sábado, 22 de abril de 2017

Era uma vez um miúdo num país a arder

Apresentação do livro de MIGUEL CARVALHO "QUANDO PORTUGAL ARDEU - Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril",  bar do Cinearte, A BARRACA, Lisboa 12 ABRIL 2017


Era uma vez um miúdo que tinha quatro para cinco anos no Verão Quente de 1975;
Fez 5 anos no dia 25 de Novembro de 1975 e nesse dia, para celebrar o aniversário do pequeno Miguel, a televisão passou um filme cómico com Danny Kaye.
A TV portuguesa não passava filmes cómicos desde o dia 12 desse mês de Novembro de 1975; nessa data, um almirante sem papas nem tento na língua rompera um cerco a São Bento disparando uma salva de impropérios.

Nos trinta e um dias do mês de Janeiro de 1976 – ia o Miguel a caminho, mas ainda distante, dos seis anos – registaram-se em Portugal 55 sessões de pirotecnia política; em Fevereiro, mais 21 sessões; e em Abril de 1976, a data da aprovação da Constituição, o mês começou com a morte do Padre Max e da estudante Maria de Lurdes, à bomba.
E assim foi crescendo o jovem Miguel Carvalho: o Verão de 1976 aqueceu com as prisões dos primeiros elementos da rede bombista, entre os quais o alegado mandante Joaquim Ferreira Torres, industrial, autarca e cacique, libertado duas semanas antes do 25 de Novembro desse ano.

E em Agosto de 1979, faltavam 3 meses para que o Miguel completasse 9 anos, Ferreira Torres tornou-se sujeito de todas as primeiras páginas na manhã de 21 de Agosto. Naquela manhã, como era costume, Joaquim Ferreira Torres arrancou de Paredes cinco minutos depois das oito, com os matutinos do Porto no banco traseiro do Porsche vermelho. Mas o empresário nem sequer chegou a ler as gordas do último dia.

-        Um Governo para 100 dias. Pintasilgo passou no Parlamento.

-        Greve total de médicos, decretada pela Ordem.
-        Batata desapareceu do mercado.
-        Serra da Freita continua a arder.

No dia seguinte, seria ele próprio, Joaquim Ferreira Torres, o sujeito de todas as primeiras páginas.
Dez minutos depois de sair de Paredes, o Porsche do empresário estava imobilizado em contramão, no sítio do Barro Branco. Crivado de balas, o corpo de Ferreira Torres caíra para o banco do lado direito do Porsche, isto é, ocupava o lugar do morto.
O empresário tinha sido abatido após o Porsche ter sido imobilizado. Foi abatido de frente. Era a emboscada como vem nos manuais militares: o empresário caiu na zona de morte.
O miúdo nascido a 25 de Novembro de 1970 veio a tornar-se jornalista em 1989/90. E na edição de 20 de Agosto de 2009 – 30 anos depois dos acontecimentos – Miguel Carvalho publicou na Visão a investigação dos Mistérios do Barro Branco.
Escreveu:
 “Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que «abriria o saco» sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como «o crime do Barro Branco», lugar onde o calaram para sempre.”
A reportagem do Miguel Carvalho foi muito justamente distinguida com o Grande Prémio Gazeta de Reportagem 2009, entregue em 2010.
Nesse mesmo ano, eu próprio recebi o Prémio Gazeta de Mérito, um prémio de fim de carreira. A cerimónia juntou-nos na Culturgest; mas nós já nos correspondíamos sobre histórias de Portugal.
Eu, Gazeta de Mérito, orgulho-me da amizade com um jornalista 30 anos mais novo, Grande Prémio Gazeta de Reportagem, de quem sou admirador.
Para lá dos prémios Gazeta e da carteira de jornalista, temos em comum o facto de nos tratarmos um ao outro por camarada. Que é assim o tratamento entre jornalistas, excepto para aqueles que têm mais preconceitos do que espírito de camaradagem.
O convite do Miguel Carvalho para apresentar este seu livro – Quando Portugal Ardeu - Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril, editado pela Oficina do Livro – é uma honra, que cresceu à medida que fui lendo o livro.  
E, enquanto lia o livro Quando Portugal Ardeu, algumas interrogações tomaram conta de mim: Como é que o Miguel despertou para estes temas? Como é que o Miguel, entrou nestes enredos de terror, como é que ficou, à distância de três décadas, tão familiarizado com estes nomes, estas siglas, estes cenários, estes tempos?
E perante tantas e tão densas dúvidas, fiz o que deve fazer um jornalista: fiz perguntas, procurei respostas.

- Pergunta: Miguel, qual é a memória mais antiga que tens das histórias do teu livro?
E o Miguel respondeu-me por escrito - A memória mais antiga é, sem dúvida, ter ouvido falar, em casa, com 5/6 anos, do Ramiro Moreira, por diversas vezes. Não só por causa das notícias abundantes da época a propósito dos atentados bombistas, mas também porque uma das bombas que ele colocou foi no carro de um tio meu. É desse tempo, também, a memória de uma agressão do Ramiro e de outros elementos da rede ao meu avô paterno, que o deixou numa poça de sangue. De certo modo, tenho uma memória sensorial do fim da ditadura e dos primeiros anos de democracia. Em casa dos meus pais faziam-se jornais clandestinos – entre os quais o boletim A Terra – e antes e depois do 25 de Abril eu era, muitas vezes, acordado a meio da noite, embrulhado num cobertor, e levado para casa de outros familiares, onde pudesse estar mais seguro. Ainda hoje parece que sinto, na pele, aquele friozinho que sentia quando me acordavam de madrugada e embrulhavam num cobertor, entre ruído de vozes apressadas e sussurradas.

        - Pergunta: Miguel, ouvias então, muito próximo de ti, falar destas histórias, em miúdo?
- E o Miguel respondeu - Ouvi sempre. Cresci nesse tempo de grandes esperanças e sonhos, de excessos, de radicalismos, e isso foi sempre assunto de conversa nas várias casas de familiares. A família paterna, de fortes tradições republicanas, estava ligada ao PCP desde os tempos da ditadura e tenho uma tia que esteve dois anos na clandestinidade. Do lado materno, o envolvimento político era menor, mas dividia-se entre o PS e o PPD. Tudo isso me influenciou, como é óbvio. Familiares relativamente afastados, ligados ao PS, chegaram a ameaçar o meu pai, com cintos e catanas, por causa de simples colagens de cartazes. Um tio do lado materno teve um carneiro a quem chamava Cunhal e, quando o bicho morreu, pendurou a cabeça dele na parede como se fosse um troféu. J “Estás a ver o que acontece aos comunas como o teu pai?”, dizia-me ele. No hard feelings - Comenta o Miguel.
Tive também um tio, do lado materno, a quem devo o facto de hoje ser adepto do FC Porto (ele tinha camarote nas Antas). Ele era também devoto do Sá Carneiro. Lembro-me perfeitamente de ver esse meu tio aparecer em casa dos meus pais e passar longas noites em conversa com o meu pai, sem nunca se chatearem e irem ao ponto de se admirarem. Fazia-me muita confusão e lembro-me de ter pensado: “Então isto anda tudo à bulha, eles são de partidos tão diferentes e dão-se bem?” 
- Pergunto-lhe ainda: Miguel, a tua curiosidade, como investigador, tem uma raiz mais funda do que o jornalismo?
- Pergunta difícil de responder – responde o Miguel Carvalho. – Vamos lá... em miúdo era conhecido por ser um bocadinho Tom Sawyer. Tudo o que fosse desconhecido, diferente, inóspito, perigoso, me atraia de forma vertiginosa. Daí o rol de feridas, rasganços, tombos e afins que coleccionei, com reprimendas a condizer. Talvez venha daí. De subir às árvores, de brincar nos sítios mais perigosos das bouças, de passar um dia inteiro fora de casa, com amigos, entre poços, casas abandonadas, riachos, etc., nos arredores rurais do Grande Porto, ou de querer formar clubes de detectives com os amigos. Pelos 6/7 anos começou o fascínio dos jornais (mais tarde viriam os livros do Sherlock Holmes).
Havia muitos jornais lá em casa – as respostas também passam por aqui, digo eu –, havia muitos livros, sempre, mas nunca eram suficientes. Queria ler tudo, tocá-los, cheirá-los. Pegava em folhas A4 e tentava reproduzir manchetes, notícias, etc., uma maluqueira! Já com 9/10 anos, quando aos fins-de-semana ia para casa da minha avó materna, roubava dos quiosques os jornais a que não tinha acesso (o dinheiro era contadinho lá em casa) e também trazia para casa os jornais que a vizinhança abandonava, em pilhas, no lixo (O Jornal, Tempo, etc...). Na escola fartei-me de fazer
fan zines que depois vendia aos colegas e aos professores. Um ou outro texto sobre as condições ou algum problema da escola valeram-me chamadas ao conselho directivo ou advertências de professores.
As semanadas da minha avó eram todas gastas em jornais. Ao sábado, esperava horas infindas nos quiosques pela chegada, ao Porto, dos vespertinos, e comprava sempre o que viesse mais volumoso. Daí, que ainda hoje, às vezes do nada, me venham à memória personagens, episódios e acontecimentos que, na altura, não tinha maturidade para compreender. Hoje, a minha casa é a casa típica de um farrapeiro: caixas de arquivos, dossiês, jornais antigos, papelada que nunca mais acaba

Às histórias que passaram ao lado da sua infância, o Miguel Carvalho acrescentou uma grande capacidade de pesquisar, de seleccionar, de organizar e relacionar dados, de tirar conclusões, cultivar e manter fontes muito bem informadas, de consultar com método e espírito crítico muitas e diferentes fontes documentais, de identificar o fio e o enquadramento das histórias e, por fim, o Miguel Carvalho acrescentou a todo este trabalho exaustivo a arte de saber contar bem as histórias.
Estes episódios de Quanto Portugal Ardeu estão muito bem escritos e muito bem organizados, cada um de per si e no conjunto do volume. 
O formato muito original e muito conseguido do livro sobre os sucessivos Verões Quentes que fizeram arder o País consiste no relato em episódios sobre a ofensiva organizada, financiada, enquadrada estrategicamente, dirigida no terreno, contra o período mais rico, criativo, participado, generoso e fraterno da história recente de Portugal.
Cada um dos 18 episódios do livro do Miguel Carvalho é uma história, uma história que vive por si mas que é também uma peça de um puzzle, uma história com os seus quês de tragédia e / ou de comédia, e que faz parte de uma história mais geral: é a história de uma festa que foi bonita, pá… mas que azedou.
 Morre-se neste livro; morre-se de sair à rua, uma rua banhada de cravos e de palavras de esperança, porque o revanchismo respondeu a tiro, no 25 de Abril, e à bomba, um ano depois; também se conspira, se trai, se faz negócio, nos enredos deste livro: conspiram diplomatas, políticos, caciques, civis e militares, laicos e eclesiásticos; também se rouba, se contrabandeia, se trafica, se intruja, se rapina.
Houve muitos criminosos envolvidos nestas histórias, mas houve também muitos mais cúmplices. A prova disso é que estas histórias acabam com numerosas vítimas mas sem culpados.
Os cromos destas 18 histórias, que somadas contam a crónica de um Portugal a Arder, num Verão Quente como não houve outro, são figuras patéticas de uma banda-desenhada de terror: mataram pessoas mas, eles próprios, viram-se a contas com a crónica de uma morte anunciada.
O Miguel escolheu bem as suas 18 histórias e a ordem pela qual as publicou em livro. E foi meticuloso ao colocar a história de Os segredos Barro Branco – isto é, a história do assassínio do cacique Joaquim Ferreira Torres a encerrar a série de episódios de mm País a arder. Hoje dir-se-ia que o assassínio de Ferreira Torres é a história estruturante deste romance de terror, que é afinal simplesmente um repositório de reportagens de investigação de um grande jornalista.
Eu escrevi sobre este e outros assuntos daquele tempo em que Portugal ardia, nas páginas do jornal O Diário, a partir da delegação do Porto. Depois, senti necessidade, tal como penso que aconteceu com o Miguel, de fixar algumas daquelas histórias de modo mais perdurável do que uma mera página de jornal que se lê um dia e se deita fora antes que chegue o dia seguinte.
E num livreco intitulado Polícias e Ladrões, publicado pela Caminho em 1983, reproduzi e acrescentei algo ao que havia escrito no jornal, sobre o caso de Uma Meada com Muitas Pontas, na qual se cruzava O Caso Torres, com uma Teia da Extrema-Direita, com delitos comuns, uma e outra a darem-se cobertura política e a financiarem-se, culminando tudo num estranho caso de crimes perfeitos, na medida em que, sendo crimes, compensaram. Ninguém acusou, ninguém foi condenado. E eu perguntava em 1983: quem os protege? Ninguém respondeu.
A não ser eu próprio, que respondi em tribunal.
O Miguel Carvalho pega em algumas destas e em diversas outras histórias e personagens com muito mais metier do que eu lhes peguei, com mais método, mais técnica e mais ciência, com mais pesquisa, mais fontes e mais documentos. Embora conheça e me recorde de algumas das fontes citadas pelo Miguel.
Nos tempos em que as coisas aconteceram, eu pesquisei e redigi as reportagens que deram origem ao livro Polícias e Ladrões, que o Miguel Carvalho inclui na sua bibliografia de consulta. Nesses tempos, escrevia-se talvez com muita emoção mas seguramente com menos rigor do que o Miguel escreve sobre os tempos destas Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril.
Digo-o sem excesso de humildade nem sobras de altivez.  
O livro do Miguel Carvalho tem o tempo a seu favor. O tempo arrefeceu as cinzas e as histórias, à distância, vêem-se com distanciamento, coisa que não havia no meio das labaredas.
É muito importante que alguém conte estas histórias quarenta anos após os acontecimentos. E é muito importante que esse alguém seja um jornalista como é o Miguel Carvalho.

No final do mês de Março, um camarada nosso da rádio, camarada cujo ofício é dar notícias, anunciou-me com entusiasmo que o livro do Miguel Carvalho Quanto Portugal Ardeu figurava num TOP de vendas, bem à frente das Memórias de Cavaco Silva.
Fiquei muito satisfeito, pelo Miguel e pelos leitores que procuram esta leitura. E que certamente encontram no livro Quando Portugal Ardeu mais do que aquilo de que vão á procura.
Cada linha destas histórias, neste livro de mais de 550 páginas, custou certamente ao Miguel Carvalho muitas e muitas horas a cultivar contactos e a consultar fontes, a vasculhar papéis e a conferir testemunhos, a sondar a história e a cruzar informações, a seguir e a segurar perfis fugidios. E provavelmente, pese embora o tempo que passou, custou-lhe também enfrentar algum risco.
Não nos esqueçamos que houve um tempo em que este País ardeu, porque houve quem lhe pegasse fogo; e houve os que deixaram arder.
O livro do Miguel Carvalho não deixa que esqueçamos que ninguém matou João Arruda, na Rua António Maria Cardoso, no dia 25 de Abril de 1974; ninguém matou Vítor Bernardes, em 14 de Agosto de 1974, quando passou pela PSP no Rossio para ir à farmácia de serviço comprar um medicamento para o filho; ninguém matou o Padre Max nem a estudante Maria de Lurdes, em 2 de Abril de 1976, data da Constituição da República; ninguém matou Rosinda Teixeira, nos escombros da sua casa, em São Martinho do Campo; como também ninguém calou a boca ao cacique de Murça, no sítio do Barro Branco, assim como ninguém matou à bomba Adriana Corcho e Efrén Monteagudo, na Embaixada de Cuba em Lisboa, 1976.  
Ninguém os matou; certo é que eles morreram. Lembrem-se disto. Esta democracia não assenta propriamente em brandos costumes. 

João Paulo Guerra

Lisboa, bar do Cinearte, Teatro A Barraca, 12 de Abril de 2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo – V

Estava na rádio para ficar… e fiquei.
Fiz a primeira revista de imprensa em 10 de Abril de 2006, a última em 31 de Julho de 2015. Em 20 de Outubro de 2008 a revista passou a duas edições diárias: a primeira, pelas 7h 20m, de primeiras páginas, a segunda, pelas 8h 25m, do miolo dos jornais. Fazia a revista a partir de dez jornais e duas revistas, que recebia e lia a partir das 5h da manhã: Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Público, jornal I; Diário Económico, Jornal de Negócios; A Bola, Record, O Jogo; às sextas-feiras: VisãoSábado
Média diária de 3 quilos de papel de jornal.
Era duro mas fez-me muito bem à saúde: para aguentar o fôlego e a exigência da revista de imprensa, deixei de fumar.
E dava-me tanto gosto fazer a revista que até recusei, creio que em 2010, o convite da Administração da RTP para desempenhar o cargo de Provedor do Ouvinte.
Tinha uma grande vantagem para ler e passar em revista os jornais: trabalhava em casa. A RTP instalou-me em casa equipamento e linha telefónica RDIS (Rede Digital com Integração de Serviços): som de estúdio. 

Os jornais eram depositados por uma empresa distribuidora às 5 da manhã, no tapete da porta do meu apartamento; trabalhava na mesa da sala de jantar, com os jornais abertos, corria as primeiras páginas, tomava notas em cadernos grandes quadriculados; assinalava com marcadores de cores os títulos, as notícias, as fotos, os comentários, a paginação. Escrevia o texto da revista das primeiras páginas antes das seis horas e começava a folhear os jornais, a tomar notas para a segunda edição. Após a primeira edição da revista ir para o ar, começava a rever e ordenar as notas para escrever o texto da segunda edição.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo IV

 De facto, a rádio…

A rádio estava escondida na proposta do Sérgio Figueiredo que em 1997 me levou para o Diário Económico. O jornal pertencia a Miguel Paes do Amaral, juntamente com o Independente, Grupo Media Capital, e Sérgio Figueiredo tinha o projecto de construir, a partir do Económico, uma redacção multimédia para jornal, rádio e TV. Cheguei a fazer o projecto de conteúdos para uma estação de rádio, em cima da data para concorrer a determinada frequência de radiodifusão. Um administrador anunciou à redacção:
- Ganhámos a frequência de rádio, o que ficamos a dever ao João Paulo Guerra.
Ao que respondi que só ficavam a dever se não quisessem pagar e de facto não deram sinal de querer. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - III

Com efeito, entretanto, voltei mais uma vez à rádio.
Telefonia de Lisboa 
Eu passara na década de 80 pelo movimento das rádios piratas – louco e heróico, diria o Manuel da Fonseca –, designadamente pela Telefonia de Lisboa. Mas, em Outubro de 1990, o convite veio do Emídio Rangel e a rádio era a TSF. E para ajudar o meu orçamento, a proposta compreendia colaboração com o semanário O Jornal, ligado empresarialmente à TSF. A rádio nacionalizada, que era quase toda, fechara-me as portas: estive arredado longos anos. Uma das muitas propostas que apresentei à rádio nacionalizada e que nem sequer recebeu resposta foi mais tarde um projecto de grande impacto e sucesso na TSF, as laureadas Viagens com Livros.
Reconstituição para O Jornal do assalto
ao avião da TAP em 1961: o
panfleto lançado sobre Lisboa, autografado
 por tripulantes e assaltantes do avião.
No semanário O Jornal consegui manchetes, como as relativas à extensão da rede Gládio em Portugal, fiz investigação sobre a história contemporânea do País, acompanhei casos de polícia. O repórter à antiga, na companhia de grandes mestres do jornalismo e da reportagem.

Na TSF entrei para editor e repórter na equipa que estava a fazer as edições do fim-de-semana: folgávamos segunda e terça, estudávamos a agenda na quarta – durante um almoço numa tasca nas imediações das Amoreiras, uma tasca chamada Regresso, o que me parecia um bom presságio para o meu regresso à rádio –, metíamos mãos à obra e pés ao caminho na quinta e sexta, sábados e domingos editávamos os noticiários e respectivas reportagens, mais um magazine de actualidades, Os Dias Andados. O editor da equipa era o Fernando Alves.  

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - II

        … No entanto, o semanário acabou antes de começar. Foi assim.

Número 0 do AE,
imagem da Galeria Virtual do Museu da Imprensa
Deixei o RCP, na Rua Sampaio e Pina, num dia de Novembro de 1973, mas no dia seguinte estava a trabalhar na rua Joaquim António de Aguiar, uma paralela, duas ruas adiante, descendo a Rodrigo da Fonseca, passando o Hotel Ritz, virando à direita, na redacção do semanário Actividades Económicas, o AE, um projecto financiado pelos irmãos Agostinho e José da Silva, accionistas maioritários da Torralta. Dinheiro não faltava: redacção com razoáveis ordenados para a época, equipamentos novinhos em folha que fariam do AE o primeiro jornal português com fotocomposição na redacção. E projecto também havia.
O escritor e jornalista Mário Ventura Henriques, que fazia a ligação entre a administração e a redacção, disse-nos que se tratava de um semanário para «fazer concorrência ao Expresso, pela esquerda». 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - I

Rádio Renascença 1962
1962 – Entrei na rádio pelo Programa Nova Vaga, com outros jovens de então, nas tardes de sábado de Rádio Renascença: Fernando Correia (actual membro do Conselho de Opinião), João Mota, Lauro António, Dinis de Abreu, Daniel Ricardo, Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra. Programa de microfone aberto em directo para o gravador do José Manuel Moreno Pinto. Foi assim: o Dinis de Abreu, jovem jornalista no Diário Popular, formou a equipa e perguntou a minha mãe, Maria Carlota Álvares da Guerra, chefe de redacção da Crónica Feminina e cronista na RR, se conhecia jovens que quisessem participar no programa: entrei eu e a Maria do Céu, minha irmã; eu acabei por ficar na rádio, a Maria do Céu Guerra foi para o teatro. 
Quando a Nova Vaga acabou – e foi rapidamente – Joaquim Pedro convidou-me para ficar a estagiar como locutor na RR. Lia anúncios de estação – Rádio Renascença, Emissora Católica Portuguesa –, ligações e lançamentos entre programas, passagens à Basílica dos Mártires para o Terço e Bênção, o estágio era acompanhado por locutores consagrados da estação como Joaquim Pedro, Dora Maria, Maria José Baião, Luís Filipe Aguiar. Também “estagiava” vendo fazer e ouvindo João Martins, Armando Marques Ferreira, António Revés, e observando de perto o trabalho de técnicos como José Manuel Moreno Pinto, Alberto Moreno, José Ribeiro, António Ricardo.
Primeiro plano: JPG, Jorge Balsa, José Dias, António Ricardo e José Videira;
segundo plano: Moreno Pinto, Franquelim Rodrigues, José Neves de Sousa,
padre Miguel, NN, NN e Fernando de Almeida (treinador)
Em 1963, um ano após o início do estágio, recebi convite para me mudar para o Serviço de Noticiários do Rádio Clube Português. Na RR eu também dava notícias – recortadas dos jornais e coladas numa folha de papel: “O Senhor Presidente do Conselho recebeu hoje o senhor ministro da Defesa com quem o vemos na gravura acima”. De maneira que aceitei de primeira o convite, vindo do Luís Filipe Costa e transmitido pelo Matos Maia. O último acto em que participei como estagiário da RR foi um jogo de futebol contra o RCP. Perdemos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Congresso deu a 80 estudantes de jornalismo a experiência de uma redacção laboratório

Rute Santos/ I.P.P.
Dezenas de computadores, máquinas em tripés, gravadores espalhados pelas secretárias. O ruído constante e a correria dos estudantes confirma o que parece impossível: uma equipa multiplataforma funciona dentro da sala 2 do Cinema São Jorge. É nesta sala convertida em redação que se reúnem mais de uma centena de profissionais, professores e alunos de comunicação, responsáveis pela cobertura do 4.º Congresso dos Jornalistas. Com um palco ao fundo e palavras de ordem espalhadas pelas paredes, cumprem a missão proposta pelo congresso: “Afirmar o jornalismo”.

sábado, 14 de janeiro de 2017

IV Congresso dos Jornalistas: precários e desempregados agora chamam-se Freelancers


Maioria dos jornalistas tem licenciatura em comunicação e investe na formação contínua mas recebe menos de 1.000 euros por mês, indica o mais recente e abrangente inquérito aos jornalistas, desenvolvido por uma equipa do CIES-IUL (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa), em parceria com o Sindicato dos Jornalistas e o Obercom, em 2016.
Em 2016, 33,4% dos inquiridos não tinham contrato fixo e, portanto, trabalhavam em condições contratuais precárias e sujeitos a instabilidade, insegurança e fragilidade. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares fica para a história colado à página da descolonização


Mário Soares: Acho que foi feita a descolonização possível
Spínola: O Dr. Mário Soares teve comigo duas ou três reuniões pessoais, secretas, chamando-me a atenção para os perigos que estávamos correndo…
Eanes: Houve várias divergências.

A vida de Mário Soares (1924 - 2017) marcou e foi marcada por décadas de protagonismo na história contemporânea de Portugal. Particularmente o 25 de Abril e a descolonização foram páginas da história às quais o nome de Soares ficará colado para sempre. 
Foi a «descolonização possível», disse.  
A página da História voltou-se em Abril de 1974. Três meses mais tarde, quando o chefe da nova diplomacia portuguesa, Mário Soares, subiu à tribuna da ONU, a assembleia ouviu, por fim, Portugal reconhecer os princípios da Carta das Nações Unidas e afirmar solenemente o propósito de descolonizar de acordo com os princípios da Carta. Apesar de ter perdido o tempo próprio da história, Portugal acordou do sonho imperial e mandou regressar as caravelas: a descolonização fez-se, com mais ou menos traumatismos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A clara idade assombrada da poesia de Cabo Verde

João Paulo Guerra, TSF,
9 de Janeiro de 1991, Cidade da Praia

Oswaldo Osório
Inesperadamente, calou-se a algazarra da campanha eleitoral na Cidade da Praia, para ouvir a voz de um poeta. A homenagem ao poeta Oswaldo Osório marcou a abertura de um centro cultural que procura ser um ponto de encontro para os escritores cabo-verdianos.
Oswaldo Osório – pseudónimo literário de Osvaldo Alcântara Medina Custódio – nasceu na cidade do Mindelo, Ilha de São Vicente, em 25 de Novembro de 1937. Clar(a)idade Assombrada, publicada em 1987,  é o seu terceiro e mais recente volume de poesia, sucedendo a Caboverdeanamente Construção Meu Amor (1975), Cântico do habitante. Precedido de Duas Gestas (1977).
A poesia de Oswaldo Osório saiu impressa com a liberdade. Anteriormente, o poeta estivera preso duas vezes por razões políticas.

JPG - Ouvi-o referir-se, na homenagem que aqui lhe foi prestada, à língua cabo-verdiana. O que é a língua cabo-verdiana e o que é Cabo Verde em termos literários ao cabo de dezasseis anos de independência?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Histórias do Congo à margem da História


Estive por duas vezes em serviço de reportagem no Congo Kinshasa, actual República Democrática do Congo, então presidida pelo ditador Mobutu ou, como ele queria que lhe chamassem, Mobutu Sese Seko Nkuku Ngbendu wa Za Banga, isto é, O Todo Poderoso Guerreiro que, Por Sua Força e Inabalável Vontade de Vencer, Vai de Conquista em Conquista, Deixando Fogo em Seu Rastro. 
Nessas visitas, reportei as viagens de dois Presidentes da República Portuguesa que fiquei a conhecer melhor.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Cores felizes na paleta de Malangatana


Por João Paulo Guerra,
TSF, Outubro 1994

Moçambique está em Festa, uma festa com muitas cores. Nesta quadra de eleições multipartidárias, Moçambique está multicolor.
Estou na cidade de Maputo, no Bairro do Aeroporto, no atelier do pintor Malangatana Valente Ngwenya, moçambicano, 58 anos, um artista do mundo e da paz. Este homem que esteve preso três vezes pelo regime colonial, uma das quais por motivo de um quadro que pintou, o quadro “25 de Setembro”, a data do início, em 1964, da luta armada pela libertação, e que depois da independência do seu país esteve de novo detido, dessa vez num campo de reeducação, como castigo pelo seu comportamento na época colonial, este homem está também em Festa, agora que Moçambique tem eleições multicolores.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Os Olhos Azuis do cinema na Guiné-Bissau

Entrevista com o realizador guineense Flora Gomes.

João Paulo Guerra, TSF, 26 de Janeiro de 1991,
Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, Bissau


No regresso a Lisboa, após a reportagem de um processo político que culminou com a introdução do multipartidarismo na Guiné-Bissau, o repórter cruzou-se no aeroporto com o realizador de cinema Flora Gomes. Nascido em 1949 em Cadique, tabanca a sul de Bissau, uma das principais povoações produtoras de arroz no tempo colonial, Florentino Gomes foi levado pela guerrilha guineense para estudar em Conakry e mais tarde em Cuba. Voltou formado em cinema. Filmou os últimos anos de guerra e depois da independência começou a filmar histórias para o futuro do seu país.
Foi muito bem empregue o tempo de espera naquele dia de Janeiro de 1991, no aeroporto de Bissau.

Pergunta – Como é que um guineense chega a realizador de cinema?
Flora Gomes – Bom, no meu caso foi muito simples. Eu fui dos jovens que a guerrilha, quando passou pela minha aldeia, levou para Conakry para receberem instrução. Fiz a escola primária, a secundária e estudos pré-universitários…


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Luiz Pacheco: Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor …


Entrevista de João Paulo Guerra
TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas

Da autoria do escritor Luiz Pacheco sai hoje [Maio de 1992] a reedição de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Um acontecimento num país que também nas letras é geralmente de brandos costumes.


O Libertino etc., foi escrito em 1961 e publicado em 1970 provocando muito escândalo. É a narrativa de um dia passado numa Braga lúbrica. E logo Braga, a cidade dos arcebispos. O próprio autor filiou a narrativa numa corrente neo-abjeccionista.
Com 67 anos de uma vida airada, Luiz Pacheco vive actualmente em Setúbal. E é de lá, em directo, que aceita conversar sobre a reedição – para a qual deu uns retoques no texto de O Libertino… –, sobre a actualidade que, seja onde for, acompanha com atenção: a reforma da PAC ou a reserva dos coronéis, o pacote Delors 2 ou o Evangelho segundo Sousa Lara, o Tratado de Maastricht ou a nova Ponte sobre o Tejo, numa conversa de ida e volta ao mundo, com partida da Europa.

Luiz Pacheco – Europa? Qual Europa?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Cenáculo da Marquesa



Por João Paulo Guerra, 
Telefonia de Lisboa, Janeiro de 1987

          O tempo parou ali há muito tempo como que imobilizado num daguerreótipo antiquíssimo, amarelecido nos cantos, esbatido no centro do plano de conjunto. Mesmo assim, distingue-se o conjunto: onze figuras de cera em redor de uma mesa, todos eles voltados ligeiramente sobre o lado direito, fixando a posteridade.
Ilumina-se a cena e distinguem-se então as cores, tons de cinza e violeta, esmaiados sobre o fundo austero de uma estante de mogno onde jazem livros encadernados pelo pó, o bafio, o esquecimento. Reposteiros pesados coam os sons da vida e tornam mais íntimos os sussurros das conversas, por onde passam, em ladainha, os nomes de legiões de fantasmas, a memória de irremediavelmente perdidos tempos de grandeza, sonorizados pelo tilintar das porcelanas e das dentaduras postiças, o ronronar dos catarros. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

DIAS DA RÁDIO

O Serviço de Noticiários do RCP
nas páginas da revista Antena: Luís Filipe Costa,
Paulo Fernando, Manuel Bravo e Firmino Antunes.
João Paulo Guerra, Carlos Manuel e Fernando Quinas. 


textos de João Paulo Guerra,
2011 / 2012, 
no blogue 

“KUANDO OS RÁDIOS ERAM CLUBES”, 

de PAULO 
"Tac Tac" FERNANDO





Nos idos de 60/70, como grande parte dos jovens desse tempo, houve uma fase em que usei grandes barbas e cabelame que me faziam parecido com o baterista dos Marretas. A verdade é que ninguém tinha nada com isso. E menos ainda o director dos serviços de censura interna do RCP, António Augusto Moita de Deus, o Arbusto Divino, ou o Moita-Carrasco, conforme os gostos. Ele que cortasse textos ou fitas de arrasto; na minha barba e cabelo não tocava.

... FP-25 disputam share com o Papa

EM CIMA DO ACONTECIMENTO ..
Por João Paulo Guerra
10 de Maio de 1991


Naquele dia de Maio de 1991, o acontecimento era a chegada do Papa e Lisboa. E ninguém previa que pudesse acontecer alguma coisa em cima de tal acontecimento. 

       Mas aconteceu. 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

«O arcebispo de Braga absolveu-nos»

Sanches Osório,
 ex-major do MFA 
ex-dirigente  MDLP


Entrevista de João Paulo Guerra / Abril 1999

José Eduardo de Sanches Osório era major de Engenharia em 1974 e fez parte do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, no quartel da Pontinha, na madrugada de 25 de Abril. De formação monárquica e católica e pertencendo à casta dos oficiais do Corpo de Estado-Maior, Sanches Osório aderiu ao Movimento dos Capitães em 1973 para derrubar Marcelo Caetano. Ministro da Comunicação Social no II Governo Provisório, o primeiro de Vasco Gonçalves, entrou em ruptura com a revolução por alturas do 28 de Setembro. E na sequência do 11 de Março foi expulso do Exército e deixou o país clandestinamente para fugir a um mandado de captura. No exílio participou na fundação do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), liderado por Spínola e chefiado por Alpoim Calvão. Desempenhou funções de embaixador itinerante da contrarrevolução, mas diz que não levava a sério o plano do general para invadir Portugal e reconquistar o poder.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

António Macedo: Quero estar outra vez feliz na rádio


Estou muito descontente com a rádio que estou a fazer, com a forma como a rádio está a ser feita, com tudo aquilo que me rodeia (...) Quero estar outra vez feliz na rádio

António Macedo

Por João Paulo Guerra 
Entrevista editada em 15 de Outubro de 2016, data da homenagem a António Macedo, promovida pelo 
1º Acto – Clube de Teatro e Intervalo – Grupo de Teatro.

"A voz da rádio tem uma personalidade amiga e íntima, como a de um velho camarada de confiança"
Erskine Caldwell, Vagueando pela América, Editora Ulisseia 1963

"A rádio tem uma distinta personalidade humana, devida ao seu amigável e íntimo tu cá tu lá"
 Caldwell, ob. cit.

Nome?
António José Macedo Monteiro de Oliveira.
Idade?
Sessenta a cinco anos. Sessenta e seis a 4 de
Novembro, sou de cinquenta.
Nascido onde?
Lisboa, São Sebastião da Pedreira, Maternidade Alfredo da Costa.
E onde residiam os teus pais?
Na Rua do Salitre, 55, 4º Direito, onde vivi os primeiros anos de vida.