segunda-feira, 9 de março de 2015

Portugal visto e revisto nos papéis da Casa Branca

Vasco Gonçalves passou 20 minutos a explicar a Gerald Ford como funcionava o Governo português. Ford comentou que o sistema lhe parecia «um pouco caótico»

Por João Paulo Guerra, in Diário Económico, 31 Julho 2002

No Ficheiro Central da Casa Branca, Portugal é designado pelo código  CO 122 – CO de countries e 122 pela ordem alfabética num total de 179 países. Os ficheiros estão parcialmente acessíveis e são complementados com a consulta das bibliotecas pessoais dos sucessivos presidentes norte-americanos. A digitalização e a Internet dão aos papéis presidenciais uma acessibilidade universal e existe mesmo uma instituição, a NARA - National Archives and Records Administration, que organiza o acesso à consulta dos documentos da admnistração.


No ficheiro CO 122, para além de informação classificada em termos de segurança, outros dados sobre Portugal permanecem inacessíveis, deslocados do Ficheiro Central para os arquivos do adjunto de Segurança Nacional do Presidente. É o caso de informações sobre «actividades comunistas no país», «ajuda a Portugal», o relato de um «encontro com o presidente Costa Gomes» e uma pasta sobre o «movimento de independência dos Açores» que permanecem como ficheiros secretos.

Nazis e ditadores
Em duas fases da história do século passado, Portugal constituiu uma preocupação particular para a Casa Branca. A primeira foi durante a II Guerra Mundial, quando a posição ambígua de Salazar fazia os Aliados temerem um realinhamento ao lado dos alemães. O presidente Truman pediu ao seu representante pessoal no Vaticano, Myron Taylor, que tentasse entender a posição portuguesa, aproveitando para tal uma visita do Patriarca de Lisboa à Santa Sé, em Outubro de 1942. Taylor participou numa audiência do Papa ao cardeal Cerejeira, levando consigo o assessor militar da embaixada dos EUA. O relato da audiência está nos papéis do presidente Truman mas não é conclusivo quanto às intenções secretas de Salazar. O embaixador Taylor só conseguiu  extrair como conclusão da audiência a «profunda e ilimitada confiança» de Cerejeira em Salazar. A audiência não deu para mais e o embaixador Taylor relatou a Truman que Cerejeira se despediu com uma «velha expressão em latim»: «Bless you, my son».
Quatro anos após o fim da guerra, Portugal participou na fundação da NATO. Um manual de «geografia e linguagem» sobre cada um dos países da Aliança, disponível nos papéis de Truman, ensina aos aliados que as saudações mais correntes em língua portuguesa são «Bom dia» e «Oi».
A segunda grande preocupação dos EUA em relação a Portugal surgiu nos anos 70. Portugal veio à baila no debate no debate televisivo entre o presidente Ford e o senador Carter, na campanha eleitoral, em Outubro de 1976. Ford acusou Carter de ver «com simpatia» um «governo comunista na NATO». Carter respondeu que quem enfraqueceu a NATO foram os que «apoiaram a ditadura mais longa em Portugal» e que depois tardaram em «apoiar as forças democráticas». E o candidato – que veio a sair vencedor – ainda acusou o presidente Ford e o secretário de Estado Kissinger de começarem «um novo Vietnam em Angola».
Em Maio do ano anterior, o presidente Ford participara numa Cimeira da NATO, em Bruxelas, durante a qual se reuniu com o primeiro-ministro português. O encontro entre Gerald Ford e Vasco Gonçalves foi «cordial», tal como consta na acta da reunião do Gabinete norte-americano de 4 de Junho de 1975. Ford relatou que Vasco Gonçalves gastou 20 minutos da audiência para explicar-lhe a orgânica e a forma de tomar decisões do governo português. Em resposta, Ford «sugeriu» a Vasco Gonçalves que «o sistema lhe parecia um pouco caótico».
Kissinger interveio na reunião para explicar que em Portugal, excluindo o «partido militar», todos os outros «estavam mortos». E lançou para próxima discussão a questão de se entender se Portugal permanecia na NATO por «a opinião pública não estar preparada para a decisão» de abandonar a Aliança, ou «para servir os propósitos comunistas?».
Na viagem à Europa, Ford e Kissinger reuniram-se em Madrid com o ditador Franco. A Espanha, em 1975, era outra das preocupações de Kissinger. A questão era saber se, após a morte de Franco, a Espanha não seguiria «um caminho idêntico ao de Portugal».

Amigos especiais
Nos anos 80, com Portugal de regresso ao redil ocidental, os relatórios que constam da pasta CO 122 no Ficheiro Central da Casa Branca resumem-se a pouco mais que relatos de reuniões e visitas. O encontro de Ronald Reagan com Pinto Balsemão, durante uma Cimeira da NATO em Bona, em Dezembro de 1982, já não foi apenas «cordial» mas «excepcionalmente útil e harmonioso». Em Setembro de 1983, Ramalho Eanes visitou os EUA. Ronald Reagan, em seu nome e no de Nancy, afirmou-se «honrado e satisfeito» com a visita.
Em Março de 1984 foi a vez do primeiro-ministro Mário Soares visitar a Casa Branca. Reagan apresentou-o como «uma personalidade internacional, um valoroso apoiante dos valores e ideais do Ocidente, um homem de grande coragem pessoal» e, acima de tudo, «um amigo especial». Segundo os apontamentos de Reagan, foi «particularmente útil» a conversa com Soares sobre «os conflitos na África Austral».
Em Maio de 1985, Reagan retribuiu a visita de Eanes, o que lhe deu oportunidade de voltar a encontrar-se com Soares, o «bom amigo». Aos brindes, no final do almoço em Sintra, Reagan citou John dos Passos, «um escritor americano com raízes familiares em Portugal», para dizer que «o marxismo falhou não só na promoção da liberdade humana mas também na produção de alimentos». Depois do jantar, com Ramalho Eanes, Regan citou Camões e uma versão muito livre dos avisos a D. Sebastião para que, agora sim, Portugal estava a seguir os desafios do poeta, descobrindo o caminho para a democracia.

Em Agosto de 1989, George Bush recebeu Cavaco Silva na sua residência no Maine. E quando os jornalistas lhe perguntaram se o local proporcionava um ambiente de trabalho mais fácil para abordar as questões do mundo, Bush respondeu que «as questões podem não ficar resolvidas mas a música de fundo é boa». Em Janeiro do ano seguinte, Cavaco Silva voltou aos EUA e dessa vez foi recebido na Casa Branca, onde se reuniu em privado com George Bush. A comitiva ficou porém à porta da Sala Oval. 
João Paulo Guerra, in Diário Económico, 31 Julho 2002

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