terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Memória das Guerras Coloniais

Edições Afrontamento, 1994
    


Um livro histórico
por César Oliveira

         O livro de João Paulo Guerra Memória das Guerras Coloniais faz o inventário histórico do processo, complexo e perturbador, que conduziu ao encerrar do ciclo imperial africano. Diferentemente da independência do Brasil – que ficou a assinalar o fim do segundo ciclo do império -, o desmoronamento da presença colonial portuguesa em África realizou-se num quadro de uma guerra em três teatros de operações que durou 13 anos, e no contexto de um regime de ditadura que ligou, voluntariamente, o destino da sua própria sobrevivência ao desfecho das guerras em África. Por assim ser, o fim do império implicou traumas, visões apaixonadas e, sobretudo, tabus. Este magnífico trabalho a que na contracapa se chama, impropriamente, «investigação jornalística», vem romper um tabu importante que talvez tenha medrado no «caldo de cultura» do respeito e da gratidão – que quase todos temos – pelo MFA e pelos militares de Abril que foram agentes activos no encerramento da aventura africana e que fizeram as guerras coloniais. E escrevemos que a editora chama impropriamente «investigação jornalística» ao trabalho de João Paulo Guerra porque, com essa classificação, parece querer distinguir esse trabalho de uma investigação histórica à qual é suposto ser atribuída uma qualidade «superior» a esta «investigação jornalística».


Ora o livro que apreciamos é um esforço sério, documentado, vasto e fundamentado, permitindo a análise e compreensão de um dado objectivo (as guerras coloniais), de que resultou uma narrativa clara, atractiva e suficientemente ampla, que dá, com a distanciação possível, uma visão elucidativa que acrescenta substantivamente o nosso conhecimento sobre uma temática fundamental do nosso próprio tempo. Por podermos classificar o trabalho de João Paulo Guerra exactamente do modo como acabámos de fazer, pensamos ser inadequada a a qualificação, quiçá por vontade e modéstia do autor, que «formalmente» a editora faz em relação a Memória das Guerras Coloniais. Porque pensamos que a história é, também, fundamentada com o maior rigor possível e a isenção suficiente e necessária a uma actividade e prática científica onde não é possível a neutralidade ou a assunção de verdades incontroversas e definitivas, estamos confrontados com uma investigação histórica que não utilizou o acervo documental dos arquivos como fonte, mas que combina, com felicidade, a narrativa histórica com alguma metodologia habitualmente usada pelo jornalista que João Paulo Guerra é.
         Porque, se há por aí, pelas tertúlias intelectuais e académicas, a difusão de concepções que produzem historiografia que quase não tem narrativa, que faz da «obra historiográfica» uma «coisa hermética», de difícil e, algumas vezes, dolorosa leitura, a verdade é esta: tais concepções acrescentam, seguramente, o nosso conhecimento, mas fazem-no de uma forma redutora e no pior do elitismo. Aquilo que produzem ou não chega ao público comum que quer ser informado ou, quando chega, não é lido com o prazer e com o «gozo» que nos proporciona o trabalho de João Paulo Guerra.
         Poderemos discordar ada arrumação de certos capítulos que, se estivessem arrumados por ordem cronológica dos acontecimentos, deraim, eventualmente, ainda maior clareza e facilidade de leitura a este excelente trabalho de J. Paulo Guerra.
         Só o domínio das temáticas tratadas, o profundo conhecimento da bibliografia utilizada e a preocupação de um distanciamento que não significou, para J.P.G., neutralidade, pôde permitir a escrita fluente, escorreita e atrativa deste texto. Quem não compreendeu a dinâmica essencial de u m dado período ou um determinado tema pode fazer dezenas e centenas de citações, inserir notas sobre notas e pés-de-página extensos e produzir, aparentemente, uma obra de «grande peso académico», mas que, de facto, não acrescentou nada de significativo ao conhecimento colectivo. Esta obra é o contrário disso.
         João Paulo Guerra indica também uma variada e extensa bibliografia que lamentamos estar inscrita no final de cada capítulo. É este o único reparo «de fundo» que fazemos ao autor: uma bibliografia final, ainda que por referência aos grandes subtemas tratados, seria extremamente útil e encorajadora para outras investigações. A cronologia é, também, uma importante contribuição deste trabalho.
         Enfim, e na síntese que cabe no espaço de que disponho: um trabalho importante, inovador na forma e corajoso no conteúdo, publicado no momento oportuno. Momento em que quase tudo e quase todos parecem apostados em «baralhar» par «dar de novo», isto é, para mitificar um período e uma «memória» que, quanto a nós, cada vez mais importa estudar, investigar e reavivar.
        César Oliveira, Expresso, 23 Abril 1994


Escrevo-lhe para o felicitar vivamente pelo seu livro sobre as guerras coloniais.
Era o livro que fazia falta acerca de um assunto que foi (e é) tão vital para a sociedade portuguesa. Li-o com especial interesse, visto ter sido co-autor e distribuidor de “Colonialismo e Lutas de Libertação” e dois BAC, quando havia informações escassas e a matéria era perigosa.
Apreciei a abundância e o rigor da informação e o carácter objetivo do seu texto, ainda que tomando partido, como todos nós.
Um muito obrigado, como português, pelo seu trabalho.
Nuno Teotónio Pereira, 16 Junho 1994

 Este livro admirável do jornalista João Paulo Guerra, Memória das Guerras Coloniais, tem um destino marcado: mergulhar, com merecida glória, no universo das letras malditas. E por ser, no seu fulgor investigativo, um documento inapelável na clarificação das origens, índole e projectos dos vários movimentos armados de libertação, Memória das Guerras Coloniais é uma obra que devemos inscrever, sem perda de tempo, na montra de honra dos eventos comemorativos dos 25 anos do 25 de Abril. 
     Luís Alberto Ferreira, Jornal de Notícias, 5 Abril 1994

       Memória das Guerras Coloniais est ce qui existe de mieux dans le genre journalistique. Sa bibliographie est composé, apparement, à partir de sa propre bibliothèque. Certains de ses atribuitions sont fausses, mais il utilise des dossiers de presse d'une grande fécondité. De plus, il a le mérite d'avoir découvert des rapports de la PIDE, la policie politique portugaise, sur les années passées par Savimbi au Portugal. 
         L'ouvrage de Joao Paulo Guerra est une sorte de vade-mecum à l'usage d'une jeune génération qui a oublié qu'entre 1961 et 1974 tombaient en Afrique une moyenne de 630 morts chaque année dans le camps portugais (dont 70 % de metropolitans), soit, proportionnellement aux populations, incomparablement plus que les Americains au Vietnam. 
  René Pélissier, Afrique Contemporaine, 2º trimestre 1995

História e jornalismo
         Num “dossier” como este, em que se discutem a hipotética proximidade ou o hipotético afastamento entre a ficção e o jornalismo, o jornalista João Paulo Guerra tem o direito a um lugar à parte. Aqui, o jornalista invade os terrenos do historiador. E fá-lo não por brutal direito de conquista, mas porque cumpre humildemente os requisitos do “métier”. “Memória das Guerras Coloniais” é um livro de trabalho, de investigação.
         João Paulo Guerra é historiador e historiador sério. Mas a sua condição de jornalista vem amiúde ao de cima, quando descreve uma batalha, uma greve, um golpe de mão. Aí, a atenção ao pormenor que define uma situação trai o repórter que sabe que um desabafo é por vezes mais significativo do que um discurso.
“Memória das Guerras Coloniais” cumpre duplamente: a sua leitura torna-nos mais cultos e lúcidos e a sua consulta é fácil.
Torquato Sepúlveda, Público, 4 Junho 1994

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