, filho de José João Liahuca, médico formado em Lisboa, e de Maria Virgínia Graça Amorim Liahuca, estudante de enfermagem. Faziam parte de um de três grupos de estudantes africanos que, nesse ano, bateram com a porta da capital do Império. Seria um escândalo, se a Censura deixasse passar a notícia, mas foi mesmo assim uma bofetada na cara do regime.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ANGOLA: Nos intervalos de uma reportagem de guerra


Crónicas à margem de uma reportagem na guerra em Angola

Por João Paulo Guerra, suplemento de O Diário, Junho de 1985


Kuilo-Kuango 1985
Na última semana de Abril [1985], saímos da cidade do Lubango a caminho da fronteira no Cunene, iniciando a viagem a bordo de um helicóptero Mig 15 que transportava, para além de dois jornalistas, um bidão atestado com 500 litros de gasolina. Indesejável companhia. Voávamos para sul da Cahama, Môngua e Xangongo, tínhamos passado os cenários de terríveis batalhas entre as tropas cubano-angolanas e as sul-africanas, seguíamos com destino ao que restava de Onjiva, onde talvez apanhássemos um camião para Namacunde e depois seria a pé, dali até à fronteira, em Ochikango, seguindo o trilho por entre campos de minas.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Luiz Pacheco: Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor …


Entrevista de João Paulo Guerra
TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas

Da autoria do escritor Luiz Pacheco sai hoje [Maio de 1992] a reedição de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Um acontecimento num país que também nas letras é geralmente de brandos costumes.


O Libertino etc., foi escrito em 1961 e publicado em 1970 provocando muito escândalo. É a narrativa de um dia passado numa Braga lúbrica. E logo Braga, a cidade dos arcebispos. O próprio autor filiou a narrativa numa corrente neo-abjeccionista.
Com 67 anos de uma vida airada, Luiz Pacheco vive actualmente em Setúbal. E é de lá, em directo, que aceita conversar sobre a reedição – para a qual deu uns retoques no texto de O Libertino… –, sobre a actualidade que, seja onde for, acompanha com atenção: a reforma da PAC ou a reserva dos coronéis, o pacote Delors 2 ou o Evangelho segundo Sousa Lara, o Tratado de Maastricht ou a nova Ponte sobre o Tejo, numa conversa de ida e volta ao mundo, com partida da Europa.

Luiz Pacheco – Europa? Qual Europa?

Fausto: A utopia demora




Fausto prepara um próximo disco com canções de amor, de ódio e canções políticas. À sua volta vê um mundo «à beira da implosão», onde falta ainda a experiência histórica de «gerir a felicidade». 
Mas…

 Por João Paulo Guerra,  Foto de Paulo Figueiredo, 
Diário Económico, 10 de Março de 2001

Para o próximo disco, Fausto escolheu o tema, já pesquisou e leu, já se informou e formou ideias. Está na fase da escrita.
«As minhas canções começam por ser prosa, ideias, sentimentos, emoções», diz durante um intervalo que impôs à sua vida recatada e ao seu trabalho solitário, ao aceitar o convite para um almoço.

Ribeiro Teles: Qualidade devida

Por João Paulo Guerra, Diário Económico, Janeiro de 2001


Chovia em Lisboa, no dia do almoço com o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles e, sempre que chove, Lisboa revive a memória de inundações devastadoras. O arquitecto tem ideias sobre o que fazer para afastar esse fantasma da cidade, mas a pressão e os interesses imobiliários são muito mais poderosos que as ideias e valores deste homem de 78 anos, com uma vida dedicada à paisagem e um pensamento estruturado sobre a cidade, a terra, o ordenamento do território. É um bom conversador que fala com entusiasmo e convicção de algo tão essencial, mas tão desprezado, como seja a qualidade de vida. E esta foi a entrada da conversa e do almoço. Falámos do tempo. O prato forte foi a cidade e o campo e à sobremesa lá veio a política.

sábado, 9 de julho de 2016

Nuno Brederode: A ironia serve-se quente

Por João Paulo Guerra, Diário Económico, 31 de Janeiro de 2001
Fotos de Miguel Baltazar

Naquela tarde, no restaurante Isaura, em Lisboa, a dada altura do almoço veio à conversa José Cardoso Pires. Melhor dizendo, tomou lugar à mesa e ninguém viria mais a propósito. O convidado do Diário Económico naquele dia bem pode ser visto como um «indivíduo meditado», um «esclarecido», que cultiva o «primado da inteligência», afinal um «descendente actual em linha directa dos libertinos de boa estirpe», como diria o autor da Cartilha do Marialva. Como cronista, nas páginas do Expresso, tem aliás travado um duro e persistente combate contra a mais recente extracção do marialvismo, e a respectiva fisionomia política, que é o «profundo desdém por todas as coisas do espírito». Chama-se Nuno Brederode Santos, tem 56 anos, é assessor da administração do IPE e consultor político do Presidente da República.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Mário Alberto: Cenas e cenários

Políticos e politólogos, líderes de opinião e equiparados, jornalistas e afins, toda a gente faz cenários
Cenógrafo de profissão, o melhor na sua arte, Mário Alberto retribui.

Por João Paulo Guerra, Diário Económico, 15 de Março de 2001
Fotos de João Paulo Dias

Este homem é um Senhor. Em tempos foi operário cerâmico, empregado de escritório, recauchutador, figurante, bailarino excêntrico, músico gestual. Mas na sua profissão, cenógrafo, e na paixão da sua vida, o teatro, este homem é mesmo um grande senhor. Prémio de cenografia da Casa da Imprensa, em 1971, homenageado pelo Festival de Almada, em 90, Prémio de Cenografia da Associação de Críticos em 1994/95, os prémios dizem menos que a obra que ergueu em cinquenta anos de trabalho para dezenas de grandes e pequenas companhias de teatro, em todo o país. Dos grupos universitários ao teatro de revista, passando por grupos independentes e pelo teatro comercial, até trabalhou, uma vez, para o Teatro Nacional.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

ENTREVISTA Salgueiro Maia: "Implicado" no 25 de Abril


Fernando José Salgueiro Maia faria no dia 1 de Julho 72 anos de idade. Um dia antes, o PR entregou à viúva do Capitão de Abril, as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique com a qual, finalmente, o Estado português agraciou o herói da restauração da democracia em Portugal.

A entrevista que se segue - feita em 17 de Janeiro de 1992 - ajuda a conhecer melhor a personalidade de Fernando José Salgueiro Maia, algumas tempos do seu tempo e os acontecimentos, na primeira pessoa, do Dia das Surpresas: 25 de Abril de 1974.

  A geração de capitães que fez o 25 de Abril entrou na Academia Militar, no início dos anos 60, para uma carreira com acesso ao posto de coronel e, a partir daí, a eventuais promoções, por escolha, às estrelas do generalato. Desde o dia 1 de Janeiro [de 1992], porém, as promoções naturais da carreira acabaram no posto de tenente-coronel. E a primeira geração atingida é, precisamente, a dos capitães de 1974.

Por João Paulo Guerra, Fotos de Luís Silva para a agência CNTV,
Editada no Público e TSF, 

17 de Janeiro de 1992.


segunda-feira, 20 de junho de 2016

... FP-25 disputam share com o Papa

EM CIMA DO ACONTECIMENTO ..
Por João Paulo Guerra
10 de maio de 1991


Naquele dia de Maio de 91, o acontecimento era a chegada do Papa e Lisboa. E ninguém previa que pudesse acontecer alguma coisa em cima de tal acontecimento. 
Mas aconteceu. 
E quando perguntámos:             "Então e agora?"
Responderam-nos: 
"Agora? Agora vamos almoçar"

domingo, 19 de junho de 2016

Cores felizes na paleta de Malangatana


Por João Paulo Guerra,
TSF, Outubro 1994

Moçambique está em Festa, uma festa com muitas cores. Nesta quadra de eleições multipartidárias, Moçambique está multicolor.
Estou na cidade de Maputo, no Bairro do Aeroporto, no atelier do pintor Malangatana Valente Ngwenya, moçambicano, 58 anos, um artista do mundo e da paz. Este homem que esteve preso três vezes pelo regime colonial, uma das quais por motivo de um quadro que pintou, o quadro “25 de Setembro”, a data do início, em 1964, da luta armada pela libertação, e que depois da independência do seu país esteve de novo detido, dessa vez num campo de reeducação, como castigo pelo seu comportamento na época colonial, este homem está também em Festa, agora que Moçambique tem eleições multicolores.

Os Olhos Azuis do cinema na Guiné-Bissau

Entrevista com o realizador guineense Flora Gomes.

João Paulo Guerra, TSF, 26 de Janeiro de 1991,
Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, Bissau


No regresso a Lisboa, após a reportagem de um processo político que culminou com a introdução do multipartidarismo na Guiné-Bissau, o repórter cruzou-se no aeroporto com o realizador de cinema Flora Gomes. Nascido em 1949 em Cadique, tabanca a sul de Bissau, uma das principais povoações produtoras de arroz no tempo colonial, Florentino Gomes foi levado pela guerrilha guineense para estudar em Conakry e mais tarde em Cuba. Voltou formado em cinema. Filmou os últimos anos de guerra e depois da independência começou a filmar histórias para o futuro do seu país.
Foi muito bem empregue o tempo de espera naquele dia de Janeiro de 1991, no aeroporto de Bissau.

Pergunta – Como é que um guineense chega a realizador de cinema?
Flora Gomes – Bom, no meu caso foi muito simples. Eu fui dos jovens que a guerrilha, quando passou pela minha aldeia, levou para Conakry para receberem instrução. Fiz a escola primária, a secundária e estudos pré-universitários…


O Cenáculo da Marquesa




Por João Paulo Guerra, 
Telefonia de Lisboa, Janeiro de 1987

          O tempo parou ali há muito tempo como que imobilizado num daguerreótipo antiquíssimo, amarelecido nos cantos, esbatido no centro do plano de conjunto. Mesmo assim, distingue-se o conjunto: onze figuras de cera em redor de uma mesa, todos eles voltados ligeiramente sobre o lado direito, fixando a posteridade.
Ilumina-se a cena e distinguem-se então as cores, tons de cinza e violeta, esmaiados sobre o fundo austero de uma estante de mogno onde jazem livros encadernados pelo pó, o bafio, o esquecimento. Reposteiros pesados coam os sons da vida e tornam mais íntimos os sussurros das conversas, por onde passam, em ladainha, os nomes de legiões de fantasmas, a memória de irremediavelmente perdidos tempos de grandeza, sonorizados pelo tilintar das porcelanas e das dentaduras postiças, o ronronar dos catarros. 

sábado, 18 de junho de 2016

... estranha morte de um homem que a guerra ... continuou a matar depois da guerra

Por Fernando Alves, Sinais, 
TSF, 2 de Março de 2016


Não deveis tomar à letra, ou distraidamente à letra, o título deste romance de João Paulo Guerra, Corações Irritáveis, que esta tarde [quarta, 2 de Março] é apresentado por Carlos Matos Gomes, em Lisboa. Não apenas porque o romance de João Paulo Guerra nos dá um Nó Cego, também nos leva a um fim do mundo que talvez não esteja, nem em Cazombo, nem em Olivença, do Niassa, mas no coração de um velho combatente atormentado. Não vos precipiteis. Corações Irritáveis, mesmo rimando com indomáveis, inflamáveis, inexpugnáveis, não é a legenda para uma qualquer melancolia do coração. Adiante no livro nos está explicado que existe sim a chamada síndrome do coração irritável, já detectada em combatentes da guerra civil americana.
Este livro leva-nos, antes de mais, à morte de um homem...

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Estilhaços …


Capa: António Belchior
Carlos Matos Gomes, 
na apresentação de Corações Irritáveis,
2 de Março de 2016, 
FNAC do Chiado

        Há muitos anos que ouço e leio que falta o “Grande Romance” da Guerra Colonial. Acredito que jamais aparecerá esse tal grande romance sobre a guerra colonial – como não existe o grande romance do fascismo, nem do colonialismo, nem da resistência.
        Mas do que estou aqui a falar e a apresentar é de um Grande Romance. De um grande romance sem outros qualificativos e que tem por tema a Guerra Colonial. Ou só a Guerra. Ou a verdade. Ou a consciência. Ou o remorso. Sobre qualquer dos temas que possamos escolher, este romance tem uma perspectiva surpreendente.
        Tomemos a guerra colonial portuguesa como tema central. Os romances que têm a guerra colonial como tema abordam-na normalmente na perspectiva da aventura de um homem, ou de um grupo de homens na guerra, na operação, a sofrer o medo, a dureza da marcha, a ansiedade da coluna, das minas, sob a inclemência do clima. Falam no sacrifício, no espanto de África, na morte. Ou os autores abordam o tema numa perspectiva pessoal, e escrevem a autobiografia que querem deixar ao seu circulo familiar e de amizades. Ou ainda romances de fundo ideológico, de crítica ao regime que lançou uma geração num conflito inútil e moralmente injusto; ou na do seu reverso: o romance que enaltece as virtudes guerreiras, dos homens que foram cumprir o seu dever de defender os territórios ultramarinos. No confronto entre herói e anti-herói.

Podemos encontrar todos esses cambiantes de abordagem no livro de João Paulo Guerra, a aventura individual e colectiva, a biografia e a autobiografia, as motivações, mas em nenhum está o coração da narrativa nem o esqueleto que a suporta.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

"Belíssimo romance..." diz Baptista Bastos sobre CORAÇÕES IRRITÁVEIS


BAPTISTA-BASTOS sobre CORAÇÕES IRRITÁVEIS:
 "Um grande romance de amor e de guerra


“Pouso este belíssimo romance de João Paulo Guerra, cuja leitura me enche daquela alegria de que falava Montesquieu: "Não há uma boa hora de frequência de um bom livro que me não atenue e o sofrimento, qualquer que ele seja.

"Corações Irritáveis" (estimulante título camiliano) constitui o combate que João Paulo Guerra tem estabelecido contra as iniquidades da política que levam aos infortúnios da guerra. Ele sabe que todas as histórias beligerantes contêm, no seu bojo, uma grande história de amor. Escrito num português de lei, como é timbre do autor, "Corações Irritáveis" leva-nos a percorrer os caminhos da consciência lesada por uma circunstância medonha, que nada tem a ver com obtusas ideias de "patriotismo." Todas as guerras têm uma causa económica, adverte João Paulo Guerra. Um texto invulgar pelos níveis de leitura que propõe. "
BAPTISTA BASTOS  JORNAL DE NEGÓCIOS”  01 Abril 2016