terça-feira, 12 de julho de 2016

Fausto: A utopia demora




Fausto prepara um próximo disco com canções de amor, de ódio e canções políticas. À sua volta vê um mundo «à beira da implosão», onde falta ainda a experiência histórica de «gerir a felicidade». 
Mas…

 Por João Paulo Guerra,  Foto de Paulo Figueiredo, 
Diário Económico, 10 de Março de 2001

Para o próximo disco, Fausto escolheu o tema, já pesquisou e leu, já se informou e formou ideias. Está na fase da escrita.
«As minhas canções começam por ser prosa, ideias, sentimentos, emoções», diz durante um intervalo que impôs à sua vida recatada e ao seu trabalho solitário, ao aceitar o convite para um almoço.


«Compor é estar só comigo mesmo. É ter a paciência dos pescadores. Saber esperar».
Nesta fase do trabalho, Fausto mergulha dentro de si próprio.
«Sou organizado, metódico, quase um burocrata».
No entanto, esta disciplina de trabalho não interfere com a espontaneidade que desagua depois nos seus textos torrenciais, rigorosos e belos, nem com a riqueza da sua expressão melódica, harmónica e rítmica. Em cada dia de trabalho, começa por ouvir tudo quanto escreveu e compôs na véspera e chega a surpreender-se.
«Quem é que escreveu isto? Fui eu?», interroga-se por vezes.
Este disco interrompe o ciclo das grandes viagens, Por Este Rio Acima e Crónicas da Terra Ardente. O fecho da trilogia fica para mais tarde. Fausto não revela o tema do próximo disco, «porque dá azar». Mas sempre vai dizendo que se trata de «uma novela», com «personagens e o seu relacionamento», do que resultam «canções de amor, de ódio e canções políticas». Este próximo disco «recupera uma linguagem política», revela o autor.
Já procuraram colar-lhe diversos rótulos. Mas a verdade é que as etiquetas não aderem a este autor e cantor de texto que, segundo a ficha da PIDE, era «natural de Angola» e fazia «canções a instigar o racismo».
Nem uma coisa nem outra. Fausto Bordalo Dias nasceu a bordo do navio Pátria.
«Disse-me a minha mãe e as mães não mentem».
Quanto à canção a «instigar o racismo», tratava-se do poema Castigo p’ro Comboio Malandro, de António Jacinto. A etiqueta que rejeita com mais veemência é a de cantor de intervenção, uma designação usada por José Afonso para identificar a canção ideológica que se fez entre 1974 e 75.
«A canção de intervenção nasceu e morreu com o PREC», afirma, denunciando os que, «sem qualquer rigor académico, falam da canção de intervenção na década de 60, para designar o fado de coimbra, a balada e a canção de protesto». 
As canções de Fausto são as suas canções, o resultado da sua pesquisa e da sua incessante procura.
«Não tenho medo de me repetir», diz e acrescenta: «Se fizesse música muito diferente ficava preocupado. Não revelava uma personalidade. Todos nós buscamos sempre alguma coisa, a mesma coisa. Procuramos sempre. Porque atingir o pleno seria atingir Deus e Deus não existe».
A matriz é a música tradicional portuguesa.
«Mas eu não canto certinho. Aproveito o contratempo. Lá dentro, está a influência africana. Está lá dentro».  
Fausto viveu a infância e a adolescência em Nova Lisboa, hoje Huambo, no Planalto Central de Angola. Mas o mapa da memória da sua infância é hoje um mar de ruínas e devastação.
«A minha escola, o meu liceu, a casa da minha namorada, o meu património afectivo, já não existem a não ser na minha memória. Nunca poderei matar saudades».
Esteve de novo em Angola em 1978, com José Afonso.
«Havia sinais de guerra mas ainda se vivia a esperança».
Quando voltou pela última vez, em 1996, percorreu Luanda durante dois dias, «para ver uma elite a banquetear-se rodeada de famintos». E não quis ver mais nada.
«Choca-me dizer isto, mas vou dizer. Foi possível fazer pior. Angola colonial era mais feliz. Angola colonial sabia distribuir a mandioca. Na Angola colonial nunca vi uma criança abandonada».
Nesta avaliação, Fausto engloba «o poder e o contrapoder», todos os que «aproveitam a desordem e a guerra», para concluir:
«Não acredito que os angolanos tenham orgulho nesta falsa independência. A independência não se faz para a infelicidade».
A apreciação será tanto mais pungente quanto a independência foi um valor defendido por uma esquerda na qual Fausto se inclui. Com isto, Fausto não quer dizer que se tenha chegado ao fim da história.
«A luta de classes continua a existir, ainda que mitigada. E acredito que as coisas estão a atingir um ponto de ruptura. Alguma coisa vai acontecer».
O mundo unipolar, resultante da «queda, como baralhos de cartas, de regimes com os quais os cidadãos nada tinham que ver», atingiu «o ponto em que uma burocracia financeira gere com eficácia a infelicidade e a exclusão». Os Estados «enchem a boca com os direitos do homem, mas limitam-se a reconhecer os direitos da fala e do pensamento». Entre a Declaração Universal de 1948 e a Convenção Europeia de 1950 ou de 1966, o direito do homem ao trabalho foi esquecido e desprezado, remetido na Carta Social para o objectivo longínquo de manter o mais alto possível o nível de emprego. As tecnologias são aplicadas na «administração cibernética do dinheiro» e o capital «já não investe na produção, acabando a investir em si próprio». Este é para Fausto um sistema «à beira da implosão». Falta ainda a experiência histórica de «gerir a felicidade». Mas «a utopia demora».
 A tecnologia poderá contribuir para esse novo mundo, desde que «acompanhada de um novo conceito de humanidade» e que não seja apenas mais uma forma de «lançar as pessoas no desespero».
Na sua vida, Fausto convive com as tecnologias. Escreve os seus textos em computador, regista as suas composições num gravador multipistas. Mas a sua música é acústica e o autor não utiliza a electrónica para compor. Usa simplesmente a caneta, papel e a guitarra. E é assim que vão nascendo as canções que Fausto canta. Porque Fausto só canta em geral as suas canções e não compõe para outros cantores.
«Quando outros cantam as minhas canções elas deixam de me pertencer», diz.
Mas confessa o seu «espanto» com a «interpretação notável» de Mafalda Arnauth da canção Lusitana, do disco Para Além das Cordilheiras, reconhecendo que «só depois de a ouvir cantar» descobriu «quanto fado tinha aquela música».
Licenciado em Ciências Socio-Políticas, com um mestrado de Relações Internacionais por concluir, Fausto Bordalo Dias vive da música.
«Foi uma opção difícil, entre a música e a possibilidade de uma carreira académica. Mas preferi garantir a minha felicidade».
E entre discos e concertos diz que vive bem.
«Dentro daquilo que são os meus desejos, vivo bem».
Os ciclos da sua produção discográfica são largos. Publicou o último disco de originais em 1994 e, em 96, uma colectânea de 27 temas regravados. Trabalha agora os textos de um próximo disco e tem projectos para outros dois: o fecho da triologia que abriu com Por Este Rio Acima e seguiu com Crónicas da Terra Ardente e uma antologia pessoal de poetas portugueses.
Os concertos não interrompem o fio da sua produção.
«Mas a primeira coisa que vou deixar é de fazer concertos. Tenho prazer no final. Mas as horas que antecedem cada concerto são de extremo sacrifício».
O disco que Fausto preparava
saiu dois anos depois
Mas no dia 2 de Maio lá estará em Pontevedra, na Galiza que o adoptou como cantor de texto.
O almoço fora excelente e a conversa prosseguia animada para além do repasto. Mas Fausto tinha ainda parte do seu dia organizado por cumprir. Faltava-lhe o acto solitário de ouvir música.
«Uma, duas horas por dia. Toda a música, do rock mais puro e duro à clássica, passando pela tradicional de todos os países».
A «má vida dos cantores», a que faz referência numa canção já antiga, é afinal uma simples liberdade poética.  
Ementa
O Diário Económico convidou Fausto para almoçar e Fausto sugeriu o restaurante: O Solar dos Presuntos, em Lisboa. Escolheu a ementa, arroz de lampreia, e o vinho, Duas Quintas, tinto do Douro colheita de 1997. Excelente.

Por Por João Paulo Guerra,  Foto de Paulo Figueiredo, 
Diário Económico,  10 de Março de 2001

1 comentário:

José Barros disse...

Das melhores entrevistas que lhe foram feitas , João Paulo.
Este é o Fausto que lhe reconhecemos no discurso e na coerência com ele próprio.
Assinalava porventura a frase fabulosa que é: "«Não tenho medo de me repetir», diz e acrescenta: «Se fizesse música muito diferente ficava preocupado. Não revelava uma personalidade. Todos nós buscamos sempre alguma coisa, a mesma coisa. Procuramos sempre..."
Acrescento eu, que esta é uma resposta a todos aqueles que acham que os compositores têm sempre que inovar estilos, e fazer coisas diferentes.
Sobre os ultimos discos do Fausto já ouvi dizer: "ah...é mais do mesmo".
Ridiculo. São sempre canções novas, diferentes e fabulosas.
Não conhecia a entrevista João Paulo.Obrigado pela sugestão da visita sempre agradável ao teu blog.
Abraço João Paulo