sábado, 10 de janeiro de 2015

Polícias e ladrões

Quem guarda 

os guardas?

         “Este é um livro de histórias sem heróis”, avisa logo de entrada o autor, não vá algum leitor ingénuo, desses que os títulos costumam seduzir, pensar tratar-se de um qualquer policial com fim moralizante de proveito e exemplo. O crime não compensa? Leiam estes polícias e estes ladrões e depois falem. São 152 páginas de excelente jornalismo, assinadas por João Paulo Guerra.          

       (…) Se o jornalismo faz história e ganha, com o tempo, força documental, para que conste, então Polícia e Ladrões é um bom exemplo dessa virtualidade disciplinar: confere à efeméride do que o jornal disse uma outra dimensão temporal.
         Do que trata o livro? João Paulo Guerra o diz, se meias tintas: “Nas páginas deste livro passam personagens que povoam um tempo português: operacionais do banditismo político e do crime comum, homens sem futuro e defensores da ordem do passado, senhores doutores do terrorismo e do crime por encomenda e marginais por conta própria».
Prepare-se então leitor para uma viagem guiada ao bas-fond da contra-revolução em Portugal (…) Com nomes, datas, cumplicidades.
Fernando Pauloro Neves, Jornal do Fundão 13 Janeiro 1984

"As armas foram todas guardadas no Comando da Polícia. E eu, por minha vez, recebi das mãos do senhor comandante da PSP do Porto a pistola-metralhadora que tinha, mais uma arma com silenciador". 
Palavras para quê? É uma "artista" português, o maior dos operacionais da rede bombista, num depoimento gravado pela Polícia Judiciária que chegou a fazer parte do célebre processo. 
É com um frémito de espanto, de incredibilidade, de emoção muito forte, que ainda hoje lemos coisas destas. Talvez por isso, trabalhos como "Polícias e Ladrões" nos toquem tão fundo, nos impressionem de tal forma que não nos dêem direito a invocar a tradicional "memória curta" do Homem.
De resto, as "histórias sem heróis" da nunca-ficção de que tomámos conhecimento através de palavras incomodativas para a maioria dos jornais, não são matéria com princípio, meio e fim. Prolongam-se no tempo, respiram ao nosso lado, passeiam-se nas ruas, falam ao telefone, acendem rastilhos, compram polícias e ladrões. 
(...) Por isso, é fundamental reler tudo em "Polícias e Ladrões", livro de João Paulo Guerra. É um daqueles trabalhos que ainda nos deixam muitas portas abertas por onde podemos, dentro de nós próprios, sair sem medo e com segurança por outros caminhos, ir mais além, juntar as peças do puzzle (...)
J. R. O Jornal, 4 Janeiro 1984

2 comentários:

Miguel Carvalho disse...

Camarada, o Polícias & Ladrões, que li ainda na fase da pré-adolescência, foi um dos alimentos do sonho de ser jornalista. Voltei tantas vezes a ele que nem imaginas. E estou a voltar agora - e ao Dossier Terrorismo também - por causa de umas histórias desconhecidas ou esquecidas que vou contar em livro, lá para o verão, sobre os tempos de brasa. Um forte abraço. E obrigado por continuares a ser uma inspiração. Miguel Carvalho

João Paulo Guerra disse...

Camarada, na verdade eu só tenho a qualidade de ter começado muito antes.
O que também me deu para conhecer (e aprender com) alguns dos que foram chegando. É o teu caso. E o tratamento por camarada atesta que não estamos aqui a trocar galhardetes mas a falar a linguagem da verdade. Vamos continuar, João Paulo Guerra