sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Diz que é uma espécie de currículo – V

Estava na rádio para ficar… e fiquei.
Fiz a primeira revista de imprensa em 10 de Abril de 2006, a última em 31 de Julho de 2015. Em 20 de Outubro de 2008 a revista passou a duas edições diárias: a primeira, pelas 7h 20m, de primeiras páginas, a segunda, pelas 8h 25m, do miolo dos jornais. Fazia a revista a partir de dez jornais e duas revistas, que recebia e lia a partir das 5h da manhã: Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Público, jornal I; Diário Económico, Jornal de Negócios; A Bola, Record, O Jogo; às sextas-feiras: VisãoSábado
Média diária de 3 quilos de papel de jornal.
Era duro mas fez-me muito bem à saúde: para aguentar o fôlego e a exigência da revista de imprensa, deixei de fumar.
E dava-me tanto gosto fazer a revista que até recusei, creio que em 2010, o convite da Administração da RTP para desempenhar o cargo de Provedor do Ouvinte.
Tinha uma grande vantagem para ler e passar em revista os jornais: trabalhava em casa. A RTP instalou-me em casa equipamento e linha telefónica RDIS (Rede Digital com Integração de Serviços): som de estúdio. 

Os jornais eram depositados por uma empresa distribuidora às 5 da manhã, no tapete da porta do meu apartamento; trabalhava na mesa da sala de jantar, com os jornais abertos, corria as primeiras páginas, tomava notas em cadernos grandes quadriculados; assinalava com marcadores de cores os títulos, as notícias, as fotos, os comentários, a paginação. Escrevia o texto da revista das primeiras páginas antes das seis horas e começava a folhear os jornais, a tomar notas para a segunda edição. Após a primeira edição da revista ir para o ar, começava a rever e ordenar as notas para escrever o texto da segunda edição.


Dez anos e nunca me queixei. Este era o tipo de trabalho que me dava toda a excitação e estímulo da rádio: criar em cima da hora, tempo contado, em contagem decrescente a caminhar para o directo. Pouco antes de cada edição, a produção da Manhã da Antena 1 contactava-me para saber o “lançamento”. Eu respondia, dando a minha deixa para o animador apresentar a revista. Funcionava de forma excelente com o António Macedo e com qualquer dos outros animadores, José Carlos Trindade, Augusto Fernandes. 

Muito recentemente, Ana Isabel Reis, professora de Jornalismo na Universidade do Porto e investigadora em Estudos de Rádio, escreveu sobre a revista de imprensa:
«Ouvia fielmente a sua revista de imprensa nas manhãs da Antena 1, e ouvia-o porque era como se tivesse os jornais nas minhas mãos, para lá da repetição das ‘gordas’ que podia ver de relance, pouco tempo depois, no quiosque junto ao Metro.
«João Paulo Guerra não se limitava a repetir títulos enigmáticos. Abria os jornais, folheava-lhes as páginas, decifrava títulos e legendas, descrevia-nos a paginação, as fotografias e os traços dos cartoons, contava-nos as histórias do dia, lia-nos os jornais com cheiro a papel logo pela manhã - muito melhor que qualquer newsletter com sabor a ‘promo’.
«Era A revista de imprensa. É O jornalista a cumprir a sua missão: informar, mostrar, dar a ouvir e ensinar – como se faz a melhor revista de imprensa da rádio portuguesa
Eu não o saberia dizer com tão certeiras palavras mas era isto que eu procurava alcançar, em resposta ao desafio lançado pelo Rui Pego: Uma revista de imprensa assinada, com a tua assinatura...

JPG (Gazeta de Mérito),
o director do Repórter do Marão (Prémio Gazeta Regional)
e Miguel Carvalho (Grande Prémio Gazeta 2009)
A revista de imprensa foi destacada na atribuição dos dois prémios de carreira que recebi, em 2010, Prémio Gazeta de Mérito, atribuído pelo Clube de Jornalistas, relativo a 2009, e em 2014, Prémio Igrejas Caeiro, da Sociedade Portuguesa de Autores. Os prémios eram de carreira mas a revista de imprensa era um marco.
Recebi o Prémio Gazeta de Mérito em 15 de Novembro de 2010, no Salão Nobre da CGD, e disse:
«Estes prémios de mérito, ou de carreira, marcam em geral o fim da linha. Mas eu sei que não foi essa a intenção dos meus pares do júri dos Prémios Gazeta e do Clube de Jornalistas que me distinguiram com este prémio. E também por saber isso prometo continuar. (…) Embora tenha plena consciência que, em Portugal, este ofício não é para velhos. A memória é por vezes um estorvo. E os jornalistas preferem-se hoje mais do que jovens, acima de tudo, descartáveis. É sintomático, como é triste, que o júri dos Prémios Gazeta não tenha encontrado este ano quem merecesse o Prémio Revelação
Em 8 de Abril de 2014 recebi o Prémio Igrejas Caeiro, instituído pela SPA. O Prémio foi-me atribuído «pela qualidade e extensão da carreira como homem de rádio». Foi uma honra, tanto mais que essa foi a segunda edição do Prémio que, à primeira, foi atribuído ao Luís Filipe Costa e, depois, ao Adelino Gomes e ao António Cartaxo. Somos da mesma tribo.

Entretanto e a par da rádio segui outros caminhos. Em 2010 publiquei o meu primeiro trabalho de ficção, Romance de uma Conspiração, editado pela Oficina do Livro

O enredo arranca com um acontecimento  que testemunhei e tentei relatar como repórter do RCP: o 1º de Maio de 1964, trabalho que acabou com o meu gravador apreendido na esquadra da Praça da Alegria. E segue, mais adiante, com a ficção assente sobre as reportagens que fiz para O Jornal sobre a chamada Rede Gládio. O Romance de uma Conspiração teve como coroa de glória ser recenseado por Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, em Setembro de 2010. 
O segundo romance é de 2016Corações Irritáveis, editado pelo Clube do Autor
Belíssimo trágico romance, disse o crítico Miguel Real, no Jornal de Letras de 26 de Outubro 2016; Patamar raro de qualidade, escreveu o crítico António Loja Neves, no Expresso de 16 de Julho de 2016; Escrito num português de lei, como é timbre do autor, comentou Baptista Bastos, no Jornal de Negócios, de 1 Abril 2016; Este livro leva-nos, antes de mais, à morte de um homem, que a guerra continuou a matar depois da guerra, sinalizou Fernando Alves nos Sinais, TSF, 2 de Março 2016.
Lançamento de Corações Irritáveis: Maria do Céu Guerra
leu páginas do romance, Carlos Matos Gomes apresentou
o livro, Cristina Ovídio editou pelo Clube do Autor
 Do que estou aqui a falar e a apresentar é de um Grande Romance. 
De um grande romance sem outros qualificativos e que tem por tema a Guerra Colonial. Ou só a Guerra. Ou a verdade. Ou a consciência. Ou o remorso, disse Carlos Matos Gomes na apresentação de Corações Irritáveis, a 2 de Março de 2016. 

No Verão de 2015 enfrentei um enorme desafio: adaptar para o teatro o romance Clarabóia, de José Saramago. O desafio foi-me lançado pela minha irmã, Maria do Céu Guerra, e mereceu o apoio da Fundação José Saramago e de Pilar del Rio.
Maria do Céu Guerra, João Paulo Guerra, Pilar del Rio
e Adérito Lopes, na Fundação Saramago
O fantástico da experiência foi construir um texto cénico, usando o mais possível as palavras preciosas de Saramago, construindo diálogos a partir de texto corrido do autor; depois, em sucessivos ensaios de leitura, no Teatro Cinearte, com o elenco, reforçado, de A Barraca, o texto ganhar vozes; depois, com os ensaios no palco, dirigidos pela Maria do Céu, as vozes levantarem-se do texto e ganharem corpo, movimento, acção; por fim, tudo aquilo ganhou um cenário fantástico de José Manuel Costa Reis.
Maria Leonor Nunes escreveu sobre a Clarabóia na Visão e Jornal de Letras: No palco, um prédio com seis casas dentro, um “mosaico” de quotidianos familiares, nos anos pardacentos do fascismo, e subterrâneo o conflito, as pulsões da condição humana. São 16 atores para dar corpo à narrativa de Saramago tornada diálogo, com a adaptação de João Paulo Guerra. Para a reconstituição desse tempo, o cenário criado por Costa Reis. Um espetáculo para ‘virar a página’ da austeridade. “Um pontapé na sorte”, diz Maria do Céu Guerra, consciente do risco da aposta.
E Pilar del Río comentou: "A peça é uma adaptação livre, mas fiel".
Pela Clarabóia via-se Lisboa e Portugal dos anos 50: três andares, seis apartamentos, seis famílias, 17 personagens em movimento simultâneo no cenário de Costa Reis.
Do texto de Saramago e de um diálogo da dramaturgia:
SILVESTRE (João Maria Pinto) - Falou o sapateiro. Se outra pessoa me ouvisse, diria: “Fala bem de mais para sapateiro. Será um doutro disfarçado?”
ABEL (Ruben Garcia, rindo) – Será um doutor disfarçado?
SILVESTRE – Não. Sou apenas um homem que pensa.
A Clarabóia esteve em cena no Cinearte pela companhia A Barraca de Dezembro de 2015 a Março de 2016. 

Na minha vida profissional fui recebendo e transmitindo conhecimentos; recebi-os dos mais velhos, ao passar pela RR e ao entrar para o RCP – Joaquim Pedro, João Martins, Moreno Pinto, Jaime da Silva Pinto, Luís Filipe Costa, Fernando Curado Ribeiro, José Manuel Gonçalves –, aprendi com gente mais nova na TSF – Emídio Rangel, Fernando Alves, João Canedo, Jorge Pena, Paulo Canto e Castro, Alexandrina Guerreiro –, dei cursos de formação na Cooperativa TSF e no Centro de Formação da RDP, um dos meus “formandos” na TSF é hoje director-adjunto na rádio pública onde trabalho. 
José Manuel Moreno Pinto
no estúdio de gravação da RR
(anos 60)

E eu continuo a aprender e nunca vou ser capaz de dizer que sei tudo, nem que não quero aprender mais. Há muita gente boa na rádio com quem tenho muito a aprender. Comecei ainda havia gravações em arame e o que se usava era a fita de arrasto; o primeiro gravador que usei num “exterior” tinha que se lhe dar corda; agora estamos no digital e a rádio está passar paulatinamente do éter para o ciberespaço. E toda a gente tem que continuar sempre a aprender.

Seja onde for, a rádio é melhor que se faça por paixão. E a mim, que lia os meus textos em voz alta quando trabalhava em redacções de jornais, para ouvir como soavam, a rádio não me sai do ouvido, do coração, nem da cabeça.

Lembro-me do estágio na Rádio Renascença. Lembro-me do Moreno Pinto, do Alberto Moreno, do Joaquim Pedro, do João Martins, da Dora Maria, da Maria José Baião, do Armando Marques Ferreira, do Padre António Rego e do meu mais velho amigo nestas andanças, o José Ribeiro.
Não morreu mais ninguém,
decidiu a Censura
Lembro-me de tremer a ler o primeiro noticiário no Rádio Clube. Lembro-me de um mês depois de entrar para o Rádio ter o baptismo de fogo com os tiros de Dallas que mataram John Kennedy.
Lembro-me da Censura. 
Joaquim Furtado:
Aqui Posto de Comando... 
Lembro-me, na noite de 25 de Novembro de 1967, quando já havia duas centenas de mortos contados nas inundações de Lisboa e arredores, a Censura ditar que a partir daquele momento não morria mais ninguém.
Lembro-me do PBX, do Carlos Cruz e do Zé Fialho Gouveia, do Zé Nuno Martins.
Lembro-me do Tempo Zip, outra vez com o Carlos e o Zé Fialho, o Zé Nuno, o Zé Duarte, e já com o Joaquim Furtado, o Rui Pedro, o João Alferes. 
Lembro-me de me lembrar de um poema: “Que o poema seja microfone e fale, uma noite destas, de repente às três e tal, para a lua estoire e o sono estale e a gente acorde finalmente em Portugal…. 
Lembro-me de o microfone ter falado pela voz do Joaquim Furtado...

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