sexta-feira, 30 de outubro de 2015

E se construíssemos a Cinelândia do Repórter X?

Por João Paulo Guerra, Público, 8 Janeiro 1995
A Cinelândia, que foi um sonho de Reinaldo Ferreira, com data de 1929, vai chamar-se a Cidade do Cinema. Quanto á localização, o Repórter X só errou por meia dúzia de quilómetros.
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Os presidentes da Tóbis Portuguesa, José Fonseca e Costa, e da Luso American Securities (Luso-Am), Carlos de Mattos, já chegaram a um acordo preliminar para a construção, em Cascais, da Cinema City ou Cidade do Cinema. Na altura nenhum deles tinha presente a reportagem ficcionada de Reinaldo Ferreira, publicada em 1929, sobre a criação da Cinelândia da Europa, precisamente no concelho de Cascais, em Alcabideche.


A “reportagem imaginária” do Repórter X saiu nas páginas de três números sucessivos da revista quinzenária “Ilustração”, entre 16 de Janeiro e 16 de Fevereiro de 1929. Mas Reinaldo Ferreira situava a história, não no final do século, mas apenas a uma dúzia de anos, na década de 40. Por essa altura, Alcabideche «tinha desaparecido» com a construção dos «primeiros hotéis – uns cinco», a fixação de «uma população que orçava já por uns cinco ou seis mil indivíduos», a abertura de «boulevards» e, acima de tudo, a «multiplicação dos estúdios» de cinema: «180 estúdios permanentes e 120 empresas e metteeurs-en-scène e artistas independentes». A Cinelândia estendia-se, para além de Alcabideche, entre Sintra e Cascais. O próprio Reinaldo Ferreira, que para além de repórter também já fora realizador de cinema, entrava na história: era o director do Diário Cinematográfico, um «rotativo de 30 páginas, redigido em cinco idiomas». Por influência do negócio, o mayor de Cascais era então um dos «reis magos» que tinha procurado fazer de Portugal «a Hollywood da Europa», Leopold O’Donnell.

José Luís Judas, presidente da Câmara de Cascais, também desconhecia o texto do Repórter X, quando previu e prometeu, ainda na campanha eleitoral de 1993, a construção de instalações para a indústria cinematográfica no concelho. Judas aderiu de imediato ao projecto da Tóbis e da Luso-Am.
«A Câmara – revela o presidente – disponibilizou terrenos do concelho, em Plano Diretor Municipal, para se construir uma espécie de Cidade do Cinema, para produção de cinema e audiovisuais. É um projecto multimédia com alguma originalidade e que, mais do que isso, permite criar postos de trabalho, situado num concelho com vocação clara para actividades de lazer, complementando a própria actividade turística do concelho de Cascais».
E a Cidade do Cinema, versão real e actual da Cinelândia imaginada pelo Repórter X há 66 anos, entrou assim na realidade do mapa do PDM de Cascais, designado por Espaço de Desenvolvimento Urbanístico da Unidade Integrada de Produção Multimédia: 170 hectares entre o final da autoestrada e o início do Parque Natural, a poucos quilómetros de Alcabideche, a meia dúzia de quilómetros do cenário do sonho de Reinaldo Ferreira.
«O sonho é parecido, embora com muitos anos de atraso – concorda José Fonseca e Costa. – Não tenho a capacidade inventiva, o génio nem sobretudo o sentido do humor de Reinaldo Ferreira. Mas o sonho faz parte da minha profissão. Para fazer filmes são precisas unidades, quanto melhor equipadas, melhor para quem os faz. Foi a partir daí que nasceu o meu sonho. Se ele coincide com o do Reinaldo Ferreira, o mérito é dele».
Fonseca e Costa salienta que costuma «ser pessimista, o que é ser otimista duas vezes`. Mas neste momento admite que estão «criadas as condições para que o sonho possa ser possível», embora «as coisas tenham começado apenas a andar».
Foi necessário que passasse mais de meio século sobre o sonho de Reinaldo Ferreira. O Repórter X antecipou-se no tempo mas, na opinião de José Fonseca e Costa, «acima de tudo fomos nós que nos atrasámos». José Luís Judas está de acordo: «Creio que perdemos muito tempo
à procura do que é a vocação deste país. Só hoje aparece clara a importância das indústrias ligadas ao lazer, não só pela absorção da mão-de-obra, como pelas possibilidades de futuro. Temos falta de equipamentos e de actividades complementares ao turismo para que as indústrias do lazer se situem com certa profundidade no nosso país».

Investimento de 20 milhões
 «Mais tarde ou mais cedo, Portugal será o Hollywood da Europa», sonhava Reinaldo Ferreira em 1929. Grande parte das cidades da Europa eram «quase infilmáveis, em grandes períodos do ano». Porém, «circunvagando a vista pelo velho continente ressalta logo Portugal como uma Califórnia europeia. Luz a jorros, facilitando durante quase todo o ano as filmagens de exteriores; paisagem cosmopolita (…) e, sobretudo, país neutro em cinematografia que, por todos e por igual, dividiria o seu tesouro».
O Repórter X não estava a ser «o mau da fita» ao escrever, em 1929, sobre a neutralidade da cinematografia portuguesa. «Ainda hoje não temos uma personalidade cinematográfica – admite Fonseca e Costa. – A possível riqueza da cinematografia portuguesa reside no facto de cada um dos filmes ser um protótipo. Ninguém seguiu ninguém. Ninguém fez escola. Não temos uma tradição». A Cidade do Cinema tem também como objectivo contrariar essa falta de personalidade, fornecendo aos cineastas portugueses «um conjunto de tecnologias avançadas e de equipamentos que lhes permitirão exprimir-se da melhor maneira possível».
Na “reportagem” ficcionada de 1929, a partir da experiência de uma empresa imaginária, a Windsor-Film, os estúdios multiplicam-se «nos arredores de Alcabideche». E até mesmo Lisboa passou por transformações em virtude da imaginação do Repórter X: «um hotel aéreo», onde antes existia o elevador de Santa Justa, «terraços, cafés cosmopolitas e hotéis» marginando a Avenida da Liberdade e as ruas do Ouro e Garrett, um «gigantesco Palace» onde outrora florescia o Jardim de São Pedro de Alcântara. Lisboa ficou «enlaçada pelas serpentinas imensas de celuloide» e vicejada pelo hálito vigorizador da sua actividade e fortuna». Com o cinema chegaram a Alcabideche e a Lisboa os forasteiros, aventureiros e figurantes - «misses inglesas», «alemãs bizarras», «extravagantes russos», «nervosos italianos» -, dando «à cidade o aspecto de um music-hall de raças». E tudo isto graças ao sol e à luz de Portugal.
Para o projecto actual, Portugal não entra apenas com a luz do sol e paisagem. O presidente da Tóbis prevê a participação de técnicos de cinema das mais diferentes especialidades. «Para eles – diz Fonseca e Costa – o facto de passarem a existir aqui novos tipos de equipamentos permitirá que trabalhem melhor, criem escola, se desenvolvam, dando mesmo lugar ao reaparecimento de certas profissões cinematográficas eventualmente em extinção».
O presidente da Câmara de Cascais também já fez contas aos efeitos do projecto. «Com cerca de 20 milhões de contos de investimento geral, pode criar porventura o dobro dos postos de trabalho que o projecto Ford-Volkswagen. Isto não é nenhuma crítica indireta. Significa apenas que é um tipo de indústria capaz de absorver muitos mais postos de trabalho».
O Governo está de acordo e aderiu de imediato. Em Setembro passado, o ministro do Comércio, Faria de Oliveira, assinou em Los Angeles, com Carlos de Mattos – o português galardoado com um Óscar da Academia em 1991 – um protocolo para a criação da Cidade do Cinema em Portugal. Como meio de apoio ao projecto, vai ser constituída em LA uma Portuguese Film Comission, destinada a promover a imagem de Portugal e dos estúdios portugueses junto da indústria cinematográfica de Hollywood.

A utopia do Repórter X
A Cidade do Cinema será coordenada por uma sociedade, a Lisboa Filmes, em cujo capital participarão a Tóbis Portuguesa e a Luso-American Securiities, estando o projecto aberto ao envolvimento da União Europeia, de bancos e de outros investidores. Para além da gestão do estúdio de Cascais, a companhia dedicar-se-á também á produção e comercialização de filmes, programas de televisão e vídeo e produções musicais.
«O projecto – diz José Fonseca e Costa – decorre pura e simplesmente, da minha posição como cineasta perante aquilo que resta da Tóbis. A Tóbis era uma pequena Cidade do Cinema, com equipamento intensivo à disposição dos cineastas para fazer filmes que ainda fazem as delícias de milhares de espectadores. Com os anos isto foi-se degradando. Ao ter conhecimento de que havia o projecto de privatizar esta empresa, e temendo eu que dessa privatização resultasse a destruição do que resta da Tóbis, sugeri que se fizesse a privatização mas depois de reconstruir a empresa».
A associação com a Luso-Am para a criação da Cidade do Cinema passa, assim, pela privatização da Tóbis o que prevê a sua revitalização. «É altura de o Estado se portar como pessoa de bem – considera Fonseca e Costa. - Ao longo dos anos, desde que tomou conta da empresa em 1955, o Estado teve em relação à Tóbis uma atitude torpe: em vez de a desenvolver, desenvolveu foi um projecto de urbanização que levou à sua destruição. Basta olhar para o que resta da empresa para se ver que é preciso fazer qualquer coisa de novo. Agora, a Tóbis só sairá daqui quando essa coisa nova estiver feita. Não quero cometer o erro, tantas vezes cometido, no passado, que é começar a destruir alguma coisa, antes de ser feita outra».
Até lá, a velha Tóbis vai procurar responder às encomendas. O presidente da empresa pretende fazer os acordos necessários e suficientes para que a Tóbis se mantenha equipada de modo a prestar os serviços que agora presta «de uma maneira cada vez mais eficaz e melhor».
Quando o Repórter X sonhou a Cinelândia, nem sequer a Tóbis existia. Também ele realizador e argumentista, Reinaldo Ferreira produziu as suas histórias para cinema nos estúdios da Invicta Films, no Porto. A Tóbis nasceu na década seguinte, precisamente como proposta de uma cidade de cinema, à escala da época. O projeto imaginado por Reinaldo Ferreira, esse já é à escala do sonho. Uma escala de utopia, que nem mesmo passados 66 anos é possível em Portugal. «Eu não renego a utopia de Reinaldo Ferreira e gostaria muito que ela fosse possível, correndo embora o risco de me chamarem megalómano. Pois que chamem. Se a Cidade do Cinema se fizer, rapidamente se esquecerá quem foi o megalómano que teve a ideia de a fazer, cujo único mérito foi o de por no papel uma série de coisas que são óbvias», diz o presidente da Tóbis.
E é assim que a Cidade do Cinema já tem configuração no mapa do PDM de Cascais. O presidente da Câmara nem sequer teme que, à semelhança da história imaginada pelo Repórter X, o peso da indústria cinematográfica venha a colocar um «rei mago» do cinema à frente do Município. «É uma caricatura – reconhece José Luís Judas – que hoje até seria possível do ponto de vista institucional, porque os estrangeiros podem candidatar-se às autarquias e Cascais até tem uma colónia inglesa bastante grande para votar num tal candidato. Mas, para lá da caricatura, não tenho qualquer receio que o projecto venha a transfigurar Cascais que, aliás, já tem um ambiente urbano, de natureza social, ambiental e cultural próprios para a instalação de um complexo desta natureza. Foi essa, aliás, uma das razões para propormos a vinda desse empreendimento para Cascais.»

João Paulo Guerra, Público, 8 Janeiro 1995
2015 - O sonho do Repórter X continua no domínio dos sonhos, apesar dos pdm's. 

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