sábado, 20 de agosto de 2016

A saga da família angolana


Reportagem de João Paulo Guerra, 
Diário Económico, Fevereiro 2001

NOTA: ESTE TEXTO É DE 2001; 
TODOS OS DADOS AQUI REFERIDOS SÃO RELATIVOS A ESSA DATA
As fotos são de arquivos na internet (A foto da bandeira de Angola na fronteira sul com a Namíbia é dos arquivos do autor). 

O angolano Nendela Amorim Liahuca faz 40 anos em 2001. Tantos como a guerra em Angola. A vida da sua família é a história de 40 anos de guerra no seu país. 
A guerra em Angola começou há 40 anos, em 4 de Fevereiro de 1961. Em Junho desse ano Nendela fugiu de Portugal para França na barriga da mãe. Nasceu em Julho, em Versalhes, filho de José João Liahuca, médico formado em Lisboa, e de Maria Virgínia Graça Amorim Liahuca, estudante de enfermagem. Faziam parte de um de três grupos de estudantes africanos que, nesse ano, bateram com a porta da capital do Império. Seria um escândalo, se a Censura deixasse passar a notícia, mas foi mesmo assim uma bofetada na cara do regime.



De França, a família Liahuca – pai, mãe, o pequeno Nendela e a tia Maria Amorim, santomense como Maria Virgínia – seguiu para o Congo-Leopoldeville, rectaguarda da guerra em Angola. O pai foi dirigente da UPA – União dos Povos de Angola, fundador da FNLA – Frente de Libertação Nacional de Angola e ministro do GRAE – Governo Revolucionário de Angola no Exílio. Nendela tinha três anos quando se deu uma grande cisão na FNLA e a família seguiu o grupo que rompeu com Holden Roberto, refugiando-se no Congo-Brazzaville. Foi só atravessar o rio Zaire. Nendela recorda-se que na sua canoa viajava o dissidente ministro dos Negócios Estrangeiros do GRAE, Jonas Savimbi.

Em Brazzaville, o pai Liahuca manteve-se ligado ao grupo de Savimbi que lançou o Manifesto aos Amigos de Angola – AMANGOLA e tentou uma aproximação ao MPLA. Nendela guarda desses tempos uma memória de criança. Mas recorda-se que «havia problemas» entre os grupos de nacionalistas angolanos, dentro de cada grupo e na família.

Quando se deu o 25 de Abril a família Liahuca vivia em Ponta Negra, onde o pai exercia medicina. José Liahuca ainda participou no Congresso do MPLA, de Setembro desse ano, como convidado do grupo da Revolta Activa, de Mário Pinto de Andrade. Mas faleceu logo em seguida. Nendela, que já tinha então um irmão e uma irmã, ficou em Ponta Negra com a mãe e a tia, até que o tio António Liahuca e o primo mais velho, Joaquim Cuianga, os foram buscar. Em Dezembro de 1974, Nendela foi conhecer o seu grande país e a sua grande família.

A segunda guerra
O patriarca, o «Mais Velho», era o avô Paulino Ngonga Liahuca, reverendo evangélico na missão de Elende, no Cuma, Huambo, onde vivia com a avó Sofia, seu segundo casamento, seis tios de Nendela - Lutock, Vandela, Lídia, Toni, Sara e Aurora – e um batalhão de primos e primas. Por essa altura já se falava de política e o avô Paulino tinha que impor o respeito para evitar que se azedasse a discussão entre adeptos do MPLA, da FNLA e da UNITA, estes em maior número por identificação étnica. Os Liahuca são ovimbundus, do Planalto Central de Angola.

Quando em 11 de Novembro de 75 Agostinho Neto proclamou a República Popular de Angola, em Luanda, Nendela vivia na região onde a UNITA e a FNLA se aliaram para proclamar uma outra República. Mas a aliança acabou no dia seguinte. A UNITA expulsou a FNLA do Huambo e aí a guerra entrou na família. Por exemplo: o tio Domingos Culolo, casado com a irmã mais nova do pai de Nendela, era delegado da FNLA no Huambo. Foi preso pelos da UNITA, por ser da FNLA, mas veio a ser libertado por influência dos membros da família adeptos de Savimbi. Quando o MPLA e os cubanos recuperaram o Huambo, em Fevereiro de 1976, Domingos Culolo foi de novo preso. Mas, o que lá vai, lá vai. Hoje, Domingos Culolo é o Procurador-Geral de Angola.

Nendela recorda-se da chegada do MPLA e dos cubanos. Como também se lembra do último comício de Savimbi no Huambo, poucos dias antes. O presidente da UNITA disse que o MPLA só entraria no Huambo por cima do seu cadáver. Mas deixou a cidade nesse mesmo dia e o MPLA entrou dias depois. Dos familiares de Nendela que pertenciam à UNITA, uns foram presos para S. Nicolau, outro seguiram na «grande marcha» dos partidários de Savimbi para o sul. Foi o caso dos tios Lutock e Toni que chegaram ambos a generais do Galo Negro. Hoje, Lutock é inspector-geral adjunto das FAA, ao passo que Toni estará em Maweba, na Zâmbia, num campo de refugiados, segundo um vago postal que a família recebeu da Cruz Vermelha.

Em Maio de 1977 Nendela aderiu à JMPLA. Militava no Departamento de Informação e Propaganda do Huambo. Soube da tentativa de golpe de Nito Alves em Luanda no dia seguinte, por conversas durante a festa de aniversário da irmã, Visolela. Quase todos os seus camaradas da Jota do Huambo foram presos ou mortos na repressão que se seguiu à aventura «nitista». Por essa altura, apenas com 16 anos, Nendela alistou-se como voluntário na Força Aérea Angolana. Esteve dois anos em Luanda mas não chegou a tirar qualquer especialidade. E foi em Luanda que frequentou o Instituto Politécnico Makarenko, onde recebeu formação de cooperantes búlgaros e portugueses. Viveu entre Luanda e o Huambo, de 1979 – o ano da morte de Agostinho Neto – a 82. E foi tendo notícias vagas dos familiares que tinham seguido com a UNITA para o Sul. Uma das tias vive na Namíbia, outra morreu na Jamba.

A comunidade angolana
Em 1982, com uma autorização para uma viagem turística no passaporte, Nendele veio a Portugal e ficou. Por cá só tinha então uma tia, irmã gémea da mãe, que fugira de S. Tomé quando o marido foi acusado de conspirar contra o regime do MLSTP. O mesmo regime do qual a tia Maria Amorim foi a primeira embaixadora em Lisboa e, mais tarde, ministra dos Negócios Estrangeiros. Em 1984 juntaram-se-lhe os dois irmãos e mais tarde a mãe.
De então para cá tem voltado por diversas vezes a Angola. Em 1992, nas eleições, esteve no Huambo, como representante da candidatura de Daniel Chipenda à Presidência. Em Lisboa, interessa-se pelo que se passa em Angola e mantém-se informado. É membro da Associação Cívica Angolana – ACA, fundada por Joaquim Pinto de Andrade.

Em 1990 licenciou-se em engenharia electrotécnica, pelo IST. É hoje engenheiro no departamento técnico da Portugal Telecom. Em 91 casou-se com Luísa Menezes Liahuca, angolana de Luanda e finalista de economia em Lisboa, sobrinha de Hugo Menezes, um dos fundadores do MPLA. Têm um filho, o Mauro, de sete anos, que não conhece Angola. A verdade é que o pai só  conheceu o seu país aos treze.

Nendela Amorim Liahuca é um elemento activo na vasta comunidade angolana em Portugal – serão uns 15.000. Desempenha as funções de vice-presidente da ACIMA – Associação de Coordenação e Integração dos Migrantes Angolanos. A língua portuguesa facilita mas Nendela não diz que a integração é fácil. Diz que é «não difícil». A verdade é que, cá como lá, o racismo existe. É uma comunidade dividida, como Angola, entre os adeptos do Governo e os da UNITA. A maioria, segundo Nendela, pensa que «as coisas não estão bem», mas considera também que «pela violência e pela guerra nada se resolve». E para a generalidade dos angolanos da comunidade, as divergências não resistem a um bom convívio e a uma «funjada» ao domingo.

Nendela tem um convite para trabalhar em Angola e admite voltar. A verdade é que, embora devastada por 40 anos de guerra e colocada no fundo da escala mundial do desenvolvimento apesar da sua imensa riqueza, Angola é o seu país. Em comum, Nendela Amorim Liahuca e Angola têm 40 anos de história.

João Paulo Guerra, 
Diário Económico, 3 Fevereiro 2001

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