segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

DOSSIER DELGADO: Um vendaval varreu o País


         Há cinquenta e sete anos anos, em 10 de Maio de 1958, uma simples frase abalou um regime já então com 32 anos de poder. O general Humberto Delgado, respondendo à pergunta de um jornalista sobre o destino de Salazar caso viesse a ser eleito Presidente da República, declarou: «Obviamente demito-o».
         As hostes do regime reagiram com um coro orquestrado de protestos de uma imprensa censurada e domesticada. Mas a frase não ficou sufocada pelos títulos e prosas de desagravo ao regime e ao seu líder. A frase representou a maior pedrada no charco do regime, despertou toda uma geração para a luta política e constituiu o início da derrocada do poder erguido por Salazar. Quanto ao «general sem medo» pagou com a vida esta e muitas outras ousadias: foi assassinado pela polícia política do regime antes do seu rival nas eleições de 1958 terminar o mandato.


         Raul Rego, que veio a ser assessor de imprensa da campanha de Humberto Delgado, conheceu-o durante uma viagem aos Estados Unidos, onde o general desempenhava o cargo de adido militar da Embaixada portuguesa. Republicano e anti-militarista, Rego desconfiou quando lhe apresentaram um oficial general português, da confiança do regime, que defendia valores próximos aos da oposição tradicional portuguesa. Chegou a dizer-lhe que, pensando daquele modo, o general estaria brevemente nas hostes do «reviralho». E a verdade é que acertou em cheio. Poucos anos depois do encontro em Washington, Raul Rego trabalhava na candidatura do general à Presidência da República.
         Foi na qualidade de assessor de imprensa da candidatura que Raul Rego convocou e ajudou a preparar a conferência de imprensa de 10 de Maio, no primeiro andar do café Chave d'Ouro, em Lisboa. Na véspera, a direcção da campanha submeteu o general a uma sabatina, prevendo perguntas dos jornalistas e ajudando-o a encontrar as respostas politicamente correctas. E a questão das intenções de Delgado, se viesse a ser eleito, em relação a Salazar foi uma das que se colocaram como mais previsíveis. A Comissão Central de Apoio à candidatura (Vieira de Almeida, António Sérgio, Jaime Cortesão, Azevedo Gomes, Adão e Silva, Mário Soares e outros) aconselhou vivamente o general a dar uma resposta evasiva.
         Humberto Delgado, no entanto, retribuía aos oposicionistas tradicionais as desconfianças e reservas que estes lhe votavam. Chamava aos velhos e novos republicanos a «Oposição dos papéis» e afirmava-se como um homem de acção e, acima de tudo, «sem medo». Na conferência de imprensa de apresentação da candidatura, em resposta à pergunta do correspondente da France Press sobre as suas intenções em relação a Salazar ­­­­­­­- «Se for eleito Presidente da República, o que fará do Sr. Presidente do Conselho?» -, o general disparou, ao arrepio de todos os seus conselheiros: «Obviamente, demito-o».
         O «Diário de Notícias», dirigido por Augusto de Castro, deu a notícia na edição do dia seguinte, um domingo, no canto inferior da primeira página. A manchete da edição foi para os «Milhares de telegramas recebidos na Presidência do Conselho manifestando agradecimento e confiança em Salazar e protestando contra as afirmações do general Humberto Delgado».

Um general em campanha
         A campanha de Humberto Delgado varreu o país como um vendaval, arrastando multidões e revelando um Portugal desconhecido que aderia publicamente à contestação ao regime, enfrentando a repressão. O primeiro dos grandes «banhos de multidão» que marcaram a campanha registou-se no Porto, com cerca de metade da população da cidade a vitoriar o candidato nas ruas. À noite, no comício do Coliseu, Cal Brandão referiu-se a Delgado como «o general sem medo», epíteto que ficou até hoje.
       No regresso de Delgado a Lisboa, o regime tomou medidas. Uma imensa multidão esperava o general, de Santa Apolónia ao Terreiro do Paço, mantida à distância pela cavalaria da GNR. A caravana de Humberto Delgado foi desviada pela PIDE, para a zona oriental da cidade, e escoltada por motociclistas da polícia, enquanto a Guarda perseguia e espancava os apoiantes do general pelo Terreiro do Paço, Rossio, Restauradores e ruas da baixa. Cenas de violência que voltaram a verificar-se dias mais tarde, após o comício de Humberto Delgado no Liceu Camões.
         Mas a imagem de um general, fardado e condecorado, ao qual as próprias forças repressivas batiam a continência antes de carregarem sobre os seus adeptos, convenceu milhares de portugueses de que a mudança era possível e aquele era o momento. Mário Soares é de opinião que o general poderia mesmo, no dia do regresso a Lisboa após a jornada do Porto, ter apeado Salazar do poder. «Se ele se tem posto à cabeça daquela manifestação e tem rumado a S. Bento, derrubava o Salazar. Não havia força humana que impedisse a multidão de entrar em S. Bento, o Salazar demitia-se. Foi assim que caiu o ditador Marcos, nas Filipinas, muitos anos mais tarde».

Tomás absteve-se
         O candidato do regime apresentou-se publicamente no dia 20 de Maio, declarando que não seria, a partir da eleição, «o chefe de uns tantos, mas de todos, mesmo daqueles que o não hajam designado». A conferência de imprensa revelou, de resto, no curtíssimo período de perguntas e respostas, um homem menos tolerante para com os adversários que a sua declaração deixaria admitir e em conflito insanável com a retórica.
         «- Pergunta: A que atribui V. Exª os acontecimentos verificados nas ruas?
         «- Resposta: A responsabilidade dos acontecimentos é geralmente de quem os provoca. E a forma como eles se verificaram dá a impressão de que estavam preparados de antemão.
          «- Pergunta: Como justifica V. Exª o facto de, ao ser convidado para se candidatar, ter começado por escusar-se por não se julgar com as qualidades necessárias?
           «- Resposta: Quem não é tolo não se julga com todas as qualidades necessárias para desempenhar um alto cargo».
            A campanha de Américo Tomás foi discreta, à medida do próprio candidato e de uma corrida eleitoral com vencedor anunciado. Nas suas memórias, («Últimas Décadas de Portugal» - Volume III, página 12 e seguintes), o almirante sublinha que a campanha eleitoral, por motivo do temperamento e formação pró-americana de Humberto Delgado, foi marcada por «exageros e tropelias», «não só cada vez maiores, mas até contagiosos». Mas Tomás conclui, escrevendo na terceiro pessoa do singular, que «não se deixou contagiar o candidato proposto pela Comissão Central da União Nacional, limitando-se na sua actuação à elaboração de algumas saudações e das respostas às que ia recebendo».
            Américo Tomás revela que se absteve no acto eleitoral de 8 de Junho de 1958. «O candidato da União Nacional - escreve no seu estilo peculiar - absteve-se de votar, apesar das pressões nele exercidas em sentido contrário, mediante tenaz argumentação: é que entendeu, por uma questão de princípio, que não devendo votar no seu opositor, não devia votar em si mesmo, e dessa sua determinação, ninguem o conseguiu demover».
        Tomás foi declarado vencedor. Mas Marcelo Caetano escreveu anos mais tarde que aquela foi uma vitória com sabor a derrota. A Censura encarregou-se aliás de moderar a euforia dos escribas do regime. E na primeira oportunidade, Salazar mudou a lei eleitoral.   

Quando os comunistas bradaram «Ó céus!»

           O general Humberto Delgado, em 1958, terá sido o primeiro «sapo-vivo» que o PCP teve que engolir em matéria de candidaturas à Presidência da República. Perante a vaga de fundo que a campanha do general levantou no país, e face às sucessivas desistências dos candidatos Cunha Leal e Arlindo Vicente e à indisponibilidade de Manuel João da Palma Carlos, o PCP acabou por aderir à candidatura. Mas, em Abril de 1958, menos de um mês antes da abertura da campanha, ainda os comunistas consideravam que o general «foi sempre um adepto e defensor do regime fascista de Salazar e até hoje não há um só facto que mostre que ele mudou de ideias». O documento é datado de 6 de Abril de 1958 e assinado pela Comissão Política do Comité Central do Partido Comunista Português.
             Quarenta anos mais tarde, Octávio Pato considera ainda que as reservas do PCP ao nome do general eram «completamente legítimas». Em declarações ao «Diário Económico», Pato reafirmou que a figura de Delgado «não tinha qualquer crédito nas forças democráticas» e «as próprias pessoas que promoviam a candidatura também não mereciam confiança».
Por essa altura, o PCP apoiava ainda a candidatura do engenheiro Francisco Cunha Leal, anunciada pela Direcção da Organização Regional do Sul do partido, em 20 de Março: «A oposição tem um candidato».
          «Não andávamos à procura de um candidato comunista», diz hoje Octávio Pato aludindo ao anticomunismo de Cunha Leal, mas de alguém que merecesse «apoio consensual de forças muito diversificadas da oposição, um candidato que reunisse o apoio das forças democráticas».
Cunha Leal, um ferrenho anti-comunista, aceitara o apoio do PCP mas requeria que outras forças, em particular o Directório Democrato-Social, se lhe juntassem. Os comunistas procuraram que a candidatura fosse um facto consumado que arrastasse o apoio de outras formações, embora o leque de apoiantes contasse já com personalidades como Tito de Morais, Câmara Reis, Aquilino Ribeiro e Vasco da Gama Fernandes. O lançamento do nome de Humberto Delgado baralhou todas as pistas. Cunha Leal veio a desistir, alegando motivos de saúde. Os comunistas procuraram ainda lançar a candidatura de Manuel João da Palma Carlos mas, perante a recusa do advogado, transferiram então o seu apoio para Arlindo Vicente. Uma terceira escolha. «Palma Carlos era um comunista - revela Octávio Pato - o que limitava a abrangência de apoios. O que não era o caso de Arlindo Vicente, que reunia o consenso das forças democráticas de esquerda».
             Em 2 de Maio, as conclusões de uma reunião do Comité Central proclamavam que «os princípios e objectivos que informam a candidatura do Sr. Dr. Arlindo Vicente são os que correspondem às aspirações das mais largas camadas da população, desde a classe operária à burguesia nacional. (...) Por isso o Partido manifesta a sua concordância com esta candidatura». A táctica era flexível e ia respondendo às circunstâncias.

Cunhal critica o PCP
         Com Álvaro Cunhal na cadeia, o PCP era então dirigido, entre outros, por Américo de Sousa, Dias Lourenço, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Pires Jorge, Júlio Fogaça, Octávio Pato e Sérgio Vilarigues. Após a fuga de Peniche, em Janeiro de 60, Cunhal iria rotular a orientação destes seus camaradas com o carimbo de «desvio de direita».
          Octávio Pato, um dos alvos das críticas de Cunhal divulgadas como «auto-crítica do PCP», atribui tal «desvio» à «influência do XX Congresso do PCUS» (1956), que levou o V Congresso do PCP (1957) a transferir para a ordem interna as teses de Moscovo sobre «a possibilidade da solução pacífica dos problemas mundiais, transportando para os problemas nacionais a possibilidade de uma via pacífica para o derrubamento do fascismo». Pato não se sente pessoalmente atingido pela crítica de «desvio de direita»: «Analisámos, criticámos e corrigimos», diz.
           O que Cunhal critiou na orientação do partido vinha com efeito da linha estratégica adoptada no V Congresso, em 14 de Setembro de 57, e constava então  de um documento assinado nominalmente, contra todos os hábitos conspirativos, pelos dirigentes citados em nome do Comité Central do PCP, com data de 19 de Maio de 1958. Pato e os seus camaradas declaravam que «será possível através das actuais eleições presidenciais, conquistar liberdades até hoje não alcançadas, inclusivamente uma vitória eleitoral». E na perspectiva da «vitória eleitoral», os dirigentes comunistas apressaram-se a declarar que não deixariam de «apoiar condicionalemente um Governo de homens honrados que, substituindo a camarilha salazarista no poder, se proponha restabelecer as liberdades fundamentais».
         Ainda hoje, a direcção do PCP considera que foi justo lançar a candidatura de Arlindo Vicente e negociar depois a desistência com Humberto Delgado. Assim, diz Octávio Pato, «não ficámos a reboque da burguesia liberal».
           Colocado perante o inevitável, o PCP procurou adaptar-se, engolindo o «sapo vivo». Mas quando o nome do general começara a ser falado como possível candidato, os comunistas tinham uma opinião definida e definitiva sobre Humberto Delgado. Em Novembro de 1957, em documento publicado em separata ao «Avante» desse mês sob o título «Pela escolha imediata de um candidato à Presidência da República», o nome do general despertava nos comunistas um inesperado brado de indignação: «Ó céus!».
           Arrastados pelo fulgor da campanha de Delgado, os comunistas vieram a acreditar na vitória eleitoral e colaram-se à candidatura nessa perspectiva. Octávio Pato diz hoje, no entanto, que «a direcção do partido nunca acreditou na hipótese do fascismo aceitar uma derrota eleitoral». Mas admite que «alguns camaradas acreditaram». Após fugir da cadeia de Peniche, Álvaro Cunhal zurziu os seus camaradas que dirigiram interinamente o PCP. «Atravessámos uma situação pré~insurrecional sem nos apercebermos disso», escreveu o líder comunista, criticando o partido por difundir a ideia de que a questão fundamental era a eleição de Delgado e não o derrube do regime. Como criticou, de igual modo, o apoio do PCP a acções militares posteriores inspiradas pelo general, como a fracassada Revolta da Sé (Março de 1959), classificando-as como «conspirações putschistas pequeno-burguesas». Para Cunhal, em suma, o que faltou ao PCP em 1958 foi ele próprio.

João Paulo Guerra, em Diário Económico, Maio de 1998, nos 40 anos da campanha do general Humberto Delgado

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