domingo, 8 de fevereiro de 2015

VÍTOR MENDES: Na cara de um toiro

Vítor Mendes é um raro português na galeria mundial de «figuras» do toureio que triunfou em todos os países onde se lidam toiros. Mas no toureio, «o triunfo e o fracasso, a vida e a morte, a tragédia, estão no limite de um fio de seda», diz Vítor Mendes, ao cabo de 25 anos «na cara de um toiro».

Por João Paulo Guerra
Fotos Paulo Figueiredo
Diário Económico, 
revista Fora de Série, Junho 2006

Numa tarde de sol dos últimos dias de Maio, no redondel do Monte de Pancas, o matador de toiros Vítor Mendes treinava-se para o reaparecimento em Lisboa e, para os poucos que o viam, confirmava uma tese. O toureiro faz o toiro, a menos que lide um manso perdido. A expressão «fez dele um toiro» é de Ernest Hemingway e o escritor encontrou-a durante o «Verão Perigoso» de 1959, quando acompanhou em Espanha toda uma temporada de competição entre António Ordonez e Luís Miguel Dominguin. «Não era verdadeiramente um toiro bravo, tardava no arranque, não era toiro para uma ‘faena’ espectacular. Mas António [Ordonez] começou a trabalhá-lo e fez dele um toiro», escreveu o autor de «Fiesta».


No redondel de Pancas, observando as vacas e novilhos, estudando-os, falando-lhes, ensinando-os, corrigindo-lhes os defeitos, trazendo-os à lide, fazendo deles toiros, Vítor Mendes confirmava a teoria e demonstrava como conhece bem o seu «cúmplice» no ‘ruedo’, como disse, pouco antes do treino, durante a entrevista na sua casa em Vila Franca de Xira. «Baixa a muleta», «dá um passo à esquerda», «avança o pé direito», «mostra-te», dizia Vítor Mendes para dois jovens discípulos com quem alternava. E os animais respondiam de imediato ao estímulo e investiam. O conhecimento do toiro é uma das razões pelas quais Vítor Mendes chegou à posição de «figura» mundial do toureio, único português que desfruta hoje, e ainda, desse estatuto. As outras razões são a inteligência, o domínio criativo da arte e da técnica de lidar um toiro e uma valentia racional que ultrapassa o medo.
Retirado profissionalmente desde Setembro de 2001, Vítor Mendes não se retira da actividade em que encontrou o sentido da sua vida. E ai está, volta e meia, abrilhantando o cartel de corridas de beneficência, de festivais e de acontecimentos como foi a estreia do toureio a pé na «nova» Praça do Campo Pequeno.
Vinte e cinco anos após a tomada de alternativa, Vítor Mendes tem para contar uma vida intensa, cheia de emoção mas também de racionalidade, de perigo, de criação estética e de triunfos. O museu de dois pisos que faz parte da sua casa em Vila Franca é um mundo de troféus, de testemunhos e recordações, de ‘trajes de luces’ e capotes de cortesias, de ‘cartelazos’ onde o seu nome ombreou com todos os grandes do seu tempo, memórias de voltas às praças e de saídas em ombros em todos os países onde se lidam toiros. O reverso é a malha de cicatrizes que lhe cobre o corpo: sofreu 19 cornadas, esteve três vezes à beira da morte. «Há muito de trágico na corrida», «o triunfo e o fracasso, a vida e a morte, a tragédia, estão no limite de um fio de seda», diz Vítor Mendes: 48 anos, português, matador de toiros.    


O Vítor Mendes é matador de toiros português. Isso não é uma frustração: matador de toiros português?
É uma frustração porque nós temos o estatuto, assumimo-lo perante o mundo taurino. Agora, o nosso País, pelas circunstâncias, quer históricas, quer tradicionais, e eu diria também culturais – embora um núcleo de bons aficionados defenda a corrida integral – não contempla a sorte de varas e a morte do touro no ‘ruedo’. Para nós é uma frustração, é uma antítese da realidade, da verdade e da integridade do espectáculo, da corrida de toiros na verdadeira acepção das palavras. Mas isso está assumido e temos que entendê-lo assim. Eu tive que optar pelo estatuto de emigrante para poder realizar-me como profissional e tentar a sorte noutros países. A pátria do toureio é a Espanha. E foi para lá que eu fui viver a partir do ano de 1978, com o projecto de vida de chegar a ser um profissional do toureio.

É outro toureio, diferente, o toureio sem a chamada ‘faena’ integral?
É diferente na seriedade do espectáculo. Para o toureiro, mesmo a nível das quotas de nível artístico ou estético da lide e da ‘faena’ de um toiro, é muito mais difícil toureá-lo em Portugal, porque não se estabelece um equilíbrio de forças. A razão pela qual em Portugal se despontam os toiros, é para minorar de alguma forma o perigo. Em Espanha, o toiro é muito mais sério, de quatro para cinco anos, em pontas, íntegro, em que para estudarmos o seu comportamento durante a lide se assume, na sorte de varas, esse factor de equilíbrio de forças. O toiro, após uma sorte de varas, dá-se a conhecer na sua personalidade, se é bravo ou se é manso e, a partir daí, o toureiro tem que desenvolver toda uma lide para chegar ao momento em que o toiro se entrega. Aqui, o toiro mantém uma mobilidade e uma agressividade em que é muito difícil estudá-lo e dominá-lo totalmente. É uma tauromaquia muito mais rápida, não se entra tanto no campo da beleza estética, porque os toiros e a lide não o permitem tanto. Mas obviamente tem a sua seriedade porque, estando na cara do toiro, pode sempre surgir um momento de perigo.

Que espécie de desafio é esse de um homem diante de toiro?
Não se faz isto de uma forma gratuita, mas uma forma de realização pessoal. Eu não quero comparar, mas nos desportos radicais tem que se levar a competição ao extremo, de cada um consigo mesmo. Aqui, o prazer de estar na cara de um toiro é, de uma forma racional, dominar o irracional, num combate que exige conhecimentos técnicos, presença de espírito. É um prazer muito íntimo, porque o que se assume é o domínio total do irracional, o que vai mais às nossas reminiscências.

E como é que o toureiro vê o toiro? Como um inimigo?
O toureiro não é de animal para animal, porque nesse caso o toiro seria normalmente o vencedor. O que está dentro da lógica da lide do toiro, criado para responder a determinados estímulos, é que o toureiro o veja como um cúmplice, não como um inimigo. Ao fim e ao cabo tem que existir essa cumplicidade para que, por fim, as pessoas testemunhem o valor e a coragem do toureiro, o domínio absoluto, a beleza plástica da lide, para afrontar esse perigo e para o dominar.

Mas esse combate não é desigual? O toiro é muito mais forte mas não sabe o que o espera na arena e o toureiro sabe…
Não. O toureiro não sabe. O triunfo e o fracasso, a vida e a morte, a tragédia, estão no limite de um fio de seda. Um toureiro pode estar a viver um momento de triunfo e, de um momento para o outro, uma reacção imprevista, uma má resposta a um estímulo que se dê ao toiro, faz com que ele o agarre e o possa ferir gravemente. Há muito de trágico na corrida. Mas ninguém sabe. E daí a importância daquilo que se procura realizar na cara do toiro, um momento diferente, um nível de intensidade diferente, uma emoção diferente, um momento plástico diferente.

O toureiro tem muito pouco tempo para estudar o toiro e para decidir?
Isto é um culto à racionalidade. Tem raízes ancestrais, tradicionais e culturais, nesta zona da Meseta Ibérica onde se centra o culto ao toiro. Nas primeiras civilizações, o jovem que era capaz de enfrentar um toiro demonstrava uma capacidade física, mas também uma destreza mental, que lhes permitia enganar o bruto, o irracional. Isso derivou, com a passagem dos anos, na actual corrida de toiros.

Um toureiro, no espaço tão breve de estudar e de lidar um toiro, tem medo? O Vítor Mendes tem medo?
Eu tenho medo. Felizmente que tenho medo. Eu, no toureio, alcancei o estatuto de «figura». Sou como um ‘Vintage’ ou um ‘Armagnac’. Isso tem a ver com a personalidade, com o talento, com o carisma e tem a ver, obviamente, com a inteligência. A «figura» do toureiro não é mobilizada só por questões de interesse. E para poder desfrutar dessa posição, da sua profissão. E para conhecer-se melhor, tem que conhecer os seus limites. O medo é uma virtude inerente a todo o ser humano. A questão é, tendo medo, demonstrar perante os outros que esse medo se consegue ultrapassar, que a capacidade, a racionalidade e a inteligência são capazes de ultrapassar o medo. E assim criamos momentos de beleza estética, momentos emocionais, que transcendem a personalidade do indivíduo perante o perigo, perante o medo e perante os outros. O medo é inerente a qualquer ser humano. Por vezes, o comportamento intempestivo do toiro pode levar o homem a ter reacções mais normais, mais humanas, como o pânico, ou do medo. O pior – que já me aconteceu e vi acontecer a outras «figuras» do toureio – é quando se está perante um toiro, cujas reacções fogem da lógica da lide, cair no pânico, não dominar a situação. E isso transparece automaticamente: quer-se é acabar com tudo rapidamente, defender-se, fugir. É a chamada «bronca», em que o toureiro é ultrapassado pelas circunstâncias.

Existe muita superstição no mundo do toureio, muita mística e religiosidade?
A mística tem a ver com a razão da própria existência do espectáculo da corrida de toiros. A organização do espectáculo taurino tinha a ver com os deuses primitivos. O toiro foi também ele um deus em determinadas civilizações. E, de alguma forma, a festa, o espectáculo de toiros, tinha muito de místico. A superstição, isso tem mais a ver com a educação de cada indivíduo. Eu não acredito muito em superstições. Mas admito que por formação, por educação, por princípios, outras personalidades da tauromaquia cultivem a superstição.

Qual foi o seu ídolo mais antigo?
Eu tive o privilégio de conhecer grandes figuras do toureio, e inclusive de tourear ao lado deles, quer de gerações anteriores, quer da minha geração, quer posteriores, como é o caso de El Juli, que é um miúdo de vinte e poucos anos com níveis de genialidade fora do comum. Na altura em que me aproximei da festa dos toiros, a grande «figura» era o «maestro» Manuel dos Santos. Mas quando me meti mais a sério no mundo dos toiros, encontrei uma referência numa grandiosa «figura» do toureio que era o Luís Miguel Dominguin, pela sua personalidade, pelo seu talento, pelo seu garbo, pela grandeza de ser toureiro que transmitia aos outros. Conheci-o, estive em tertúlias com ele, tive a oportunidade de lhe brindar um toiro na corrida de inauguração da praça de toiros de La Corunha. E posteriormente, o meu grande maestro foi Francisco Rivera Paquirri, meu mestre, que infelizmente morreu ferido por um toiro.

Palomo Linares foi o seu padrinho de alternativa. O que significa essa figura do padrinho de alternativa para um toureiro?
O padrinho da alternativa é uma referência para toda a vida. O que dá o estatuto de matador de toiros é precisamente a cerimónia em que se recebe o testemunho das mãos de uma grande «figura» que ficou para a história do toureio. Palomo Linares é uma grandiosa «figura» do toureio. Uma «figura» que veio no seguimento de uma tauromaquia nova, de uma renovação, concebida e projectada por esse grande fenómeno do toureio moderno que foi El Cordobés, que foi quem abriu as portas, nos anos 60, a uma nova tauromaquia, heterodoxa, que saía daqueles contornos mais clássicos e ortodoxos tal como se entendiam na época. E foi isso que abriu as portas a toureiros do nível de um Palomo Linares para que recebessem a aceitação e o respeito do grande público.  

O toureio é susceptível de evoluir? E tem evoluído?
Sim. Sempre. Na arte de tourear, o compêndio dos passes, dos ‘muletazos’ é único. Está tudo descoberto no aspecto técnico. Pode-se ‘desempolvar’, como dizem os castelhanos, tirar o pó de cima de alguns passes que ficaram no esquecimento para as tauromaquias modernas. Mas a evolução do toureio tem a ver essencialmente com a selecção do toiro, que é a matéria-prima, e com o talento dos novos toureiros. Além disso, o toureio tem que ser evolutivo, ou seja, a minha forma de pensar e de estar na cara de um toiro, agora, depois de 25 anos de alternativa de matador e de ter estoqueado mais de 2500 toiros, não é a mesma de quando comecei, quando, por desconhecimento e por ambição, muitas vezes ultrapassava as quotas mínimas de lógica e de defesa. Há muitos toureiros que ficam pelo caminho precisamente porque existe esse crivo.

Há competição entre os toureiros. Como é essa competição para triunfar?
Não há nada de mais positivo e de mais transcendente em qualquer profissão que a existência dessa competição. Se não existir, não apaixona, passa ao lado. Portanto, neste caso tem que partir dos profissionais do toureio o desejo do triunfo, a ambição do triunfo, a capacidade de ultrapassar os maus momentos, as cornadas, as dificuldades inerentes à profissão, no sentido de se demonstrar que se tem capacidade. E isto não é durante um ano ou dois.

O Vítor Mendes tem marcas de muitas colhidas?
Dezanove cornadas. E mais umas tantas fracturas.

E quando foi colhido pensou na morte?
Não. Nunca penso na morte. Mesmo quando estive, por três vezes, mais para lá do para cá, pensava que tinha consciência da gravidade dos ferimentos porque estava vivo.

Mas estava a falar da competição, do triunfo. O que é um triunfador?
Um triunfador é aquele que triunfa 15 ou 20 anos, que se mantém ao mais alto nível, e que vai aguentando esse embate das cornadas, das lesões, dos maus momentos, das dúvidas, da intransigência do público, do embate das novas gerações que chegam continuamente, mantendo o nome e a categoria ao mais alto nível. Isso não está ao alcance de todos. Mas pode ser estimulante que um jovem toureiro traga sangue novo ao mundo dos toiros e que, durante algumas temporadas, seja o ponto de atenção de toda a ‘aficion’ e até dos profissionais com capacidade de entender por onde é que as coisas respiram, para onde é que as coisas vão.

Mas isso não poderá levar a concessões a gostos menos exigentes?
O ser humano, em si, é evolutivo e volúvel. Mas ninguém tem que assumir uma tauromaquia diferente da sua. Tem é que assimilar as influências do seu «entorno» e projectá-las na sua tauromaquia. O grande público necessita de movimento, de ‘glamour’, de espectáculo. O toureio não pode passar ao lado de ser um espectáculo. Mas, além do grande público, há aquela ‘aficion’ entendida, porque entende as diferenças. A técnica é algo de necessário e de inerente a qualquer profissional. Agora, a forma como esse profissional utiliza essa técnica para projectar o seu talento é que determina a diferença. Porque um toureiro técnico sem personalidade e sem talento não é toureiro. O toureiro tem que ser capaz, utilizando a técnica, utilizando as reacções e comportamentos do toiro, transmitir o seu talento e o seu carisma. E esse toureiro é o que marca.

O Vítor Mendes actuou, e triunfou, em Portugal, Espanha, França, na América Latina. Há públicos diferentes?
Há públicos diferentes. E grande toureiro será aquele que tenha capacidade para ser respeitado, considerado e querido por públicos tão diferentes como são o de Sevilha ou o de Madrid, o de Bilbao ou o de Valência, o da Monumental Plaza do México, o de Santa Maria de Bogotá, na Colômbia, o da Plaza de Toros de Inhaquito, no Equador, ou o da Plaza de Acho, em Lima, no Peru, uma das mais antigas do mundo. As diferenças têm a ver com a formação de cada ‘aficion’ e com a sensibilidade de cada povo.

Mas qual é, por exemplo, a diferença entre a ‘aficion’ de Madrid e a de Sevilha?
A cultura da ‘aficion’ de Madrid é mais radical. Não é de subtileza, é de profundidade, de raízes. Em Sevilha vão mais atrás do efémero de um elemento estético em determinado momento de uma ‘faena’. São sensibilidades diferentes.

E há uma ‘aficion’ portuguesa?
A ‘aficion’ portuguesa é mais popular. Mas sabe o que quer. Por isso há nomes que ficam e outros que passam.

A festa de toiros em Portugal tem perspectivas, tem viabilidade, tem futuro?
Nós estamos num momento de muita convulsão, de reformas, de reconversão. Mas não podemos passar ao lado da nossa personalidade, daquilo que é inerente à nossa identidade. E nós é que temos que transmitir para o futuro aquilo que recebemos e melhorámos. O espectáculo taurino está ligado a raízes culturais e tradicionais das nossas gentes e de determinadas regiões. Não podemos passar ao lado desta evidência. É uma pena e uma tristeza que autoridades políticas, a própria máquina do Estado, utilizem a festa de toiros apenas como mais uma peça da sua subsistência. O espectáculo taurino paga impostos e segurança social, cria postos de trabalho, fomenta ganadarias, mobiliza transportes. Os espanhóis souberam entender isso e souberam promover o espectáculo e defendê-lo como fonte de receitas, apoiar a formação, a promoção de iniciativas, de festas e feiras. Uma aposta para que a festa de toiros se mantenha no nível de dignidade que deve merecer. E aí é que nós estamos mal por causa de um certo cinismo. Nós vivemos num país de cinismos. Somos sem ser. Pode escrever como digo.

Perfil 

- Vítor Manuel Valentim Mendes
- Nascido a 14 de Fevereiro de 1958
- Natural de Marinhais, Salvaterra de Magos
- Estudos primários em Vila Franca e secundários em Lisboa
- Serviço Cívico Estudantil em 1976, em Benavente
- Inscrição na Faculdade de Direito de Lisboa em 1977
- Descoberto no concurso «Vila Franca à procura de um toureiro» em 1973
- Bandarilheiro em 1976
- Novilheiro em 1978
- Abandona os estudos e fixa-se em Espanha em 1978
- Alternativa como matador de toiros a 13 de Setembro de 1981, em Barcelona
- Confirmação da alternativa, na Monumental de Madrid, em 16 de Maio de 1982
- Toureou em mais de 1200 corridas em Portugal, Espanha, França, México, Venezuela, Equador, Colômbia e Peru
- Estoqueou mais de 2500 touros
- Foi colhido 19 vezes, três das quais com muita gravidade
- Cortou a ‘coleta’ em Setembro de 2001
- Reside em Vila Franca de Xira
- É casado e pai de três filhos

In Diário Económico, revista Fora de Série, Junho 2006. 

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