sábado, 17 de junho de 2017

Álvaro Belo Marques 1931 - 2017

Morreu o Álvaro Belo Marques, deixou-nos pelas 23 e 20 de sexta-feira, 16 de Junho.
Estou a vê-lo, em Maputo, segunda metade dos anos 80, de guarda-pó vestido, a conduzir uma motoreta, depressa, muito depressa para chegar a tempo de salvar o mundo. E no céu, sob o comando do grande capitão da generosidade e da imaginação, voavam papagaios de papel lançados pelas crianças dos bairros para lá do alcatrão. Deixa duas filhas, Vera e Alexandra, um filho, Dario, e um neto, Tiago, deixa também muitos e grandes amigos.
APRESENTAÇÃO DE 3 NOVELAS DE ÁLVARO BELO MARQUES, LANÇADAS EM SIMULTÂNEO E EM LISBOA EM 19 DE SETEMBRO DE 2016, CONSTITUINDO RECORDE NACIONAL DO LANÇAMENTO DO LIVRO. 
Não é corrente um autor lançar três livros de uma assentada. O lançamento do disco é bem mais antigo. Quanto à modalidade do lançamento do livro, um arremesso de três volumes é obra e grande proeza do autor.  

Mas quem é o autor? – ED. B. Silverman diz o convite. Vejamos quem é quem. 
Em carta ao editor, o autor Silverman lamenta não poder fornecer-lhe uma biografia. E acrescenta:
«Invente você uma [biografia] para mim, fazendo-me passar pela redacção de um grande jornal diário, aos 24 anos de idade (o que é quase verdade), e descubra-me uma vida atribulada em várias partes do mundo (o que é quase mentira).»
Convenhamos que o autor não colabora. Mas dá pistas.
Mas a dúvida mantém-se: quem é Ed B Silverman, o autor?
Prevendo que me fizessem a pergunta, escalpelizei todas as notas prefaciais e pós-laborais, de pé de página, em rodapé, como em roda livre, todas as anotações coligidas na correspondência trocada entre o editor e o autor e cheguei a algumas inferências.
A primeira e essencial dedução é que o autor da trilogia, cujo lançamento aqui nos reúne, das duas, uma:
Ou é Ed. B. Silverman. Ou… então não é. Senão vejamos.
Nos termos da vasta anotação compulsada, Ed. B. Silverman terá publicado diversas obras na área da Antropologia, antes de enveredar pela ficção, com a primeira das três novelas da trilogia. Ora em correspondência para o editor, datada - embora sem data - de Austin, Texas, o autor reconhece que, ao contrário da novelística, na ensaística assinou e publicou «sem pseudónimo».
Quer isto dizer que a assinatura das novelas da trilogia é um pseudónimo?
E sendo um pseudónimo, Ed. B. Silverman oculta o nome de quem? Mais um pseudónimo do homem do baú? Não me parece.
E se o autor viesse da rádio, em vez de pseudónimo teria um éter… ónimo?
A minha investigação foi tão exaustiva como infrutuosa.
O mais longe que cheguei foi à última página do terceiro e último volume da trilogia. E foi aí que tropecei numa decisiva nótula, assinada esta por um agente literário que apenas se manifesta ao dobrar a derradeira página e após a apostilha: Fim.
Reza a nota pós-final:
Por indicação do tradutor, este livro não se rege pelo último acordo ortográfico.
Quem será então este tradutor que assume a responsabilidade de resgatar as consoantes mudas?
A nota do tradutor é assinada pelas iniciais: A.B.M. 
Penso que lendo com a atenção que merecem ser lidas as três novelas desta trilogia - 1 - O Caso da Mulher Com Um Olho de Vidro; The Case of the Glass Eyed Woman, na língua de Shakespeare… e de Bob Dylan; 2 - Crime Cracker; 3 - O Papagaio Assassino -… teremos a resposta a esta questão.
O autor, em carta ao editor, define as três novelas como anti-policiais, com situações estereotipadas, e/ou satíricas.
Álvaro Belo Marques com as filhas, Alexandra e Vera
E eu reconheço alguns estereótipos e alguma veia satírica na prosa das três novelas. Como também julgo encontrar nestes divertidíssimos textos alguns traços da imaginação e da vida de um A.B.M. que bem conheço: Á de Álvaro, BM de Belo Marques.
Eis o autor: Álvaro Belo Marques.

E ANTES QUE ME ESQUEÇA, TRAGO-TE UM RECADO:
Ao Álvaro, um grande abraço. Estarei presente porque, convosco, sempre estamos juntos. Ainda guardo os velhos policiais que me ofereceste em tempos que já lá vão. Fico aguardando que um amigo vá a Lisboa pra me trazer os novos policiais. Renovo o meu abraço. Zé . Jose Luis Cabaco

Privei mais de perto com o Álvaro no período mais criativo e festivo da sociedade portuguesa: em 1974 / 75. Quando ele foi o primeiro director de Programas da resgatada Emissora Nacional.
Mas depois a revanche cortou-nos as pernas e a vida afastou-nos. No entanto fui sabendo do meu amigo. E até bebi com ele, na sua casa em Maputo, a garrafa que levei de Lisboa para esse efeito. 
E fui lendo a sua prosa, em livros – como “O Barco encalhado” (publicado e premiado em Itália), ou “Quem matou Samora Machel?”
Li-o também em jornais, depois na Internet. Por exemplo, nos blogues Folha de Couve ou Lendo Livros.
Neste último, Álvaro Belo Marques identifica os seus interesses: Música, livros e papagaios (kites). É tudo.
Lendo a terceira novela da Trilogia, recordei-me necessariamente do caso dos Papagaios de Álvaro Belo Marques,  em Moçambique, nos primeiros anos da independência, quando ainda havia crença e confiança no novo país.
No dia 1 de Agosto de 1980, os céus de Maputo iluminaram-se com uma simples ideia do Álvaro: sem outros meios disponíveis, pôs centenas de crianças de escolas de Maputo a fazer e a lançar nos ares papagaios de papel. Foi uma grande festa e um enorme espectáculo para as câmaras da Televisão Experimental de Moçambique, da qual o Álvaro foi fundador e primeiro director.
E agora, na terceira das novelas, lá se cruzam papagaios de papel e Moçambique numa novela.
A cena dos papagaios na novela já não é de festa, nada disso; mas a fisionomia de Moçambique também mudou. Os papagaios agora são assassinos enquanto em Moçambique alguém matou a crença e a confiança e mudou a história. “Quem matou Samora Machel?”, Interrogou-se Álvaro Belo Marques em 1987?
E ninguém terá estado tão perto da resposta como ele.

Álvaro com o filho, Dario. 
Mas deixemos por agora o autor. E mãos à obra.
Esta trilogia tem uma particularidade: no momento do respectivo lançamento já tem críticas azedas à primeira das três novelas por parte de um colérico crítico, de seu nome Henry Dalsdale, que publica periodicamente uma coluna de crítica literária no Washington Times, um título lançado pela seita Moon, para fazer frente ao liberalismo – digamos assim - do Washington Post.
É o próprio autor que anuncia, numa espécie de prefácio da segunda novela, a artilharia pesada despejada por Dalsdale sobre a novela O Caso da Mulher com um Olho de Vidro:
As personagens estão mal retratadas fisicamente; O autor não sabe descrever cenários; O autor nunca fala do estado do tempo.
O autor conhecia o crítico da Faculdade e recordava-se dele: Um “menino de família” gordinho, anafadinho, bem vestidinho e cheio de borbulhas na cara.
Não pode porém dizer-se que o autor rejeite a crítica em geral. Na verdade, o próprio autor, que já foi crítico, é agora autocrítico, quando reconhece que na primeira parte da primeira novela haverá… sangue a mais e consumo de whisky a menos
Dando ouvidos à autocrítica, o autor corrige na segunda parte, obedecendo a uma regra básica: em cada novela policial, deve haver um consumo mínimo de 18 garrafas de whisky.
Engarrafadas as críticas, vamos às novelas.
Álvaro Belo Marques define a primeira das novelas como antipolicial. A segunda e a terceira não o serão menos.
E no entanto, por estas novelas circulam personagens, desempenhando o papel de si próprias, chamadas Nero Wolf, Miss Marple, Hércule Poirot, detective Columbo… Assim como há personagens denominadas Freud, Ofélia, Hamlet, Bing Crosby, Errol Flinn, Betty Grable, Guilherme Tell…
- Guilherme Tell, que nome – rosna o inspector Rockfeller.
A primeira novela gira em redor de dois nomes: Maureen, a bela do olho de vidro; e O’Hara, o chefe da polícia, um bandido de perna de pau para fazer pendant com o olho de vidro da bela.
De passagem por Nova Iorque – o centro nevrálgico dos cenários da trilogia – Hércule Poirot, o próprio, aceita receber o chefe O’Hara. Ouve-o com alguma impaciência e despacha-o com um consabido conselho, em francês da Valónia:
- Cherchez la femme.
Na terceira novela, O Papagaio Assassino, Miss Jane Marple atende o telefone e delicadamente dá seguimento à conversa de um americano recém-chegado a Londres que a quer conhecer, marcando-lhe encontro em St. Mary Mead, Redforshire.
- É jornalista? – Pergunta Miss Marple, intrigada com o interesse do americano.
- Não, Miss Marple. Sou detective particular.
- Ó, não!
Álvaro com o apresentador do livro
O detective, o anti-herói das três novelas, é Vale, Bronco Vale, e no primeiro caso está nas lonas – praticamente falido, deprimido como os heróis das novelas de Chandler ou de Hammett -, há quase um mês sem um único cliente, a dosear o consumo de whisky. E é nesse preciso momento que entra no escritório decadente a garota mais gira que Bronco vira nos dias da sua vida.
A garota chama-se Linda, de apelido Marlowe, e é ela quem abona ao detective em pré-falência 250 dólares por cinco dias de investigação mais despesas. E Bronco Vale investiga assim o caso das vítimas que explodem por dentro.
Na segunda novela, Crime Cracker, Bronco Vale está bem instalado na vida: está casado com Linda, agora viúva do agente Marlowe, que o contrata para investigar a morte do ex-marido.
Vale, além de Bronco, é agora rico, ocioso, vive numa mansão, veste um roupão de seda para ouvir música e folhear as páginas dos jornais, para seguir de longe as notícias que pingam sangue.
Mas, tal como os criminosos, Bronco Vale não resiste ao apelo e volta sempre aos locais dos crimes. Será que a ignição do MG descapotável de Miss Janet é a chave do Crime Cracker?
Na terceira novela, O Papagaio Assassino, o detective privado continua bem instalado na vida, dirige a Bronco Vale Investigações.
Constituição da equipa: secretária Betty Grable; polícia reformado: Errol Flinn; estagiário, expulso da Academia de Polícia: David Copperfield.
A história de O Papagaio Assassino começa em Londres, com um papagaio a descer em voo picado até espetar-se na barriga de alguém que simplesmente acabara de chegar ao parque. Sabe-se depois que a vítima era um comerciante indiano nascido em Moçambique, e que só não morreu por acaso.
As coisas precipitam-se: Flinn leva um tiro no tornozelo; Bronco leva mais um tiro, desta vez no rabo e de raspão; encontram-se no Hospital St. James, ao cuidado do Dr. Kildare.
- Estou farto de levar tiros - Desabafa Bronco Vale.
- Não quero estar casada com um homem que leva tiros – Decide Linda.
Apesar de estarem de acordo, separam-se por isso mesmo.
Sem Linda, Bronco Vale assenta arraiais no 4 de Espadas.
O bar é um ninho de espiões, agentes secretos, etc., é ali que Bronco Vale encontra as pontas soltas do caso do Papagaio Assassino e resolve o mistério.
Estão a comemorar a resolução do caso e os largos proventos daí resultantes, quando toca o telefone. Betty Grable atende. 
- Quem era? – Pergunta Bronco Vale, quando Betty desliga.
- Um possível cliente – responde. – Mandei-o ligar amanhã. Hoje estamos a comemorar O Dia de São Detective Particular.

Recapitulemos: Estereótipos nas personagens e sátira no enredo, nas situações e nos diálogos são o que mais há nas três novelas de Álvaro Belo Marques, editadas pela Chiado Editora. 
E também um sentido e um exercício de humor irresistível, uma cultura sólida que sustenta uma narrativa líquida, fluente, enquadrando a construção de cada uma e do conjunto das três novelas, escritas num português primoroso, oral e malandro.
Tudo isto em assumido desacordo ortográfico. Bem-haja.
Álvaro Belo Marques tem todas estas e muitas outras qualidades, em cima de uma vasta cultura e de larguíssima experiência de vida, de escrita, de oralidade na rádio, de cor e movimento na tv – recordemos os papagaios de Maputo.
É com essas qualidades, com um grande talento, um fremente desejo de comunicar – coarctados em tantos regimes e latitudes e tantas e tantas vezes – que Álvaro Belo Marques tece esta obra surpreendente: mirabolantes histórias que gozam com o arco de padrões e preconceitos numa irreverência que desafia o ideário e os modelos dos anafadinhos, bem vestidinhos e borbulhentos que ditam a moda e os paradigmas… também nas letras e nas artes.
E na comunicação. Moçambique – onde Álvaro Belo Marques viveu de 1977 a 1988 - e ensinou as futuras gerações de jornalistas –… Moçambique fez o que não fez a imprensa portuguesa: deu notícia do lançamento das três novelas do Álvaro Belo Marques.
Deixemos cada um com a sua glória ou as suas vilezas e voltemos ao bom do Álvaro Belo Marques e às três novelas em boa hora lançadas pela Chiado Editora.
Eu que conheço o Álvaro Belo Marques, que trabalhei sob a direcção do seu entusiasmo, dinamismo, criatividade, eu que ouvi as suas histórias na rádio, que li agora as novelas, eu, se mandasse, dava um prémio por esta obra ao Álvaro Belo Marques. 
A este autor que lança três livros de uma penada, aos 84 anos feitos, eu dava um prémio Revelação.
Há um Belo Marques no céu das colcheias e das semifusas com razão para ter orgulho no nome com que o filho assina: Álvaro Belo Marques.
Muito obrigado Álvaro.
        João Paulo Guerra / 19 de Setembro de 2016 

sábado, 22 de abril de 2017

Era uma vez um miúdo num país a arder

Apresentação do livro de MIGUEL CARVALHO "QUANDO PORTUGAL ARDEU - Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril",  bar do Cinearte, A BARRACA, Lisboa 12 ABRIL 2017


Era uma vez um miúdo que tinha quatro para cinco anos no Verão Quente de 1975;
Fez 5 anos no dia 25 de Novembro de 1975 e nesse dia, para celebrar o aniversário do pequeno Miguel, a televisão passou um filme cómico com Danny Kaye.
A TV portuguesa não passava filmes cómicos desde o dia 12 desse mês de Novembro de 1975; nessa data, um almirante sem papas nem tento na língua rompera um cerco a São Bento disparando uma salva de impropérios.

Nos trinta e um dias do mês de Janeiro de 1976 – ia o Miguel a caminho, mas ainda distante, dos seis anos – registaram-se em Portugal 55 sessões de pirotecnia política; em Fevereiro, mais 21 sessões; e em Abril de 1976, a data da aprovação da Constituição, o mês começou com a morte do Padre Max e da estudante Maria de Lurdes, à bomba.
E assim foi crescendo o jovem Miguel Carvalho: o Verão de 1976 aqueceu com as prisões dos primeiros elementos da rede bombista, entre os quais o alegado mandante Joaquim Ferreira Torres, industrial, autarca e cacique, libertado duas semanas antes do 25 de Novembro desse ano.

E em Agosto de 1979, faltavam 3 meses para que o Miguel completasse 9 anos, Ferreira Torres tornou-se sujeito de todas as primeiras páginas na manhã de 21 de Agosto. Naquela manhã, como era costume, Joaquim Ferreira Torres arrancou de Paredes cinco minutos depois das oito, com os matutinos do Porto no banco traseiro do Porsche vermelho. Mas o empresário nem sequer chegou a ler as gordas do último dia.

-        Um Governo para 100 dias. Pintasilgo passou no Parlamento.

-        Greve total de médicos, decretada pela Ordem.
-        Batata desapareceu do mercado.
-        Serra da Freita continua a arder.

No dia seguinte, seria ele próprio, Joaquim Ferreira Torres, o sujeito de todas as primeiras páginas.
Dez minutos depois de sair de Paredes, o Porsche do empresário estava imobilizado em contramão, no sítio do Barro Branco. Crivado de balas, o corpo de Ferreira Torres caíra para o banco do lado direito do Porsche, isto é, ocupava o lugar do morto.
O empresário tinha sido abatido após o Porsche ter sido imobilizado. Foi abatido de frente. Era a emboscada como vem nos manuais militares: o empresário caiu na zona de morte.
O miúdo nascido a 25 de Novembro de 1970 veio a tornar-se jornalista em 1989/90. E na edição de 20 de Agosto de 2009 – 30 anos depois dos acontecimentos – Miguel Carvalho publicou na Visão a investigação dos Mistérios do Barro Branco.
Escreveu:
 “Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos, negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos, económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que «abriria o saco» sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como «o crime do Barro Branco», lugar onde o calaram para sempre.”
A reportagem do Miguel Carvalho foi muito justamente distinguida com o Grande Prémio Gazeta de Reportagem 2009, entregue em 2010.
Nesse mesmo ano, eu próprio recebi o Prémio Gazeta de Mérito, um prémio de fim de carreira. A cerimónia juntou-nos na Culturgest; mas nós já nos correspondíamos sobre histórias de Portugal.
Eu, Gazeta de Mérito, orgulho-me da amizade com um jornalista 30 anos mais novo, Grande Prémio Gazeta de Reportagem, de quem sou admirador.
Para lá dos prémios Gazeta e da carteira de jornalista, temos em comum o facto de nos tratarmos um ao outro por camarada. Que é assim o tratamento entre jornalistas, excepto para aqueles que têm mais preconceitos do que espírito de camaradagem.
O convite do Miguel Carvalho para apresentar este seu livro – Quando Portugal Ardeu - Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril, editado pela Oficina do Livro – é uma honra, que cresceu à medida que fui lendo o livro.  
E, enquanto lia o livro Quando Portugal Ardeu, algumas interrogações tomaram conta de mim: Como é que o Miguel despertou para estes temas? Como é que o Miguel, entrou nestes enredos de terror, como é que ficou, à distância de três décadas, tão familiarizado com estes nomes, estas siglas, estes cenários, estes tempos?
E perante tantas e tão densas dúvidas, fiz o que deve fazer um jornalista: fiz perguntas, procurei respostas.

- Pergunta: Miguel, qual é a memória mais antiga que tens das histórias do teu livro?
E o Miguel respondeu-me por escrito - A memória mais antiga é, sem dúvida, ter ouvido falar, em casa, com 5/6 anos, do Ramiro Moreira, por diversas vezes. Não só por causa das notícias abundantes da época a propósito dos atentados bombistas, mas também porque uma das bombas que ele colocou foi no carro de um tio meu. É desse tempo, também, a memória de uma agressão do Ramiro e de outros elementos da rede ao meu avô paterno, que o deixou numa poça de sangue. De certo modo, tenho uma memória sensorial do fim da ditadura e dos primeiros anos de democracia. Em casa dos meus pais faziam-se jornais clandestinos – entre os quais o boletim A Terra – e antes e depois do 25 de Abril eu era, muitas vezes, acordado a meio da noite, embrulhado num cobertor, e levado para casa de outros familiares, onde pudesse estar mais seguro. Ainda hoje parece que sinto, na pele, aquele friozinho que sentia quando me acordavam de madrugada e embrulhavam num cobertor, entre ruído de vozes apressadas e sussurradas.

        - Pergunta: Miguel, ouvias então, muito próximo de ti, falar destas histórias, em miúdo?
- E o Miguel respondeu - Ouvi sempre. Cresci nesse tempo de grandes esperanças e sonhos, de excessos, de radicalismos, e isso foi sempre assunto de conversa nas várias casas de familiares. A família paterna, de fortes tradições republicanas, estava ligada ao PCP desde os tempos da ditadura e tenho uma tia que esteve dois anos na clandestinidade. Do lado materno, o envolvimento político era menor, mas dividia-se entre o PS e o PPD. Tudo isso me influenciou, como é óbvio. Familiares relativamente afastados, ligados ao PS, chegaram a ameaçar o meu pai, com cintos e catanas, por causa de simples colagens de cartazes. Um tio do lado materno teve um carneiro a quem chamava Cunhal e, quando o bicho morreu, pendurou a cabeça dele na parede como se fosse um troféu. J “Estás a ver o que acontece aos comunas como o teu pai?”, dizia-me ele. No hard feelings - Comenta o Miguel.
Tive também um tio, do lado materno, a quem devo o facto de hoje ser adepto do FC Porto (ele tinha camarote nas Antas). Ele era também devoto do Sá Carneiro. Lembro-me perfeitamente de ver esse meu tio aparecer em casa dos meus pais e passar longas noites em conversa com o meu pai, sem nunca se chatearem e irem ao ponto de se admirarem. Fazia-me muita confusão e lembro-me de ter pensado: “Então isto anda tudo à bulha, eles são de partidos tão diferentes e dão-se bem?” 
- Pergunto-lhe ainda: Miguel, a tua curiosidade, como investigador, tem uma raiz mais funda do que o jornalismo?
- Pergunta difícil de responder – responde o Miguel Carvalho. – Vamos lá... em miúdo era conhecido por ser um bocadinho Tom Sawyer. Tudo o que fosse desconhecido, diferente, inóspito, perigoso, me atraia de forma vertiginosa. Daí o rol de feridas, rasganços, tombos e afins que coleccionei, com reprimendas a condizer. Talvez venha daí. De subir às árvores, de brincar nos sítios mais perigosos das bouças, de passar um dia inteiro fora de casa, com amigos, entre poços, casas abandonadas, riachos, etc., nos arredores rurais do Grande Porto, ou de querer formar clubes de detectives com os amigos. Pelos 6/7 anos começou o fascínio dos jornais (mais tarde viriam os livros do Sherlock Holmes).
Havia muitos jornais lá em casa – as respostas também passam por aqui, digo eu –, havia muitos livros, sempre, mas nunca eram suficientes. Queria ler tudo, tocá-los, cheirá-los. Pegava em folhas A4 e tentava reproduzir manchetes, notícias, etc., uma maluqueira! Já com 9/10 anos, quando aos fins-de-semana ia para casa da minha avó materna, roubava dos quiosques os jornais a que não tinha acesso (o dinheiro era contadinho lá em casa) e também trazia para casa os jornais que a vizinhança abandonava, em pilhas, no lixo (O Jornal, Tempo, etc...). Na escola fartei-me de fazer
fan zines que depois vendia aos colegas e aos professores. Um ou outro texto sobre as condições ou algum problema da escola valeram-me chamadas ao conselho directivo ou advertências de professores.
As semanadas da minha avó eram todas gastas em jornais. Ao sábado, esperava horas infindas nos quiosques pela chegada, ao Porto, dos vespertinos, e comprava sempre o que viesse mais volumoso. Daí, que ainda hoje, às vezes do nada, me venham à memória personagens, episódios e acontecimentos que, na altura, não tinha maturidade para compreender. Hoje, a minha casa é a casa típica de um farrapeiro: caixas de arquivos, dossiês, jornais antigos, papelada que nunca mais acaba

Às histórias que passaram ao lado da sua infância, o Miguel Carvalho acrescentou uma grande capacidade de pesquisar, de seleccionar, de organizar e relacionar dados, de tirar conclusões, cultivar e manter fontes muito bem informadas, de consultar com método e espírito crítico muitas e diferentes fontes documentais, de identificar o fio e o enquadramento das histórias e, por fim, o Miguel Carvalho acrescentou a todo este trabalho exaustivo a arte de saber contar bem as histórias.
Estes episódios de Quanto Portugal Ardeu estão muito bem escritos e muito bem organizados, cada um de per si e no conjunto do volume. 
O formato muito original e muito conseguido do livro sobre os sucessivos Verões Quentes que fizeram arder o País consiste no relato em episódios sobre a ofensiva organizada, financiada, enquadrada estrategicamente, dirigida no terreno, contra o período mais rico, criativo, participado, generoso e fraterno da história recente de Portugal.
Cada um dos 18 episódios do livro do Miguel Carvalho é uma história, uma história que vive por si mas que é também uma peça de um puzzle, uma história com os seus quês de tragédia e / ou de comédia, e que faz parte de uma história mais geral: é a história de uma festa que foi bonita, pá… mas que azedou.
 Morre-se neste livro; morre-se de sair à rua, uma rua banhada de cravos e de palavras de esperança, porque o revanchismo respondeu a tiro, no 25 de Abril, e à bomba, um ano depois; também se conspira, se trai, se faz negócio, nos enredos deste livro: conspiram diplomatas, políticos, caciques, civis e militares, laicos e eclesiásticos; também se rouba, se contrabandeia, se trafica, se intruja, se rapina.
Houve muitos criminosos envolvidos nestas histórias, mas houve também muitos mais cúmplices. A prova disso é que estas histórias acabam com numerosas vítimas mas sem culpados.
Os cromos destas 18 histórias, que somadas contam a crónica de um Portugal a Arder, num Verão Quente como não houve outro, são figuras patéticas de uma banda-desenhada de terror: mataram pessoas mas, eles próprios, viram-se a contas com a crónica de uma morte anunciada.
O Miguel escolheu bem as suas 18 histórias e a ordem pela qual as publicou em livro. E foi meticuloso ao colocar a história de Os segredos Barro Branco – isto é, a história do assassínio do cacique Joaquim Ferreira Torres a encerrar a série de episódios de mm País a arder. Hoje dir-se-ia que o assassínio de Ferreira Torres é a história estruturante deste romance de terror, que é afinal simplesmente um repositório de reportagens de investigação de um grande jornalista.
Eu escrevi sobre este e outros assuntos daquele tempo em que Portugal ardia, nas páginas do jornal O Diário, a partir da delegação do Porto. Depois, senti necessidade, tal como penso que aconteceu com o Miguel, de fixar algumas daquelas histórias de modo mais perdurável do que uma mera página de jornal que se lê um dia e se deita fora antes que chegue o dia seguinte.
E num livreco intitulado Polícias e Ladrões, publicado pela Caminho em 1983, reproduzi e acrescentei algo ao que havia escrito no jornal, sobre o caso de Uma Meada com Muitas Pontas, na qual se cruzava O Caso Torres, com uma Teia da Extrema-Direita, com delitos comuns, uma e outra a darem-se cobertura política e a financiarem-se, culminando tudo num estranho caso de crimes perfeitos, na medida em que, sendo crimes, compensaram. Ninguém acusou, ninguém foi condenado. E eu perguntava em 1983: quem os protege? Ninguém respondeu.
A não ser eu próprio, que respondi em tribunal.
O Miguel Carvalho pega em algumas destas e em diversas outras histórias e personagens com muito mais metier do que eu lhes peguei, com mais método, mais técnica e mais ciência, com mais pesquisa, mais fontes e mais documentos. Embora conheça e me recorde de algumas das fontes citadas pelo Miguel.
Nos tempos em que as coisas aconteceram, eu pesquisei e redigi as reportagens que deram origem ao livro Polícias e Ladrões, que o Miguel Carvalho inclui na sua bibliografia de consulta. Nesses tempos, escrevia-se talvez com muita emoção mas seguramente com menos rigor do que o Miguel escreve sobre os tempos destas Histórias e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril.
Digo-o sem excesso de humildade nem sobras de altivez.  
O livro do Miguel Carvalho tem o tempo a seu favor. O tempo arrefeceu as cinzas e as histórias, à distância, vêem-se com distanciamento, coisa que não havia no meio das labaredas.
É muito importante que alguém conte estas histórias quarenta anos após os acontecimentos. E é muito importante que esse alguém seja um jornalista como é o Miguel Carvalho.

No final do mês de Março, um camarada nosso da rádio, camarada cujo ofício é dar notícias, anunciou-me com entusiasmo que o livro do Miguel Carvalho Quanto Portugal Ardeu figurava num TOP de vendas, bem à frente das Memórias de Cavaco Silva.
Fiquei muito satisfeito, pelo Miguel e pelos leitores que procuram esta leitura. E que certamente encontram no livro Quando Portugal Ardeu mais do que aquilo de que vão á procura.
Cada linha destas histórias, neste livro de mais de 550 páginas, custou certamente ao Miguel Carvalho muitas e muitas horas a cultivar contactos e a consultar fontes, a vasculhar papéis e a conferir testemunhos, a sondar a história e a cruzar informações, a seguir e a segurar perfis fugidios. E provavelmente, pese embora o tempo que passou, custou-lhe também enfrentar algum risco.
Não nos esqueçamos que houve um tempo em que este País ardeu, porque houve quem lhe pegasse fogo; e houve os que deixaram arder.
O livro do Miguel Carvalho não deixa que esqueçamos que ninguém matou João Arruda, na Rua António Maria Cardoso, no dia 25 de Abril de 1974; ninguém matou Vítor Bernardes, em 14 de Agosto de 1974, quando passou pela PSP no Rossio para ir à farmácia de serviço comprar um medicamento para o filho; ninguém matou o Padre Max nem a estudante Maria de Lurdes, em 2 de Abril de 1976, data da Constituição da República; ninguém matou Rosinda Teixeira, nos escombros da sua casa, em São Martinho do Campo; como também ninguém calou a boca ao cacique de Murça, no sítio do Barro Branco, assim como ninguém matou à bomba Adriana Corcho e Efrén Monteagudo, na Embaixada de Cuba em Lisboa, 1976.  
Ninguém os matou; certo é que eles morreram. Lembrem-se disto. Esta democracia não assenta propriamente em brandos costumes. 

João Paulo Guerra

Lisboa, bar do Cinearte, Teatro A Barraca, 12 de Abril de 2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo – V

Estava na rádio para ficar… e fiquei.
Fiz a primeira revista de imprensa em 10 de Abril de 2006, a última em 31 de Julho de 2015. Em 20 de Outubro de 2008 a revista passou a duas edições diárias: a primeira, pelas 7h 20m, de primeiras páginas, a segunda, pelas 8h 25m, do miolo dos jornais. Fazia a revista a partir de dez jornais e duas revistas, que recebia e lia a partir das 5h da manhã: Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Público, jornal I; Diário Económico, Jornal de Negócios; A Bola, Record, O Jogo; às sextas-feiras: VisãoSábado
Média diária de 3 quilos de papel de jornal.
Era duro mas fez-me muito bem à saúde: para aguentar o fôlego e a exigência da revista de imprensa, deixei de fumar.
E dava-me tanto gosto fazer a revista que até recusei, creio que em 2010, o convite da Administração da RTP para desempenhar o cargo de Provedor do Ouvinte.
Tinha uma grande vantagem para ler e passar em revista os jornais: trabalhava em casa. A RTP instalou-me em casa equipamento e linha telefónica RDIS (Rede Digital com Integração de Serviços): som de estúdio. 

Os jornais eram depositados por uma empresa distribuidora às 5 da manhã, no tapete da porta do meu apartamento; trabalhava na mesa da sala de jantar, com os jornais abertos, corria as primeiras páginas, tomava notas em cadernos grandes quadriculados; assinalava com marcadores de cores os títulos, as notícias, as fotos, os comentários, a paginação. Escrevia o texto da revista das primeiras páginas antes das seis horas e começava a folhear os jornais, a tomar notas para a segunda edição. Após a primeira edição da revista ir para o ar, começava a rever e ordenar as notas para escrever o texto da segunda edição.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo IV

 De facto, a rádio…

A rádio estava escondida na proposta do Sérgio Figueiredo que em 1997 me levou para o Diário Económico. O jornal pertencia a Miguel Paes do Amaral, juntamente com o Independente, Grupo Media Capital, e Sérgio Figueiredo tinha o projecto de construir, a partir do Económico, uma redacção multimédia para jornal, rádio e TV. Cheguei a fazer o projecto de conteúdos para uma estação de rádio, em cima da data para concorrer a determinada frequência de radiodifusão. Um administrador anunciou à redacção:
- Ganhámos a frequência de rádio, o que ficamos a dever ao João Paulo Guerra.
Ao que respondi que só ficavam a dever se não quisessem pagar e de facto não deram sinal de querer. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - III

Com efeito, entretanto, voltei mais uma vez à rádio.
Telefonia de Lisboa 
Eu passara na década de 80 pelo movimento das rádios piratas – louco e heróico, diria o Manuel da Fonseca –, designadamente pela Telefonia de Lisboa. Mas, em Outubro de 1990, o convite veio do Emídio Rangel e a rádio era a TSF. E para ajudar o meu orçamento, a proposta compreendia colaboração com o semanário O Jornal, ligado empresarialmente à TSF. A rádio nacionalizada, que era quase toda, fechara-me as portas: estive arredado longos anos. Uma das muitas propostas que apresentei à rádio nacionalizada e que nem sequer recebeu resposta foi mais tarde um projecto de grande impacto e sucesso na TSF, as laureadas Viagens com Livros.
Reconstituição para O Jornal do assalto
ao avião da TAP em 1961: o
panfleto lançado sobre Lisboa, autografado
 por tripulantes e assaltantes do avião.
No semanário O Jornal consegui manchetes, como as relativas à extensão da rede Gládio em Portugal, fiz investigação sobre a história contemporânea do País, acompanhei casos de polícia. O repórter à antiga, na companhia de grandes mestres do jornalismo e da reportagem.

Na TSF entrei para editor e repórter na equipa que estava a fazer as edições do fim-de-semana: folgávamos segunda e terça, estudávamos a agenda na quarta – durante um almoço numa tasca nas imediações das Amoreiras, uma tasca chamada Regresso, o que me parecia um bom presságio para o meu regresso à rádio –, metíamos mãos à obra e pés ao caminho na quinta e sexta, sábados e domingos editávamos os noticiários e respectivas reportagens, mais um magazine de actualidades, Os Dias Andados. O editor da equipa era o Fernando Alves.  

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - II

        … No entanto, o semanário acabou antes de começar. Foi assim.

Número 0 do AE,
imagem da Galeria Virtual do Museu da Imprensa
Deixei o RCP, na Rua Sampaio e Pina, num dia de Novembro de 1973, mas no dia seguinte estava a trabalhar na rua Joaquim António de Aguiar, uma paralela, duas ruas adiante, descendo a Rodrigo da Fonseca, passando o Hotel Ritz, virando à direita, na redacção do semanário Actividades Económicas, o AE, um projecto financiado pelos irmãos Agostinho e José da Silva, accionistas maioritários da Torralta. Dinheiro não faltava: redacção com razoáveis ordenados para a época, equipamentos novinhos em folha que fariam do AE o primeiro jornal português com fotocomposição na redacção. E projecto também havia.
O escritor e jornalista Mário Ventura Henriques, que fazia a ligação entre a administração e a redacção, disse-nos que se tratava de um semanário para «fazer concorrência ao Expresso, pela esquerda». 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo - I

Rádio Renascença 1962
1962 – Entrei na rádio pelo Programa Nova Vaga, com outros jovens de então, nas tardes de sábado de Rádio Renascença: Fernando Correia (actual membro do Conselho de Opinião), João Mota, Lauro António, Dinis de Abreu, Daniel Ricardo, Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra. Programa de microfone aberto em directo para o gravador do José Manuel Moreno Pinto. Foi assim: o Dinis de Abreu, jovem jornalista no Diário Popular, formou a equipa e perguntou a minha mãe, Maria Carlota Álvares da Guerra, chefe de redacção da Crónica Feminina e cronista na RR, se conhecia jovens que quisessem participar no programa: entrei eu e a Maria do Céu, minha irmã; eu acabei por ficar na rádio, a Maria do Céu Guerra foi para o teatro. 
Quando a Nova Vaga acabou – e foi rapidamente – Joaquim Pedro convidou-me para ficar a estagiar como locutor na RR. Lia anúncios de estação – Rádio Renascença, Emissora Católica Portuguesa –, ligações e lançamentos entre programas, passagens à Basílica dos Mártires para o Terço e Bênção, o estágio era acompanhado por locutores consagrados da estação como Joaquim Pedro, Dora Maria, Maria José Baião, Luís Filipe Aguiar. Também “estagiava” vendo fazer e ouvindo João Martins, Armando Marques Ferreira, António Revés, e observando de perto o trabalho de técnicos como José Manuel Moreno Pinto, Alberto Moreno, José Ribeiro, António Ricardo.
Primeiro plano: JPG, Jorge Balsa, José Dias, António Ricardo e José Videira;
segundo plano: Moreno Pinto, Franquelim Rodrigues, José Neves de Sousa,
padre Miguel, NN, NN e Fernando de Almeida (treinador)
Em 1963, um ano após o início do estágio, recebi convite para me mudar para o Serviço de Noticiários do Rádio Clube Português. Na RR eu também dava notícias – recortadas dos jornais e coladas numa folha de papel: “O Senhor Presidente do Conselho recebeu hoje o senhor ministro da Defesa com quem o vemos na gravura acima”. De maneira que aceitei de primeira o convite, vindo do Luís Filipe Costa e transmitido pelo Matos Maia. O último acto em que participei como estagiário da RR foi um jogo de futebol contra o RCP. Perdemos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Congresso deu a 80 estudantes de jornalismo a experiência de uma redacção

Rute Santos/ I.P.P.
Dezenas de computadores, máquinas em tripés, gravadores espalhados pelas secretárias. O ruído constante e a correria dos estudantes confirma o que parece impossível: uma equipa multiplataforma funciona dentro da sala 2 do Cinema São Jorge. É nesta sala convertida em redação que se reúnem mais de uma centena de profissionais, professores e alunos de comunicação, responsáveis pela cobertura do 4.º Congresso dos Jornalistas. Com um palco ao fundo e palavras de ordem espalhadas pelas paredes, cumprem a missão proposta pelo congresso: “Afirmar o jornalismo”.

sábado, 14 de janeiro de 2017

IV Congresso dos Jornalistas: precários e desempregados agora chamam-se Freelancers


Maioria dos jornalistas tem licenciatura em comunicação e investe na formação contínua mas recebe menos de 1.000 euros por mês, indica o mais recente e abrangente inquérito aos jornalistas, desenvolvido por uma equipa do CIES-IUL (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa), em parceria com o Sindicato dos Jornalistas e o Obercom, em 2016.
Em 2016, 33,4% dos inquiridos não tinham contrato fixo e, portanto, trabalhavam em condições contratuais precárias e sujeitos a instabilidade, insegurança e fragilidade. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares fica para a história colado à página da descolonização


Mário Soares: Acho que foi feita a descolonização possível
Spínola: O Dr. Mário Soares teve comigo duas ou três reuniões pessoais, secretas, chamando-me a atenção para os perigos que estávamos correndo…
Eanes: Houve várias divergências.

A vida de Mário Soares (1924 - 2017) marcou e foi marcada por décadas de protagonismo na história contemporânea de Portugal. Particularmente o 25 de Abril e a descolonização foram páginas da história às quais o nome de Soares ficará colado para sempre. 
Foi a «descolonização possível», disse.  
A página da História voltou-se em Abril de 1974. Três meses mais tarde, quando o chefe da nova diplomacia portuguesa, Mário Soares, subiu à tribuna da ONU, a assembleia ouviu, por fim, Portugal reconhecer os princípios da Carta das Nações Unidas e afirmar solenemente o propósito de descolonizar de acordo com os princípios da Carta. Apesar de ter perdido o tempo próprio da história, Portugal acordou do sonho imperial e mandou regressar as caravelas: a descolonização fez-se, com mais ou menos traumatismos.