segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Congresso deu a 80 estudantes de jornalismo a experiência de uma redacção laboratório


Rute Santos/ I.P.P.
Dezenas de computadores, máquinas em tripés, gravadores espalhados pelas secretárias. O ruído constante e a correria dos estudantes confirma o que parece impossível: uma equipa multiplataforma funciona dentro da sala 2 do Cinema São Jorge. É nesta sala convertida em redação que se reúnem mais de uma centena de profissionais, professores e alunos de comunicação, responsáveis pela cobertura do 4.º Congresso dos Jornalistas. Com um palco ao fundo e palavras de ordem espalhadas pelas paredes, cumprem a missão proposta pelo congresso: “Afirmar o jornalismo”.
Rui Barros/ U.Minho

 Desde o último congresso, organizado em 1998, o número de cursos de jornalismo cresceu nas várias universidades do país e fala-se hoje da geração de jornalistas mais qualificada de sempre. Ainda assim, o jornalista Pedro Coelho realça que a passagem para o mercado de trabalho “enfrenta algumas barreiras”. Com o objectivo de reforçar a ponte entre os dois mundos, o também professor da Universidade Nova de Lisboa aceitou o desafio de participar na organização do congresso, assumindo que a academia não é para “deixar de fora” e que tem de se conciliar com o mundo profissional.
Ana Cristina Soares/ U. Lusófona
Por isso, a participação dos estudantes foi desde o início uma vontade da organização. Para Pedro Coelho, não se poderia limitar ao acesso às conferências. Foi Dina Soares, jornalista da Rádio Renascença e membro da comissão organizadora, que lançou o desafio. “E se fossem os alunos a cobrir o congresso?”
Teresa Abecasis, jornalista da Rádio Renascença, ficou responsável por reunir os coordenadores das universidades, que se mostraram “bastante recetivos” com a colaboração. Para completar a organização do projecto, foi lançado o convite a Francisco Sena Santos, António Granado e Luís Santos, que aceitaram ser os coordenadores-gerais da redação.
Pedro Afflalo – UBI
À medida que a ideia se foi concretizando, cresceu também  o entusiasmo. Com a intenção de recriar o funcionamento de uma redação multiplataforma, juntaram-se as secções tradicionais de áudio, vídeo e imprensa com a presença na web. Teresa Abecasis, responsável pelo «online», considera que a aposta no digital não podia faltar porque “é onde as pessoas estão”.
Na sala 2 cabem todos os tempos do jornalismo e, se de um lado da mesa se funciona em rede, no outro escolhem-se capas para o jornal impresso todas as manhãs. Numa altura em que se questiona o futuro do jornalismo e das suas plataformas, Luís Santos, um dos coordenadores-gerais da redação, assegura que o papel “não morreu” e que os estudantes devem continuar a contactar
Zita Moura/ U.C. 
com essa vertente.
Com as secções divididas e os respectivos coordenadores prontos para as encaminhar, o Centro Protocolar de Formação para Jornalistas (Cenjor) surgiu como “um parceiro quase inevitável”, explica Dina Soares. “Faz parte do percurso dos jornalistas pelo menos uma vez na vida”. Francisco Sena Santos destaca o trabalho feito pelo Cenjor como fundamental para “dar coesão às competências” dos alunos que, ao longo de vários meses, participaram numa formação intensiva de jornalismo multiplataforma.
Inês de Oliveira Martins/ ESCS. 
Da formação ao trabalho, faltava apenas distribuir as equipas. Os alunos puderam escolher a sua secção de acordo com os gostos pessoais e experiência profissional, embora tenha havido flexibilidade para experimentar outras áreas ao longo do Congresso. Também as relações pessoais se transformaram com a “criação de vínculos” entre estudantes e coordenadores, conta António Granado. De um tímido “você” à familiaridade do “tu”, remisturou-se a formalidade do académico com a descontração das redações.
Beatriz Carneiro/ U.P.
A narrativa do congresso contou com a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e com a presença de referências do jornalismo como Michael Rezendes, repórter norte-americano da equipa de investigação do Boston Globe que inspirou o filme “O Caso Spotlight”. No segundo dia, a redação agitou-se com a mesa redonda que reuniu 19 diretores dos principais meios de comunicação e com os testemunhos de precariedade sinalizados pelo Sindicato dos Jornalistas. Presenças como Nic Newman e Walter Dean completaram a vivência do congresso, que combinou nacional e internacional, tradição e inovação.
Joana Borges/ U. Católica

Os acontecimentos marcantes ficam registados por uma redação que também guarda as suas histórias. Memórias de oitenta jovens que experimentaram o jornalismo, vinte professores de dez instituições do Ensino Superior, e mais de duas dezenas de profissionais que partilharam esse entusiasmo. Quatro dias intensos com estudantes a correr pela escadaria do São Jorge, à procura de entrevistas de câmara e microfone na mão, a viver e a pensar como jornalistas.
Texto e fotos do MEDIA LAB do 4º Congresso dos Jornalistas

sábado, 14 de janeiro de 2017

IV Congresso dos Jornalistas: precários e desempregados agora chamam-se Freelancers


Maioria dos jornalistas tem licenciatura em comunicação e investe na formação contínua mas recebe menos de 1.000 euros por mês, indica o mais recente e abrangente inquérito aos jornalistas, desenvolvido por uma equipa do CIES-IUL (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa), em parceria com o Sindicato dos Jornalistas e o Obercom, em 2016.
Em 2016, 33,4% dos inquiridos não tinham contrato fixo e, portanto, trabalhavam em condições contratuais precárias e sujeitos a instabilidade, insegurança e fragilidade. Este grupo integra colaboradores (16,4%), dos quais a maioria (8,8%) tinha uma avença e os restantes (7,6%) trabalhavam à peça, sendo que 17% dos profissionais se assumiram como freelancers.
A maioria dos jornalistas assumiu trabalhar mais de 40 horas por semana (13,8% têm uma semana laboral de 51 a 60 horas e 9% até trabalham mais de 60 horas).
Do grande número de jornalistas que trabalha mais horas do que o previsto no seu contrato, apenas 3,9% são remunerados pelas horas extraordinárias e 10,2% são compensados em tempo de descanso pelo trabalho extra. Quase dois terços do total (63,4%) não têm qualquer compensação pelo trabalho extraordinário, demonstrando uma elevada discrepância entre a carga horária contratualizada, a prática profissional efectiva e a remuneração devida.
Uma grande percentagem de jornalistas inquiridos já passou pelo desemprego (39,2%), mas estão muito divididos quando à probabilidade de perderem o emprego no futuro próximo. Se 35,1% consideram que ficar desempregado é improvável, 40,9% acham provável, com 15,7% a afirmarem que é extremamente provável a curto prazo.


Os jornalistas consideram o exercício livre da sua profissão muito condicionado, nomeadamente por opções de agenda e condições laborais e salariais, e assumem ser pouco ou nada autónomos em relação às decisões das chefias ou administrações.

Jornalistas muito condicionados pela agenda, o salário e o medo
De acordo com os dados de um inquérito desenvolvido pelo CIES-IUL, em parceria com o Sindicato dos Jornalistas e o Obercom, os jornalistas identificam a agenda como o maior condicionalismo (47,2%), seguida das condições de trabalho (43,6%) e do salário (43,5%).
A conciliação com a vida pessoal e familiar é outro grande condicionalismo (40,2%), bem como o medo de perder o emprego, que é uma preocupação para 36,6%.
Os inquiridos indicam também a hierarquia como um condicionalismo, com 31,5% a assumirem ser pouco ou nada autónomos em relação às decisões das chefias e 41% pouco ou nada autónomos em relação às decisões das administrações.

Jornalista Maria Flor Pedroso, presidente do Congresso 
"Em cada dez jornalistas no ativo, seis ganham menos de mil euros, cinco têm vínculo precário, quatro têm recibos verdes, quatro têm medo de perder emprego e só um tem mais de 55 anos. E morremos cedo, e muitos de nós morreram demasiado cedo." 
Maria Flor Pedroso, presidente do 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses

(Congresso a decorrer até domingo no cinema S. Jorge em Lisboa) 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares fica para a história colado à página da descolonização


Mário Soares: Acho que foi feita a descolonização possível
Spínola: O Dr. Mário Soares teve comigo duas ou três reuniões pessoais, secretas, chamando-me a atenção para os perigos que estávamos correndo…
Eanes: Houve várias divergências.

A vida de Mário Soares (1924 - 2017) marcou e foi marcada por décadas de protagonismo na história contemporânea de Portugal. Particularmente o 25 de Abril e a descolonização foram páginas da história às quais o nome de Soares ficará colado para sempre. 
Foi a «descolonização possível», disse.  
A página da História voltou-se em Abril de 1974. Três meses mais tarde, quando o chefe da nova diplomacia portuguesa, Mário Soares, subiu à tribuna da ONU, a assembleia ouviu, por fim, Portugal reconhecer os princípios da Carta das Nações Unidas e afirmar solenemente o propósito de descolonizar de acordo com os princípios da Carta. Apesar de ter perdido o tempo próprio da história, Portugal acordou do sonho imperial e mandou regressar as caravelas: a descolonização fez-se, com mais ou menos traumatismos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A clara idade assombrada da poesia de Cabo Verde

João Paulo Guerra, TSF,
9 de Janeiro de 1991, Cidade da Praia

Oswaldo Osório
Inesperadamente, calou-se a algazarra da campanha eleitoral na Cidade da Praia, para ouvir a voz de um poeta. A homenagem ao poeta Oswaldo Osório marcou a abertura de um centro cultural que procura ser um ponto de encontro para os escritores cabo-verdianos.
Oswaldo Osório – pseudónimo literário de Osvaldo Alcântara Medina Custódio – nasceu na cidade do Mindelo, Ilha de São Vicente, em 25 de Novembro de 1937. Clar(a)idade Assombrada, publicada em 1987,  é o seu terceiro e mais recente volume de poesia, sucedendo a Caboverdeanamente Construção Meu Amor (1975), Cântico do habitante. Precedido de Duas Gestas (1977).
A poesia de Oswaldo Osório saiu impressa com a liberdade. Anteriormente, o poeta estivera preso duas vezes por razões políticas.

JPG - Ouvi-o referir-se, na homenagem que aqui lhe foi prestada, à língua cabo-verdiana. O que é a língua cabo-verdiana e o que é Cabo Verde em termos literários ao cabo de dezasseis anos de independência?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Histórias do Congo à margem da História


Estive por duas vezes em serviço de reportagem no Congo Kinshasa, actual República Democrática do Congo, então presidida pelo ditador Mobutu ou, como ele queria que lhe chamassem, Mobutu Sese Seko Nkuku Ngbendu wa Za Banga, isto é, O Todo Poderoso Guerreiro que, Por Sua Força e Inabalável Vontade de Vencer, Vai de Conquista em Conquista, Deixando Fogo em Seu Rastro. 
Nessas visitas, reportei as viagens de dois Presidentes da República Portuguesa que fiquei a conhecer melhor.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Cores felizes na paleta de Malangatana


Por João Paulo Guerra,
TSF, Outubro 1994

Moçambique está em Festa, uma festa com muitas cores. Nesta quadra de eleições multipartidárias, Moçambique está multicolor.
Estou na cidade de Maputo, no Bairro do Aeroporto, no atelier do pintor Malangatana Valente Ngwenya, moçambicano, 58 anos, um artista do mundo e da paz. Este homem que esteve preso três vezes pelo regime colonial, uma das quais por motivo de um quadro que pintou, o quadro “25 de Setembro”, a data do início, em 1964, da luta armada pela libertação, e que depois da independência do seu país esteve de novo detido, dessa vez num campo de reeducação, como castigo pelo seu comportamento na época colonial, este homem está também em Festa, agora que Moçambique tem eleições multicolores.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Os Olhos Azuis do cinema na Guiné-Bissau

Entrevista com o realizador guineense Flora Gomes.

João Paulo Guerra, TSF, 26 de Janeiro de 1991,
Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, Bissau


No regresso a Lisboa, após a reportagem de um processo político que culminou com a introdução do multipartidarismo na Guiné-Bissau, o repórter cruzou-se no aeroporto com o realizador de cinema Flora Gomes. Nascido em 1949 em Cadique, tabanca a sul de Bissau, uma das principais povoações produtoras de arroz no tempo colonial, Florentino Gomes foi levado pela guerrilha guineense para estudar em Conakry e mais tarde em Cuba. Voltou formado em cinema. Filmou os últimos anos de guerra e depois da independência começou a filmar histórias para o futuro do seu país.
Foi muito bem empregue o tempo de espera naquele dia de Janeiro de 1991, no aeroporto de Bissau.

Pergunta – Como é que um guineense chega a realizador de cinema?
Flora Gomes – Bom, no meu caso foi muito simples. Eu fui dos jovens que a guerrilha, quando passou pela minha aldeia, levou para Conakry para receberem instrução. Fiz a escola primária, a secundária e estudos pré-universitários…


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Luiz Pacheco: Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor …


Entrevista de João Paulo Guerra
TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas

Da autoria do escritor Luiz Pacheco sai hoje [Maio de 1992] a reedição de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Um acontecimento num país que também nas letras é geralmente de brandos costumes.


O Libertino etc., foi escrito em 1961 e publicado em 1970 provocando muito escândalo. É a narrativa de um dia passado numa Braga lúbrica. E logo Braga, a cidade dos arcebispos. O próprio autor filiou a narrativa numa corrente neo-abjeccionista.
Com 67 anos de uma vida airada, Luiz Pacheco vive actualmente em Setúbal. E é de lá, em directo, que aceita conversar sobre a reedição – para a qual deu uns retoques no texto de O Libertino… –, sobre a actualidade que, seja onde for, acompanha com atenção: a reforma da PAC ou a reserva dos coronéis, o pacote Delors 2 ou o Evangelho segundo Sousa Lara, o Tratado de Maastricht ou a nova Ponte sobre o Tejo, numa conversa de ida e volta ao mundo, com partida da Europa.

Luiz Pacheco – Europa? Qual Europa?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Cenáculo da Marquesa




Por João Paulo Guerra, 
Telefonia de Lisboa, Janeiro de 1987

          O tempo parou ali há muito tempo como que imobilizado num daguerreótipo antiquíssimo, amarelecido nos cantos, esbatido no centro do plano de conjunto. Mesmo assim, distingue-se o conjunto: onze figuras de cera em redor de uma mesa, todos eles voltados ligeiramente sobre o lado direito, fixando a posteridade.
Ilumina-se a cena e distinguem-se então as cores, tons de cinza e violeta, esmaiados sobre o fundo austero de uma estante de mogno onde jazem livros encadernados pelo pó, o bafio, o esquecimento. Reposteiros pesados coam os sons da vida e tornam mais íntimos os sussurros das conversas, por onde passam, em ladainha, os nomes de legiões de fantasmas, a memória de irremediavelmente perdidos tempos de grandeza, sonorizados pelo tilintar das porcelanas e das dentaduras postiças, o ronronar dos catarros. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

DIAS DA RÁDIO

O Serviço de Noticiários do RCP
nas páginas da revista Antena: Luís Filipe Costa,
Paulo Fernando, Manuel Bravo e Firmino Antunes.
João Paulo Guerra, Carlos Manuel e Fernando Quinas. 


textos de João Paulo Guerra,
2011 / 2012, 
no blogue 

“KUANDO OS RÁDIOS ERAM CLUBES”, 

de PAULO 
"Tac Tac" FERNANDO





Nos idos de 60/70, como grande parte dos jovens desse tempo, houve uma fase em que usei grandes barbas e cabelame que me faziam parecido com o baterista dos Marretas. A verdade é que ninguém tinha nada com isso. E menos ainda o director dos serviços de censura interna do RCP, António Augusto Moita de Deus, o Arbusto Divino, ou o Moita-Carrasco, conforme os gostos. Ele que cortasse textos ou fitas de arrasto; na minha barba e cabelo não tocava.

... FP-25 disputam share com o Papa

EM CIMA DO ACONTECIMENTO ..
Por João Paulo Guerra
10 de Maio de 1991


Naquele dia de Maio de 1991, o acontecimento era a chegada do Papa e Lisboa. E ninguém previa que pudesse acontecer alguma coisa em cima de tal acontecimento. 

       Mas aconteceu. 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

«O arcebispo de Braga absolveu-nos»

Sanches Osório,
 ex-major do MFA 
ex-dirigente  MDLP


Entrevista de João Paulo Guerra / Abril 1999

José Eduardo de Sanches Osório era major de Engenharia em 1974 e fez parte do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, no quartel da Pontinha, na madrugada de 25 de Abril. De formação monárquica e católica e pertencendo à casta dos oficiais do Corpo de Estado-Maior, Sanches Osório aderiu ao Movimento dos Capitães em 1973 para derrubar Marcelo Caetano. Ministro da Comunicação Social no II Governo Provisório, o primeiro de Vasco Gonçalves, entrou em ruptura com a revolução por alturas do 28 de Setembro. E na sequência do 11 de Março foi expulso do Exército e deixou o país clandestinamente para fugir a um mandado de captura. No exílio participou na fundação do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), liderado por Spínola e chefiado por Alpoim Calvão. Desempenhou funções de embaixador itinerante da contrarrevolução, mas diz que não levava a sério o plano do general para invadir Portugal e reconquistar o poder.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

António Macedo: Quero estar outra vez feliz na rádio


Estou muito descontente com a rádio que estou a fazer, com a forma como a rádio está a ser feita, com tudo aquilo que me rodeia (...) Quero estar outra vez feliz na rádio

António Macedo

Por João Paulo Guerra 
Entrevista editada em 15 de Outubro de 2016, data da homenagem a António Macedo, promovida pelo 
1º Acto – Clube de Teatro e Intervalo – Grupo de Teatro.

"A voz da rádio tem uma personalidade amiga e íntima, como a de um velho camarada de confiança"
Erskine Caldwell, Vagueando pela América, Editora Ulisseia 1963

"A rádio tem uma distinta personalidade humana, devida ao seu amigável e íntimo tu cá tu lá"
 Caldwell, ob. cit.

Nome?
António José Macedo Monteiro de Oliveira.
Idade?
Sessenta a cinco anos. Sessenta e seis a 4 de
Novembro, sou de cinquenta.
Nascido onde?
Lisboa, São Sebastião da Pedreira, Maternidade Alfredo da Costa.
E onde residiam os teus pais?
Na Rua do Salitre, 55, 4º Direito, onde vivi os primeiros anos de vida.
Consideras Lisboa a tua terra?
Lisboa é a cidade de que eu mais gosto e a minha terra é Lisboa. Mas tenho uma grande ligação, profunda, à Figueira da Foz porque vivi lá quatro anos, entre 1965 e 1969. Fiz lá entre o terceiro e o sexto ano do Liceu. Fiz lá muitos amigos e deixei lá, não direi muitas raízes mas muitos troncos, alguns ramos e algumas folhas. Não posso dizer que gosto da cidade mas gosto de muita gente de lá.

domingo, 13 de novembro de 2016

Ex-presidente da Guiné-Bissau indiciado por assassínio de cidadão português

Bissau estuda pedido de extradição a Portugal

Por João Paulo Guerra, Diário Económico, 
12 de Outubro de 1999

João Bernardo Vieira "Nino"
O Procurador-geral da República da Guiné-Bissau, Amine Saad, viaja hoje de Bissau para Lisboa e durante a sua permanência em Portugal vai analisar as condições para formalizar o pedido de extradição do ex-presidente guineense, João Bernardo Vieira “Nino”, acusado no seu país, entre outros crimes, da autoria moral do assassínio de um cidadão português.
«Vamos pôr em causa o estatuto de refugiado político concedido por Portugal a João Bernardo Vieira», disse ontem ao Diário Económico Amine Saad, acrescentando que só depois avaliará as condições para avançar com o pedido de extradição.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

CORAÇÕES IRRITÁVEIS - relançamento na Cidade da Horta

O autor, entre o representante da Direcção da Biblioteca
Pública da Horta e um dirigente da Associação
de ex-Combatentes do Faial
Oito meses após o lançamento em Lisboa, o romance CORAÇÕES IRRITÁVEIS da autoria de João Paulo Guerra, editado pelo Clube do Autor, foi agora relançado na Biblioteca Pública Municipal da Cidade da Horta, Faial, Açores, na passada sexta-feira, 18 de Novembro. Boa assistência, presença em massa de associados da Associação dos ex-Combatentes da Ilha do Faial. Venderam-se todos exemplares do livro disponíveis - e mais que houvessem!

Leia aqui a carreira do romance CORAÇÕES IRRITÁVEIS.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

ENTREVISTA Salgueiro Maia: "Implicado" no 25 de Abril


Fernando José Salgueiro Maia faria no dia 1 de Julho 72 anos de idade. Um dia antes, o PR entregou à viúva do Capitão de Abril, as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique com a qual, finalmente, o Estado português agraciou o herói da restauração da democracia em Portugal.

A entrevista que se segue - feita em 17 de Janeiro de 1992 - ajuda a conhecer melhor a personalidade de Fernando José Salgueiro Maia, algumas tempos do seu tempo e os acontecimentos, na primeira pessoa, do Dia das Surpresas: 25 de Abril de 1974.

  A geração de capitães que fez o 25 de Abril entrou na Academia Militar, no início dos anos 60, para uma carreira com acesso ao posto de coronel e, a partir daí, a eventuais promoções, por escolha, às estrelas do generalato. Desde o dia 1 de Janeiro [de 1992], porém, as promoções naturais da carreira acabaram no posto de tenente-coronel. E a primeira geração atingida é, precisamente, a dos capitães de 1974.

Por João Paulo Guerra, Fotos de Luís Silva para a agência CNTV,
Editada no Público e TSF, 

17 de Janeiro de 1992.


domingo, 2 de outubro de 2016

Coveiro de Santa Comba na paz dos cemitérios

Dois anos após a morte de Salazar, dois jornalistas, Adelino Gomes e João Paulo Guerra, passaram pelo cemitério de Santa Cruz do Vimieiro e, à conversa com o Sr. Vicente, o respectivo coveiro, ficaram a conhecer melhor a realidade de um país mergulhado na ordem e na paz dos cemitérios. A mentalidade da ditadura rural que atrasou Portugal ao longo de meio século estava ali, ao vivo, no cemitério do Vimieiro, debaixo daquelas pedras tumulares. O Sr. Vicente tinha conhecido Salazar em vida. Recordava-se dos seus passeios, sozinho entre os pinhais.

Entrevista de Adelino Gomes e João Paulo Guerra, Setembro 1972

A Censura, que por vezes andava distraída, deixou passar a entrevista que foi para o ar na Rádio Renascença, em Julho de 1972. 
Por acaso ou não, menos de um mês depois, porém, os programas da RR para os quais trabalhavam os dois jornalistas, Página Um e Tempo Zip, foram suspensos pela Secretaria de Estado da Informação.  

sábado, 1 de outubro de 2016

A basílica arranha-céus e a sagração dos crocodilos

O país designa-se Côte d'Ivoire e a Constituição
proíbe a tradução do nome
Costa do Marfim, pelo nosso enviado João Paulo Guerra
O Diário, 23 Dezembro 1989

Um crocodilo devora uma galinha em dois tempos rápidos: abocanha-a, tritura-a e acabou-se a galinha. Ao terceiro tempo há apenas o bolo alimentar do crocodilo, um paté de penas, carne, ossos, vísceras, amassado em cabidela.
O número da refeição dos crocodilos, servido a meio da tarde, faz parte do cartaz turístico de Yamoussoukro, capital administrativa da Costa do Marfim. A ementa consta de galinhas vivas e o espectáculo consiste na luta desigual entre uma dúzia de galinhas tontas e dezenas de vorazes e possantes sáurios. O número termina em apoteose de cacarejos aflitos, esguichos de sangue e voltear de penas. Os visitantes de Yamoussoukro veem e ouvem o espectáculo e depois, eventualmente com pena das galinhas, vão recolher-se na Basílica de Nossa Senhora da Paz, que se ergue na savana e capricha por ter uns centímetros mais que a Basílica de S. Pedro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A emoção não está prevista no manual de jornalismno

Por João Paulo Guerra, em Moçambique, O Diário, 7 de Maio de 1988


O Luís Lázaro é três anos de gente e tem um braço, o direito, com fracturas múltiplas e expostas. Nos olhos, o Luís Lázaro tem o espanto de todas as perguntas sem resposta, porque o Luís Lázaro não faz as perguntas que fazem os miúdos de três anos e porque não há respostas para as perguntas dos olhos deste miúdo de fraldas, ligaduras e aparelho de gesso. Porquê?

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O general Spínola no seu labirinto

Por João Paulo Guerra
TSF, 22 de Fevereiro de 1994,
 nos  20 anos da publicação 
de Portugal e o Futuro
         
         O general Spínola no seu labirinto:

António de SpínolaComo é do conhecimento público, servi em Angola nos anos de 1961 a 64 em desempenho de missões estritamente operacionais. Esses anos de actividade militar foram para mim uma grande escola política. Foi aí que senti que a nossa guerra do Ultramar não tinha solução militar. Anos depois, fui nomeado governador e comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné onde a minha conduta foi pautada por uma acção política evolutiva. Durante este período [Maio de 1968 – Novembro de 1973] tomei algumas iniciativas junto do Professor Marcelo Caetano no sentido de se por em prática uma nova política ultramarina, baseada no êxito alcançado na Guiné-Bissau, onde a situação atingiu um ponto de tal modo favorável a uma negociação sem condições para qualquer das partes propícia a uma permanente presença cultural portuguesa.

O labirinto do general Spínola era uma frase do historiador Arnold Toynbee: Portugal foi o primeiro império colonial e era então, na segunda metade do século XX, o último. Mas talvez viesse a ser o primeiro de uma nova era.
O labirinto do general Spínola: Que futuro para Portugal? Que integração? Em que espaço? Com quem? Que caminho? A Europa? A África Austral, passando Portugal a ser um país africano com uma colónia na Europa? A Espanha? A Aliança Atlântica? Uma Comunidade Luso-Afro-Brasileira?

António de SpínolaEstou convencido der que seria possível edificar, com pleno êxito, uma Comunidade Lusíada.