quarta-feira, 23 de novembro de 2016

DIAS DA RÁDIO

O Serviço de Noticiários do RCP
nas páginas da revista Antena: Luís Filipe Costa,
Paulo Fernando, Manuel Bravo e Firmino Antunes.
João Paulo Guerra, Carlos Manuel e Fernando Quinas. 


textos de João Paulo Guerra,
2011 / 2012, 
no blogue 

“KUANDO OS RÁDIOS ERAM CLUBES”, 

de PAULO 
"Tac Tac" FERNANDO



Nos idos de 60/70, como grande parte dos jovens desse tempo, houve uma fase em que usei grandes barbas e cabelame que me faziam parecido com o baterista dos Marretas. A verdade é que ninguém tinha nada com isso. E menos ainda o director dos serviços de censura interna do RCP, António Augusto Moita de Deus, o Arbusto Divino, ou o Moita-Carrasco, conforme os gostos. Ele que cortasse textos ou fitas de arrasto; na minha barba e cabelo não tocava.
Pois certa vez, estando eu a tomar um abatanado no bar O Coice, lugar mal frequentado por gente de rádio e acompanhantes, entrou o Moita e rosnou, como era seu timbre. Vinha sozinho. A esposa também frequentava O Coice, onde pedia habitualmente uma sandes aparada e, para beber, um Triplice, assim chamado em português corrente ao licoroso Triple sec. Verdade. Há testemunhas.
Ora naquele dia, o Moita, que ainda não tinha embirrado com ninguém, decidiu investir contra mim.
- Você, ahn, com esses cabelos e essas barbas, ahn, qualquer dia nem as mulheres olham para si.
Respondi-lhe delicadamente, em voz muito baixa:
- Elas não olhariam para mim se eu fosse…
E depois, colocando e elevando bem a voz de locutor:
- … Estúpido.
O pessoal que frequentava O Coice naquele momento só ouviu a última palavra, gritada sonoramente na cara de Moita. E então não é que ficou a constar no Rádio que eu tinha chamado estúpido ao Senhor Moita de Deus?
Mas eu era lá capaz de chamar estúpido ao estúpido do director da censura?!
j.p.g.
QUINTA-FEIRA, 3 DE NOVEMBRO DE 2011

Kuando Moita se sentia em apertos, chamava pelo Dr. Martinha, uma espécie de delegado do governo junto do RCP.
E Moita de Deus chamou o Dr. Martinha kuando não soube o que fazer com uma entrevista a José Cardoso Pires, no lançamento de O Delfim. Ouviram e voltaram a ouvir a entrevista, montada com a leitura de excertos do romance, e não sabiam o que cortar. Por fim, comunicaram-me que a entrevista era autorizada, mas com o corte de uma passagem de texto do romance. Ao que lhes respondi que teriam que falar com o autor do livro, pois iam cortar uma passagem de um texto publicado.

Cardoso Pires acedeu deslocar-se ao RCP - onde aliás passava com frequência - e deu a volta às cabeças dos censores. Passou tudo: o discurso directo da entrevista e o discurso indirecto do romance. Inclusive a frase em que os censores pressentiam um sentido oculto: «Espalmada na inscrição imperial, havia uma lagartixa. Parda, imóvel, parecia um estilhaço de pedra (…) um estilhaço sensível e vivaz debaixo daquele sono aparente. Pensei: o tempo, o nosso tempo amesquinhado».
O Moita era intocável. Mas nem o Martinha era inquebrável… j.p.g.
SEXTA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2011

Aos domingos, no RCP, houve durante algum tempo um grande noticiário de informação desportiva lido a duas vozes. A recolha da informação era do Firmino Antunes, que sacava resultados de clubes quase desconhecidos em modalidades e escalões praticamente ignorados. Estava lá tudo. Quanto às duas vozes eram de quem calhava de serviço. Certa vez, estavam de plantão ao noticiário o Paulo Fernando e o João Paulo Guerra, escasseava a informação de outras modalidades mas abundava a da Volta a Portugal em Bicicleta. Lemos a classificação da etapa até ao vigésimo lugar e… não resistimos:
Os ciclistas Paulo Fernando e João Paulo Guerra na actualidade

11º Paulo Fernando, disse o João Paulo; 12º João Paulo Guerra, respondeu o Paulo; nos lugares seguintes entraram os técnicos de serviço do outro lado do vidro, o Oliveira, o Gomes ou o Leal, de serviço à portaria, o Barata, atarantado atrás do balcão do bar. E ao 20 º lugar lá retomámos a classificação real: 20º Perna de Coelho, disse o Paulo Fernando, acrescentando apenas um de ao nome de um conhecido ciclista do Benfica, Joaquim Dionísio Perna Coelho.
Perguntarão: então e a direcção, não deu por nada? Deu. Ligou um director, o Moita, o da Censura, a perguntar que brincadeira era aquela? Como se houvesse algum ciclista chamado Perna de Coelho, ou Perna Coelho, ou lá o que era!? Com certeza. Paulo Fernando e João Paulo Guerra é que eram ciclistas de grande pedalada, com certeza. Jpg
QUARTA-FEIRA, 9 DE NOVEMBRO DE 2011

Certo dia, solenes senhores visitavam as instalações do Rádio quando, irrompendo do estúdio de emissão, lhes saiu ao caminho o Justino Moura Guedes, agitando as folhas do noticiário e gritando: «já matei mais 80». Era uma graçola mórbida, para uso interno, cada um dos noticiaristas gabando-se do número de mortos dos respectivos noticiários. E para além da quantidade havia, naturalmente, a qualidade.
Desde que entrei para o Rádio que me intrigava o conteúdo de um sobrescrito pardo selado. Vim depois a saber o que toda a gente sabia: lá dentro estava a biografia oficial de Salazar para dar quando se desse o desenlace. Até que na manhã de 27 de Julho de 1970 eu entrei de serviço às 7 da manhã, para sair às 13, e desde as 9h 15m soube que Salazar tinha batido a bota mas a notícia ficava congelada até os quartéis entrarem de prevenção. O Luís Filipe Costa que me renderia às 13 chegou mais cedo, na qualidade de chefe de redacção. O SNI haveria de libertar a notícia mas eu via as horas passando e com elas a minha oportunidade de juntar Salazar à lista de vítimas dos meus noticiários, onde o nome mais sonante era, até então, o de Edith Piaf.
Até que, passavam 20 minutos das 12h, a Emissora Nacional interrompeu o requiem que tinha posto no ar e fez soar os acordes de A Portuguesa. Nem perdi tempo a rasgar o sobrescrito mistério.

Correi para a cabina, fiz sinal para entrar o gingle das notícias de última hora e li a notícia seca embargada desde as 9h 30m: O professor António de Oliveira Salazar faleceu esta manhã na sua residência em Lisboa
Tremeu-me a voz. Mas quando voltei à redacção, na Emissora ainda tocava o hino. O sobrescrito ficou para o noticiário das 13. Jpg
SEGUNDA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 2011

António Videira, João Paulo Guerra, Luís Filipe Costa,
João Macieira de Barros e Paulo Fernando
O RCP chegou a ter quatro trabalhadores em comissões simultâneas de serviço militar em África: João, Óscar, Rui e jp, eu próprio. Em Dezembro de 1966 recebemos um programa de Natal gravado em Lisboa pela nata do pessoal do RCP e dedicado à malta da tropa.
Eram duas bobinas de fita de arrasto e eu não sabia como ouvi-las, lá, em Nampula. Até que o meu comandante de companhia me anunciou que tinha em casa um gravador de fita e era só questão de combinarmos o serão. O capitão juntou a família e eu cheguei com as bobinas. A primeira frase levou-me, porém, a carregar apressadamente no stop. Era a voz do Fernando Curado Ribeiro que lançava o aviso à navegação: «Afastem as mulheres e as crianças».
Cândido Mota, Luís Filipe Costa,
João Macieira, Paulo Fernando e JP Guerra

Conhecendo, como conhecia, o pessoal do RCP, pensei que seria recomendável seguir o conselho. Como se comprovou quando eu e o capitão ouvimos sozinhos as rubricas de um programa para adultos e com sérias reservas. Do melhor em termos técnicos e de arrebimba-o-malho em matéria de conteúdo. 
LuÍs Filipe Co
Exemplos: o Luís Filipe Costa recitava A Porra do Soriano, de Guerra Junqueiro: «Eu canto do Soriano o singular mangalho…» O Paulo Fernando declamava quadras de sua autoria, como esta: «Óscar, grande Óscar // sempre alegre e folgazão // amigo e companheiro // sempre cheio de tesão (Nota: as sopeiras do snack tasca que o digam)». Jpg
SEGUNDA-FEIRA, 14 DE NOVEMBRO DE 2011


Kuando os rádios eram clubes a radiodifusão não teria cursos nem diplomas, o que não significa que não tivesse criado escola, estilos e memória. E que não seguisse uma teoria e uma prática da escrita e da linguagem. Jaime da Silva Pinto (na foto ao lado), um dos mais antigos dos nossos mestres no velho RCP, não perorava sobre teorias. Mas ainda hoje não haverá assim muitos exemplos de quem, como ele, dominasse a técnica de contar uma história através da rádio. "Era uma vez..."
Bom, eu comecei, outros que sigam a história. Porque sobre o bom e velho Jaime da Silva Pinto muitas histórias haverá para contar. JPG 
SÁBADO, 24 DE DEZEMBRO DE 2011

João Paulo Guerra, Paul McCartney,
João Mendes Martins, Óscar Araújo
Em Dezembro de 1968, uma breve na capa do Diário Popular chamou-me a atenção para a chegada de Paul McCartney ao aeroporto de Faro. Eu trabalhava no PBX e vi ali a hipótese de um grande furo. Desafiei o João Mendes Martins, do Impacto, cravámos apoio técnico e boleia ao Óscar Araújo e pela madrugada partimos para o Algarve, apertados no Carmen Ghia do Óscar. Foi quase à sorte que decidimos começar pelo Barlavento, à procura de um Beatle nos 150 quilómetros da costa algarvia, e que exlcuímos as praias mais frias perto de Sagres. Seriam umas 8h 30m quando parámos na Praia da Luz para o pequeno-almoço.
 porta do café, com vista para a praia, um motorista de táxi lia o Popular da véspera. Metermos conversa: "Então já viu que um dos Beatles anda aqui pelo Algarve?" Íamos caindo para o lado quando o motorista respondeu que até admitia que o Beatle estivesse ali mesmo, pois na casa sobre o areal vivia um ingês ligado aos famosos músicos de Liverpool.
Encontrar Paul McCartney já seria um achado. Encontrá-lo à primeira seria a sorte grande.
João Paulo Guerra, na foto com Paul McCartney (continua nos comentários)
Linda Eastman McCartney fotografa Óscar Araújo, Paul e João Mendes Martins
e são todos fotografados por Inácio Gravanita, fotógrafo do turismo local
A dona do café confirmou-nos que na casa vivia um jornalista inglês, autor da biografia oficial dos Beatles. A mulher do inglês era freguesa do minimercado anexo ao café, onde costumava comprar pão pelas 10 da manhã. E às 10, com pontualidade britânica, a senhora apareceu. Saimos-lhe ao caminho: "Sabemos que o Paul McCartney está em sua casa. Queremos uma entrevista". A inglesa respondeu, simplesmente, que o Paul e familia tinham combinado ir até à praia pelas 11 da manhã. Era connosco. Pouco passava das 11 quando um grupo de adultos e crianças saiu de casa e assentou arreais na Para da Luz.  JPG (continua)
Quando Paul, Linda, o outro casal e a miudagem se instalaram na praia a entrevista já estava apalavrada com o Beatle. Muito afável e comunicativo, Paul acedeu a dar a entrevista que se prolongou por cerca de uma hora. 
Passava pouco do meio dia estávamos a ligar para Lisboa: "Temos a entrevista". Ninguém quis acreditar. Mas nessa noite, no PBX, montada em directo, a entrevista foi para o ar. 
Perdi a gravação mas o José Nuno Martins encontrou-a nos arquivos do Luís Alcobia. Não voltei a ver o Paul. E há muito tempo que não vejo nem o Mendes Martins nem o Óscar Araújo. 
Também não vejo nada parecido com aqueles tempos loucos e heróicos. JPG
SÁBADO, 21 DE JANEIRO DE 2012

Este blog ficava garantido até ao fim dos tempos se conseguisse contar por inteiro a história que envolveu um jovem estagiário do início dos anos 60, mais tarde editor de um jornal de referência, num caso que John Le Carré não desdenharia ter inventado. Uma história de kuando os rádios eram clubes. Tudo começou na sala onde então funcionavam os Noticiários do Rádio Clube Português. O jovem entrou com o ar despachado de repórter de banda desenhada e perguntou, como usava fazer: "Então o que é que há?" Suponho que o pontapé de saída partiu do Paulo Fernando, inventando em directo e ao vivo uma estranha história de espionagem, com escala por Lisboa, onde se acoitava um cientista criador de um engenho que sugava submarinos no Mediterrâneo. O Luís Filipe Costa continuou: a Censura não deixava dar a notícia, pois o almirante Tomás partira nesse dia por via marítima para S. Tomé onde, mal ele saberia, iria desembarcar heroicamente na praia do Pantufo.
Américo Tomás de regresso do Pantufo 
O jovem estagiário - que não era propriamente estagiário do Rádio mas apenas alguém disponível para cobrir umas sobras da agenda -, estava em pulgas. Situação que o Paulo Fernando exacerbou descobrindo o endereço do cientista na lista dos telefones: aquilo era a guerra do Médio Oriente ao vivo em Lisboa. O jovem lá se meteu a caminho, de gravador pronto a entrevistar o cientista. Voltou desanimado: no endereço em questão bateram-lhe com a porta na cara, pois ninguém admite às boas a condição de cientista que suga submarinos no Mediterrâneo.
O caso prosseguiu durante mais de um mês, envolvendo grande parte do pessoal do Rádio e amigos nossos do Diário de Notícias e da TAP - o que permitiu a internacionalização do conflito. O jovem tanto recebia ofertas milionárias pela "reportagem" que não tinha como ameaças de morte, chegando mesmo a ser seguido durante dias por um indivíduo com pinta árabe, transportando uma caixa de violino, isto é, uma metralhadora.  De meia em meia hora ligava para o rádio a dizer onde estava e para onde ia. Alguém lhe explicou piedosamente: "assim, kuando fores raptado, sabemos mais ou menos o local e a hora". E a brincadeira assumiu tais proporções que kuando a quisemos desmentir... não conseguimos explicar toda a trama que lançáramos e da qual perdêramos a mão. Ou o pé.
João Paulo Guerra (e agora, haja quem siga a história)
SEXTA-FEIRA, 27 DE JANEIRO DE 2012

Fialho Gouveia e Carlos Cruz 
Kuando os rádios eram clubes houve um programa intitulado PBX: Carlos Cruz, Fialho Gouveia, José Nuno Martins, Rui Pedro, João Paulo Guerra, Alberto Moreno, Fernando Jorge, Luís Alcobia, José Ribeiro, Alfredo Alvela, Rui de Melo, Humberto Branco, Paulo "electrónico" Morais, um luxo. Cá por mim, no PBX fazia tudo: cabine e reportagem. E foi como repórter que um dia saí à rua para fazer a reportagem de um inesperado dia de neve em Lisboa.
A neve dá alguma euforia às pessoas e toda a gente dizia e fazia coisas que habitualmente não faz, o que muito enriquecia a reportagem. Mas o máximo aconteceu no exterior da estação do Rossio, onde consegui convencer um agente da Polícia a declamar para o gravador a Balada da Neve, de Augusto Gil, da qual o cívico, com alguma ajuda que lhe dei, se recordava dos tempos da escola primária.
Fialho Gouveia, João Paulo Guerra,
José Nuno Martins
E era ver a cara das pessoas que entravam e saiam da estação, a observar um polícia, de microfone em riste a declamar em voz bem audível e em diferentes tons, repetindo pausadamente o mesmo verso do poema - "batem leve, levemente..." - sublinhado com gestos a condizer: "Batem leve, levemente...", "Batem leve, levemente...", etc.
E o pessoal a lembrar-se quão levemente eles batiam quando soava a hora do chanfalho. JPG 
QUINTA-FEIRA, 22 DE MARÇO DE 2012

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

CORAÇÕES IRRITÁVEIS - relançamento na Cidade da Horta

O autor, entre o representante da Direcção da Biblioteca
Pública da Horta e um dirigente da Associação
de ex-Combatentes do Faial
Oito meses após o lançamento em Lisboa, o romance CORAÇÕES IRRITÁVEIS da autoria de João Paulo Guerra, editado pelo Clube do Autor, foi agora relançado na Biblioteca Pública Municipal da Cidade da Horta, Faial, Açores, na passada sexta-feira, 18 de Novembro. Boa assistência, presença em massa de associados da Associação dos ex-Combatentes da Ilha do Faial. Venderam-se todos exemplares do livro disponíveis - e mais que houvessem!

Leia aqui a carreira do romance CORAÇÕES IRRITÁVEIS.

sábado, 15 de outubro de 2016

António Macedo: Quero estar outra vez feliz na rádio


Estou muito descontente com a rádio que estou a fazer, com a forma como a rádio está a ser feita, com tudo aquilo que me rodeia (...) Quero estar outra vez feliz na rádio

António Macedo

Por João Paulo Guerra 
Entrevista editada em 15 de Outubro de 2016, data da homenagem a António Macedo, promovida pelo 
1º Acto – Clube de Teatro e Intervalo – Grupo de Teatro.

"A voz da rádio tem uma personalidade amiga e íntima, como a de um velho camarada de confiança"
Erskine Caldwell, Vagueando pela América, Editora Ulisseia 1963

"A rádio tem uma distinta personalidade humana, devida ao seu amigável e íntimo tu cá tu lá"
 Caldwell, ob. cit.

Nome?
António José Macedo Monteiro de Oliveira.
Idade?
Sessenta a cinco anos. Sessenta e seis a 4 de
Novembro, sou de cinquenta.
Nascido onde?
Lisboa, São Sebastião da Pedreira, Maternidade Alfredo da Costa.
E onde residiam os teus pais?
Na Rua do Salitre, 55, 4º Direito, onde vivi os primeiros anos de vida.
Consideras Lisboa a tua terra?
Lisboa é a cidade de que eu mais gosto e a minha terra é Lisboa. Mas tenho uma grande ligação, profunda, à Figueira da Foz porque vivi lá quatro anos, entre 1965 e 1969. Fiz lá entre o terceiro e o sexto ano do Liceu. Fiz lá muitos amigos e deixei lá, não direi muitas raízes mas muitos troncos, alguns ramos e algumas folhas. Não posso dizer que gosto da cidade mas gosto de muita gente de lá.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

ENTREVISTA Salgueiro Maia: "Implicado" no 25 de Abril


Fernando José Salgueiro Maia faria no dia 1 de Julho 72 anos de idade. Um dia antes, o PR entregou à viúva do Capitão de Abril, as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique com a qual, finalmente, o Estado português agraciou o herói da restauração da democracia em Portugal.

A entrevista que se segue - feita em 17 de Janeiro de 1992 - ajuda a conhecer melhor a personalidade de Fernando José Salgueiro Maia, algumas tempos do seu tempo e os acontecimentos, na primeira pessoa, do Dia das Surpresas: 25 de Abril de 1974.

  A geração de capitães que fez o 25 de Abril entrou na Academia Militar, no início dos anos 60, para uma carreira com acesso ao posto de coronel e, a partir daí, a eventuais promoções, por escolha, às estrelas do generalato. Desde o dia 1 de Janeiro [de 1992], porém, as promoções naturais da carreira acabaram no posto de tenente-coronel. E a primeira geração atingida é, precisamente, a dos capitães de 1974.

Por João Paulo Guerra, Fotos de Luís Silva para a agência CNTV,
Editada no Público e TSF, 

17 de Janeiro de 1992.


domingo, 2 de outubro de 2016

Coveiro de Santa Comba na paz dos cemitérios

Dois anos após a morte de Salazar, dois jornalistas, Adelino Gomes e João Paulo Guerra, passaram pelo cemitério de Santa Cruz do Vimieiro e, à conversa com o Sr. Vicente, o respectivo coveiro, ficaram a conhecer melhor a realidade de um país mergulhado na ordem e na paz dos cemitérios. A mentalidade da ditadura rural que atrasou Portugal ao longo de meio século estava ali, ao vivo, no cemitério do Vimieiro, debaixo daquelas pedras tumulares. O Sr. Vicente tinha conhecido Salazar em vida. Recordava-se dos seus passeios, sozinho entre os pinhais.

Entrevista de Adelino Gomes e João Paulo Guerra, Setembro 1972

A Censura, que por vezes andava distraída, deixou passar a entrevista que foi para o ar na Rádio Renascença, em Julho de 1972. 
Por acaso ou não, menos de um mês depois, porém, os programas da RR para os quais trabalhavam os dois jornalistas, Página Um e Tempo Zip, foram suspensos pela Secretaria de Estado da Informação.  

sábado, 1 de outubro de 2016

A basílica arranha-céus e a sagração dos crocodilos

O país designa-se Côte d'Ivoire e a Constituição
proíbe a tradução do nome
Costa do Marfim, pelo nosso enviado João Paulo Guerra
O Diário, 23 Dezembro 1989

Um crocodilo devora uma galinha em dois tempos rápidos: abocanha-a, tritura-a e acabou-se a galinha. Ao terceiro tempo há apenas o bolo alimentar do crocodilo, um paté de penas, carne, ossos, vísceras, amassado em cabidela.
O número da refeição dos crocodilos, servido a meio da tarde, faz parte do cartaz turístico de Yamoussoukro, capital administrativa da Costa do Marfim. A ementa consta de galinhas vivas e o espectáculo consiste na luta desigual entre uma dúzia de galinhas tontas e dezenas de vorazes e possantes sáurios. O número termina em apoteose de cacarejos aflitos, esguichos de sangue e voltear de penas. Os visitantes de Yamoussoukro veem e ouvem o espectáculo e depois, eventualmente com pena das galinhas, vão recolher-se na Basílica de Nossa Senhora da Paz, que se ergue na savana e capricha por ter uns centímetros mais que a Basílica de S. Pedro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A emoção não está prevista no manual de jornalismno

Por João Paulo Guerra, em Moçambique, O Diário, 7 de Maio de 1988


O Luís Lázaro é três anos de gente e tem um braço, o direito, com fracturas múltiplas e expostas. Nos olhos, o Luís Lázaro tem o espanto de todas as perguntas sem resposta, porque o Luís Lázaro não faz as perguntas que fazem os miúdos de três anos e porque não há respostas para as perguntas dos olhos deste miúdo de fraldas, ligaduras e aparelho de gesso. Porquê?

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O general Spínola no seu labirinto

Por João Paulo Guerra
TSF, 22 de Fevereiro de 1994,
 nos  20 anos da publicação 
de Portugal e o Futuro
         
         O general Spínola no seu labirinto:

António de SpínolaComo é do conhecimento público, servi em Angola nos anos de 1961 a 64 em desempenho de missões estritamente operacionais. Esses anos de actividade militar foram para mim uma grande escola política. Foi aí que senti que a nossa guerra do Ultramar não tinha solução militar. Anos depois, fui nomeado governador e comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné onde a minha conduta foi pautada por uma acção política evolutiva. Durante este período [Maio de 1968 – Novembro de 1973] tomei algumas iniciativas junto do Professor Marcelo Caetano no sentido de se por em prática uma nova política ultramarina, baseada no êxito alcançado na Guiné-Bissau, onde a situação atingiu um ponto de tal modo favorável a uma negociação sem condições para qualquer das partes propícia a uma permanente presença cultural portuguesa.

O labirinto do general Spínola era uma frase do historiador Arnold Toynbee: Portugal foi o primeiro império colonial e era então, na segunda metade do século XX, o último. Mas talvez viesse a ser o primeiro de uma nova era.
O labirinto do general Spínola: Que futuro para Portugal? Que integração? Em que espaço? Com quem? Que caminho? A Europa? A África Austral, passando Portugal a ser um país africano com uma colónia na Europa? A Espanha? A Aliança Atlântica? Uma Comunidade Luso-Afro-Brasileira?

António de SpínolaEstou convencido der que seria possível edificar, com pleno êxito, uma Comunidade Lusíada.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

ANGOLA: Nos intervalos de uma reportagem de guerra


Crónicas à margem de uma reportagem na guerra em Angola

Por João Paulo Guerra, suplemento de O Diário, Junho de 1985


Kuilo-Kuango 1985
Na última semana de Abril [1985], saímos da cidade do Lubango a caminho da fronteira no Cunene, iniciando a viagem a bordo de um helicóptero Mig 15 que transportava, para além de dois jornalistas, um bidão atestado com 500 litros de gasolina. Indesejável companhia. Voávamos para sul da Cahama, Môngua e Xangongo, tínhamos passado os cenários de terríveis batalhas entre as tropas cubano-angolanas e as sul-africanas, seguíamos com destino ao que restava de Onjiva, onde talvez apanhássemos um camião para Namacunde e depois seria a pé, dali até à fronteira, em Ochikango, seguindo o trilho por entre campos de minas.

domingo, 21 de agosto de 2016

Kissinger, Spínola e o nariz de Cleópatra

Há uma teoria segundo a qual se Cleópatra tivesse um nariz diferente, Marco António não se teria apaixonado por ela e a civilização teria sido diferente. Witney Schneidman, académico e investigador norte-americano, diz que a tese se poderia aplicar à relação da administração norte-americana com a descolonização das colónias de Portugal.

Por João Paulo Guerra, 
Diário Económico, Fevereiro de 2005

O confronto entre Henry Kissinger, secretário de Estado nas administrações Nixon e Ford, e Frank Carlucci, embaixador dos EUA em Lisboa, constitui o nó da investigação de Witney Schneidman, editada no ano passado nos Estados Unidos e lançada agora em Portugal com o título «Confronto em África». A história começa antes e passa para além dessa questão, mas é aí que tudo conflui e se decide. Para o autor, Kissinger é o vilão da história, Carlucci desempenha o papel de moderador avisado e acaba por ganhar o confronto.

sábado, 20 de agosto de 2016

A saga da família angolana


Reportagem de João Paulo Guerra, 
Diário Económico, Fevereiro 2001

NOTA: ESTE TEXTO É DE 2001; 
TODOS OS DADOS AQUI REFERIDOS SÃO RELATIVOS A ESSA DATA
As fotos são de arquivos na internet (A foto da bandeira de Angola na fronteira sul com a Namíbia é dos arquivos do autor). 

O angolano Nendela Amorim Liahuca faz 40 anos em 2001. Tantos como a guerra em Angola. A vida da sua família é a história de 40 anos de guerra no seu país. 
A guerra em Angola começou há 40 anos, em 4 de Fevereiro de 1961. Em Junho desse ano Nendela fugiu de Portugal para França na barriga da mãe. Nasceu em Julho, em Versalhes, filho de José João Liahuca, médico formado em Lisboa, e de Maria Virgínia Graça Amorim Liahuca, estudante de enfermagem. Faziam parte de um de três grupos de estudantes africanos que, nesse ano, bateram com a porta da capital do Império. Seria um escândalo, se a Censura deixasse passar a notícia, mas foi mesmo assim uma bofetada na cara do regime.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Cenáculo da Marquesa




Por João Paulo Guerra, 
Telefonia de Lisboa, Janeiro de 1987

          O tempo parou ali há muito tempo como que imobilizado num daguerreótipo antiquíssimo, amarelecido nos cantos, esbatido no centro do plano de conjunto. Mesmo assim, distingue-se o conjunto: onze figuras de cera em redor de uma mesa, todos eles voltados ligeiramente sobre o lado direito, fixando a posteridade.
Ilumina-se a cena e distinguem-se então as cores, tons de cinza e violeta, esmaiados sobre o fundo austero de uma estante de mogno onde jazem livros encadernados pelo pó, o bafio, o esquecimento. Reposteiros pesados coam os sons da vida e tornam mais íntimos os sussurros das conversas, por onde passam, em ladainha, os nomes de legiões de fantasmas, a memória de irremediavelmente perdidos tempos de grandeza, sonorizados pelo tilintar das porcelanas e das dentaduras postiças, o ronronar dos catarros. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Os Olhos Azuis do cinema na Guiné-Bissau

Entrevista com o realizador guineense Flora Gomes.

João Paulo Guerra, TSF, 26 de Janeiro de 1991,
Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, Bissau


No regresso a Lisboa, após a reportagem de um processo político que culminou com a introdução do multipartidarismo na Guiné-Bissau, o repórter cruzou-se no aeroporto com o realizador de cinema Flora Gomes. Nascido em 1949 em Cadique, tabanca a sul de Bissau, uma das principais povoações produtoras de arroz no tempo colonial, Florentino Gomes foi levado pela guerrilha guineense para estudar em Conakry e mais tarde em Cuba. Voltou formado em cinema. Filmou os últimos anos de guerra e depois da independência começou a filmar histórias para o futuro do seu país.
Foi muito bem empregue o tempo de espera naquele dia de Janeiro de 1991, no aeroporto de Bissau.

Pergunta – Como é que um guineense chega a realizador de cinema?
Flora Gomes – Bom, no meu caso foi muito simples. Eu fui dos jovens que a guerrilha, quando passou pela minha aldeia, levou para Conakry para receberem instrução. Fiz a escola primária, a secundária e estudos pré-universitários…


sábado, 13 de agosto de 2016

... FP-25 disputam share com o Papa

EM CIMA DO ACONTECIMENTO ..
Por João Paulo Guerra
10 de Maio de 1991


Naquele dia de Maio de 1991, o acontecimento era a chegada do Papa e Lisboa. E ninguém previa que pudesse acontecer alguma coisa em cima de tal acontecimento. 

       Mas aconteceu. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Luiz Pacheco: Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor …


Entrevista de João Paulo Guerra
TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas

Da autoria do escritor Luiz Pacheco sai hoje [Maio de 1992] a reedição de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Um acontecimento num país que também nas letras é geralmente de brandos costumes.


O Libertino etc., foi escrito em 1961 e publicado em 1970 provocando muito escândalo. É a narrativa de um dia passado numa Braga lúbrica. E logo Braga, a cidade dos arcebispos. O próprio autor filiou a narrativa numa corrente neo-abjeccionista.
Com 67 anos de uma vida airada, Luiz Pacheco vive actualmente em Setúbal. E é de lá, em directo, que aceita conversar sobre a reedição – para a qual deu uns retoques no texto de O Libertino… –, sobre a actualidade que, seja onde for, acompanha com atenção: a reforma da PAC ou a reserva dos coronéis, o pacote Delors 2 ou o Evangelho segundo Sousa Lara, o Tratado de Maastricht ou a nova Ponte sobre o Tejo, numa conversa de ida e volta ao mundo, com partida da Europa.

Luiz Pacheco – Europa? Qual Europa?

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Timor-Leste 1999: VIAGEM AO FIM DO IMPÉRIO



Reportagem
 João Paulo Guerra, Setembro e Outubro, 1999, 
Diário Económico 

Uma coluna de fumo indica a direcção do centro da cidade.
«São os armazéns da Intendência» – diz-me, no caminho entre o aeroporto de Comoro e o centro de Díli, Francisco Leão, antigo corneteiro do Exército português, noutros tempos camarada de outras armas do furriel José Ramos-Horta e do 1º cabo Xanana Gusmão. E esclarece que os indonésios pegam fogo a cada edifício que abandonam na administração de Timor-Leste.
«Ontem durante o dia ardeu a sede do Departamento de Educação. À noite começaram a arder os armazéns da antiga Intendência, mesmo ao lado do Palácio do Governo», acrescenta. 


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Ribeiro Teles: Qualidade devida

Por João Paulo Guerra, Diário Económico, Janeiro de 2001


Chovia em Lisboa, no dia do almoço com o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles e, sempre que chove, Lisboa revive a memória de inundações devastadoras. O arquitecto tem ideias sobre o que fazer para afastar esse fantasma da cidade, mas a pressão e os interesses imobiliários são muito mais poderosos que as ideias e valores deste homem de 78 anos, com uma vida dedicada à paisagem e um pensamento estruturado sobre a cidade, a terra, o ordenamento do território. É um bom conversador que fala com entusiasmo e convicção de algo tão essencial, mas tão desprezado, como seja a qualidade de vida. E esta foi a entrada da conversa e do almoço. Falámos do tempo. O prato forte foi a cidade e o campo e à sobremesa lá veio a política.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Siza Vieira: «Os arquitectos não inventam, transformam»

Bairro da Bouça, SAAL, Porto
Álvaro Siza Vieira 
entrevistado por João Paulo Guerra,
o diário, 13 de Abril de 1981

         Álvaro Siza Vieira, português, arquitecto, 48 anos de idade [em 1981], é considerado lá fora como «um dos dez arquitectos mundiais da sua geração capazes de transformar a arquitectura numa forma de expressão autêntica», como «um homem acima da moda», cuja obra «não se situa em nenhuma das correntes contemporâneas».
         «Os arquitectos não inventam coisa alguma. Transformam de acordo com as circunstâncias», diz, à conversa com “o diário”, este homem socialmente preocupado e politicamente empenhado na transformação da cidade e que considera a intervenção popular como a base justa e sólida dessa transformação.