sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Assalto ao avião Parte I – Isto não é nenhuma brincadeira


Por João Paulo Guerra, 
TSF, 10 de Novembro de 1990

         Foi a 10 de Novembro de 1961: um grupo armado desviou um avião da TAP da carreira Lisboa – Casablanca – Lisboa. A história tem dois protagonistas: Palma Inácio, o assaltante, e o comandante José Sequeira Marcelino, o assaltado. Vinte e nove anos depois, reconstituíram a história para a TSF. Uma história romântica, com armas e panfletos, mas também com um namoro nas alturas e rosas para as passageiras do constellation.


         Foi há 29 anos e Hermínio Palma Inácio recorda-se como foi:       
         Palma Inácio – A ideia partiu de um grupo que estava no Brasil, com o capitão Henrique Galvão, logo a seguir a fazerem a Operação do Santa Maria. Como aquilo tinha gerado um grande entusiasmo, pensou-se que talvez fosse uma boa ideia fazer a mesma coisa com um avião da TAP. E começámos então a amadurecer ai ideia.
         Isso foi antes da vaga de assaltos e desvios de aviões?
Palma Inácio – Eu penso que foi uma operação pioneira. Foi o primeiro avião desviado por razões políticas no mundo inteiro. Até por isso levou mais tempo a preparar, a amadurecer, avaliar os contras, a criar uma equipa em condições. Como nunca tinha sido feito, a gente não sabia bem como fazê-la. E a operação foi feita por pessoas que estavam todas na clandestinidade, que estavam fora de Portugal, mas que eram conhecidas.
Pode então dizer-me quem fez efetivamente parte da Operação?
Palma Inácio – O capitão Galvão não fez parte da Operação, claro. Mas fazia parte do grupo que planeou. Os que fizeram parte da Operação fui eu, foi o Camilo Mortágua, o Amândio Silva, foi um jovem casal que tinham fugido de Portugal havia pouco tempo, e tinham chegado a Casablanca.
Na altura levantaram-se algumas dúvidas se teria havido alguma colaboração da tripulação do avião?
Palma Inácio – Não eram aquele avião nem aquela tripulação que deviam ir fazer naquele dia aquela viagem. Essa viagem, Lisboa – Tanger - Casablanca – Lisboa era feita por um avião fretado com tripulação francesa, que pertencia à Air France. E nesse dia, por uma razão que não teve nada a ver com a Operação, foi apenas uma coincidência, eles mudaram o avião. Havia um avião de reserva parado em Lisboa, um constellation, e houve um problema com o avião francês e então decidiram que o avião de reserva faria a viagem tripulado pelo comandante dos pilotos, que era o comandante Marcelino. Essa mudança é que criou suspeitas depois do assalto.
A história da mudança da tripulação, que na altura tanto intrigou a PIDE, era afinal uma história de amor. De um amor que ainda dura, passados estes anos, como recorda o comandante Marcelino.
Comandante José Marcelino – Uma das razões porque desconfiaram de mim foi que porque eu troquei o serviço. É que eu simpatizava muito com uma rapariga que ia a bordo. E eles perguntavam: - Mas porque é que você trocou? Não posso dizer, respondia eu. Nunca disse porque é que troquei o serviço, considerava que isso era um ponto de honra. Eles depois souberam e lá se calaram.
E depois?
Comandante José Marcelino – Depois eu casei com essa rapariga, que é a minha mulher.
A Operação Vago, desvio do avião de Casablanca, preparada por Henrique Galvão e executada por Palma Inácio, levou nove meses a preparar, desde o desenlace da Operação Dulcineia, o assalto ao navio Santa Maria, até ao diz 10 de Novembro de 1961. Nesse dia, Palma Inácio e o seu “comando” tomaram o avião de Casablanca e em pleno voo entraram em ação.
Palma Inácio – O avião levantou voo de Casablanca e eu, mais ou menos a meio caminho, fui à cabina com o Camilo Mortágua, ia o comandante Marcelino aos comandos do avião, e apontamos-lhe as pistolas.
Alguma vez pensou em disparar?
Palma Inácio – Não, não se ia disparar. Mas fizemos aquilo de maneira a que as pessoas se apercebessem e pensassem. Eu também sou piloto. Disse ao comandante Marcelino que aquilo era uma operação revolucionária. O comandante Marcelino entregou os comandos ao copiloto, levantou-se e perguntou o que é que nós queríamos. E eu expliquei-lhe: Nós queremos baixar até aí aos 100 metros, sobrevoar Lisboa, Barreiro e outras localidades à volta, lançar os panfletos que nós levávamos e depois regressar para Tânger.
Todas as histórias têm dois lados. E a história do desvio do avião, há 29 anos, tem também um outro lado da história. Depois de ouvirmos o assaltante, Palma Inácio, ouçamos o assaltado, comandante Marcelino.
Comandante Marcelino – Eu estava no meu lugar no cockpit, eles entraram na cabina e eu disse-lhes: "Mas que brincadeira é esta?" Eles responderam: "Não é brincadeira nenhuma". Mas quem tremia eram eles, com a pistola apontada para mim. Não foi absoluta surpresa porque nós uma semana antes tínhamos sido avisados de que alguém andaria a preparar alguma coisa. Eu sempre pensei que eles não iam abater o avião, porque se abatiam também a eles próprios. E perguntei o que é que eles queriam fazer. Responderam que queriam voar baixo sobre Lisboa e distribuir panfletos. E eu respondi que o avião tinha cabina de pressão não podia estar a abrir janelas. E eles: "Não pode?" Era muito simples, qualquer pessoa ligada ao meio aeronáutico sabe como uma coisa dessas se poderá fazer e o chefe deles tinha estado ligado ao meio aeronáutico. E pronto, viemos para Lisboa, o copiloto ainda me perguntou o que é que fazíamos, eu respondi que não fazíamos nada, vínhamos para Lisboa, não íamos arriscar a vida das pessoas que vinham a bordo. Vim, a conversar com eles. A dada altura perguntei-lhes se eles eram terroristas? E eles: "Não somos terroristas, somos patriotas". E eu: "Bom então está bem, patriotas". E vim a conversar com eles o resto do caminho. Quanto me aproximei de Lisboa, pus o trem em baixo, baixei os flaps, era a pista 05, comecei a fazer-me à pista. Aí ele apontou-me outra vez a pistola, disse que se posasse em Lisboa deitavam-lhe a mão e faziam e aconteciam. Eu então reverti os motores e pedi autorização à torre da Portela para voar baixo sobre Lisboa. E eles autorizaram sem perguntar nada. Então voámos baixo pela Avenida da Liberdade, fomos a Alcântara…
Isso a que altitude?
Comandante Marcelino – Foi a rapar os prédios da Avenida da Liberdade.
Viam as pessoas, cá em baixo?
Comandante Marcelino – Então não víamos!? E as pessoas viam-nos a nós, olhavam para cima. E houve alguém que disse assim: “Esta foi a primeira vez que vi a polícia a colaborar com o povo, a apanhar papéis”. Fomos a Alcântara, Terreiro do Paço, depois até nos disseram que estava vento e no Terreiro do Paço os papeis entraram pelas janelas dos Ministérios dentro.
O avião era de grande porte?
Comandante Marcelino – Era um constellation quadrimotor, era um avião avançado para aquela época. E então depois do terreiro do Paço ainda fizemos Barreiro, Beja e Faro. Quando ia a passar o Tejo consegui desligar os altifalantes e avisar a torre: "Olhe torre, fui assaltado, o avião está a ser assaltado, temos aqui pistolas apontadas e vou aterrar em Tânger". E o tipo da torre: “importa-se de repetir”. Eu lá ia repetir! Dizer aquilo já tinha sido um risco, desliguei mas ainda ouvi nos auscultadores uma voz a dizer: “Não é preciso repetir, eu ouvi tudo”. Era então um general da Força Aérea que estava a voar num Dakota e tinha apanhado a comunicação. Eles entretanto tinham deixado de ver o avião, porque nós estávamos a voar tão baixo que não éramos apanhados pelo radar. E eu mantive-me assim, não fosse eles mandarem uma patrulha contra nós, com aquela gente toda a bordo.
O avião transportava 70 passageiros. Foi certamente, para todos, e para cada um deles, a aventura das suas vidas. Palma Inácio conta que alguns dos passageiros chegaram a colaborar na largada de panfletos. E até houve rosas em pleno voo.
Palma Inácio – Nós depois de nos assegurarmos que o comandante ia fazer o que nós queríamos, teríamos que avisar os passageiros do que se ia passar. E então nós avisámos os passageiros, um a um, dizendo que éramos um comando revolucionário, que íamos baixar, sobrevoar Lisboa, largar panfletos e voltar para Casablanca, pedíamos desculpa pelo incómodo, e a cada senhora que ia a bordo oferecemos uma rosa.
O comandante do avião assaltado e desviado está de acordo: apesar do desvio, viveu-se a bordo um ambiente de convívio e até de camaradagem.
Comandante Marcelino – Eles foram bastante corretos. Eu, com passageiros a bordo, fiz aquilo que devia ter feito e depois de mim, toda a gente fez. Não houve muitos desvios na TAP mas houve alguns e todos fizeram o mesmo. Só tiveram problemas aqueles que quiseram resistir. Entretanto eu disse para distribuírem bebidas aos passageiros, e disse aos assaltantes para não andarem para trás e para diante no avião com as braçadeiras que eles usavam, umas braçadeiras encarnadas e brancas, que é para evitar choques. Não houve nada, absolutamente nada com os passageiros. Muitos até acharam graça, pois ficavam com algo que lhes tinha acontecido para contar depois.
Como é que foi depois a viagem de regresso a Lisboa?
Comandante Marcelino – A viagem de regresso não teve problema nenhum. Trouxe os passageiros, estava muita gente à espera, também estava a PIDE. O presidente e a administração da TAP receberam-nos muito bem, depois eu fui ouvido pela companhia, pela Aeronáutica Civil, a Força Aérea mandou-me apresentar porque eu era oficial na reserva, houve inquéritos e chegaram todos à conclusão que eu fiz aquilo que devia ter feito e fiquei ilibado de qualquer responsabilidade. Mas ainda passei um bocado. A PIDE comunicou à TAP que me queria ouvir e eu disse que só iria à PIDE como testemunha. E foi assim.
O senhor comandante voltou a encontrar alguma dos elementos do “comando” assaltante?
Comandante Marcelino – Parece-me que foi o Dr. Amândio Silva que vi uma vez. O Palma Inácio nunca o encontrei.

Vinte e nove anos depois, os dois protagonistas desta história consideram que fizeram na altura o que tinham a fazer. 
Hoje e aqui, na TSF, fizeram apenas um voo picado sobre a memória. 
Por João Paulo Guerra, TSF, 10 de Novembro de 1990

FIQUE ATENTO A ASSALTO AO AVIÃO II - Panfletos com asas

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