sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

LER O PAÍS: Campos, campos, campos

 «Nove casas, duas ruas, ao meio das ruas um Largo...
Antigamente, o Largo era o centro do mundo».
Manuel da Fonseca

Por João Paulo Guerra 

Um vinco de suor na poeira da tarde, um campo, um sol. Diz um crítico literário que é disso que fala a obra de Manuel da Fonseca: dos caminhos do Alentejo - «terra bravia de fomes», «campos, campos, campos abertos num sonho quieto», a solidão dos campos, a planície desolada, tensões e confrontos entre personagens, o tempo e a passagem do tempo, conflitos entre passado e presente, alternâncias entre realidades e sonhos. Uma paisagem redescoberta que é um ser vivo. E pessoas, nas quais o autor reinventou as vidas que contou nos livros.


O chão dos contos de Manuel da Fonseca é o Alentejo: «a serra do litoral por fronteira (...) ondulando por outeiros e barrancos tapados de matagal e oliveiras nascidas entre os pedregulhos, até à savana, triste e pesada, das baixas do Sado e, depois, a seara, planícies de seara», descendo para o sul. Um cenário de imagens reajustadas e recriadas pela escrita do autor: pedaços de searas, de ruas, de portas, de largos, sobrepostos na imagem da seara, da rua, da porta, do largo.
«Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje, é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila». Depois, a vida, a Vila e o mundo mudaram de centro, em Santiago do Cacém. Do Largo, chega-se e parte-se agora para Grândola, Beja, Lisboa, para Troia, Melides, Sines. Do Largo sobe-se para o Hospital, a Pousada, o posto da Guarda, o Castelo, o Centro Histórico. O Largo é hoje um ponto de passagem.
O Largo, na imagem sobreposta de outros largos: Santa Luzia, Colos, Cercal, Ermidas, Montes Velhos, Alvalade. Na Abela, aldeia «escondida no vale, na beira do regato», é ainda no Largo que se reúnem os homens. «Nove casas, duas ruas, ao meio das ruas um Largo...» - um lugar na aldeia global. «Hoje, as notícias chegam no mesmo dia (...) O mundo está em toda a parte. As telefonias gritam tudo o que acontece à superfície da terra».
Manuel da Fonseca foi sempre um homem atento às vozes suadas do Alentejo. Muito da realidade do chão e das vozes do Alentejo foi bebido por Manuel da Fonseca no Largo, nas sociedades, nas tascas e cafés de Santiago do Cacém. Manuel da Fonseca era muito de falar, mas também era muito de ouvir. A linguagem dos poemas, romances e contos recolhia-a o escritor em longas horas de conversa na cidade e nos campos do Alentejo.
Florbela Espanca escreveu o Alentejo de cor, ou seja, com o coração. Até porque as voltas da vida a levaram para longe da «Charneca em Flor». 
«Carta da Herdade», Junho de 1930: «Apresento-lhe a charneca ao entardecer, a minha triste charneca donde nasceu a minha triste alma. Selvagem e rude, patética e trágica, tem a suprema graça, cheia de amargura, dos infinitamente tristes, a quem foi negada a doçura das lágrimas. É enorme e é simples; fala e escuta. O que eu lhe tenho ouvido! O que eu lhe tenho dito! Toda morena do sol, que a queima em verões sem fim, é como eu uma revoltada, sem gestos e sem gritos. Nesta hora do entardecer, toda ela palpita em misteriosas vibrações, toda ela é cor, vida, chama e alvoroço, contido e encadeado por uma secreta maldição! Mas como ela é bonita, a minha charneca!  (...) Os crepúsculos, nestas imensas extensões, são longos, longos; um êxtase que se prolonga e que chega a fatigar-nos. O sol constela o poente de pedrarias, e são uma maravilha os montes azulados de Espanha, brumas perdidas ao longe, vagas, aéreas, irreais. A noite desce por fim, arrastada, luarenta, uma claridade que se confunde com o crepúsculo».
Do chão do Alentejo levantam-se «as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças». José Saramago levantou um livro, «como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira».
«O que mais há na terra, é paisagem». E na paisagem do Alentejo, o autor construiu a saga dos Mau-Tempo, cem anos de solidão, do latifúndio monárquico ou republicano - «não se viam diferenças e as parecenças eram todas» - às ondas que varreram o «mar interior do latifúndio», com a ocupação das terras: «Vão todos, os vivos e os mortos (...) neste dia levantado e principal».
«Este sol é de justiça», escreve o autor, levantando do chão a sua bandeira. 
Mas a história continuou, para além do livro.


João Paulo Guerra, Diário Económico, 2 Outubro 1998
Versão para papel de jornal da série de reportagens Viagens com Livros  

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