quinta-feira, 4 de junho de 2015

Belmiro: O empresário que decidiu ficar

           Belmiro de Azevedo entrevistado 
           por João Paulo Guerra, 
           Diário Económico, 22 de Abril de 2005
           Fotos cedidas pelo entrevistado

Belmiro de Azevedo é o maior caso de sucesso empresarial da democracia portuguesa. Em estreita ligação com a evolução do regime democrático, mas em constante competição e sempre na luta, em 30 anos, a partir de uma empresa de laminados, Belmiro de Azevedo construiu um império, instalando-se em sectores de alta competitividade e diversificando o seu portfólio de negócios pela indústria dos derivados da madeira – de que é líder mundial –, pelo retalho alimentar e não alimentar, centros comerciais, telecomunicações, serviços. É hoje [2005] o único português que figura entre os homens mais ricos do mundo. Mas Belmiro de Azevedo tem um conceito de riqueza. Vive de um muito confortável salário e riqueza criada é riqueza reinvestida.


Formado em engenharia química, quadro superior da SONAE, Belmiro de Azevedo seguiu o 25 de Abril pela rádio, no seu gabinete na SONAE, saiu à rua no 1º de Maio de 1974 e partilhou a alegria colectiva de um país «saturado pela guerra, a pobreza e os condicionamentos». Depois, os condicionamentos foram outros e o empresário teve que enfrentar o monopólio do Estado e alguns casos de «perseguição» que denuncia com frontalidade e violência.
Irreverente e muito crítico do poder e dos profissionais da política, Belmiro de Azevedo dedica 14 horas por dia à «aventura de fazer coisas». Mas o seu dia-a-dia compreende uma vida, para além dos negócios, dedicada à cultura física e à leitura. Quando deu a entrevista ao DE, faltavam-lhe dez páginas para acabar de ler «O medo de existir», de José Gil, e concordava que a falta de educação, de formação, de cultura, cria uma sociedade pouco ousada, subserviente, com medo. Belmiro de Azevedo, pelo contrário, é um guerreiro que não quer chegar ao repouso.
E tudo começou há 67 anos, na freguesia de Tuías, concelho de Marco de Canavezes, em casa de Adelina Ferreira Mendes e de Manuel Fernandes de Azevedo, carpinteiro, pai de oito filhos. O mais velho chamou-se Belmiro.

- A história do filho de um carpinteiro chegar a ser o homem mais rico de Portugal parece quase uma lenda. Como é que foi possível?

A turma da escola de Tuías em 1947: Belmiro de Azevedo está
ao meio da foto, na segunda fila a contar de cima
- Nunca me senti pobre e também não me sinto nada rico. São riquezas contabilísticas, porque eu vivo com o meu salário, não preciso mais do que isso. Para um empresário, a sua obrigação é de reinvestir, criar e passar riqueza para gerações futuras. Do ponto de vista pessoal, tenho uma vida mais confortável que a média dos portugueses, mas é uma vida frugal. Às vezes acusam-me de ser excessivamente frugal.
- Mas nem toda a gente tem esse mínimo. Há estatísticas da União Europeia…
- …Vinte por cento da população no mundo vive abaixo do limiar de pobreza. Eu faço o que posso nessa matéria, que é criar empregos, criar riqueza. Tenho pouca capacidade em distribuir riqueza, porque isso compete sobretudo ao Estado, que cobra impostos para fazer isso, para garantir o mínimo de sobrevivência a essas pessoas. Isto é, as acções de solidariedade das empresas Sonae, se bem que significativas, são apenas uma gota no oceano. Porque tudo isso tem que ser resolvido com problemas vastíssimos de anos a nível mundial.
- Mas para além desse problema mundial, ao nível de cada país há muitas desigualdades internas, mesmo no nosso país. Entre ricos e pobres, litoral e interior…
- Sim, mas nós somos o grupo que mais cria emprego em mais partes do país, a maneira mais eficiente de dar dignidade e conforto aos nossos colaboradores. Nós temos governos que estragam dinheiro. Era fundamental poupar, não obrigar a poupar aqueles que já são pobres, mas os que são médios e ricos, para distribuir a riqueza. O Estado tem que dar o exemplo - acabar com o deficit e gerar poupança – para poder pedir o mesmo às empresas e cidadãos.
- Falemos de si. Quem foram as influências da sua infância? Os seus pais, o seu padrinho…
- … E o meu professor. O meu pai e a minha mãe foram os responsáveis por eu estar no mundo e pela minha componente genética. Tinham comportamentos diferentes. A minha mãe tinha uma presença e uma atitude muito mais emocional, mais carinhosa, era muito inteligente e tinha uma grande capacidade de gerir uma família num período muito difícil. Era no tempo da guerra mas houve sempre comida para toda a gente. Era a galinha daqueles oito pintainhos. O meu pai era mais austero, mais aristocrata, se é que posso dizer, porque tinha uma profissão e tinha pequenos prédios agrícolas, que eram indicadores de riqueza em relação à média como se vivia no período a seguir ao fim da guerra.
- E aí entra o professor?
- O meu pai era caçador e o meu primeiro professor da escola primária também. Eram amigos por essa via e decidiram que eu iria para a escola do professor caçador, longe da minha casa. Afinal, concluí que ele poderia ser bom caçador mas seguramente não era bom professor. E mudei então para a escola de Tuías, uma bonita escola construída pelo Estado Novo. E aí tive o professor que reconheceu as minhas qualidades e eu as dele. Ele fez uma pequena batota, permitindo-me fazer os quatro anos da instrução primária em três anos, recuperando o tempo que tinha perdido. Mas o mais importante é que ele teve muita influência nos meus pais que, na altura, nem sequer sabiam o que era uma carreira. E ele disse aos meus pais que eu, desse por onde desse, tinha que estudar. Foi quase uma imposição sobre o meu pai. A minha mãe era muito mais voltada para a frente nesse ponto de vista da educação. O meu pai era mais austero e questionava-se: «Vai agora para o Porto, depois não há dinheiro». Mas lá fui de camioneta para o Porto fazer o exame de admissão. Fiz o exame, passei com facilidade e teria que ficar no Porto para continuar a estudar.        
- Nesse ponto entra o seu padrinho?
- Eu não tinha casa nem dinheiro para viver no Porto. O meu padrinho, Belmiro da Mota, era uma personalidade que tinha feito parte da Carbonária no início do século, era frequentemente preso pela polícia do regime, era ateu, perseguido pelo regime. Eu fui para “casa” dele nas caves do edifício então em construção – Sanatório D. Manuel II, que é hoje o Hospital Santos Silva, no Porto, onde ele era fiscal. Um emprego arranjado por um amigo dele, um bocadinho à socapa, porque ele não podia ter emprego. E então o hospital estava em construção e nós vivíamos acampados no primeiro andar. Era aí que eu vivia. Ia a pé dois quilómetros para apanhar o eléctrico para ir para o Liceu Alexandre Herculano. Ali vivemos cinco anos, entre os meus 11 e os 15 ou 16 anos, até que nos mudámos para outro edifício público em construção o que é hoje o Observatório de Astronomia, na Serra do Pilar. Até que ele morreu. E foi a primeira pessoa que eu vi morrer.
- E foi o seu padrinho quem teve mais importância na formação da sua personalidade?
Penúltimo na segunda fila
- Era uma pessoa de um humanismo fora de série. Era um autodidacta, lia muito e, embora sendo ateu, tinha uma concepção de que Jesus Cristo tinha sido sobretudo um filósofo. E tinha grandes conversas filosóficas comigo. Eu tinha tido uma educação religiosa, tinha feito a primeira comunhão. Ainda hoje sou um católico um bocado absentista. Mas ele, apesar de não acreditar, nunca teve uma palavra para me desviar dos meus comportamentos nessa matéria. O meu padrinho era rebelde e intemerato, nos seus tempos da Carbonária deitava pontes abaixo, era da pesada. O meu espírito rebelde, de insubserviência, talvez venha muito daí.
- No Liceu era aluno de quadro de honra?
- Era. Tinha muito boas notas, ia para o quadro de honra, tinha bolsas de estudo. Não era marrão mas tinha muita facilidade em aprender, particularmente matemática, física, química, mas também filosofia. E trabalhava. Dava explicações para financiar a minha própria formação.  
- E terminado o liceu seguiu para engenharia química. Que perspectivas lhe dava, no final dos anos 50, um curso de engenharia química?
- A minha opção era mais pelas ciências do que para a parte mais humanística do ensino. E dentro das ciências eu escolhi a engenharia, qualquer engenharia me servia, para criar coisas novas, alterar coisas velhas, fazer mais e melhor. A opção por química teve a ver com alguma leitura já do mercado de trabalho. A decisão foi tomada em 1956, quando já se adivinha um grande ‘boom’ da indústria química. Foi quando cresceram a CUF, a Sacor. Não só havia muitos empregos como eram empregos modernos. Por outro lado, dos cursos de engenharia, o de química era o mais generalista, sabia de todas as outras engenharias e tinha que interagir com os electrotécnicos, os mecânicos, os civis. Não só na formação como na prática. Também não havia escolas de gestão e o único curso que dava alguma formação que se aproximava das exigências da gestão moderna era o de engenharia química e industrial e talvez o de finanças, em Lisboa.
- Seria a perspectiva de uma carreira moderna mas num país muito atrasado…
- Nós somos um país de ciclos. Fomos muito ricos, ficámos muito pobres. Tivemos os descobrimentos, o Brasil, a Índia, o ouro, especiarias, mas depois nunca fomos capazes de reinvestir no momento certo. A República, que pretendia corrigir muitos defeitos de concentração de poder e de falta de cidadania, foi uma rebaldaria, como se diz na minha terra. Nunca houve uma linha de rumo. O Salazar teve uma atitude importante, durante quatro ou cinco anos, até à Constituição que lhe deu muito poder. Eu era anti-salazarista mas nunca fui perseguido porque não era um activo revolucionário. O meu tempo era mais para estudar, praticar desporto e dar explicações. Era irreverente. Portugal viveu sempre em altos e baixos. Tivemos a alegria do 25 de Abril, que provocou algum desperdício do ponto de vista material e problemas humanos, mas depois a adesão à Comunidade levantou-nos muito o moral e tivemos dez anos muito prósperos. E lá voltámos a fazer a mesma tolice de não aproveitarmos o bom momento para arrumar a casa.

Anos 60 e 70
O chefe da tribo SONAE

Belmiro de Azevedo deu os primeiros passos da vida profissional numa empresa têxtil da qual saiu, ao fim de um ano, para a SONAE – Sociedade Nacional de Aglomerados e Estratificados, do grupo Pinto de Magalhães. Era uma empresa falida mas, «daí para a frente, foi sempre a andar».  
Com Afonso Pinto de Magalhães
No 25 de Abril de 1974 estava na SONAE. O velho Afonso Pinto Magalhães exilou-se no Brasil. Belmiro de Azevedo optou por «ficar e lutar». «O risco faz parte de mim», diz. Quando o accionista voltou do Brasil recebeu uma empresa «que valia muito mais». Mas o conflito com a família Pinto Magalhães foi duro. Como dura foi a luta com o accionista Estado, que entrou na empresa por via das nacionalizações. Sem procurar facilidades, Belmiro de Azevedo foi vencendo no mundo de oportunidades que tinha à sua frente. 

- Começou a sua vida profissional numa empresa têxtil e em 1965 entrou, como quadro técnico, para a SONAE. O que era a SONAE em 1965?
- Era uma empresa falida. Uma empresa pequena, tinha umas 50 ou 60 pessoas. Mais do que entrar na SONAE eu saí da EFANOR, que era uma empresa anquilosada, sem estratégia, uma empresa a morrer e eu não queria morrer com ela. Demiti-me no último dia do ano de 1964, recebi o último salário e uma gratificação, de que eu precisava para pagar a última letra do frigorífico. E em 2 Janeiro de 1965 comecei na SONAE. Era um desafio novo, numa empresa que tinha carácter internacional, e para lá fui como investigador. Quando lá entrei percebi que era preciso mais bom-senso que investigação. Eu insisto nessa regra de que é preciso ter educação, formação, informação e muito bom-senso. Adoptei algumas medidas de bom-senso que corrigiram coisas evidentes e daí criei uma aura de tipo capaz de dar a volta às situações. Marcar os primeiros golos, o que é muito importante, não apenas no futebol, mas no governo, nas empresas. Não empatar o jogo, não prolongar o jogo com truques. Ser rápido nas decisões.
- E qual foi concretamente o seu papel na mudança que se deu na empresa?
- Aquilo que hoje se chama capacidade de empreender. Corrigi erros rapidamente, procurei alavancar ao máximo os recursos humanos e materiais que havia e viver no mundo. Aquela empresa tinha para mim um atractivo muito grande que era o facto de importar matérias-primas de cinquenta países e vender para cinquenta países. Tinha o meu formato de empresa de âmbito internacional num ambiente competitivo. Fiz uma equipa e daí para frente foi sempre a andar até chegar nos inícios dos anos 80 a grande empresa [vendas 20 milhões de contos - €100 milhões]. A SONAE era considerada grande e vendia por ano 20 milhões de contos. Hoje vendemos 70 ou 80 vezes mais. E de umas centenas de trabalhadores, hoje temos 60 mil. As coisas andaram depressa.
- Que futuro teria uma empresa como a SONAE, com o regime do condicionamento industrial?
- O condicionamento industrial atrapalhou-me várias vezes. Nós precisávamos de resinas para os nossos produtos e tropeçámos no condicionamento industrial que protegia os senhores do antigamente, os Champalimaud, os Mellos, os Espírito Santo. Era o monopólio das pessoas que tinham os alvarás. Nessa altura os alvarás é que diziam quem ganhava dinheiro e quem não ganhava. E quem ganhava num ambiente confortável não competitivo. Portanto, fui confrontado com esse condicionamento industrial. Para fabricar resinas, aquilo que estava condicionado era a chamada química básica. E nós entendíamos que formaldeído, resinas não era química base mas de segunda geração. Nós utilizávamos dois produtos químicos para fazer um terceiro produto químico. E isso demorou muito tempo a reconhecer a evidência.
- E confrontou-se com os monopólios antes, mas também depois do 25 de Abril?
- Mais tarde confrontei-me com outro monopolista, que já não eram os Mellos, os Champalimaud e os Espírito Santo, mas era o Estado português, naquela loucura das nacionalizações. Mas aí eu fui um homem pragmático. Porque uma coisa é lutar contra o condicionamento industrial. Outra coisa é reconhecer que tinha havido uma profunda mudança no poder político em Portugal mas não se previa que tão cedo houvesse mudanças. De maneira que me meti ao caminho e pensei: o que é que eu posso fazer que não foi tomado pelo Estado? Em vez de chorar por não poder fazer químicas, ou adubos, ou aço, eu comecei a desenvolver a indústria dos produtos florestais. Depois, a distribuição alimentar em Portugal, que era então um desastre, com pobres mercearias em cada esquina, sem tratamento higiénico dos produtos, sem cadeia de frio. Portugal é hoje um dos países mais evoluídos na distribuição, que leva os produtos a casa mais barato e com mais conforto. E isso foi feito num período em que nenhum outro país fez. O primeiro hipermercado foi inaugurado em fim de 1985. Em 20 anos temos o sistema mais moderno e mais competitivo da Europa. Mais tarde, foram os centros comerciais.
- Alguma vez hesitou, teve dúvidas, alguma vez falhou em alguma iniciativa que tenha tomado?
Com Rogério Martins, a indústria no tempo
do condicionamento industr
  - Fizemos uma pequena aventura tentando entrar na televisão. Era uma zona ainda muito controlada. Investimos muito dinheiro nisso, no que seria o primeiro canal privado, mas desistimos quando chegámos à conclusão que o Estado queria continuar a mandar e controlar completamente o sector. Não havia regras de concorrência, não se sabia qual era a profundidade dos bolsos do Estado a bombear dinheiro para uma empresa RTP, coisa que mais tarde se verificou que era muito mais do que eu tinha imaginado. E evidentemente que eu não posso concorrer com uma empresa que tem o dinheiro que quer sem ter que prestar contas, que foi o que se passou na televisão durante muitos anos, com milhões e milhões de contos enterrados ali. De maneira que um empresário sério e cumpridor que tem que pagar salários com os dinheiros das receitas não pode concorrer.
- Foi mais fácil ao Estado abrir mão da banca que da televisão. É isso que quer dizer?
- A pressão para abrir a banca foi muito forte internacionalmente. Num sistema social-democrata, regime mais ou menos capitalista, ter um sistema financeiro seguro e competitivo é muito importante pois é preciso muito dinheiro, captando fundos, no mercado. O Estado apercebeu-se que não tinha a mínima hipótese. O Estado teve que despachar o sector financeiro por várias razões. Porque via-se livre de um grande pesadelo, não tinha dinheiro para responder ao crescimento. Quanto à comunicação social, consumia muito dinheiro. Mas eu acho que todos os governos gostam de ter a mãozinha na comunicação social. E era um brinquedo que, sendo caro, dava jeito e tentou todos os governos, com mais elegância, ou menos elegância…
- Às vezes sem elegância nenhuma…
- … Às vezes sem elegância nenhuma, também conheço algumas histórias dessas.
- Mas estávamos a falar do condicionamento industrial. Acha que foi a maior mudança na economia do país?
- Libertou mais alguns sectores. Eu não peço. Exijo. Mas não exijo nada para mim. Nunca pedi nada para a SONAE. O que exigi foi que se abrisse o Estado à sociedade, a toda a gente. Eu não tinha nada com o antigo regime, nem do ponto de vista político, nem como benefícios resultantes do período condicionado. Eu sempre vivi com o risco. O risco faz parte de mim. O que aconteceu é que a seguir ao 25 de Abril a maior parte das pessoas que tinham a ver com o desenvolvimento industrial não estavam cá, andavam por esse mundo fora, umas fugidas, outras desiludidas, criou-se uma situação de falta de pessoas com capacidade e a nova geração demorou um bocado a aparecer. Eu assumo que o corte que a revolução significou foi desnecessariamente caro, foi desnecessariamente injusto para muitas pessoas, mas criou um novo ponto de partida para muita gente.
- Como lhe perguntaria o Baptista-Bastos, onde é que estava no dia 25 de Abril?
- Eu saía de casa sempre pelas 7 horas, ia no carro, na Via Norte, estava a 500 metros da SONAE, e ouvi o primeiro comunicado das Forças Armadas. Portanto, estava debaixo do viaduto que vai para a Maia, a caminho da SONAE. E continuei. Normalmente, quando chegava ia fazer ‘jogging’. Mas nesse dia não fui. Quis seguir o que se estava a passar. E fiquei impressionado como tão fácil foi. Foi só abanar. As pessoas estavam saturadas por variadíssimas coisas: pela guerra, pela pobreza, pelos condicionamentos. Lembro-me do 1º de Maio, no Porto…
- Assistiu ao 1º de Maio?
- Assisti. Eu sempre fui irreverente, na Universidade, na tropa (apanhei oito dias de detenção), e conhecia muito bem algumas pessoas como o arquitecto Artur Andrade, meu senhorio, que foi secretário da candidatura do Humberto Delgado. Antes do 25 de Abril andei sempre informado sobre o que passava, fui a manifestações, apanhei uma carga de água dos carros da Polícia na Rua de Santo António. Conhecia o pai do Dr. Artur Santos Silva, o Óscar Lopes, Rui Luís Gomes, Laureano Barros, gente daquela que tinha que ter sempre a malinha feita para ir passar uns dias fora, por precaução, ou para ir passar uns dias à PIDE.
- Mais tarde, a nacionalização do Banco Pinto Magalhães arrastou a intervenção na SONAE. Foi o seu primeiro conflito com o novo Estado?
- Foi uma coisa tola, que destruiu pessoas e empresas. Conheço pessoas que me contaram histórias internas do PC. Para eles era muito estranho que eu não estivesse contaminado com qualquer coisa. Foi uma frustração. E depois eu trabalhava com um grupo de trabalhadores muito aberto, moderno. E então fizeram várias coisas para me assustarem. A perseguição era no sentido de mudar a administração, pôr outros administradores, comissários políticos sem competência nenhuma. Quiseram entrar na SONAE mas os trabalhadores não deixaram. A SONAE era uma tribo e eu era o chefe da tribo. E aquilo foi uma luta dura. Eu era funcionário da SONAE, tinha 17 acções, mas era um estratega. Na altura usei alguns truques como os que o Partido Comunista tinha. Fez-se uma greve na SONAE, que foi chamada “a greve reacionária”, a greve ao contrário, por defender a permanência da administração e direcção da SONAE contra a entrada dos administradores nomeados pela banca e pelo IPE. Eu sabia a força que tinha e não era inocente. A força é para ser usada. E então demiti-me. Eu sabia que a minha demissão não seria agradável para o Governo nem para a própria Comissão Administrativa do banco. Comigo demitiram-se todos os outros directores. A fábrica continuou a trabalhar mas de uma maneira intermitente. Trabalhava o número de dias necessário para manter a caixa e pagar aos trabalhadores. E sempre pagou durante esse período. Faziam as chamadas greves descontinuadas. Foi uma engenharia político-laboral, criando perturbação política sem criar perturbação social.
- Disse numa entrevista que «a generalidade dos empresários entrou em pânico com a revolução», contrapondo a sua atitude, descontraída. Quando é que percebeu que o 25 de Abril não era apenas um golpe militar mas uma revolução?
- Eu leio muito. E gosto muito de ler política. Não gosto de exercer política porque é uma frustração. E portanto não demorei muito a perceber o que se estava a passar. A minha opção foi ficar e lutar. Não devia nada em relação ao passado, tinha muita coisa para fazer e do ponto de vista das oportunidades tinha todo o mundo à minha frente. Eu escrevi uma longa carta ao Conselho da Revolução. Foi quando percebi que me tentavam empurrar. Nessa altura havia muita gente do Norte que ia até Vigo e ficava por lá. A carta dizia que eu não saía de Portugal, não jogava esse jogo. Já li que teria havido uma ordem para me prenderem mas nunca deram esse passo. Mas eu era incómodo como o diabo, não conseguiam pegar-me por nada e portanto teriam que me passar uma rasteira qualquer. Mas eu fui desportista, sei fazer fintas, não me deixo fintar com facilidade.
- E na SONAE como é que passou de quadro a administrador e a accionista da empresa?
- A SONAE praticamente viveu sempre em auto-gestão. Pinto de Magalhães não tinha nenhuma interferência na Sonae. Era uma empresa com gestão moderna. Aquilo era mesmo para andar para a frente e ir conquistando mais mercados, exportando mais. Portanto, eu já era empreendedor no sentido do empresário que empreende. Não era detentor de capital. Ali geri o capital do accionista Pinto de Magalhães, mesmo quando ele esteve afastado no Brasil, sempre da maneira mais isenta possível. Ele chegou, voltou a receber uma fábrica que valia muito mais nessa altura e eu continuava com as mesmas 17 acções. Essas acções foram compradas quase por brincadeira. Havia um senhor que tinha morrido e eu, para que as 100 acções que ele tinha não fossem lá para o monte do Estado, disse à família que nós na empresa ficávamos com elas. Fez-se uma reunião, com um quadro na parede, e toda a gente que quis foi comprando acções. Sobraram 17. Eu fiquei com as acções que sobraram.
- Mas depois não ficou por aí. Como é que chegou aos 55 por cento do capital da SONAE?
- Isso é outra história. As outras acções, devido à indefinição do governo e do sistema financeiro, acabavam por não ter dono. Grosso modo, 80 por cento eram de Afonso Pinto de Magalhães. Mas como estavam arroladas não serviam para nada. Era como se fossem do Estado. Salvo que não tinham poder de voto. De maneira que durante cinco anos, havia 25 milhões de acções e eram 100 acções que tomavam as decisões. Os outros abstinham-se. E a empresa foi gerida muito bem porque, como lhe disse, a empresa já estava em auto-gestão e tinha uma motivação, que era criar riqueza, ser competitiva. Portanto, era quase indiferente quem era o accionista. Mais tarde, quando Afonso Pinto de Magalhães recuperou os 80 por cento, quando o processo-crime que o Estado lhe instaurou terminou, ele vendeu-me, a um preço simbólico, 20 por cento das acções. E eu dei 20 por cento das minhas acções aos trabalhadores. Assim esteve durante muito tempo. 
- Que relações manteve com a família de Afonso Pinto de Magalhães?
- Ele era muito meu amigo, o que criou uma situação de inveja das filhas e dos genros, (dizia-se que eu seria o filho que ele gostaria de ter tido). Eu cheguei a fazer um documento para ele, dizendo que não trabalharia um segundo com os herdeiros, porque os considerava medíocres. Quando ele esteve doente, eu é que tratei de tudo, mandei vir um médico de Inglaterra. A família demorou muito tempo a chegar cá. Quando ele morreu tratei de funeral. Cumpri, digamos, as funções de filho. Fiz aquilo que devia fazer. O testamento dele foi feito no hospital e a única testemunha fui eu. A família herdou tudo, ficou riquíssima e eu anunciei que me ia embora, tal como dissera na carta a Afonso Pinto de Magalhães. A família ficou aflita, não queria mandar na gestão da empresa, vendeu-me metade da posição. Houve um banco que, de uma maneira quase milagrosa, me emprestou muito mais dinheiro do que eu imaginava que alguém me emprestasse. Eu disse-lhes que a família de Pinto de Magalhães queria 100 mil contos pelas acções e o gerente do banco respondeu-me: “Escreva o cheque.” E eu perguntei se ele estava a brincar comigo. “Escreva o cheque”, insistiu ele. E eu escrevi, sem saber se no dia seguinte aquilo tinha cobertura. E não descansei enquanto a família não me telefonou a dizer que tinha descontado o cheque. Costuma dizer-se que para ter sorte e preciso comprar um bilhete da lotaria. É preciso trabalhar para ter sorte.
- Se tivesse saído da SONAE, que iria fazia na vida?
- Já tinha casa, tinha filhos. Eu tinha sido assistente na Faculdade de Engenharia. Poderia seguir a carreira académica. Conhecia bem o sector industrial, era prestigiado. Mas a carreira académica não era bem o que eu queria. Eu gosto é de fazer coisas.
- E houve alguma alteração pelo facto de passar de director-geral da empresa a detentor da maioria do capital?
- Nada. Eu nem dividendos recebi durante muitos anos. É tudo reinvestido. O salário que ganho chega e sobra para aquilo que preciso. Costumo dizer que a diferença entre o nascer e morrer é um fatinho e um par de sapatos. As pessoas esquecem-se disso. Mas não levam nada. Os egípcios é que metiam nos túmulos muitas jóias.

Anos 80 e 90
O perfil do Homem / SONAE

Com a democracia estabilizada, e com o controlo accionista da SONAE, Belmiro de Azevedo lançou-se na criação de novas empresas e à conquista de outros mercados. Na indústria chegou a líder mundial no sector dos derivados da madeira; no mercado nacional do retalho alimentar, criou grandes cadeias de hipermercados com 400 lojas; nos centros comerciais criou estabelecimentos da maior dimensão nacional, ibérica e do Brasil. Expandiu os seus negócios por três continentes, diversificou-os pelo retalho especializado, pelas telecomunicações, turismo, comunicação social. Nem sempre foi fácil e o empresário teve conflitos históricos com alguns governantes e dirigentes políticos.
Era este o espírito de empreender, o perfil de líder do Homem SONAE, um retrato de quem Belmiro de Azevedo «gostaria de ser».  

- O perfil do Homem / SONAE, que traçou em 1985, era o seu auto-retrato?
- Eu sou muito espontâneo. Mas tenho na cabeça muitas ideias, um bocado à semelhança dos poetas. De repente, sai poema. E aquele documento foi manuscrito, uma hora antes da reunião. Se era o meu retrato, não sei. Parcialmente, era. Mas era, sobretudo, o retrato de quem eu gostaria de ser. Era um código de ética, de comportamentos, um incentivo à acção de empreender. Qualquer grupo tem que ter um líder, porque a sociedade é assim. As tribos eram assim. A sociedade está toda organizada desse modo. Há pessoas que são excelentes a executar mas que não querem liderar, têm medo, não querem tomar decisões. Essas não servem para líderes. Mas fazem coisas que os líderes não fazem.
- O seu grupo empresarial cresceu, diversificou-se. Há pouco disse que gosta de fazer coisas. Essa é a característica do seu grupo empresarial?
- Eu só estou em sectores onde tenha alta competitividade. Se não era quase uma espécie de condicionalismo. Na distribuição, estão cá todos os europeus, para além de ter um concorrente português grande. Entrámos nas telecomunicações onde há um jogo mundial, à batatada. Na indústria virámos o problema ao contrário e somos de facto a primeira grande empresa que tem uma presença mundial enorme, é líder mundial. Estou sempre nas iniciativas fundamentais. Mas o que eu faço mais, neste momento, é garantir a qualidade dos recursos humanos. Se calhar a herança maior que eu deixo na SONAE é deixar nas pessoas uma voracidade para adquirir conhecimentos. Porque hoje o mundo anda tão depressa, as tecnologias mudam tão depressa, que se as pessoas não estão à tabela, num ambiente competitivo, quando derem por elas já estão obsoletas. A passagem de muito bom a muito mau é rápida.
- O seu portfólio de negócios chegou ao topo ou é para continuar?
- Sempre para continuar.
- É uma necessidade?
- É uma obrigação. Porque os negócios maduros deixam de dar gozo. A indústria, a distribuição, os centros comerciais no seu conceito, são negócios maduros. Mas as telecomunicações são um novo viciozinho. Nós tínhamos perdido mal duas coisas: a televisão e, mais tarde, perdemos o primeiro concurso de telefones móveis. Fomos indecentemente batidos pelo lóbi das comunicações. Foi negócio político, com batota da grossa. Nessa altura veio cá um ex-candidato à presidência dos Estados Unidos fazer lóbi pelo projecto ganhador. Deu certo para eles e nós perdemos. Mas nós entendemos que telecomunicações, ‘software’, etc., vão ser alavancas do sector empresarial.
- E o Estado, continua a atrapalhar?
- Temos que ter paciência, às vezes. Estamos pelo oitavo ano à espera, mas Tróia ainda não foi aprovado completamente. Temos é que ter um ‘pipeline’ com um número suficiente de processos de desenvolvimento, projectos futuros, porque, infelizmente, criou-se em Portugal uma atitude doentia, mesquinha, que é ter uma inveja do sucesso.
- Está a falar de algum caso em particular?
- Nós, durante três anos, fomos travados na secretaria para abrir supermercados. E a concorrência teve os que quis. Licenças que não eram dadas, vulnerabilidades de municípios às licenças de uns amigos, etc. Eu só digo que sendo um indivíduo que gosta de descentralizar, acho que essa coisa de descentralizar as licenças é uma tolice desgraçada, porque os pontos de corrupção multiplicam-se. E eu, que não sou de calar, quando sei de qualquer coisa digo logo, por vezes reajo com violência. Eu não peço favores. Mas exijo decisões. Os meus fornecedores exigem-me que lhes pague, os meus trabalhadores exigem salários e decisões. Eu também exijo que o Estado decida. Sendo exigente, eu dou um contributo muito maior, do ponto de vista da cidadania, ao Estado e ao povo português. E não tenho problema. A SONAE governa a sua empresa com qualquer governo.     
- Tem sido, em geral, muito crítico em relação ao poder político e aos políticos. Isto é uma estratégia ou o simples resultado de uma avaliação das maneiras de governar?
- São muitas promessas e poucas acções. É esse o problema. A taxa de cumprimento das promessas, eu costumo dizer que não deve atingir os 10 por cento.
- Mas há casos particulares de conflito…
- Há um exemplo, que está no nosso relatório deste ano. A maneira como fomos corridos da Portucel é impressionante. Nós tínhamos que fazer quatro coisas: aceitar um sócio estrangeiro, ser minoritários, ter mercado de capitais bem abastecido e tínhamos que fazer imediatamente uma fábrica de papel em Setúbal. Não aceitámos isso. Era uma imposição de um morto sobre um vivo. Nós desistimos, fomos corridos. Com todo o respeito, e desejo muito boa sorte ao grupo que ficou com a empresa, mas que nem tem sócios estrangeiros, nem é minoritário, é quase totalitário, o ‘free-float‘ foi reduzido praticamente a zero, e há dias li que estava a considerar fazer a fábrica noutro sítio. As quatro exigências não se cumpriram. Portanto, eu não queria usar a palavra perseguição, mas a SONAE tem sido prejudicada.
- Perseguido? E por quem?
- Olhe, pelos chamados ministros soviéticos da economia, Pina Moura e Carlos Tavares, curiosamente um de cada partido. Os ministros da economia deviam preparar propostas de legislação e regulamentar. Mais nada. Mas passam a vida a discutir as empresas. E os conselhos de ministros não funcionam. São muitos ministros. A maior parte dos documentos que são aprovados, 80 por cento dos ministros aprovam-nos de cruz. E depois os decretos ficam à espera de “melhoramentos”. Há decretos com erros de português. Tudo feito à pressa e não pode ser de outro modo. No Governo do Santana Lopes, um dia aprovaram oitenta e tal decretos. Há tipos estritamente ignorantes que chegam a secretários de Estado e passam a mandar em directores-gerais que, esses sim, sabem normalmente bastante mais.

Actualidade e Futuro
A aventura de fazer

No final dos anos 90, Belmiro de Azevedo foi pela primeira vez cotado pela revista Forbes entre os homens mais ricos do mundo. «A riqueza serve para reinvestir», diz o empresário, contrapondo aos que gostam de enriquecer rapidamente e em força os que aceitam o desafio da «aventura de fazer». O universo SONAE prepara o futuro e Belmiro de Azevedo está presente, detectando os quadros que emergem nas empresas. Sempre atento à formação e à inovação, numa atitude de verdadeira modernidade, o empresário está a criar o maior legado que poderá deixar, para além dos bens patrimoniais: um espírito novo, uma dinâmica para continuar, para fazer mais.
A família Azevedo: Nuno, Belmiro,
Maria, Cláudia e Paulo
Fora da vida dos negócios, Belmiro de Azevedo tem uma vida e uma família que partilha o seu conceito de riqueza.

- Se a SONAE pode ser apontada como um grande sucesso da democracia, porque é que o país não atinge também o sucesso?
- Nós somos uma sociedade que tem medo. Medo de existir, como diz esse filósofo que está muito na moda, José Gil. A sociedade portuguesa é subserviente. A facilidade com que se muda de opinião é enorme. Temos um grande défice de pessoas corajosas, que lutem por ideais. Eu votei em Mário Soares pela coragem dele, e não pelos princípios que ele defendia. É um líder, fez muitas coisas. Aliás, era um duplo benefício. Íamos ter um bom Presidente da República e víamo-nos livres de um péssimo primeiro-ministro. Com a revolução portuguesa, nós tivemos, à esquerda e à direita, políticos experientes, sensatos, que sabiam utilizar o bom-senso. E de repente, se formos ver os últimos governos, não há praticamente ninguém que tenha tido um trabalho, uma vivência de dificuldades na vida. E agora, o que se passou com o fenómeno de Santana Lopes! Acho que o Santana Lopes devia ter levado um banho três vezes maior. Como é que é possível, ele ainda ter tido tantos votos. Nós criámos o carreirismo. E o carreirismo depois cria um povo amordaçado, pouco ousado. José Gil diz que somos um povo com medo.
- Com a formação que proporcionou aos seus filhos, estava a pensar em criar os seus seguidores, os sucessores?
- Não, nada, absolutamente nada disso. Monarquia, sou absolutamente contra. Quando é a linha sanguínea que manda, a probabilidade de desencorajar os profissionais é muito grande.
- Então, o que fazem os seus filhos com a formação que lhes proporcionou?
- Um deles, o Nuno, foi jornalista, trabalhou intensamente 10 anos na Sonae Distribuição e na Sonae Indústria. Está hoje com a Fundação Portugal – África, tem um grupo grande de pessoas a trabalhar com ele e é administrador da SONAE SGPS, tem ligações com o Banco Mundial, está nestas coisas do desenvolvimento sustentado, está no WBCSD e na Fundação Serralves. O Paulo está muito ligado a tudo, especialmente às telecomunicações. E a Cláudia esteve no Banco Universo e está na Sonaecom, gosta muito de negócios, de ‘marketing’ e é uma chefe de tribo. Portanto, fiz alguma coisa por isso, em termos de desenhar a educação deles. Mas o mérito é fundamentalmente deles.
- E qual o papel da sua mulher?
- Eu sou mais austero, mais exigente, a minha mulher é muito mais emocional. Mantém uma grande relação entre toda a família, agora também com os netos. Mas na família cada qual toca a sua viola, mas a minha mulher é que mantém a coesão
- A família, encontra-se?
- Para manter esta família unida, é preciso que esteja ‘desunida’ no dia-a-dia, na vida física. Na aldeia, eu vivo numa casa que era a casa dos meus pais. E cada um tem uma casa separada. É uma espécie de um condomínio no meio de uma quinta. Cada qual tem a sua casa, tem os seus amigos, e juntamo-nos de vez em quando. Para mim isto é muito importante: eles têm que fazer o que quiserem, como quiserem, da melhor maneira possível. E sei que têm a minha ideia de riqueza. A riqueza serve para reinvestir. Há muita gente que gosta de ganhar dinheiro muito depressa. Mas há muita gente que gosta de viver esta aventura de fazer.
- Nas suas empresas, é insubstituível?
- Eu não tenho a mínima pretensão de ser o melhor. Não tenho. Eu sigo a carreira de 200 gestores de topo, 50 das quais muito de perto. A minha grande preocupação é saber quem é que está a emergir na organização. Essa é a minha grande obrigação. Os meus filhos fazem parte desses que estão a emergir na organização e que hão-de ter o lugar que eles quiserem e merecerem, uns têm mais jeito para umas coisas, outros para outras.
- O engenheiro Belmiro de Azevedo tem uma vida, para além da vida dos negócios?
- A minha mulher queixa-se que eu tenho o tempo mal gerido e se calhar tem razão. O meu dia-a-dia é relativamente simples. Levanto-me às 7 e vou para a cama entre as 11 e a meia-noite. De dia faço reuniões, tomo decisões, que é onde vem ao de cima a minha componente emocional. As emoções notam-se ao tomar decisões. Ao fim do dia, ocupo duas horas em que só estudo, só leio. É a necessidade da razão. As minhas leituras têm mudado muito. Interessei-me muito pela história das civilizações, das religiões, gosto muito de entrar no domínio complexo do cosmos, o que tem muito a ver com a minha capacidade de ler temas de ciência. Enfim, o dia tem 24 horas e eu estou activo 14.
- E para se informar, lê o Público?
         - Leio o Público e depois tenho uma empresa que faz aquilo que é chamado o ‘clipping’, que é um pacote de cópias dos artigos de assuntos que considero interessantes de outros jornais e revistas. Mas o Público é um jornal que eu gosto de ler, regularmente. Mas leio o importante dos jornais económicos, leio jornais estrangeiros, o Financial Times, o Wall Street Journal, The Economist, Business Week, El Pais com alguma regularidade, e continuo a gostar de Le Monde. 

2 comentários:

Kleberc Pereira disse...

Este sujeito deu uma rasteira em Afonso Pinto de Magalhaes, avô do meu amigo Rodrigo Pinto de Barros, falta de caráter

João Paulo Guerra disse...

Na entrevista, Belmiro de Azevedo fala da sua relação com Afonso Pinto de Magalhães e seus familiares e conta uma versão bem diferente do qualificativo de "rasteira" usado por Kleberc Pereira. Os leitores que avaliem.