quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Diz que é uma espécie de democracia



A SECRETA 

IDENTIDADE

DOS DIAS

         Por Baptista- Bastos

Fecho a leitura deste livro e recupera-se-me, na memória, a relação da História com o quotidiano, que faz de um texto a representação da época. Nunca é certo o que se vê, nunca é rigoroso o que se diz porque o fenómeno do visto e dito obedece às estruturas da interpretação. João Paulo Guerra, sobre ser um dos grandes jornalistas portugueses actuais, possui o inato talento de concentrar, comprimir, seleccionar a concepção das descrições. Em meia dúzia de linhas fornece-nos os escassos pontos e os reduzidos aspectos da «realidade», tal como ele a interpreta, e tomando este conceito com todas as precauções devidas. Porém, interpreta a «realidade» sem cair na tentação de emitir juízos afastados da confrontação entre o texto e o leitor. Quer-se dizer: o autor propõe, a quem o lê, uma cumplicidade moral, uma responsabilidade ética e uma prática estética. Não lhe «faz a cabeça»; mas sedu-lo com um estilo admirável, um pensamento livre e a exposição de um mundo pessoalíssimo. Revela, enfim, a secreta identidade dos dias. Eis o que distingue um escritor de um «autor», um jornalista de um gravador de frases.
         Percebe-se o gozo de João Paulo Guerra no trabalhar das palavras, no modelar da frase e no lançar a locução com melodia, esmero - e sarcasmo. Como os grandes moralistas do século XIX, ele sabe que teoria e desfrute, crítica e combate pertencem à disciplina do escárnio - que advoga a liberdade em norma absoluta. O tirano, o poderoso, o democrata instantâneo como o pudim flan, o filisteu, o oportunista detestam, perseguem, ameaçam todos aqueles que falam do seu egocentrismo, da sua soberba, da sua pequenez, das suas ignorâncias e das suas cobardias.  
         Ao longo dos anos, Guerra sentiu a pressão, percebeu os velados avisos, fez-se de surdo e transformou «Coluna Vertebral», comentário quotidiano, publicado no «Diário Económico», numa peça jornalística e literária fundamental para desvelar o que se oculta por detrás dos factos. Evidentemente, o autor possui uma pessoal «visão do mundo», o modo particular de examinar e caracterizar a época que lhe coube viver, e sem o qual a utilização da ironia seria inútil. Nenhuma destas pequenas crónicas pretende demonstrar os mecanismos económicos que movem a sociedade, mas, subjacente, nelas residem os antagonismos de classe, os erros do sistema que nos inculcaram como insuperáveis.
         Temos de entender o significado das palavras, as quais propõem conceitos de mundo, de comunicação dos saberes e de relação com os outros. «Diz que é uma Espécie de Democracia» sugere, desde logo, uma crítica extraída da experiência histórica que vivemos nos últimos trinta e cinco anos. E João Paulo Guerra, ao analisar os dias e as contradições políticas e ideológicas, procede à distinção entre os manipuladores de símbolos e o espaço que eles ocupam na sociedade de informação.
         A ironia dissimula, sempre, um discreto desencanto. O autor pertence a uma geração (a uma grande geração, diga-se) que se envolveu nas lutas do seu tempo sem nada pedir em troca que não fosse a alteração das estruturas sociais e das mentalidades. Renovar, constantemente, os aspectos das indignações, e integrá-los numa maior aspiração ao bem-comum parecia um sonho desmesurado - mas estava à altura dos sonhos do homem. João Paulo Guerra diz-nos, com a subtileza de quem não deseja proclamar, mas sim sugerir as nossas reflexões - diz-nos que, quando aprendíamos a viver «democraticamente», a normalização restabeleceu os velhos princípios da autoridade.
         Fecho a leitura deste livro com a alegria do leitor feliz. Aquele que entende o texto como uma interpelação à inteligência; um texto que não agride a nossa disponibilidade, e através do qual o autor estabelece, com o leitor, uma associação de ideias baseada neste simples pergunta: em que momento um indivíduo se transforma em cidadão? Não peçam a João Paulo Guerra a cobardia da neutralidade, a passividade da escrita, a preguiça fatal da «independência.» Quando se usam as palavras toma-se partido.
A cada um a sua verdade. Mas a cada um, também, a sua responsabilidade.
Baptista-Bastos, 11. Fevereiro. 2009.

Pano para mangas, por João Gobern 
   (...) Agora, com uma variação substancial, essa minha colecção de pequenos manuais da recordação útil, de História recente e de pequena cirurgia aos factos que deixaram marcas individuais ou colectivas, essa colecção, dizia eu, é reforçada a preceito com um novo volume, sugestivamente intitulado “Diz Que É Uma Espécie de Democracia”. Mais do que o título, o que nos obriga a parar é o nome do autor: João Paulo Guerra. Sem alongar razões, diria que numa profissão manchada por páraquedistas e alpinistas, num mundo em que a reforma antecipada ou é compulsiva ou desagua nas agências de comunicação, João Paulo Guerra é uma referência que se regista com prazer e com a devida vénia. Contas feitas, são mais de 40 anos de profissão, exercida muitas vezes contra ventos e marés, capazes de nos mostrar – pelo exemplo – que o rigor e o equilíbrio não podem rimar com a neutralidade e com a indiferença. Pelo contrário, requisitam a atenção técnica e a intuição educada como aliadas naturais.

 Neste livro, “Diz Que É Uma Espécie de Democracia”, o autor selecciona alguns dos momentos imperdíveis de uma crónica que, imagine-se, leva mais de dez anos, num país de fast-food editorial, em que a velocidade de rotação costuma ser impeditiva de uma ligação afectiva e efectiva com os leitores. Desde Outubro de 1999 que João Paulo Guerra assina no Diário Económico a Coluna Vertebral, que começa a ganhar-se logo no genérico. Neste volume, teve o trabalho de seleccionar o que entendeu como mais significativo entre 1920 crónicas, nada menos. E o resultado é contagiante – são memórias de todos nós, vistas e dissecadas só por um, mas um dos eleitos. É significativo que o autor divida a obra em quatro grandes capítulos, O Pântano, A Tanga, O Circo e ainda Etc., cada um correspondente a um Primeiro-Ministro diferente. Tudo em escrita fina, capaz de filtrar desgostos e ironias perante uma realidade que chega a parecer berrante, de tão colorida, mas é na essência medíocre, de tão cinzenta.
           João Gobern, Pano para mangas, Antena Um, 3 Abril 2009

Crónicas do fartote, por Filipe Santos Costa
     Viagem a dez anos, quatro governos, muita miséria e pouca grandeza.
    Vamos a meio do livro quando o autor confessa a abundância de matéria-prima. "O poder reinante em Portugal pode ser acusado de tudo. Mas de uma coisa ninguém poderá acusar a classe política: de não ser uma permanente fonte de inspiração para articulistas, cronistas, colunistas, comentadores, analistas, críticos e humoristas. Em Portugal, hoje em dia, poderá faltar quase tudo, mas, entre o drama e a comédia, é um fartote de acontecimentos da maior originalidade."
     João Paulo Guerra, jornalista há mais de 40 anos, é um desses colunistas. Há uma década que escreve sobre o "fartote", a ritmo quotidiano, no "Diário Económico". Lendo este livro com uma selecção dessas crónicas, é fácil concordar que em Portugal não faltam "acontecimentos da maior originalidade". O que muitas vezes falta - mas não a João Paulo Guerra - é o engenho e a arte de olhar para eles sem fazer vista grossa, sem dar de barato, sem banalizar. Sem perder a capacidade de se rir, espantar, indignar, questionar, interpretar, tentar perceber.

     João P. Guerra propõe-se "uma panorâmica razoável dos últimos dez anos da vida do país". Consegue mais que isso. Em textos curtos (o limite são 1700 caracteres) fazemos uma viagem a dez anos, quatro governos, muitas misérias e pouca grandeza, que começa em 1999, com a maioria-empate de Guterres ("O pântano"), passa pelos anos de Durão ("A tanga"), os meses de Santana ("O circo" - vem desse capítulo a citação no início deste texto...) e acaba com Sócrates ("Etc"). Textos irónicos, sarcásticos, clínicos, com uma perspectiva moral e um certo pessimismo servidos pelo gozo genuíno de trabalhar com as palavras.
     Não é mérito pequeno o exercício de memória que este livro nos permite, num país cuja amnésia é memorável, conforme nota o autor. Como se percebe pela organização em capítulos/governos, a política domina, povoada pelo seus personagens de opereta. Mas, mais do que recuperar grandes crises ou pequenas histórias injustamente esquecidas - quem se lembra que Guterres disse em 2001 que queria "ir às fuças à direita"? -, Guerra permite-nos dar um passo atrás e ver, através da espuma dos dias, o que permanece. Cada zoom ajuda ao plano de conjunto: os personagens que se eternizam, os discursos que se repetem, os 'casos' que não se resolvem, os problemas que se arrastam.
     "Diz que é uma Espécie de Democracia" pode resumir-se como um muito democrático exercício de direitos, liberdades e garantias: o direito de pensar, a liberdade de escrever o que se pensa e a garantia de fazer bem uma coisa e outra. Sem olhar para o lado, sem fugir das palavras e sem perder a memória. 
          Filipe Santos Costa, Expresso, 10 Abril 2009

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