quinta-feira, 26 de novembro de 2015

COLUNA VERTEBRAL, in DIÁRIO ECONÓMICO, 1999 - 2008

PARA COMEMORAR O 19º PRIMEIRO-MINISTRO QUE LEVO COMO JORNALISTA

O Erro de Guterres - 14 Julho 2000

No momento em que escrevo esta crónica, o Conselho de Ministros está reunido para pensar. Teme-se o pior.
Confirmando aliás as piores suspeitas, o primeiro-ministro disse que não se tratava da remodelação. «O que está em causa é pensar», declarou António Guterres, que apesar de manter um conflito interior entre as emoções e a razão, se manifestou assim adepto das teses cartesianas e rejeitou liminarmente o chamado “Erro de Descartes”. O Governo pensa, logo existe. E não o contrário: existe, logo pensa. O Governo pensa? O Governo existe? O Governo pensa, logo insiste? O Governo pensa logo? Não. Pensou ontem.
(…) O Governo da República esteve a pensar no Palácio Real. O Palácio pertenceu originalmente a um “traidor” português vendido à dinastia ocupante dos Filipes, mas o caso Santander não consta já das ordens de trabalhos. Foi deitado pela janela na época de Sousa Franco.


Orçamento e um Queijo - 3 Novembro 2000

O deputado Daniel Campelo, eleito pelo PP, entrou ontem para a história ao propor-se aprovar o Orçamento de Estado pelo preço de uma fábrica de queijo. Talvez nem o próprio Campelo se dê conta de tudo o que poderá mudar com a sua original iniciativa. Interroguemo-nos.
Como não haverá de ter buracos um Orçamento que pode trocar-se por um queijo? Mas, terá bichos? Se a moda pega, depois do Orçamento Limiano teremos em próximos anos orçamentos de Azeitão, de Cabra Transmontano, da Serra da Estrela, de Nisa, do Pico, o Orçamento Rabaçal, o de Serpa, e até mesmo o Orçamento Terrincho, o Orçamento Roquefort, o Camembert, o Mozzarella? Virá aí futuramente um Orçamento amanteigado ou um Orçamento curado? Com propriedade, o Orçamento será dividido em fatias. Mas será que o Governo vai apresentar ao Parlamento, para aprovação, um Orçamento ou uma tábua de duodécimos?
Ao aprovar-se, eventualmente, este Orçamento, a troco da proposta queijeira do deputado Campelo, pretender-se-á simplesmente evitar que os ratos abandonem o navio? Mas se é verdade que já Hipócrates saudava as virtudes do queijo considerando-o “o melhor do leite”, que dirão agora os deputados à consistência da pasta, ao paladar e ao grau de gordura deste Orçamento?
Uma coisa é certa: é o queijo que faz o queijeiro e não o contrário. E o mesmo pode dizer-se do Orçamento.



O vil metal - 16 Janeiro 2002
Portugal acaba de ser distinguido com mais dois galardões europeus de elevado significado. Trata-se agora da medalha de ouro da “pobreza relativa” e da medalha de prata da “economia paralela”, ambas ao nível da União Europeia.
As políticas medem-se pelos resultados e os resultados das políticas seguidas em Portugal estão à vista. É de crer que estes dados encham de satisfação os piedosos responsáveis pelo estado a que tudo isto chegou. Feitas as contas, os nossos governantes têm-se dedicado com denodo e eficácia à salvação da maioria dos portugueses, garantindo aos cada vez mais ricos as vantagens perecíveis do reino da terra e prometendo aos cada vez mais pobres as delícias eternas do reino dos céus. Ámen.

Afinal havia outra - 21 Janeiro 2002

Todos nos lembramos que António Guterres, ao assumir o poder para o primeiro mandato, proclamou a sua paixão pela educação. Com o segundo governo, Guterres mudou de paixão. Mas a saúde passou a ser uma permanente dor de cabeça. A paixão seguinte foi a sociedade de informação, uma paixão dos nossos dias, motor de busca para a modernidade do país.
Agora que vai deixar o governo e anda a tratar da vida, António Guterres fez saber que vai falar com Kofi Annan a ver se encontra colocação internacional para se dedicar ao combate à pobreza e à exclusão. Uma «paixão antiga», confessa. E é assim que ficamos a saber que em matéria de paixões afinal ainda havia outra.

Salvo pelo gongo? - 22 Junho 2002
Uma sondagem divulgada ontem pelo Público revela que o Governo de Durão Barroso, dois meses após a tomada de posse, desceu abaixo dos índices de descontentamento da opinião pública em relação à pior fase do governo de António Guterres. O resultado é um verdadeiro murro no estômago para quem andou anos consecutivos à espera que o poder lhe caísse no colo e que agora não dá conta do recado de modo a cair nas boas graças da populaça. Tal facto, porém, não constituirá problema para a equipa de Durão Barroso. De acordo com o ministro Morais Sarmento, o que conta não são os murros que se levam mas os que se dão. Esta é uma máxima que o ministro aprendeu no boxe que, tal como reconheceu em entrevista ao Correio da Manhã, constitui “uma escola de vida importante”. De maneira que os portugueses bem podem esperar pela pancada. Por cada voto de desconfiança no Governo, manifestado em simples inquéritos de opinião, espera-os um directo aos queixos.
Resta saber, no entanto, o que vem primeiro, se a desconfiança do povinho se os murros do Governo.

Dr. Contente e Dr. Feliz - 4 Julho 2003
Como vai, Dr. Contente?
Como está, Dr. Feliz?
Diga à gente, diga à gente,
Como vai este país.

De tanga temos que andar
Com a economia doente
O desemprego a aumentar
E a populaça descontente.

O país está pessimista
Não ouve as nossas mensagens
Das queixas aumenta a lista
E descemos nas sondagens.

Que fazer, Dr. Contente?
Que fazer, Dr. Feliz?
Mais promessas, para toda a gente,
De um novo rumo para o país.

A retoma há-de chegar
Vem aí a “nova fase”
A saúde vai melhorar
E a educação está quase.

Para verem o que valho
Esperem para depois do Verão
Com o Código do Trabalho
E a reforma da administração.

E depois, Dr. Contente?
E depois, Dr. Feliz?
O país não está com a gente
Mas o povo assim o quis.

Bem mereço ir para férias
Depois de tanta canseira
Após um ano de lérias

Vou descansar para a Falagueira.
Lá me safei da Moderna
Um caso que prometia
Tinha a oposição à perna
Mandei-os para a Casa Pia.

Está feliz, Dr. Contente?
Está contente, Dr. Feliz?
A Nação que se aguente
Este é o estado do país.


Da Tanga à Retoma - 18 Julho 2003
O primeiro-ministro garantiu que «o país vai sair da crise», só não sabe é quando. Mas isso para Durão Barroso não é problema. Aliás, dada a aposta estratégica do Governo no sector automóvel, pode dizer-se que a retoma vem de carrinho. Da conversa da tanga à promessa da retoma foi sempre a andar. Faz lembrar o outro, que chegou ao oásis sem passar verdadeiramente pelo deserto.   
Um dia destes, ao acordarem, os portugueses sabem pela rádio que chegou a retoma. A novidade vai correr o país. “Já sabes a última?”. “Não”. “Chegou a retoma”. Ficará apenas uma dúvida. Quando chegar a retoma que fazermos com a tanga?

Mau Ambiente - 24 Maio 04
Os portugueses foram surpreendidos, sexta-feira passada, pela notícia de que havia um ministro do Ambiente. Mas era tarde. O ministro acabara de ser demitido. “Remodelável” desde que tomou posse, em Abril do ano passado, o ministro permaneceu numa semi-clandestinidade até ao anúncio da sua demissão.
É de crer que a causa próxima do desenlace tenha sido o boato de que o ministro se preparava para sair da clandestinidade e ir à Assembleia da República, amanhã, explicar a privatização de 49 por cento do grupo Águas de Portugal.
Apesar da demissão de Amílcar Theias, é de crer que o mau ambiente se mantenha no Governo e na coligação. Nos bastidores do Congresso do PSD, na sexta-feira, comentava-se que «foi-se o Theias mas ficaram as aranhas», numa evidente alusão a numerosos ministros que sobreviveram, para já, a esta mini-remodelação.


Diário De um Governo - 23 Julho 04
Dia 17 – O Governo toma posse. O primeiro-ministro atrapalha-se com as folhas do discurso. Segundo o Expresso, o discurso tinha sido escrito por Dias Loureiro. O ministro de Estado e da Defesa, em campanha eleitoral do PP, afirma que está prestes a mudar o «ciclo político» do PSD na Madeira. A JSD local comenta que Paulo Portas é «um travesti político». O ministro das Cidades, Administração Local, Habitação e Desenvolvimento Regional ocupa as instalações do Ministério do Ambiente.
Dia 18 – Marcelo Rebelo de Sousa insinua na TVI que o ministro Luís Guedes, como advogado, esteve ligado a empresas do ambiente.
Dia 19 – O ministro da Presidência afirma que «este Governo não tem que responder pelas suficiências ou insuficiências do anterior». O primeiro-ministro responde a Marcelo Rebelo de Sousa, rebatendo que o PSD tenha perdido influência no Governo, em entrevista junto à campa de Sá Carneiro.
Dia 20 – “Os Verdes” acusam o ministro do Ambiente de estar comprometido com empresas das águas e do lixo.
Dia 21 – Atraso de 50 minutos na tomada de posse dos 38 secretários de Estado. À última hora, Teresa Caeiro passa de secretária de Estado da Defesa e dos Antigos Combatentes para as Artes e Espectáculos. Paulo Portas tinha comentado que se estava à beira de um facto histórico, a primeira mulher no Ministério da Defesa. Para adjunto de Paulo Portas vai um ex-vereador da Figueira da Foz. O DN revela que na declaração de interesses apresentada em 2002, Nobre Guedes era presidente da assembleia-geral de empresas de ambiente e gestão de resíduos. Manchete do Público: Santana Lopes deixou na CML dívidas a fornecedores de mais de 100 milhões de euros. A CML corrige o montante para 88 milhões.
Dia 22 – A Capital revela que os ministros do Ambiente e do Turismo «não têm onde ficar», ocupando, provisoriamente, gabinetes dos antigos secretários de Estado das áreas respectivas.

A Seca - 23 Março 05
A política portuguesa entrou num ciclo de pasmaceira. Na apresentação do Programa do Governo, as oposições elogiaram os ministros do PS.
Para quebrar a monotonia do debate, as bancadas da direita atacaram o que pensavam ser o elo mais fraco do Executivo. Que aconteceu? O Bloco de Esquerda saiu em defesa do Prof. Freitas do Amaral, compagnon de route dos ‘bloquistas’ nas manifestações contra Bush e a guerra no Iraque.
A unanimidade contempla todo o espectro do arco-íris. Pois se até o colunista Luís Delgado considera que José Sócrates está a ser uma “boa surpresa”!
O estado de graça, decididamente, não tem graça nenhuma.


A Lebre e a Tartaruga - 16 Maio 05
Enquanto o Prof. Cavaco Silva prossegue a sua marcha triunfal, apesar dos tabus e mesmo com dúvidas, o PS fez saber que anda à procura de um «candidato ganhador» para as presidenciais.  
Os socialistas começaram por dar de barato que o assunto estava resolvido com a candidatura “natural” de António Guterres. O webblog não oficial de apoio à candidatura nasceu em Outubro de 2003 mas morreu em Janeiro do ano seguinte. O engenheiro parece ter tido mais bom senso que os seus apoiantes e mudou de horizontes. Não era problema. O PS tinha um D. Sebastião na mesma gaveta onde arrumou o socialismo.
É certo que anda pelo meio de tudo isto alguma contra-informação. Todos os dias saltam nomes para a luz do dia e o PS vai mordendo o isco. “Sim, claro, é um nome como muitos outros”. O entusiasmo da direcção do PS à volta de qualquer nova candidatura é glacial, pondo a tiritar um eleitorado de mais de três milhões de votantes. E o país vai assistindo às vitórias esmagadoras de Cavaco Silva, em sucessivas sondagens, sobre uma grelha de não-candidatos do PS e da esquerda.
E deve ser essa a questão. Como o PSD tem uma lebre na corrida para Belém, a direcção do PS continua à procura da sua tartaruga.


Sacrifícios - 1 Julho 05
Conversa entre dois portugueses, nos primeiros meses deste ano de 2005:
- Já pensaste nos sacrifícios que vais ter que fazer?
- Não. Pensei nos teus.



Alegado País
26 Outubro 05
Um alegado doente, proprietário de uma capoeira de alegadas galinhas, que chegou ao alegado hospital pelo seu pé e sem febre, foi motivo de alegadas notícias durante o dia de ontem. Os sintomas da alegada pandemia agravaram-se com o caso dos alegados gansos-patola e gaivotas que foram encontrados alegadamente mortos em Peniche.
Começou uma semana de greves na alegada justiça. Ao sexto dia foram desmarcadas diligências na alegada investigação à banca. O cambão nas empreitadas de obras e alegados concursos alegadamente públicos de fornecimento ao Estado vai estar na mira da Autoridade da alegada Concorrência. E a Relação de Guimarães fez voltar à fase de instrução o alegado processo do saco alegadamente azul, comprometendo o alegado início do alegado julgamento, alegadamente previsto para segunda-feira.
O ministro das Finanças não assegura a alegada subida de 2 por cento nos alegados salários da alegada Função Pública, mas garante que não haverá alegados despedimentos e que o quadro de alegados supranumerários vai ser utilizado como instrumento para, alegadamente, melhorar a alegada flexibilidade laboral entre os vários alegados serviços. O ministro da alegada Economia vai apresentar em breve o alegado Plano Tecnológico. O alegado Ministério da Educação vai fechar 3500 alegadas escolas até ao fim da alegada legislatura. O Governo tira a alegada pensão a 400 mil alegados combatentes. A Segurança Social recuperou 173 alegados milhões de euros de dívidas de alegados contribuintes. Alegados agricultores manifestam-se em Lisboa e reclamam dois mil milhões de alegados prejuízos.
Piscinas alegadamente inauguradas em Lisboa há mês e meio continuam fechadas. Moradores em barracas apelam à intervenção do alegado Estado.


Nascer e morrer longe - 2 Outubro 07
Portugal está a ficar curto para os portugueses. Fecham escolas e há alunos com aulas em contentores. Há alunos sem aulas por falta de professores e há milhares de professores desempregados. Fecham maternidades e há crianças a nascer em ambulâncias, nas bermas das estradas ou mandadas nascer em Espanha. O Governo socialmente mais empedernido de que há memória em Portugal não concede a alguns portugueses nem sequer o direito de nascerem no seu País. E agora, segundo o que vem nos jornais, numa freguesia do Norte de Portugal admite-se também a hipótese de ir enterrar os mortos a Espanha porque o cemitério local não chega para as encomendas. Não deve haver muitos exemplos – se é que há algum – de países que mandem os seus filhos nascer e morrer longe por questões de contabilidade pública.

Oito anos - 18 Outubro 07
Esta coluna completa hoje oito anos consecutivos de publicação. A coluna já vai no quarto primeiro-ministro, no quinto governo e na terceira alternância. Mas isso não é nada. Com 40 anos de jornalismo, já vou em 16 primeiros-ministros, entre provisórios, definitivos e 2 presidentes do Conselho vitalícios. Concordarão que é preciso ter uma paciência infinita.
Nestes oito anos Portugal não mudou grande coisa. A crise é permanente e os jornais de ontem diziam que a pobreza é idêntica à do fim do século passado, o que tem aumentado é a desigualdade, que desapareceu a classe média, absorvida em pequena escala pela minoria que concentra a maioria da riqueza e em larga medida pela nova miséria escondida. Com efeito, há muito mais ricos e imensos mais pobres e novos pobres em Portugal. E o empobrecimento da maioria da população está agora em marcha acelerada com um governo socialista no poder.
Há oito anos, a coluna era no mesmo tom. E infelizmente o tom manteve-se ao longo dos anos, só mudando a tonalidade dos alvos entre o rosa e o laranja. E malogradamente confirmou-se a previsão desta coluna ao escrever, em 2001, que os portugueses tinham então duas notícias, uma boa e outra má. A boa era que Guterres se ia embora; a má era que chegava Barroso. Que mais haveria de acontecer aos portugueses? Aconteceu-lhes Santana Lopes, confirmando que em Portugal o non sense faz todo o sentido. E tanto riram os portugueses com Santana que agora choram com Sócrates.
Perguntarão se é fácil escrever ao longo de oito anos uma coluna vertebral? É difícil. Sobretudo porque 90 por cento dos seres vivos são invertebrados.


Discurso - 29 Abril 08
Passos Coelho, Santana Lopes, talvez Jardim. O problema de liderança do PSD não é ter candidatos a mais. É ter candidatos a menos. Do PSD e das brigadas partidárias em geral. Daí que por mais voltas que dê o PSD acabe sempre ancorado nos mesmos nomes, nas mesmíssimas figuras, na idêntica falta de ideias e de projectos.
Chegou-se a isto: dentro de um mês poderá acontecer que o PSD seja chefiado por Santana Lopes enquanto o CDS já é comandado por Paulo Portas, a parceria que saiu absolutamente desacreditada e humilhada da crise política de 2004 e das eleições de 2005. Mas a política portuguesa não é determinada pela procura, antes pela oferta. É o que há, em geral sobras de armazém.
Depois admiram-se que a abstenção tenha crescido de 7,5 por cento em 1975 para 35,7 por cento em 2005! 
(E em 43,07% em 2015)!!!

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