sábado, 23 de abril de 2016

O 25 de Abril nasceu na Guiné

 Salgueiro Maia (Santarém, 20 de Janeiro de 1992), António Ramos (Lisboa, 18 de Fevereiro de 1994), Carlos Fabião (Bissau, Agosto de 1974 e Lisboa, 18 de Fevereiro de 1993), Manuel dos Santos (Canjambari, Guiné-Bissau, Agosto de 1974 e Bissau, 27 de Janeiro de 1991), Costa Gomes (Lisboa, 3 de Março de 1993), Ramalho Eanes (Lisboa, 6 de Abril de 1993), Pezarat Correia (Lisboa, 11 de Fevereiro de 1993), Kaulza de Arriaga (Lisboa 10 de Fevereiro de 1993), António de Spínola (Lisboa, 26 de Abril de 1993), Paradela de Abreu (Lisboa, 20 de Fevereiro de 1994), 
entrevistados por João Paulo Guerra

Em 1961, esmagadas as incertezas e hesitações dos chefes militares, Salazar mandou avançar para Angola, assumindo ele próprio a pasta da Defesa Nacional. E foi com Salazar à Defesa que o Império perdeu a jóia da coroa, a Índia.
A descolonização do chamado Estado Português da Índia demorou 36 horas [18 a 19 de Dezembro de 1961], ao cabo de cinco séculos de presença portuguesa e de onze anos de um diálogo de surdos entre Lisboa e Nova Delhi. Um dia e meio foi quanto resistiram cerca de três mil militares portugueses colocados em Goa, Damão e Diu à invasão dos territórios por cerca de 50 mil soldados indianos. Mas, apesar desta desproporção, Salazar enviara de Lisboa para o governador da Índia, general Vassalo e Silva, ordem para vencer ou morrer:
Morreram na Índia 67 militares da guarnição portuguesa; cerca de 3.500 foram feitos prisioneiros.
A derrota militar na Índia, em Dezembro de 1961, veio dar razão aos militares que, em Abril desse ano, tinham preconizado uma solução política para a questão colonial. No entanto, complexados pela derrota, os militares não exploraram o sucesso da sua razão. Pelo contrário, a partir daí remeteram-se ao silêncio por largos anos.


De 1962 a 1973, os militares assumiram a guerra colonial.
Salgueiro Maia, Janeiro de 1992. Foto Luís Silva
Foi nas matas de Angola, da Guiné e de Moçambique que os militares portugueses aprenderam tudo aquilo que ficava por aprender nos manuais da Academia Militar. E a geração que fez a guerra acabou por fazer também a revolução. Foi a geração do capitão Fernando José Salgueiro Maia:
«Os cursos que entraram para a Academia em 1963, 64 e 65 – recordava mais tarde Salgueiro Maia - foram a base do MFA. Foi a partir do início da guerra que a Academia Militar passou a abrir a porta. E os que entravam, sabendo-se que estávamos em guerra, iam para a Academia por idealismo, sabiam que se iam sacrificar, que iam para a guerra. Mas o idealismo, aliado à generosidade e ao espírito de contestação dos anos 60, predispunha para dar a volta ao texto. Em 1974 encarámos o risco: Vamos ou não vamos? Optámos por arriscar, mesmo não sabendo o que vinha a seguir. É que, para nós, não queríamos nada.
– «Saiu daqui para defender um Portugal multirracial e deparou com o colonialismo puro e duro?
S.M. - «Tudo aquilo que a propaganda apregoava, o tal Portugal uno, indivisível, inalienável e multirracial, mais não sei quantos, era uma fraude. Porque nós chegámos lá e vimos que existia quase escravatura, com os negros a serem obrigados a trabalhar à coronhada de Mauzer, existiam castigos corporais perfeitamente abjectos, existia todo um mundo de arbitrariedade, e no fim eram as Forças Armadas que teriam que estabelecer o equilíbrio. Eu nunca estive em Angola. Em Angola, houve os problemas de 1961, com não sei quantos mortos entre a população civil, e seria normal que isso provocasse traumatismos. Mas em Moçambique não houve nada e o comportamento da generalidade dos colonos do interior era de racismo, de exploração, de negação de tudo aquilo que a propaganda dizia.
«Ora num contexto destes, e quando já tinham sido publicados bastantes livros sobre a guerra da Indochina, em especial os livros do Jean Larteguy, nós começámos a pensar, a fazer paralelismos. E a partir de certa altura deixámos de ter dúvidas sobre qual seria o fim da história. Depois estive na Guiné, já como capitão, e o contexto militar era bem pior. Só encontro paralelo com o cenário do filme Platoon.
Prisioneiros portugueses na guerra colonial

Ao longo de treze anos, as Forças Armadas incorporaram e mobilizaram para a guerra 820 mil jovens portugueses: registaram 8.831 mortos, cerca de 30 mil feridos, perto de 15.000 deficientes e mutilados de guerra. E 3.209 heróis, 31 condecorados com a Torre e Espada, 139 com medalhas de Valor Militar, 3.039 com a Cruz de Guerra. Cerca de 200 militares desertaram dos teatros de operações. A percentagem de faltosos e refractários rondava, em cada ano, 18 por cento do contingente. A guerra esteve na origem da emigração de milhares de jovens e das respectivas famílias. Entre 1960 e 1974 emigraram, só para França, o destino mais próximo, 1.524.000 portugueses, cerca de 80 por cento dos quais «a salto». Ao longo de treze anos, as despesas com a guerra constituíram, em média, 43 por cento das despesas públicas, chegando a atingir cerca de 55 por cento em 1969.
Mas o regime não admitia outra saída. Negociar era um sacrilégio.
O regime não aceitou dar a volta à história da guerra e iniciar modalidades de descolonização, tanto em Moçambique, com Jorge Jardim, como na Guiné, com o general Spínola. Em 26 de Maio de 1972, Marcelo Caetano convocou o general para lhe comunicar que o regime preferia a derrota militar na Guiné a «negociar com os terroristas». Na altura, Spínola ainda estava na fase de se espantar e indignar: «Pois Vossa Excelência prefere uma derrota militar?!». No regresso a Bissau, o general confidenciou ao seu ajudante de campo, capitão António Ramos, que negociações na Guiné estariam comprometidas porque Marcelo Caetano tinha medo:


«O professor Marcelo Caetano - recordava anos depois o tenente-coronel António Ramos - teve medo da reacção da ultra-direita se embarcasse naquela aventura. E portanto não quis avalizá-la. Isso era uma razão para comprometer as negociações. A outra foi a morte prematura de Amílcar Cabral [Janeiro de 1973] que não permitiu continuar a explorar uma via de entendimento que levaria a uma independência unilateral, que poderia ser um exemplo interessante, que começaria por uma autonomia, depois um independência federada. Seria sempre uma independência a prazo. Isso foi completamente frustrado quando morreu o Amílcar Cabral, com quem havia contactos e que não estava longe até de se propor a sua nomeação para primeiro-ministro da Guiné.
- «Está com isso a dizer que a morte de Amílcar Cabral serviu os interesses daqueles que, em Portugal, queriam sabotar esse processo de negociações?
A. R. - «Não tenho dúvidas nenhumas. Nunca deixei de pensar, e nunca ninguém me provou o contrário, que a morte de Amílcar Cabral foi um trabalhinho feito, não pela PIDE, que era incompetente demais para isso, mas a pedido da PIDE, por outro tipo de organização internacional mais profissional.
- «Quem?
A. R. - «Por aquilo que conheço da actividade da CIA naquela época, foi um trabalho típico de que alguma organização ligada à CIA.
- «Resumindo: um factor foi a morte de Amílcar Cabral, outro o medo de Marcelo Caetano?
Amilcar Cabral
A. R. - «O medo de Marcelo Caetano era que o exemplo da Guiné alastrasse a Angola e Moçambique. Mas esse era o propósito da equipa do general Spínola: começar pela Guiné, onde era mais fácil, para seguir em Angola e Moçambique.
- «O que é que tornava mais fácil a negociação na Guiné? A situação mais difícil do ponto de vista militar?
A. R. - «Estas guerras não se ganham nem se perdem. O general Spínola procurou equilibrar a situação de modo a ter capacidade de diálogo e a convencer a guerrilha da sua disposição para o diálogo."

Quando recusou a Spínola o visto para negociar com o PAIGC, por intermédio de Leopold Senghor, presidente do Senegal, Marcelo Caetano terá ditado a sorte do regime. E ditou certamente a sorte da guerra na Guiné. Não havia solução militar para a guerra e o regime recusava-se a negociar a paz. Era esse o labirinto do general Spínola. O coronel Carlos Soares Fabião, oficial do Estado-Maior de Spínola na Guiné, testemunhou a entrada do general para o seu labirinto:

Carlos Fabião
«Ele chegou à Guiné - recordava Carlos Fabião -, estudou o que se passava, visitou a Guiné toda, falou com todos os comandantes, correu com alguns deles, correu com alguns chefes civis também, instalou-se e fez uma reunião para a qual convocou os comandantes militares mais importantes da Guiné. E apresentou este conceito, para mim revolucionário: Uma guerra subversiva nunca está ganha nem nunca se ganha militarmente. Só é possível ganhar politicamente. Portanto, eu não vou pedir que ganhem a guerra, porque vocês não têm capacidade para ganhar esta guerra. Quem tem que ganhar a guerra sou eu. A vocês só vos peço que não me percam a guerra e que me dêem tempo para eu conseguir ganhar politicamente a guerra."

Derrotada a estratégia para negociar a paz, o general Spínola intensificou o esforço de guerra, procurando reconquistar pela força as posições perdidas no Sul da Guiné. Foi então que o PAIGC começou a usar mísseis terra-ar, acabando com a supremacia aérea das tropas portuguesas. A partir desse momento, já nem era possível ao general pedir aos seus oficiais que se limitassem a não lhe perder a guerra.
     Do lado da guerrilha, era a mira do coronel Manuel dos Santos, comandante da antiaérea do PAIGC, que estava apontada ao destino da guerra e do regime:

«Uma anti-guerrilha moderna - diz Manuel dos Santos - não se faz sem helicópteros, tropas helitransportadas e aviões de ataque ao solo. E portanto, o facto de nós interditarmos, de certa forma, o espaço aéreo às operações normais de anti-guerrilha conduziu o Exército português a perder completamente a iniciativa no terreno e a capacidade ofensiva. E aí foi de facto onde as coisas se puseram bastante pretas.
- «Qual foi a reacção das tropas portuguesas?
Manuel dos Santos 
M. dos S. - «Os primeiros aviões foram abatidos em fins de Março de 1973. Houve ainda algumas incursões em Abril. E devo dizer que a partir do momento em que foi abatido o chefe do Estado-Maior da Força Aérea de Bissau, o tenente-coronel Almeida Brito, a aviação, durante algum tempo, cessou praticamente a sua acção. Ao que parece, as tropas portuguesas não esperavam que nós possuíssemos tais armas.
- «Que armas?
M. dos S. - «Era o SAM 7, como é vulgarmente designado no Ocidente. Eles não esperavam que nós possuíssemos essas armas e que as soubéssemos manejar convenientemente.
- «E sabiam?
M. dos S. - «Sabíamos. A verdade é que abatemos aviões. Nós tivemos gente treinada, nessa altura, na União Soviética, donde provinham esses mesmos mísseis.
- «E os mísseis foram decisivos?
M. dos S. - «Absolutamente decisivos. Eu diria até que foi absolutamente decisivo para o fim da ditadura em Portugal. Eu acho que o 25 de Abril, de certa forma, terá sido gerado aqui na Guiné. E o facto do Exército português, de muitos oficiais, tomarem conhecimento do que estava a acontecer aqui na Guiné terá contribuído de forma decisiva para que eles acabassem com a ditadura em Portugal.»

Costa Gomes
Foi quando os «Heróis do Mar» perderam a supremacia aérea que ficou traçado o destino da guerra na Guiné. Os primeiros aviões foram abatidos em Março de 1973; em Agosto, o general Spínola regressou a Lisboa, antecipando o fim do mandato. De visita à Guiné, por essa altura, o então chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Costa Gomes, voltou com a sentença sobre a situação militar no território:

«Estávamos à beira da derrota militar - considerava o Marechal Costa Gomes -. A situação na Guiné, na altura, era muito grave. O PAIGC atacava no Norte e no Sul, com grande fúria, causando-nos muitas baixas.»

E foi com uma derrota militar no horizonte, reavivando os traumas da derrota na Índia, 12 anos antes, que os militares deixaram de acertar o passo pela ordem unida do regime. 
Em 1973, o núcleo duro do regime ainda não esquecera as veleidades federativas de Marcelo Caetano, em 1962, e desconfiava dos projectos de autonomia que o sucessor de Salazar fizera inscrever na Constituição, em 1971. Os duros tocaram então a reunir para o chamado Congresso dos Combatentes, tendo em vista a criação, por oposição à Ala Liberal, de uma Ala Combatente.
        Os combatentes das matas de Angola, da Guiné e de Moçambique, não só não responderam à chamada, como se organizaram para contestar o Congresso dos combatentes da retaguarda. A comissão que promoveu a contestação ao Congresso incluia, entre outros, Firmino Miguel, Ramalho Eanes, Carlos Fabião:

«Em fins de 1972, princípios de 1973 - recordava Carlos Fabião - o general Spínola começou a receber cartas de várias pessoas, com quem não teria grande convivência, como o general Câmara Pina, que lhe falavam da necessidade de um “retorno à bandeira”. Pusemo-nos em campo, a ver o que significaria esse “retorno à bandeira” e chegámos à conclusão que essa gente pretenderia um retorno ao que eles chamavam “a pureza do 28 de Maio”. Ora qualquer endurecimento da situação interna tornaria mais difícil resolver o problema ultramarino. E resolvemos então, na Guiné, impedir a realização ou, pelo menos, a exploração do Congresso dos Combatentes, e que o melhor era que os oficiais do Quadro Permanente se manifestassem em bloco, ou em grande quantidade, contra a realização do Congresso. Recolhemos umas quatrocentas e tal assinaturas e divulgámos um documento, assinado pelo Marcelino da Mata e o Rebordão de Brito, um natural da Guiné e outro de Cabo Verde, e que eram os militares, um do Exército, outro da Marinha, mais condecorados. Como pode imaginar, quando nós, oficiais do Quadro Permanente, nós combatentes, aparecemos a dizer que não aderíamos ao Congresso e que não reconhecíamos idoneidade aos organizadores, aquilo foi um nado-morto. O general Kaúlza ainda mandou um telegrama de felicitações e de incitamento ao Congresso, mas nenhum dos outros generais das frentes de combate tomou posição. E aquilo acabou por ser presidido por um general na reserva e não teve representatividade nenhuma.
- «O facto de essa contestação ter nascido na Guiné foi acidental?
C. F. - «Os oficiais que estavam na Guiné tinham capacidade de conspirar à vontade, sabendo que não havia perseguições contra eles, porque tinham a grande capa do governador a tapá-los. Para além da disposição, havia possibilidades de se poder conspirar com relativa segurança e até com determinado apoio para estas questões.
- «E isso porque o general Spínola era tolerante ou também ele conspirava?
C. F. - «O general era tolerante e conspirava.»

A contestação ao Congresso dos Combatentes, em Maio e Junho de 1973, deu aos oficiais a base de organização para novas contestações. Quando o governo decretou sobre as carreiras militares, em Julho desse ano, os capitães ainda estavam organizados, alerta e em pé-de-guerra:

«Depois do Congresso - acrescentava Carlos Fabião - o Vasco Lourenço pressionou o Eanes, o Eanes falou comigo, para que mantivéssemos unido aquele bloco de oficiais. Mas nós estávamos espalhados pelo Império português e era muito difícil uma organização de tipo conspirativo com indivíduos que hoje estão na Guiné, amanhã em Macau, depois em Angola, Moçambique ou em Cabo Verde. Mas quando isto estava ainda em ebulição, apareceram os decretos sobre as promoções.»

A contestação ao Congresso dos Combatentes e aos decretos sobre promoções foram as causas próximas da formação do Movimento dos Capitães. O general António Ramalho Eanes considera, no entanto, que havia outras razões, de fundo, para o descontentamento e a movimentação dos militares:
 
Ramalho Eanes
«Uma das causas remotas - considera o general Ramalho Eanes - é a Índia. Quando o poder político deixou cair o Estado da Índia por incapacidade política, e depois fez dos militares bodes expiatórios, a partir daí estabeleceu-se uma ruptura entre a instituição militar e o poder político, que nunca mais foi colmatada. E quando as coisas se começaram a complicar na Guiné, ouvia-se com muita frequência dizer, entre os militares, que se chegássemos a uma situação de colapso o poder político faria outra vez a mesma coisa: lavava as mãos, à Pôncio Pilatos, e crucificava os militares.
«Nessa altura, os militares tinham da guerra revolucionária uma ideia muito clara: é que a guerra revolucionária não se vence militarmente. E como o poder recusava sistematicamente toda a solução política, é evidente que se aproximava uma situação de desastre. A indisposição dos militares em relação ao poder foi-se assim acentuando, ao mesmo tempo que se acentuou a separação entre os militares que faziam a guerra, e que já iam, como eu, na quinta comissão, e os militares de alta patente que continuavam em Lisboa e que entravam no teatro político que o regime estabelecia. Tudo isto criou condições para que uma parte da instituição militar não aceitasse determinadas medidas e reagisse.»

A revolta dos oficiais manifestou-se através da contestação aos decretos 353/73, de 13 de Julho, e 409/73, de 20 de Agosto, que abriam o Quadro Permanente aos milicianos. A partir de 21 de Agosto, capitães do Exército começaram a promover reuniões para discutir os decretos do governo. A 25 de Agosto, uma reunião de capitães, em Bissau, aprovou um documento contestando os decretos governamentais.
Logo nas primeiras reuniões, os capitães começaram a discutir se era possível resolver a questão corporativa sem resolver a questão da guerra e se era possível resolver a questão da guerra sem resolver a questão do regime. Numa das primeiras reuniões do Movimento em Angola, o então major Pedro Pezarat Correia pôs o dedo nas feridas da guerra e do regime:
Pezarat Correia

«Participei numa reunião de capitães - recorda o general Pezarat Correia - e disse-lhes que o que eles estavam a discutir não me atingia directamente, uma vez que já era oficial superior. Mas que gostava de os alertar para o seguinte: a solução do problema tinha a ver com a implantação e prestígio dos militares na sociedade portuguesa. E o problema do prestígio dos militares na sociedade portuguesa não se resolvia enquanto os militares fossem olhados como o suporte armado de um regime político que a sociedade portuguesa abominava, que não escolhera e que a oprimia.»

No final desse ano de 1973, com uma derrota militar no horizonte na Guiné, também alguns generais conspiravam contra o regime. Procurando apanhar o comboio do Movimento dos Capitães, o general Kaúlza de Arriaga, cabeça de lista da conspiração dos generais, mandou-lhes um recado:

«Eu próprio, depois de vir de Moçambique - recordava o general K. - entrei em contacto com os capitães, através do coronel Frade, um dos meus chefes de gabinete, e disse-lhes: 
Kaulza de Arriaga
- Os generais assumirão as suas responsabilidades, desde que nas Forças Armadas se mantenha a disciplina e o respeito pela hierarquia. E a resposta dos capitães foi positiva: Sim senhor, nós aceitamos isso, os generais façam o que puderem fazer. Mas os generais não fizeram aquilo que deviam, porque houve uma cisão. O Spínola, que estava connosco, desapareceu.
- «Quando diz “os generais assumirão as suas responsabilidades”, isso era um pronunciamento militar, um golpe de Estado?
K. de A. - «Claro que para salvar o país eu não tinha escrúpulos nenhuns em promover um golpe de Estado.»

Kaúlza de Arriaga ainda chegou a recolher votos numa reunião de capitães para liderar o Movimento, embora a grande distância dos votos obtidos por Spínola ou Costa Gomes. E nas paredes de Lisboa, por essa altura, apareceu pintada, em profusão, a letra K. Mas a maioria dos oficiais contestatários não se guiava pelas estrelas do general K. Em Dezembro de 1973, durante uma aula no Instituto de Altos Estudos Militares, o tenente-coronel Carlos Fabião alertou os futuros majores para a conspiração dos generais:

«Disse simplesmente - recordava Carlos Fabião - que os generais Kaúlza, Silvério Marques, Troni e Luz Cunha estavam a preparar um golpe de Estado que passava pela neutralização dos generais Costa Gomes e António de Spínola. E disse também que estava a dar a informação, mas para não se especular com ela. Claro que, logo no primeiro intervalo, eles saíram da sala e foram contar a toda a gente.»

A denúncia do golpe dos generais chegou assim às páginas de The Guardian, na edição de 31 de Dezembro de 1973. Dizia o jornal que os generais conspiravam para substituir Marcelo Caetano por Adriano Moreira.
O general Kaúlza de Arriaga terminara nesse ano a comissão como comandante militar de Moçambique, logo após a denúncia internacional sobre os massacres de Wiriyamu, e o mandato não tinha sido renovado pelo governo.
  
Era um tempo de procura. Nas hostes do poder, procurava-se o futuro do regime, num jogo de palavras cruzadas que a Censura, com esse ou outro nome, reprimia: paz e liberdade. Alguns grupos económicos procuravam outro futuro, com novos horizontes, para Portugal. Ao mesmo tempo, os capitães procuravam uma bandeira e as estrelas de um general. A bandeira foi um livro, Portugal e o Futuro, publicado em Fevereiro de 1974. O general foi António de Spínola:



António de Spínola - «O livro Portugal e o Futuro representa uma evolução da política ultramarina que, acima de tudo, proclamava que a guerra do Ultramar não tinha uma solução militar global, mas antes e só uma solução política. Os militares tinham conseguido criar uma situação de equilíbrio de forças de grande oportunidade para o governo central desencadear acções a nível externo que possibilitassem uma evolução de acordo com as melhores tradições políticas portuguesas. O Portugal e o Futuro deu essa oportunidade a Marcelo Caetano, a qual lhe foi oferecida pelos próprios militares que, naturalmente, a apoiariam se enveredasse por uma abertura que associasse a democracia à consagração de uma Comunidade Lusíada.
– «Marcelo Caetano também tinha apoiado teses próximas da sua…
A. S. - «Precisamente porque Marcelo Caetano também havia apoiado teses federativas, o livro Portugal e o Futuro reforçaria a sua posição perante as forças mais conservadoras. Infelizmente, o primeiro-ministro deixou-se dominar pelas forças conservadoras que, no fundo, lhe eram hostis, e as conversas que tive com ele, graças aos esforços do professor Veiga Simão, acabaram por não ter consequências na procura de uma solução positiva.
«Os acontecimentos sucederam-se, tendo sido exonerado de vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas [14 de Março de 1974] por não ter comparecido a uma reunião de comandos militares com o governo que tinha, no meu entendimento, um significado vexatório. O primeiro-ministro, em vez de aproveitar uma oportunidade a seu favor, acabou por fomentar um sentimento de revolta nas Forças Armadas. O 16 de Março não tardou e foi reprimido. Mas o 25 de Abril surgiu vitorioso.»

Marcelo Caetano temeu cair às mãos dos ultras e acabou por cair às mãos dos liberais. O chefe do regime nem sequer quis agarrar-se à derradeira tábua de salvação que Spínola lhe estendeu, o Portugal e o Futuro. O labirinto do general Spínola era uma frase do historiador Arnold Toynbee: «Portugal foi o primeiro império colonial. Na segunda metade do século XX era o último». Um labirinto a que o general havia sido conduzido pela guerra na Guiné: não havia solução militar e o regime recusava-se a adoptar uma solução política.
Com a ajuda de oficiais do seu estado-maior, o general redigiu a sua crónica dos efeitos da Guiné e negociou a publicação com várias editoras, entre as quais a Arcádia. O editor, Waldemar Paradela de Abreu, viajou para Bissau, com a directora cultural da Arcádia, Natália Correia. Falaram com Spínola e voltaram a Lisboa com a decisão de publicar um livro cujo conteúdo desconheciam em absoluto.


Paradela de Abreu – «O general nunca disse de que género de livro se tratava. Era um livro. E eu devo dizer-lhe que imaginei tudo, menos que fosse aquele livro.
– «Voltou a Lisboa com uma decisão mas sem o original?
P. A. – «Voltei a Lisboa com a indicação de que seria contactado por um irmão do general. E assim foi. Percebi então que ele estava a negociar com várias editoras, haveria já umas seis ou sete interessadas. E sem conhecer o livro, ofereci 20 por cento sobre o preço de capa, quando o normal em Portugal seriam uns 8 a 10 por cento, e com uma garantia bancária. Só depois de assinar o contrato recebi o original. Li-o nessa noite e no dia seguinte entreguei o original do livro, para uma revisão literária, ao António Valdemar. E disse-lhe: “António Valdemar, este livro é a revolução”».

Era o «livro esperado», como era apresentado na campanha publicitária. Proibidos os ‘spots’ na televisão, a campanha da agência Ciesa baseou-se em pequenos cartazes a preto e branco, centrados no perfil do general, de monóculo. O livro saiu a 22 de Fevereiro de 1974. Chamaram-lhe «a bomba de papel». Fez cinco edições, em meia dúzia de meses, num total de 230 mil exemplares vendidos. Mas, acima de tudo, o livro emprestou uma doutrina e ergueu uma bandeira para a revolta dos capitães.

         Em 25 de Abril de 12974, cansados da guerra, os militares apearam o poder ao qual tinham dado 13 anos de oportunidade para negociar a paz. Menos de dois anos após ter condenado os militares à derrota na Guiné, Marcelo Caetano entregou o poder nas mãos do general Spínola, na tarde de 25 de Abril de 1974. 
         Em 25 de Abril de 1974, cansados da guerra, os militares apearam o poder ao qual tinham dado 13 anos de oportunidade para negociar a paz. Menos de dois anos após ter condenado os militares à derrota na Guiné, Marcelo Caetano entregou o poder nas mãos do general Spínola, na tarde de 25 de Abril de 1974.
Maia no Largo do Carmo
Spínola passara a escrito na Guiné a sua solução para a questão colonial, definindo um futuro traçado em Portugal sem contar que havia o outro lado da guerra. E assim as teses de Spínola vieram a ser ultrapassadas mal o general chegou ao poder. 
E o futuro não foi o previsto no labirinto de Spínola.

João Paulo Guerra, O Regresso das Caravelas / Descolonização Portuguesa
1ª edição Dom Quixote 1996, apresentada por Melo Antunes, foto da capa cedida por Alfredo Cunha; 
2ª edição Circulo de Leitores 2000, prefaciada por Melo Antunes; 
3ª edição Oficina do Livro 2009, prefaciada por Melo Antunes, incluindo a reportagem "Timor 1999 - Viagem ao Fim do Império" e apresentada pelo historiador António Borges Coelho




Sobre a génese do 25 de Abril leia-se “A descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães”, Jorge Sales Golias, Edições Colibri, Lisboa 2016

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