segunda-feira, 20 de julho de 2015

Os Reis já não são o que eram

O Rei das Canetas vende artesanato
No Rei dos Bifes a especialidade é moelas
E o Rei da Batata Frita perdeu o centro de decisão

Por João Paulo Guerra, Diário Económico, 19 de Março de 2002

No comércio de Lisboa, aos cem anos de República, ainda imperam diversos reis e reinados. Eles são o Rei das Meias e a Rainha das Malhas, o Rei dos Algodões e o Rei das Fardas, o Rei dos Fogões e o Rei dos Livros, o Rei das Parabólicas e o Rei dos Bifes, o Rei da Sorte e o do Bacalhau, o Rei dos Frangos e o da Pescada. Alguns reinados conheceram já várias dinastias. Outros reis abdicaram pelo caminho. Mas a concorrência e a crise deixam alguns sectores sem rei nem roque. E de que vale um rei do comércio tradicional perante um baralho inteiro de uma grande superfície?


O Rei dos Bifes é mais moelas
«Há clientes que vêm das redondezas por causa do petisco que é a especialidade da casa, as moelas fritas», diz Rui Jesus, o príncipe herdeiro do Rei dos Bifes, que gere com a mãe, Maria Odete Jesus Silva, neste ano de 2002, a casa da Rua Tomás da Anunciação, em Campo de Ourique, Lisboa.
O prato do dia varia entre a mão de vaca com feijão branco, o cozido à portuguesa, o bacalhau cozido ou assado, a feijoada ou a carne assada. Bifes nem vê-los.
Há 33 anos na família, o restaurante tem 60 lugares sentados mais uma sala na cave, «para grupos», e o balcão de cervejaria está vocacionado para os grelhados no carvão, peixe e carne. Por via das notícias, os frangos assados caíram 80 por cento nas últimas semanas, segundo a contabilidade da casa.
De resto, o Rei dos Bifes tem épocas. No Inverno é mais carne – entrecosto, entremeada, picanha, costeletas – no Verão é mais peixe.
«Peixe fresco, comprado aqui ao lado, no Mercado de Campo de Ourique».
E para o aumento do consumo de peixe no Verão muito contribuem 10 quilos diários de sardinha assada.
«No Verão também saem muitíssimo bem os caracóis e as caracoletas grelhadas», diz Rui Jesus.
E para beber é mais cerveja, cinco a seis barris de 50 litros por semana. Ou os vinhos correntes alentejanos, de Borba e Reguengos.
Percorrendo a lista do Rei dos Bifes, depois dos carapauzinhos com arroz de tomate, do peixe-espada, da grelhada mista, da carne de porco à alentejana, das febras, das iscas, lá foi possível encontrar um «bife à café».

Reis disto e reis daquilo
O Rei das Canetas é actualmente uma rainha e canetas é o artigo que menos se vende no estabelecimento. Maria do Rosário Dinis, bancária à beira da reforma, licenciada em gestão, tomou a tabacaria da Rua do Arsenal que desde 1949 ostenta a tabuleta de Rei das Canetas. Quando a casa foi fundada, a caneta tinha um sentido social e cultural, significando que o portador sabia ler e escrever. Os tempos mudaram e hoje é difícil vislumbrar o pequeno mostruário das canetas por entre os artigos em exposição. Maria do Rosário Dinis manteve no entanto o título de Rei das Canetas: tabuleta obriga.
«Não me nego a ter canetas», diz a proprietária da casa, acrescentando que o estabelecimento está «mais virado para os brindes e artesanato para os turistas»: galos de Barcelos, Senhoras de Fátima, azulejos e cortiças, rouparia e brinquedos, artigos náuticos e caravelas com a Cruz de Cristo 'made in China'.
Os artigos regionais são mais procurados pelos turistas, em particular por espanhóis e italianos, o artesanato e os brindes religiosos têm mais procura por parte dos emigrantes.
«Mas agora aparecem menos emigrantes, até mesmo pelo Natal», diz a rainha das canetas.
É a crise. Em Janeiro, feitas as contas, a proprietária do estabelecimento verificou que a quebra nas vendas foi da ordem dos 23 por cento em relação à média do ano passado.
«O que me vale é que não preciso disto para comer», conclui.
Vale também que a renda da casa é das antigas. Mas a proprietária fez obras pois o estabelecimento, de rés-do-chão e primeiro andar, «nem sequer tinha uma casa de banho», e a rainha das canetas tem planos para o futuro. Canetas é que não.
A rua do Arsenal, diz a proprietária do Rei das Canetas, é a «rua dos reis disto e reis daquilo». Já foi a rua do bacalhau. Mas agora restam três casas da especialidade, duas das quais ostentando o título de Rei do Bacalhau. São estabelecimentos irmãos que, para além do «fiel amigo» e derivados - com barricas de caras e línguas de bacalhau à porta -, se dedicam, hoje, ao comércio geral de mercearias. Quanto a conversas, nada. A morte violenta do Rei do Bacalhau, assassinado em Novembro de 2001, mergulhou os herdeiros no ‘black-out’.
O Rei da Batata Frita abdicou do reinado. O quiosque localizado mesmo em frente da estação do Cais do Sodré mudou de titulares e de nome, mantendo no entanto o ramo. E na época da globalização e do desvio dos centros de decisão, o portuguesíssimo Rei da Batata Frita é hoje, simplesmente, ‘Mr. Chips’. 
O Rei dos Livros é uma empresa familiar, soberana de um conjunto de seis estabelecimentos entre as ruas de S. Nicolau e dos Douradores, na baixa de Lisboa. Editor e livreiro, o Rei dos Livros produz volumes sobre fiscalidade, contabilidade e religiões e vende, em diferentes casas especializadas, livros religiosos, técnicos, mapas e guias, impressos e lotarias.
A livraria generalista do Rei dos Livros abriu em 1998, ocupando o rés-do-chão e primeiro andar de uma casa da Rua de S. Nicolau onde antes funcionava uma loja de fotografia.
«Mas a baixa já não é o que era», dizem José Augusto e Sofia, empregados da casa.
«A baixa agora é no Chiado», acrescentam, queixando-se de que o mais recente domínio do Rei dos Livros ainda «é pouco conhecido» e sofre os efeitos da concorrência, em particular da República FNAC.

Monarcas nas malhas da crise
O reinado do Rei das Meias vem dos anos 20 do século passado e vai já na terceira dinastia. A casa, situada no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, antigo Largo da Abegoaria, em Lisboa, foi fundada por Eugénio Farinha, emigrante retornado do Brasil, em 1929, transformando em loja uma antiga cavalariça. A propriedade do estabelecimento passou depois pelas mãos de Agostinho Santos Rodrigues e tem agora [2002] como sócios gerentes Rute Dias e José Manuel Santos. «Sempre no ramo», diz o gerente, revelando que há famílias que são clientes da casa há cinco gerações.
«Meias, toda a gente vende», diz Rute Dias.
O segredo do Rei das Meias é a especialização, acrescenta José Manuel Santos, ao balcão da casa desde a década de 80. No estabelecimento pode encontrar-se tudo o que a imaginação consiga conceber em matéria de meias, mais de 100 referências, com ou sem calcanhar, dos tamanhos 2 ao 46, da peúga de algodão à meia de licra, de seda ou de vidro, das meias elásticas recomendadas pelos médicos aos ‘colants’ de rede usados por bailarinas, coristas e artistas de circo ou aos ‘colants’ opacos preferidos por travestis, pois disfarçam os pelos das pernas. O Rei das Meias tem clientes certos para além da clientela geral.
«Os familiares dos Reis de Espanha, quando estavam exilados em Portugal, eram clientes do Rei das Meias», revela o gerente.
Mas também a mulher do Presidente da República é freguesa da casa. E o patriarca da família Champalimaud não dispensa o número 13 da peúga de algodão mandada fazer por encomenda.
A especialização do Rei das Meias e a variedade dos seus ‘stocks’ passa de boca em boca, de cliente para cliente. Mas já houve tempos, nos anos 50 e 60, em que a empresa se empenhou em campanhas de publicidade na rádio. O texto do ‘spot’ era em verso:
«Este é o famoso Rei das Meias
Que torna bonitas as pernas feias.
Calçando Portugal de lés a lés
Só não o conhece quem não tem pés.
Novas ou velhas, bonitas ou feias
Para elas tem sempre meias». 
Hoje as meias são objecto de consumo que se usam e deitam fora. Mas o Rei das Meias chegou a ter ao serviço vinte apanhadeiras que recuperavam as malhas caídas. O serviço de malhas terminou quando um par de meias de senhora custava 67 escudos e apanhar as malhas ficava pelos 60 escudos. Outros tempos. O Rei das Meias chegou a ter 13 empregados ao balcão, agora são quatro.
O fim da carreira dos eléctricos até ao Largo Rafael Bordalo Pinheiro e a longuíssima paragem do elevador de Santa Justa afastaram muitos clientes de mais idade, queixam-se os gerentes. E o Largo, bem no coração da cidade, fica porém no lado oculto do Chiado. Nem as iluminações de Natal lá chegam.
«A cidade é a Rua Garrett. O Largo é a província», queixa-se, ali mesmo ao lado, a empregada da Rainha das Malhas, casa no ramo da ‘lingerie’ desde 1985.

A República das fardas
A casa Cardoso e Costa existe desde os anos 70 como fabricante e vendedora de vestuário para trabalho. Em 1987, quando passou de pai para filho, mudou a designação para Rei das Fardas. A firma tem quatro portas abertas, duas em Lisboa e ainda no Porto e Algarve. A sede, para além da porta aberta, tem uma pequena montra na Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, e ninguém suspeita que nos longos fundos do estabelecimento trabalham dezenas de pessoas numa especializada fábrica de fardamentos civis.
«Antigamente, a farda era uma bata ou um fato-macaco», diz Sandra Morgado, responsável administrativa da empresa há dez anos.
Mas o conceito e o estilo evoluíram e «a farda abrange muito mais», acrescenta. Hoje há fardas que são um vestido de saia e casaco, um camiseiro de seda ou um ‘smoking’, com ou sem adereços – lencinhos, gravatas, laços - e com frequência vai da cabeça – um bivaque, uma pala – aos pés – sapatos, botas ou socas.
O Rei das Fardas confecciona e vende uma vasta gama de vestuário para trabalho.
«A bata branca é o nosso artigo ‘top’», diz Sandra Morgado.
Mas se um médico se pode «fardar» por 17.21 euros, já um magistrado ou advogado terão que desembolsar 366 euros por uma toga ou beca. Os hotéis e outras grandes empresas, do Estado ou privadas, bem como as estações de televisão, contam-se entre os maiores clientes deste Rei absoluto. «Esses clientes não vêm às lojas», esclarece Sandra Morgado, acrescentando que, para além dos quatro balcões, o Rei das Fardas tem vendedores por todo o país. Ao todo, a casa emprega 50 colaboradores.
Quanto à crise, «atinge todos», de acordo com a responsável administrativa pelo reinado do fardamento. E neste sector «sente-se um bocadinho». O mês de Março aí está e com ele o arranque da época turística. Talvez a hotelaria resista à crise e a festa não dispense os fardamentos novos. Talvez a guerra não estrague a festa.

 Por João Paulo Guerra, Diário Económico, 19 de Março de 2002

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