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sábado, 28 de abril de 2018

Timor-Leste 1999: VIAGEM AO FIM DO IMPÉRIO



Reportagem
 João Paulo Guerra, Setembro e Outubro, 1999, 
Diário Económico 

Uma coluna de fumo indica a direcção do centro da cidade.
«São os armazéns da Intendência» – diz-me, no caminho entre o aeroporto de Comoro e o centro de Díli, Francisco Leão, antigo corneteiro do Exército português, noutros tempos camarada de outras armas do furriel José Ramos-Horta e do 1º cabo Xanana Gusmão. E esclarece que os indonésios pegam fogo a cada edifício que abandonam na administração de Timor-Leste.
«Ontem durante o dia ardeu a sede do Departamento de Educação. À noite começaram a arder os armazéns da antiga Intendência, mesmo ao lado do Palácio do Governo», acrescenta. 


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Faz de conta que é a mina

Reportagem de João Paulo Guerra, TSF, sonorização de Paulo Castanheiro, no original áudio,
9 de Julho de 1993.
Fotos de António Cruz, datadas de 2012, cedidas pelo autor para ilustrar a transcrição da reportagem radiofónica


O quadro fixa um tempo e um lugar parados no tempo, à esquina dos anos 60 para a década de 70. Freguesia do Barco, local da Recheira, perto da nascente do Zézere, à boca das minas.
- Apolinária Fernandes: Lá está o marteleiro a furar, não é? Faz de conta que é a mina. O do outro lado está com a escada, que era o ajudante, e aqui estes, faz de conta que são os senhores engenheiros. E por cima lá estão os passarinhos, os coelhos, as árvores…

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Salgueiro Maia: "Implicado" no 25 de Abril



          O capitão Salgueiro Maia tinha 29 anos e todas as ilusões da sua geração quando, em 25 de Abril de 1974, veio de Santarém a Lisboa à frente de 240 homens numa coluna de 10 carros de combate. Em cerca de 12 horas derrubou um regime de 48 anos. Fez o que tinha a fazer e regressou á Escola Prática de Cavalaria.
       Licenciado em Ciências Sociais e Políticas e em Antropologia, Fernando José Salgueiro Maia, 47 anos [em 1992], tenente-coronel de Cavalaria, comanda o Grupo de Comando e Serviços da Escola Prática de Santarém e dirige o Museu da Cavalaria. Não quis, como capitão de Abril, as estrelas da Revolução, tal como não quer a baixa ao Hospital Militar que a doença grave de que padece justificaria. Mantém-se no activo e não se queixa por si mesmo, mas por toda uma geração de “implicados no 25 de Abril”.

Texto João Paulo Guerra, Fotos de Luís Silva, para a agência CNTV,

entrevista editada no Público e TSF, em 17 de Janeiro de 1992.


24 / 25 de Abril: O princípio era o fim da história

«E a partir de certa altura deixámos de ter dúvidas
sobre qual seria o fim da história»
Salgueiro Maia

Em 1961, esmagadas as incertezas e hesitações dos chefes militares, Salazar mandou avançar para Angola, assumindo ele próprio a pasta da Defesa Nacional. E foi com Salazar à Defesa que o Império perdeu a jóia da coroa, a Índia.

Por João Paulo Guerra, III episódio de O Regresso das Caravelas, TSF, Abril 1994


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Cores felizes na paleta de Malangatana


Por João Paulo Guerra,
TSF, Outubro 1994

Moçambique está em Festa, uma festa com muitas cores. Nesta quadra de eleições multipartidárias, Moçambique está multicolor.
Estou na cidade de Maputo, no Bairro do Aeroporto, no atelier do pintor Malangatana Valente Ngwenya, moçambicano, 58 anos, um artista do mundo e da paz. Este homem que esteve preso três vezes pelo regime colonial, uma das quais por motivo de um quadro que pintou, o quadro “25 de Setembro”, a data do início, em 1964, da luta armada pela libertação, e que depois da independência do seu país esteve de novo detido, dessa vez num campo de reeducação, como castigo pelo seu comportamento na época colonial, este homem está também em Festa, agora que Moçambique tem eleições multicolores.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

A clara idade assombrada da poesia de Cabo Verde

João Paulo Guerra, TSF,
9 de Janeiro de 1991, Cidade da Praia

Oswaldo Osório
Inesperadamente, calou-se a algazarra da campanha eleitoral na Cidade da Praia, para ouvir a voz de um poeta. A homenagem ao poeta Oswaldo Osório marcou a abertura de um centro cultural que procura ser um ponto de encontro para os escritores cabo-verdianos.
Oswaldo Osório – pseudónimo literário de Osvaldo Alcântara Medina Custódio – nasceu na cidade do Mindelo, Ilha de São Vicente, em 25 de Novembro de 1937. Clar(a)idade Assombrada, publicada em 1987,  é o seu terceiro e mais recente volume de poesia, sucedendo a Caboverdeanamente Construção Meu Amor (1975), Cântico do habitante. Precedido de Duas Gestas (1977).
A poesia de Oswaldo Osório saiu impressa com a liberdade. Anteriormente, o poeta estivera preso duas vezes por razões políticas.

JPG - Ouvi-o referir-se, na homenagem que aqui lhe foi prestada, à língua cabo-verdiana. O que é a língua cabo-verdiana e o que é Cabo Verde em termos literários ao cabo de dezasseis anos de independência?
Oswaldo Osório – A língua cabo-verdiana é a nossa língua materna. E a língua portuguesa, sem ser para nós uma língua estrangeira, é uma língua segunda, mas é também a língua oficial. A língua cabo-verdiana tem passado por vários tratamentos de natureza linguística de modo a torná-la mais plástica na literatura escrita. E tem sido feito um grande esforço no sentido da modernização da língua, estabelecimento de regras, etc., que certos jovens, como por exemplo Tomé Varela, têm vindo a investigar no campo da oralidade e escrevendo totalmente em língua cabo-verdiana.

António Macedo: Quero estar outra vez feliz na rádio


Estou muito descontente com a rádio que estou a fazer, com a forma como a rádio está a ser feita, com tudo aquilo que me rodeia (...) Quero estar outra vez feliz na rádio

António Macedo

Por João Paulo Guerra 
Entrevista editada em 15 de Outubro de 2016, data da homenagem a António Macedo, promovida pelo 
1º Acto – Clube de Teatro e Intervalo – Grupo de Teatro.

"A voz da rádio tem uma personalidade amiga e íntima, como a de um velho camarada de confiança"
Erskine Caldwell, Vagueando pela América, Editora Ulisseia 1963

"A rádio tem uma distinta personalidade humana, devida ao seu amigável e íntimo tu cá tu lá"
 Caldwell, ob. cit.

Nome?
António José Macedo Monteiro de Oliveira.
Idade?
Sessenta a cinco anos. Sessenta e seis a 4 de
Novembro, sou de cinquenta.
Nascido onde?
Lisboa, São Sebastião da Pedreira, Maternidade Alfredo da Costa.
E onde residiam os teus pais?
Na Rua do Salitre, 55, 4º Direito, onde vivi os primeiros anos de vida.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Wiriamu passados que foram vinte anos

Por João Paulo Guerra,
com Manuel Vilas Boas e Fernando Alves
TSF, 16 de Dezembro de 1992

Houve um grupo de soldados que chegou lá na aldeia, juntou a gente e depois fuzilou toda a gente, por fim pôs capim em cima dos corpos e pôs fogo. E alguns que recuperaram os sentidos e com feridas de balas nos braços e queimaduras conseguiram fugir. Entre esses estava o António Michone, que fugiu e veio aqui para o hospital, contou o que aconteceu e curou-se.”

         Terá sido assim, há vinte anos, em Wiriamu, Tete, Moçambique.
         É pelo menos o que conta o padre Domingos Ferrão, ao tempo missionário português, nos arredores de Tete, hoje [Dezembro de 1992] moçambicano e vigário-geral da diocese. 


quinta-feira, 12 de abril de 2018

A basílica arranha-céus e a sagração dos crocodilos

O país designa-se Côte d'Ivoire e a Constituição
proíbe a tradução do nome
Costa do Marfim, pelo nosso enviado João Paulo Guerra
O Diário, 23 Dezembro 1989

Um crocodilo devora uma galinha em dois tempos rápidos: abocanha-a, tritura-a e acabou-se a galinha. Ao terceiro tempo há apenas o bolo alimentar do crocodilo, um paté de penas, carne, ossos, vísceras, amassado em cabidela.
O número da refeição dos crocodilos, servido a meio da tarde, faz parte do cartaz turístico de Yamoussoukro, capital administrativa da Costa do Marfim. A ementa consta de galinhas vivas e o espectáculo consiste na luta desigual entre uma dúzia de galinhas tontas e dezenas de vorazes e possantes sáurios. O número termina em apoteose de cacarejos aflitos, esguichos de sangue e voltear de penas. Os visitantes de Yamoussoukro veem e ouvem o espectáculo e depois, eventualmente com pena das galinhas, vão recolher-se na Basílica de Nossa Senhora da Paz, que se ergue na savana e capricha por ter uns centímetros mais que a Basílica de S. Pedro.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Os Olhos Azuis do cinema na Guiné-Bissau

Entrevista com o realizador guineense Flora Gomes.

João Paulo Guerra, TSF, 26 de Janeiro de 1991,
Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, Bissau


No regresso a Lisboa, após a reportagem de um processo político que culminou com a introdução do multipartidarismo na Guiné-Bissau, o repórter cruzou-se no aeroporto com o realizador de cinema Flora Gomes. Nascido em 1949 em Cadique, tabanca a sul de Bissau, uma das principais povoações produtoras de arroz no tempo colonial, Florentino Gomes foi levado pela guerrilha guineense para estudar em Conakry e mais tarde em Cuba. Voltou formado em cinema. Filmou os últimos anos de guerra e depois da independência começou a filmar histórias para o futuro do seu país.
Foi muito bem empregue o tempo de espera naquele dia de Janeiro de 1991, no aeroporto de Bissau.

Pergunta – Como é que um guineense chega a realizador de cinema?
Flora Gomes – Bom, no meu caso foi muito simples. Eu fui dos jovens que a guerrilha, quando passou pela minha aldeia, levou para Conakry para receberem instrução. Fiz a escola primária, a secundária e estudos pré-universitários…


segunda-feira, 9 de abril de 2018

A emoção não está prevista no manual de jornalismo

Por João Paulo Guerra, em Moçambique, O Diário, 7 de Maio de 1988


O Luís Lázaro é três anos de gente e tem um braço, o direito, com fracturas múltiplas e expostas. Nos olhos, o Luís Lázaro tem o espanto de todas as perguntas sem resposta, porque o Luís Lázaro não faz as perguntas que fazem os miúdos de três anos e porque não há respostas para as perguntas dos olhos deste miúdo de fraldas, ligaduras e aparelho de gesso. Porquê?

domingo, 8 de abril de 2018

Luiz Pacheco: Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor …


Entrevista de João Paulo Guerra
TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas

Da autoria do escritor Luiz Pacheco sai hoje [Maio de 1992] a reedição de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Um acontecimento num país que também nas letras é geralmente de brandos costumes.


O Libertino etc., foi escrito em 1961 e publicado em 1970 provocando muito escândalo. É a narrativa de um dia passado numa Braga lúbrica. E logo Braga, a cidade dos arcebispos. O próprio autor filiou a narrativa numa corrente neo-abjeccionista.
Com 67 anos de uma vida airada, Luiz Pacheco vive actualmente em Setúbal. E é de lá, em directo, que aceita conversar sobre a reedição – para a qual deu uns retoques no texto de O Libertino… –, sobre a actualidade que, seja onde for, acompanha com atenção: a reforma da PAC ou a reserva dos coronéis, o pacote Delors 2 ou o Evangelho segundo Sousa Lara, o Tratado de Maastricht ou a nova Ponte sobre o Tejo, numa conversa de ida e volta ao mundo, com partida da Europa.

Luiz Pacheco – Europa? Qual Europa?

quinta-feira, 5 de abril de 2018

... FP-25 disputam share com o Papa

EM CIMA DO ACONTECIMENTO ..
Por João Paulo Guerra
10 de Maio de 1991


Naquele dia de Maio de 1991, o acontecimento era a chegada do Papa e Lisboa. E ninguém previa que pudesse acontecer alguma coisa em cima de tal acontecimento. 

       Mas aconteceu. 

O Cenáculo da Marquesa



Por João Paulo Guerra, 
Telefonia de Lisboa, Janeiro de 1987

          O tempo parou ali há muito tempo como que imobilizado num daguerreótipo antiquíssimo, amarelecido nos cantos, esbatido no centro do plano de conjunto. Mesmo assim, distingue-se o conjunto: onze figuras de cera em redor de uma mesa, todos eles voltados ligeiramente sobre o lado direito, fixando a posteridade.
Ilumina-se a cena e distinguem-se então as cores, tons de cinza e violeta, esmaiados sobre o fundo austero de uma estante de mogno onde jazem livros encadernados pelo pó, o bafio, o esquecimento. Reposteiros pesados coam os sons da vida e tornam mais íntimos os sussurros das conversas, por onde passam, em ladainha, os nomes de legiões de fantasmas, a memória de irremediavelmente perdidos tempos de grandeza, sonorizados pelo tilintar das porcelanas e das dentaduras postiças, o ronronar dos catarros. 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Coveiro de Santa Comba na paz dos cemitérios

Dois anos após a morte de Salazar, dois jornalistas, Adelino Gomes e João Paulo Guerra, passaram pelo cemitério de Santa Cruz do Vimieiro e, à conversa com o Sr. Vicente, o respectivo coveiro, ficaram a conhecer melhor a realidade de um país mergulhado na ordem e na paz dos cemitérios. A mentalidade da ditadura rural que atrasou Portugal ao longo de meio século estava ali, ao vivo, no cemitério do Vimieiro, debaixo daquelas pedras tumulares. O Sr. Vicente tinha conhecido Salazar em vida. Recordava-se dos seus passeios, sozinho entre os pinhais.
- João Paulo Guerra - Ele costumava passear sozinho?
-         Coveiro - Sozinho, pela estrada fora, sozinho. Mas a polícia ia longe dele, lá nos pinhais, uns do lado e outros do outro.

Entrevista de Adelino Gomes e João Paulo Guerra, Julho 1972

A Censura, que por vezes andava distraída, deixou passar a entrevista que foi para o ar na Rádio Renascença, em Julho de 1972. 
Porém, por acaso ou não, menos de um mês depois, os programas da RR para os quais trabalhavam os dois jornalistas, Página Um e Tempo Zip, foram suspensos pela Secretaria de Estado da Informação.  

Entre milhafres e Açores

Por João Paulo Guerra,
o diário, 
20 de Dezembro 
de 1986

Naquele tempo, João Bosco Mota Amaral reuniu-se com os jornalistas e disse: «Este ano tive algumas derrotas. Assumo-as mas, no entanto, considero-as injustas. Foi um ano difícil».

terça-feira, 3 de abril de 2018

ANGOLA: Nos intervalos de uma reportagem de guerra


Crónicas à margem de uma reportagem na guerra em Angola

Por João Paulo Guerra, suplemento de O Diário, Junho de 1985


Kuilo-Kuango 1985
Na última semana de Abril [1985], saímos da cidade do Lubango a caminho da fronteira no Cunene, iniciando a viagem a bordo de um helicóptero Mig 15 que transportava, para além de dois jornalistas, um bidão atestado com 500 litros de gasolina. Indesejável companhia. Voávamos para sul da Cahama, Môngua e Xangongo, tínhamos passado os cenários de terríveis batalhas entre as tropas cubano-angolanas e as sul-africanas, seguíamos com destino ao que restava de Onjiva, onde talvez apanhássemos um camião para Namacunde e depois seria a pé, dali até à fronteira, em Ochikango, seguindo o trilho por entre campos de minas.

Éramos dois jornalistas, um angolano e um português. Quem me acompanhava era o David Mestre, jornalista da Angop e poeta. David Mestre era o pseudónimo de um homem de uma coerência à prova da maior coragem e despojamento, que trocara um sonante apelido português, e consequentes benesses, pela condição de cidadão de Angola. Para além disso era poeta e eu levava na bagagem o livro do David publicado no ano anterior pela Ulmeiro e intitulado "Nas barbas do bando". Ainda mais além de tudo isto o David era um grande companheiro de viagem. 
Tínhamos desenrascado boleia a bordo de um transporte militar para chegar à fronteira com a Namíbia, onde queríamos verificar se os sul-africanos, como diziam e tinha sido anunciado ao mundo, se teriam retirado do território de Angola. E a verdade é que não tinham, ao contrário do que os jornais publicavam. O grosso das tropas sul-africanas estava, à vista, do outro lado da fronteira de Angola com a Namíbia, ocupada ilegalmente pelos sul-africanos. Mas havia destacamentos de tropas sul-africanas em território de Angola, nas barragens de Ruacaná e Calueque, 12 km para o interior da linha de fronteira. E essa era uma notícia mundial em primeira mão, um scoop, como dizem os ingleses. 
Desta vez percorri Angola, verdadeiramente de Cabinda ao Cunene, como reza a palavra de ordem do Governo do MPLA, sempre a "desenrascar" boleias aéreas. Não sei se o momento mais dramático de toda esta digressão aérea foi o risco do voo de helicóptero com 500 litros de gasolina a bordo sobre cenários reais de um país em guerra; se foi a tempestade que apanhou o voo nocturno do Lubango para Luanda, com o avião aos tombos, carga a rolar pela cabina, adultos aos gritos, crianças a chorar; se foi o voo numa serena manhã de Abril de Luanda para Kuilo Kuango, um lugar que não vem nos mapas, localizado no Nordeste da província do Uíge, na linha de fronteira com o Zaire, e nos tempos da guerra colonial uma base inexpugnável da FNLA. Admito que o momento mais perigoso tenha sido este.
Viajámos então à boleia do ministro da Segurança, Dino Matross, a bordo de um helicóptero com tripulação soviética, e a viagem, que nos disseram que duraria menos de uma hora, já ia em hora e meia quando, subitamente, a inquietação se instalou a bordo. Era apenas isto: os pilotos soviéticos tinham-se perdido e pelo tempo e a direcção do voo estaríamos nesse momento violando em profundidade o espaço aéreo do Zaire. Ora um helicóptero tripulado por soviéticos, transportando um ministro angolano, em violação flagrante do espaço aéreo do Zaire, seria um belo pretexto para represálias do regime de Mobutu Sese Seko, sempre à procura de motivos para manter-se em guerra com Angola. Em pleno conflito bipolar, éramos passageiros de um transporte aéreo do Leste, aliado de Luanda, a violar o espaço aéreo de um protegido pelo Oeste, armado com mísseis terrar-ar Stinger capazes de abater o helicóptero…
Foi uma crise dos mísseis à minha pequeniníssima dimensão…

Ochikango, a última fronteira
Beber no Lubango

Ao contrário de Luanda, onde neste ano de 1985 não é possível sair de casa e comprar uma garrafa ou beber um copo de água em nenhum estabelecimento, no Lubango há cervejarias abertas e até uma fábrica de cervejas que, como quase tudo no Sul de Angola, pertence a Venâncio Guimarães Sobrinho, o sogro do empresário português Cardoso e Cunha.
Propus-me fazer uma reportagem na Fábrica da Cerveja Ngola e lá fui, ao volante de um jipe que tínhamos desenrascado, até à Fábrica, nos subúrbios do Lubango. Falei com os directores e com trabalhadores da Fábrica, observei o processo de produção, provei a cerveja gelada que pinga no termo da linha da filtragem e preparava-me para me vir embora quando o director me perguntou:
«Como veio até cá?»
Respondi-lhe que tinha um jipe à porta e ele retorquiu:
«Ponha-o cá dentro».
Assim fiz e o director deu ordem para carregarem 300 garrafas de cerveja no jipe. Não sei se isto pode ser considerado um suborno, mas garanto que a gentileza, que é um uso da terra de Angola, nestes tempos, em nada se intrometeu com a reportagem.
Voltei ao Hotel mas sabia que não podia deixar o jipe nem um minuto, sob pena de ficar sem uma única garrafa. Buzinei, veio o porteiro e pedi-lhe para mandar chamar o David Mestre que estava a dormir a sesta no quarto número tal. Chegou ensonado mas despertou num ápice quando lhe falei de 300 garrafas de cerveja a bordo.
«Vamos beber para casa do Zé Pequeno», alvitrou.
E lá iniciámos a marcha. Acontece que o David conhecia mesmo toda a gente no Lubango, onde tinha sido correspondente da Angop, e pelo caminho cumprimentava os amigos com um convite:
«Temos 300 cervejas e vamos para casa do Zé Pequeno».
Cada um que se juntava á caravana chamava, por sua vez, outros amigos.
«Temos 300 cervejas e vamos para casa do Zé Pequeno».
Chegámos a casa do Zé Pequeno com uma multidão a seguir o jipe em passo de corrida. Não cabíamos todos em casa do Zé Pequeno e as 300 cervejas não davam grande coisa a dividir por tanta gente.
Dias depois, fui com o David Mestre a outra unidade de produção a laborar na cidade, neste caso uma fábrica de destilados. Nunca mais vamos esquecer a declinação da linha de produção da fábrica, que vai dos fermentados caseiros filtrados em capim, aos destilados industriais: Rum, Blunga, Macau, Gorgorinho, Bicoacho e Aguardante Tempestade. 
Passámos a usar entre nós, como senha e contra-senha, esta ordem crescente na sucessão das bebidas explosivas do Lubango. Dizia-se que à Aguardente Tempestade bastava tirar a rolha para cair para o lado.
Mas foi o que nos valeu, foi a garrafa de aguardente que trouxemos como recordação na fábrica de destilados do Lubango, quando no regresso muito turbulento para Luanda, num voo nocturno, o avião foi apanhado por uma tremenda e verdadeira tempestade. Sinceramente, toda a gente a bordo estava a admitir que não chegaria a Luanda. Era pois a derradeira ocasião para abrir a garrafa. Abrimos, bebemos, e os tripulantes não entendiam por que razão se ria tanto um par de jornalistas brancos mesmo quando o avião estava em vias de se despenhar.
Avião? Mas qual avião? Naquela noite, do Lubango para Luanda, nós viajámos transportados nas asas da Tempestade

Noites do Lubango

Numa das noites no Lubango, durante o périplo por Angola, na companhia do jornalista angolano David Mestre, fomos despejados do Hotel, pois tínhamos excedido o prazo da nossa marcação e havia outros hóspedes a chegar. Mudámo-nos então para uma pensão.
Não havia de ser nada. Na primeira noite no Lubango, ainda sem marcação no Hotel, ficáramos numa casa da juventude, onde costumam hospedar-se equipas desportivas que visitam a cidade. As casas de banho não têm luz e o chão apresenta uma consistência viscosa, dormimos em tarimbas, cobertos por mantas encardidas, e de manhã eu acordei sentindo qualquer coisa a passear por cima da minha manta. Pareceu-me ser uma galinha mas não me atrevi a olhar e decidi pedir o parecer do David. Chamei-o e quando consegui que ele respondesse perguntei:
«David: anda alguma galinha a passear por cima de mim na minha manta?».
Ele abriu um olho, olhou e respondeu:
«Anda».
E virou-se para o outro lado.
Ondjiva
Quanto à primeira dormida na pensão recolhemos tarde, depois de muito trabalho e de muita conversa em casa de amigos do David. Acordei estremunhado, manhã cedo, com alguém a bater insistentemente à porta do quarto. E como estava num país estrangeiro achei melhor que fosse o angolano a ver quem era. Chamei por ele, insisti, até que o David acordou e foi abrir. Eram sete da manhã e quem batia à porta do quarto eram umas miúdas. Na pensão estava hospedado um cantor angolano de intervenção muito em voga, que cantava grandes arrazoados políticos e usava o sugestivo nome artístico de Proletário.

David Mestre
(1948 - 1998)




E perguntaram as miúdas que batiam à porta do quarto:
«É aqui que está o Proletário?».
E o David Mestre, impassível, sonolento mas de resposta imediata:
«Não. Aqui só está a pequena burguesia».


Por João Paulo Guerra, suplemento de O Diário, Junho de 1985


«O arcebispo de Braga absolveu-nos»

Sanches Osório,
 ex-major do MFA 
ex-dirigente  MDLP


Entrevista de João Paulo Guerra / Abril 1999

José Eduardo de Sanches Osório era major de Engenharia em 1974 e fez parte do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, no quartel da Pontinha, na madrugada de 25 de Abril. De formação monárquica e católica e pertencendo à casta dos oficiais do Corpo de Estado-Maior, Sanches Osório aderiu ao Movimento dos Capitães em 1973 para derrubar Marcelo Caetano. Ministro da Comunicação Social no II Governo Provisório, o primeiro de Vasco Gonçalves, entrou em ruptura com a revolução por alturas do 28 de Setembro. E na sequência do 11 de Março foi expulso do Exército e deixou o país clandestinamente para fugir a um mandado de captura. No exílio participou na fundação do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), liderado por Spínola e chefiado por Alpoim Calvão. Desempenhou funções de embaixador itinerante da contrarrevolução, mas diz que não levava a sério o plano do general para invadir Portugal e reconquistar o poder.


segunda-feira, 2 de abril de 2018

Maria Carlota Álvares da Guerra, por João Paulo Guerra


Estou a olhar as tuas velhas fotografias, mãe, e parece que estou a ouvir-te. Tinhas uma voz fresca, timbrada e bem colocada, com a qual em pequeno me embalavas cantando fados dolentes e, mais crescido, me ensinavas a dizer poemas. A questão é que me pediram que falasse de ti e eu vim visitar a memória ao álbum das recordações a preto e branco.

Na belíssima fotografia na relva do Gandarinha, em Cascais, nos anos 40, a mãe ao meio, a Maria do Céu e eu, um de cada lado, parecemos um cartaz de um filme sobre a felicidade: Mãe e filhos encontram-se bem. 
    A mãe cuidava de embalar as nossas pequenas vidas com belas histórias, poesia, cantigas e disparates só nossos que criavam a nossa intimidade e nos faziam rir até às lágrimas. E foi assim, guiados pela sua voz, que nós demos os primeiros passos na vida, num mundo com alguma fantasia, muita imaginação, um certo delírio. Um pequeno mundo fechado, protegido, sem grandes contactos com o exterior, enquanto isso foi possível. Um mundo no qual a mãe, Maria Carlota, andava uns bons anos à frente das mentalidades da época. Era uma mulher livre e independente numa sociedade tacanha e preconceituosa.


Também era uma mãe divorciada e uma mulher sozinha, estigma que sugeria todos os olhares turvos do tempo e do lugar. E até fumava, calcule-se. E andava a cavalo, imagine-se. Uma vez por outra foi buscar-me à escola a cavalo e lá vim eu, à garupa do Caranguejo. O máximo! 
Os que falavam era por inveja. 
Vivíamos com os avós maternos numa pequena quinta em Cascais que o avô João Guerra, de Monção, transformara numa casa à moda do Minho, com vinhas e latadas. A avó Carlota, ribatejana, tratava da casa e cozinhava que era um regalo. Eu mais a minha irmã, Maria do Céu, crescíamos em contacto com a terra. A mãe jardinava e ensinava-nos os segredos da jardinagem. O avô, farmacêutico reconvertido em industrial da pesca, matava saudades cultivando a terra, por desfastio. E, uma vez por ano, uma junta de bois lavrava a terra para semear o milho suficiente para alimentar, durante um ano, uma enorme capoeira de galinhas. A recolha dos ovos, por entre o matagal da capoeira, era atribuição minha e da Maria do Céu: «Embora ver se há ovos?». E lá íamos: Bora!

Até que, crescendo nós, a casa se tornou pequena. Mudámos então para um casarão em frente da Cidadela e vieram as mobílias da casa fechada de Lisboa, uma fonte de sombras e segredos, fechados em armários, gavetas, malas e caixas, que nós visitávamos, de tempos a tempos, fascinados na infância. Mais para o fim da vida do avô, a família voltou ao Casal de Santa Maria, a casa rústica da nossa infância, com os seus pomares e mistérios. Dizia-se que em noites de luar o “Tio Almeida” se sentava junto à sua árvore preferida, uma malata, mesmo em frente da janela da cozinha. O “Tio Almeida” era um fantasma residente.

    A mãe era muito jovem e nós, crescendo, fomo-nos aproximando da sua idade. Verdade. Houve muitas fases da vida em que tínhamos amigos comuns, uma trupe de gente gira com a qual estava sempre a acontecer alguma coisa, alguém estava de chegada ou ia alguém partir para qualquer lado, estava sempre alguém a passar por dentro de qualquer acontecimento. Nós vivíamos num mundo um tanto sobressaído dos livros, envolvidos por leituras em família, mas também um pouco como personagens de uma ficção que recreávamos. A cultura dominante era portuguesa. Mas sobre a cultura portuguesa, nesses tempos, reinava a cultura francesa. Na telefonia ouvíamos fados, canções portuguesas e francesas que a mãe trauteava, até que chegou o rock and roll, na bagagem dos primos que voltaram da América. Quando o gira-discos entrou lá em casa era já a idade do rock
        A mãe lia e traduzia-nos em directo Jacques Prévert. Ainda tenho uma edição de Paroles que havia lá em casa. É da Gallimard, 1949. Mas tínhamos um livro especial à cabeceira das nossas vidas. Intitulava-se “Histórias de Dona Redonda e da Sua Gente”, de Virgínia de Castro e Almeida. De alguma maneira o nosso mundo confundia-se com o imaginário delirante das personagens e enredos de Dona Redonda, a Zipriti, o Bu, a Dona Maluka, a Dona Catapulta, no cenário da Charneca e na estalagem do Monte do Toutiço.
A trupe de amigos era constituída à semelhança da mãe, sempre também a fazer alguma coisa para além do seu trabalho. Escrevia poemas e histórias, coreografou um bailado, encenou sucessivas peças representadas entre amigos. Eu entrava numa dessas peças, com uns bigodes postiços e respondia à deixa «Vai chover», com uma tirada sentenciosa: «Que chova. Valha-nos o tempo com a sua coerência, já que os homens não querem saber da coerência para nada». Era no tempo em que o tempo queria saber da coerência. Eu teria uns 13 anos. A minha irmã, Maria do Céu Guerra, disse mais tarde numa entrevista que o actor da família era eu. Ora, ora.
A vida despreocupada que vivíamos era um tanto de ficção. Uma noite, quando pensavam que eu já dormia, a mãe e a avó cochichavam sobre dificuldades de dinheiro. O negócio de pescas do avô estava em vias de ser engolido pela frota dos tubarões do almirante Tenreiro. O avô ia vender o único barco que não tinha sido levado por hipotecas - ou por naufrágios, como aconteceu em 1947 com o belo lugre à vela de três mastros, o "Maria Carlota" - e comprar um pequeno prédio de rendimento. 
                                                        O naufrágio do Maria Carlota pintado pelo 
                                    comandante de um dos navios que o socorreram

Mas era também hora da mãe trocar o lugar de regente escolar por algo mais efectivo e rentável. E havia um horizonte: a mãe tinha respondido a um anúncio que pedia uma redactora para uma revista feminina com lançamento à vista. Foi assim que nasceu a Crónica Feminina, em Novembro de 1956, com Milai Bensabat como directora e Maria Carlota Álvares da Guerra como chefe de redacção. E ao nosso imaginário de crianças acrescentaram-se então histórias, casos e segredos, ocupações e trabalhos, consultórios diversos, que diziam alguma coisa às mulheres, fossem elas princesas, donas de casa, trabalhadoras.
Chevalier e Maria Carlota
Eu e a Céu, como sempre, e apesar do carácter profissional da ocupação da mãe, envolvíamo-nos. Creio bem que a Céu foi modelo juvenil para uma ou outra capa da revista. Eu desempenhei a primeira actividade com carácter jornalístico: fiz fotos para entrevistas da mãe – teria uns 16 / 17 anos - e lembro-me de fotografar entrevistas de Maurice Chevalier, Fernandel, Serge Lifar, Sacha Distel, pelo menos. E até participei numa fotonovela da Crónica. Fazia, não me lembro bem, mas talvez papel de parvo. E a Maria Carlota tinha ideias e iniciativas que só muito mais tarde passaram pela cabeça dos jornais. Por exemplo, foi apanhar ao Entroncamento o comboio que trazia para Lisboa o jovem cantor Joselito e o “Pequeno Rouxinol” desembarcou em Santa Apolónia pela mão… da Crónica Feminina.
A Crónica não era propriamente sufragista – apesar das mulheres não terem então direito a voto em Portugal – e ainda menos feminista. Mas a revista pôs as mulheres a ler – o que já não foi pouco - a ler nos transportes, nas salas de espera, nos intervalos do trabalho, no cabeleireiro. A Crónica Feminina cabia na malinha de mão e esse formato, associado ao preço (1$50), foi o primeiro segredo da revista, que chegou aos 150 mil exemplares semanais. Naquele tempo, 150 mil exemplares nem A Bola. O segundo foi o conteúdo tratando assuntos de interesses de mulheres, ligado à vida, ao quotidiano. Na altura, as «cabeças pensantes» trataram com alguma arrogância a revista, que não tinha o ‘glamour’ da Elle ou da Marie Claire, que se vendiam em Portugal nas edições francesas. Mas hoje até se lhe apropriam do título, ao que julgo sem sequer pedir licença.
Guiados pela educação que a mãe nos dera, a Maria do Céu escreveu um livro de poemas – “São Mortas as Flores”, Editorial Organizações, Lisboa 1963 - depois foi para o teatro, na Faculdades de Letras, na Casa da Comédia, no Teatro Experimental de Cascais. Eu fui para a rádio, depois para os jornais, depois para a rádio, depois para os jornais, etc. Comecei, ainda estudante universitário, com uma actividade pré-profissional na Rádio Renascença e, de algum modo, pela mão da mãe. A Maria Carlota, do trabalho na Crónica e da passagem pelas crónicas na rádio, conhecera o Dinis de Abreu, estagiário do Diário Popular a quem fora confiado o projecto de produzir e realizar um programa de rádio, para jovens, nas tardes de sábado na Rádio Renascença. Uma espécie de “Salut les Copains”, então em voga na rádio francesa. O projecto intitulou-se “Nova Vaga” e juntou os jovens Maria do Céu Guerra e João Mota, a falarem de teatro, Lauro António, a falar de cinema, Fernando Correia, a falar de desporto, eu a falar de música, Daniel Ricardo e Dinis de Abreu a falarem de tudo um pouco, todos em directo para o gravador do José Manuel Moreno Pinto.
Amália, Maria Carlota,  Greco
De maneira que a Maria Carlota, para além de mãe, uma amiga e uma irmã mais velha, passou também a ser camarada de profissão. O projecto do programa “Nova Vaga” não durou muito. Mas no final o Joaquim Pedro convidou-me para estagiar como locutor na RR. E ao fim de um ano de estágio na RR fui convidado pelo Luís Filipe Costa, via Matos Maia, para integrar a equipa do Serviço de Noticiários do Rádio Clube Português. Fui a correr. Na rádio não cheguei a ser contemporâneo da minha mãe que, entretanto, voltara à Crónica Feminina. Mas tivemos colegas e ficámos com amigos comuns.


Há uma foto tua, mãe, ainda a preto e branco, com gente da rádio, num almoço em Porto Alto. Estás tu, elegantíssima, entre o Cândido Mota, imberbe, e o João Martins. E com a tua letra está escrito no verso: O Trio Admira!

Irónica sempre e polemista terrível, era assim a Maria Carlota. Uma vez a Vera Lagoa – que nutria pela minha mãe um ódio de estimação amplamente retribuído – atreveu-se a meter-se com ela numa crítica no Diário Popular, zurzindo uma crónica da rádio. Maria Armanda Falcão, o nome real de Vera Lagoa, tinha-se separado recentemente de José Tengarrinha e, na resposta à crítica venenosa no Diário Popular, a Maria Carlota escreveu, ainda com mais veneno, qualquer coisa como isto: “Para que você me atingisse precisaria de ter garra. E você já nem sequer tem garrinha».

A Maria Carlota trabalhou em dois períodos na Crónica Feminina e, pelo meio, escreveu crónicas e programas para a rádio, transmitidos na Renascença, primeiro, depois no RCP. Quanto à Crónica Feminina acabou mal. Quando a mãe regressou, dos patrões iniciais, homens sérios e empreendedores, Mário de Aguiar e António Dias, um falecera e outro passara o negócio. Quando a Agência Portuguesa de Revistas alegadamente faliu, a minha mãe viu-se no desemprego sem um centavo de indemnização. E a Maria Carlota acabou a vida profissional a fazer alguns biscates para jornais e revistas e traduções, muito mal remuneradas, embora premiadas algumas delas, e depois a receber uma pensão baixíssima. E ainda teve que pagar os descontos que, na sua segunda passagem pela Agência Portuguesa de Revistastinham ficado pelo caminho entre a empresa e a Caixa dos Jornalistas.
        Eu estive dez anos no RCP, contando dois anos e meio no serviço militar. Na tropa, tinha já concluído o Curso de Oficiais Milicianos em Mafra quando a minha mãe teve uma conversa muito séria comigo. Perguntou-me se eu queria deixar o País para não ir à guerra, dizendo-me que compreenderia e me apoiaria na medida do possível. A questão que me pôs não era de objecção de consciência mas de medo e sobrevivência. Disse-lhe que não, que a minha vida era aqui. 

  E assim, numa manhã de Julho de 1965, a mãe foi ao Cais da Rocha despedir-se de mim à partida do barco para Moçambique e a última imagem que vi no cais, já da amurada no paquete, foi a mãe a amparar a minha irmã que desfalecia de comoção. Enquanto estive em Moçambique, morreu o meu avô, João Guerra, pai da minha mãe, menos de um mês depois nasceu-lhe o primeiro neto, o Paulo, meu filho mais velho. E após a morte da Calhó, a Maria do Céu encontrou num armário da casa materna, dentro de uma gaveta, atadas com uma fita e um laço, todas as cartas que eu escrevi à mãe, desde a primeira escala na viagem para Moçambique até ao anúncio do embarque de regresso a casa: 
                            
                                                            
                                                         
  - "A mãe diz-me que o Paulinho já anda ...           
... mas aqui o tempo não passa..."


Pela parte dos avós maternos a família era de formação muito conservadora. A avó Carlota era uma herdeira arruinada de uma família de proprietários rurais de Salvaterra de Magos, alguns dos quais regressados ricos da emigração no Brasil. Era uma senhora pequenina e redonda, muito terna, que dizia ingenuidades deste género: «O racismo é uma coisa horrível. Eles não têm culpa nenhuma de serem pretos». O avô era situacionista, presidente do Grémio dos Armadores de Pesca do Bacalhau. A única conversa que o avô teve connosco sobre política foi para desabafar que as eleições do regime eram uma grande maçada: ele tinha que votar em Cascais, onde residia, em Lisboa, onde era a sede do Grémio, e na outra banda, onde os barcos descarregavam e punham a secar o pescado. A mãe detestava o carácter repressivo do regime, a tacanhez, o obscurantismo. Mas não falava explicitamente de política. No entanto, nunca se opôs, quando crescemos, a que tivéssemos as nossas ideias e opções associativas, culturais, políticas e agíssemos em consequência.

Chalé Brito: o casarão de São João do Estoril
Ao longo da vida, por contingências diversas, nem sempre mantivemos uma relação de muita proximidade. A vida trouxe-nos, a mim e à Maria do Céu, para Lisboa e a Calhó - como a minha irmã e eu sempre lhe chamámos desde pequenos - viveu em S. João do Estoril, num casarão de três andares onde sonhou juntar filhos e netos. Mas o projecto de condomínio familiar do início dos anos 70 fracassou rapidamente. E a Calhó lá ficou no imenso casarão, onde os netos passavam alguns períodos de férias, a dois passos da praia da Azarujinha, vivendo episódios que ainda hoje recordam no meio da maior galhofa. Eu e a Maria do Céu, com as nossas vidas, aparecíamos de vez em quando. Era sempre um poiso para voltar a juntar amigos e família.

A mãe ainda viveu mais uma vez em Cascais, que adoptara como sua terra, com os seus cães e gatos, ia e vinha sozinha de comboio, até que a convencemos a vir para mais perto de nós. Veio viver para a Graça e creio que foi o início do seu fim. Mas com efeito voltámos a ver-nos com mais frequência, fazíamos grandes almoços de família no pequeno quintal da sua casa, conversávamos sobre o trabalho nos jornais nos dias de hoje. Eu explicava-lhe o circuito tecnológico das notícias, reportagens e crónicas, da fonte ao papel impresso, como ela me ensinara a maquetar a página de uma revista, quando o fazia de olhos fechados na Crónica Feminina. Quando o jornal em que eu trabalhava me mandou para Timor, em 1999, a Clara, minha mulher, teve grande cuidado em lhe ocultar a situação. Mas poucos dias depois, passando num quiosque ao pé de casa, ela leu na primeira página do Diário Económico: «Díli, do nosso enviado, João Paulo Guerra». E comentou mais tarde: «Malandro, não me disseste nada».
Mesmo quando aposentada não reformou o seu dinamismo, entusiasmo, determinação e necessidade de fazer coisas. Traduzia livros para a Bertrand e peças de teatro para A Barraca, andava sempre a imaginar projectos e a propor ideias. E pouco depois de ser forçada a parar – após a fatal fractura do colo do fémur que ataca as mulheres de idade – recuperou corajosamente, depois foi-se abaixo, andou entre a minha casa e mais pela casa da Céu e um domingo de Setembro de 2002 morreu.

  Encontro muitas vezes a minha mãe, muitos anos após a sua morte. É em conversa com amigos comuns que, passados todos estes anos, me falam dela como a minha memória acha que ela bem merece. «A Maria Carlota? Uma mulher de armas», diz o Armando Baptista-Bastos. O José Luís Gordo rima ternura e saudade quando fala da primeira entrevista que deu, ele e Maria da Fé, e foi à Maria Carlota, para a Crónica Feminina. Linda é a história que conta o escultor Francisco Simões. Enquanto professora primária, antes de ser jornalista, a mãe esteve um ano lectivo colocada a dar aulas na ortopedia pediátrica do Hospital da Parede. O Francisco Simões era o único aluno, aprendeu, curou-se, cresceu forte, capaz de manipular as pedras onde encontra formas belíssimas insuspeitadas, e fala da Maria Carlota com um enorme carinho. 

Olho as fotografias, a cores, dos teus últimos anos de vida, mãe. Tens perto de 80 anos, o olhar mantém a mesma vivacidade, o cabelo está todo branco, mas estás como nova. Tens à tua volta filhos, nora, netos, bisnetos. Mexes-te bem e estás a escrever um romance. Intitula-se “O Tempo das Maçãs” mas não chegará ao fim. O que deverias ter escrito, era o verdadeiro romance da tua vida. Porque agora, mãe, quem sou eu para o escrever?


Julho 2009 
Publicado no livro Jornalistas Pais e Filhosiniciativa da Casa da Imprensa, com textos de Artur Portela (o pai Artur Portela), Bárbara Alves da Costa (o pai João Alves da Costa e o avô Aurélio Márcio), Carlos Flórido (o pai Manuel Flórido), Isabel Silva Costa (o pai Silva Costa), João Gobern (o pai Áppio Sottomayor), JPG (a mãe Maria Carlota Álvares da Guerra), José Carlos Fialho (o pai Fialho de Oliveira), José Manuel Freitas (o pai Amadeu José de Freitas), Magda Viana (o pai Rui Cunha Viana), Miguel Correia (o pai Severiano Correia), Miriam Alves e Oriana Alves (o pai Fernando Alves), Nuno Moura Brás (o pai Nuno Brás), Pedro Luís de Castro, Mário Rui de Castro e Paulo Luís de Castro (o pai Joaquim Castro), Rui Tovar (o pai Rui Tovar), Sérgio Veiga (o pai Carlos Miranda), Silva Pires (o pai Fernando Pires), Sofia Rato (o pai Afonso Rato) e Victor Serpa (o pai Homero Serpa).