terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

LER O PAÍS: O cimo de Portugal

Caldas de Arêgos, aliás Tormes
 «Não é um panorama que os olhos contemplam:
é um excesso da natureza (...) Tudo parado e mudo.
Apenas se ouve e se faz ouvir o coração no peito.»
   Miguel Torga

Por João Paulo Guerra 

Da janela de «A Cidade e as Serras» vê-se «A Ilustre Casa de Ramires», avista-se a primeira paróquia do Padre Amaro e a quinta de Afonso, um dos «Maias». Tormes pertence à ficção mas também à vida e obra de Eça de Queirós. A quinta e a casa senhorial de Vila Nova, a Tormes do romance, lá estão ainda hoje «com o seu brasão de armas, de secular granito», sobre o Douro, «ao alto, numa prega da serra, entre arvoredo». 
«Uma lindeza. E que paz!», comentava o protagonista do romance, Jacinto, o melancólico Príncipe dos Campos Elísios, morrendo do tédio e da fartura da civilização.
Do outro lado do rio, na margem esquerda, segue a geografia da obra de Eça de Queirós: o Mosteiro de Cárquere, a Torre da Lagariça, S. Cipriano, cenários de «A Ilustre Casa»; a Quinta do Paço, a que Eça chamou Santa Olávia e onde situou a quinta do Afonso dos «Maias»; Feirão, a primeira paróquia do Padre Amaro.



A casa de Tormes: de A Cidade as Serras
vê-se A Ilustre casa de Ramires

Aqui, o rio Douro separa as águas das regiões e da literatura. Santa Cruz do Douro, no concelho de Baião, cenário de «A Cidade e as Serras», fica no mapa da Região de Trás-os-Montes e Alto Douro; o concelho de Resende, lugar da ficção de «A Ilustre Casa de Ramires», fica no traçado da Região da Beira Litoral. Nesta margem sul do Douro os lugares são já vizinhos das serras, aldeias e baldios das «Terras do Demo», de Aquilino Ribeiro. Mas nas costas de Tormes, para lá do Marão, fica a terra do parceiro de viagem do protagonista de «A Cidade e as Serras», o Zé Fernandes, de Paradela de Guiães. Aqui é já o chão dos «Contos da Montanha», de Miguel Torga.
Os «Contos da Montanha» são histórias do cimo de Portugal, Trás-os-Montes: um cenário que é «um nunca acabar de terra grossa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina».
Do alto de S. Leonardo da Galafura, cenário de um dos contos, «não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos, volumes, cores e modulações, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão». Dali avista-se muito do campo da palavra de Miguel Torga. O que se vê da «proa do navio de penedos» de S. Leonardo da Galafura é «um poema geológico», «vagas e vagas sideradas». «Tudo parado e mudo. Apenas se ouve e se faz ouvir o coração no peito».
A região demarcada dos contos de Miguel Torga grava memórias de mundo de fragas mas também de gente, de «rios com barcos e barqueiros, serras com rebanhos e zagais, lameiros com charruas e lavradores».
S. Leonardo da Galafura

Mais atrás no tempo, e mais a leste no espaço, mas ainda na Região transmontana, vamos encontrar Trindade Coelho e a literatura rústica e saudosista do livro sem enredo «Os Meus Amores». «Como era diferente lá na aldeia, cada um na sua terra. Aí, sentiam-se iguais uns aos outros... Cada qual, na sua aldeia e no seu ofício - uns no amanho das terras, outros na profissão que tinham escolhido, eram úteis...»  

José Saramago, na sua «Viagem a Portugal», chegou também a Mogadouro, cenário dos textos e da atividade cívica de Trindade Coelho. E «do alto do castelo se podem deitar contas ao trabalho dos homens e das mulheres deste lugar. Todas as encostas em redor estão cultivadas, é um jogo de canteiros e talhões, uns enormes, outros mais pequenos...». A «viagem» de Saramago é de 1981. Mas como diz o autor: «Nenhuma viagem é definitiva».
O «Reino maravilhoso» de Trás-os-Montes, como lhe chamou Torga, é «um berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Montalegre a Chaves, de Chaves a Vinhais, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz-Côa, Meda, Moimenta e Lamego... Um mundo!»

João Paulo Guerra,
Diário Económico, 12 Outubro 1998
Versão para papel de jornal da série de reportagens Viagens com Livros  

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