sobre qual seria o fim da história»
Salgueiro Maia
Em 1961, esmagadas
as incertezas e hesitações dos chefes militares, Salazar mandou avançar para
Angola, assumindo ele próprio a pasta da Defesa Nacional. E foi com Salazar à
Defesa que o Império perdeu a jóia da coroa, a Índia.
A descolonização do
chamado Estado Português da Índia demorou 36 horas [18 a 19 de Dezembro de
1961], ao cabo de cinco séculos de presença portuguesa e de onze anos de um
diálogo de surdos entre Lisboa e Nova Delhi. Um dia e meio foi quanto
resistiram cerca de três mil militares portugueses colocados em Goa, Damão e
Diu à invasão dos territórios por cerca de 50 mil soldados indianos. Mas, apesar
desta desproporção, Salazar enviara de Lisboa para o governador da Índia,
general Vassalo e Silva, ordem para vencer ou morrer: Morreram na Índia 67
militares da guarnição portuguesa; cerca de 3.500 foram feitos prisioneiros.
Império ou morte,
determinou Salazar aos soldados portugueses da Índia. Uma ordem tanto mais
cínica e perversa quanto se sabia que as tropas portuguesas não estavam em
condições de se baterem. E Kaúlza de Arriaga, então secretário de Estado da
Aeronáutica, sabia disso:
«Houve culpas
nossas na forma como as coisas se passaram. Porque era evidente que se a União
Indiana resolvesse fazer a invasão, como acabou por fazer, não havia
possibilidades de resistir. O que havia era que dar a essas forças a
possibilidade de se poderem bater. Eu disse em Conselho de Ministros que as
forças não estavam em condições de se bater, não estavam equipadas com material
que funcionasse. Nada funcionava na Índia.
«Há até um célebre
caso, com sabor anedótico, que mostra como as forças portuguesas na Índia estavam
a ser tratadas. Eu era secretário de Estado da Aeronáutica e pedem-me que
transporte rapidamente para a Índia munições para as 'bazucas'. Preparei os
aviões, tudo aquilo foi preparado. Vieram uns caixotes do Exército, enormes,
pensava eu, e pensava toda a gente, que eram as munições de 'bazuca'. E foram
para a Índia. Quando chegaram a Goa, os militares de lá precipitaram-se para os
aviões, para tirar de lá as munições das 'bazucas'. Qual não foi o seu espanto
quando abriram os caixotes e, em vez das munições das 'bazucas', estavam lá...
chouriços. Chouriços!»
A derrota militar
na Índia, em Dezembro de 1961, veio dar razão aos militares que, em Abril desse
ano, tinham preconizado uma solução política para a questão colonial. No
entanto, complexados pela derrota, os militares não exploraram o sucesso da sua
razão. Pelo contrário, a partir daí remeteram-se ao silêncio por largos anos.
Um silêncio quebrado por vozes isoladas, como foi, em 1962, a do comandante da
Base Aérea de Luanda, coronel Carlos Galvão de Melo:
«Em 1962 - recordava anos mais tarde o general Galvão de Melo -, já conhecedor
localmente do fenómeno africano e do que se passava em África, permiti-me
escrever vários relatórios, um deles para o Presidente do Conselho, que
começava desta maneira: “Não tenhamos ilusões. As Forças Armadas só aguentam
aqui o tempo que permita ao governo, aí em Lisboa, descobrir, adoptar e pôr em
prática uma política de evolução que deverá levar até à independência. E esta é
a única maneira de aqui continuarmos cultural e economicamente com vantagens
para portugueses e angolanos.” A única consequência deste relatório foi eu ser
demitido do comando da Base Aérea e enviado para a Metrópole.»
De 1962 a 1973, os
militares assumiram a guerra colonial. Mas a guerra, na opinião do general
Vasco Gonçalves, abriu-lhes os olhos para a vida:
«Foi a escola da
vida e a escola da guerra – dizia Vasco Gonçalves
-. A guerra teve uma influência enorme na consciencialização dos meus
camaradas. Porque tantos que partiam daqui, eivados daquele ideal do “Portugal
desde o Minho a Timor”, depois foram ver o que aquilo era na realidade.»
«Tudo aquilo que a
propaganda apregoava, o tal Portugal uno, indivisível, inalienável e multirracial,
mais não sei quantos, era uma fraude. Porque nós chegámos lá e vimos que existia quase escravatura, com os negros a serem
obrigados a trabalhar à coronhada de Mauzer, existiam castigos corporais
perfeitamente abjectos, existia todo um mundo de arbitrariedade, e no fim eram
as Forças Armadas que teriam que estabelecer o equilíbrio.
«Ora num contexto
destes, e quando já tinham sido publicados bastantes livros sobre a guerra da
Indochina, em especial os livros do Jean Larteguy, nós começámos a pensar, a
fazer paralelismos. E a partir de certa altura deixámos de ter dúvidas sobre
qual seria o fim da história. Depois estive na Guiné, já como capitão, e o
contexto militar era bem pior. Só encontro paralelo com o cenário do filme
Platoon.
E foi assim, nas
cidades e nas matas de Moçambique, e mais tarde na Guiné, que se formou o
capitão que virou a página da história, no Largo do Carmo, em Lisboa.
Ao longo de treze
anos, as Forças Armadas incorporaram e mobilizaram para a guerra 820 mil jovens
portugueses: registaram 8.831 mortos, cerca de 30 mil feridos, perto de 15.000
deficientes e mutilados de guerra. E 3.209 heróis, 31 condecorados com a Torre
e Espada, 139 com medalhas de Valor Militar, 3.039 com a Cruz de Guerra. Cerca
de 200 militares desertaram dos teatros de operações. A percentagem de faltosos
e refractários rondava, em cada ano, 18 por cento do contingente. A guerra
esteve na origem da emigração de milhares de jovens e das respectivas famílias.
Entre 1960 e 1974 emigraram, só para França, o destino mais próximo, 1.524.000
portugueses, cerca de 80 por cento dos quais «a salto». Ao longo de treze anos,
as despesas com a guerra constituíram, em média, 43 por cento das despesas
públicas, chegando a atingir cerca de 55 por cento em 1969.
Mas o regime não
admitia outra saída. Negociar era um sacrilégio. Apesar de tudo, no entanto, a
regra admitiu excepções e variantes. Em Angola, 1971-72, o comandante militar,
general Costa Gomes, negociou com a UNITA, levando os homens de Jonas Savimbi a
combaterem ao lado das tropas
portuguesas contra o MPLA:
«Não só pondo-os à
bulha - recordava o Marechal Costa Gomes -, mas
fazendo um arranjo de forma a que a UNITA, não só combatesse o MPLA, como nos
desse informações sobre os movimentos do MPLA na Zona Leste. Como ainda
prometendo não molestar as forças portuguesas nem o Caminho-de-Ferro de
Benguela, que era muito importante para escoar os produtos da Zâmbia.
- «Esse
entendimento com Jonas Savimbi, em 1972, foi fácil? Ou a UNITA exigiu muito?
«Não, não exigiu
muito. A UNITA exigiu mesmo muito pouco. O pai do Jonas Savimbi estava preso;
não só se soltou o pai de Jonas Savimbi como se lhe deu o antigo lugar que
tinha, como funcionário público, na Câmara de Silva Porto. Chegámos a um acordo
absolutamente de amigos, não de adversários.»
Acordo de amigos, em
Angola, 1971-72, firmado entre as tropas coloniais e a UNITA, sob os auspícios
do general Costa Gomes. Mas na contra-costa, o general Kaúlza de Arriaga jamais
admitiu negociar com a FRELIMO:

- «Está a dizer
que a guerra em Moçambique passaria a ser apenas um caso de polícia?
«Um caso de
polícia. Como é hoje em Londres e em toda a Europa.
- Quanto a
negociações, nada?
«Era impossível.»
À revelia dos
generais da guerra, houve no entanto quem negociasse com a FRELIMO. Em Setembro
de 1973, o engenheiro Jorge Jardim firmou um acordo, em Lusaka, com o
presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda, e com a Frente de Libertação de
Moçambique - FRELIMO. Almeida Santos acompanhou e estimulou a negociação:
«Eu tive a
felicidade de ir tendo notícias desse acordo - conta Almeida Santos - e até de o estimular, como calcula.
- «Mas o Acordo
de Lusaka foi negociado com o presidente Kaunda ou com a FRELIMO?
«Negociado com a
FRELIMO. O presidente Kaunda serviu apenas de hospedeiro e de intermediário.
- «Com a direcção
da FRELIMO? Com Samora Machel?
«Com Samora Machel,
claro que sim. Era impossível fazer-se o que quer que fosse, nessa altura, sem
o beneplácito de Samora Machel que, nessa altura, tinha uma posição muitíssimo
mais razoável, porque a deterioração da situação no terreno e nas Forças
Armadas, a seguir ao 25 de Abril, é que lhe deu um reforço de exigências e de
agressividade, mesmo militar. Teria sido bom que Marcelo Caetano tivesse
aceitado esse acordo.»
O regime não
aceitou dar a volta à história da guerra e iniciar modalidades de
descolonização, tanto em Moçambique, com Jorge Jardim, como na Guiné, com o
general Spínola. Em 26 de Maio de 1972, Marcelo Caetano convocou o general para
lhe comunicar que o regime preferia a derrota militar na Guiné a «negociar com os terroristas». Na altura,
Spínola ainda estava na fase de se espantar e indignar: «Pois Vossa Excelência prefere uma derrota militar?!». No regresso a Bissau, o general
confidenciou ao seu ajudante de campo, capitão António Ramos, que negociações
na Guiné estariam comprometidas porque Caetano tinha medo:
«O professor
Marcelo Caetano - recordava anos depois o
tenente-coronel António Ramos - teve medo da reacção da ultra-direita se
embarcasse naquela aventura. E portanto não quis avalizá-la. O medo de Marcelo
Caetano era que o exemplo da Guiné alastrasse a Angola e Moçambique. Mas esse
era o propósito da equipa do general Spínola: começar pela Guiné, onde era mais
fácil, para seguir em Angola e Moçambique.»

«Ele chegou à Guiné,
estudou o que se passava, visitou a Guiné toda, falou com todos os comandantes,
correu com alguns deles, correu com alguns chefes civis também, instalou-se e
fez uma reunião para a qual convocou os comandantes militares mais importantes
da Guiné. E apresentou este conceito, para mim revolucionário: Uma guerra
subversiva nunca está ganha nem nunca se ganha militarmente. Só é possível
ganhar politicamente. Portanto, eu não vou pedir que ganhem a guerra, porque
vocês não têm capacidade para ganhar esta guerra. Quem tem que ganhar a guerra
sou eu. A vocês só vos peço que não me percam a guerra e que me dêem tempo para
eu conseguir ganhar politicamente a guerra.»
Derrotada a
estratégia para negociar a paz, o general Spínola intensificou o esforço de
guerra, procurando reconquistar pela força as posições perdidas no Sul da
Guiné. Foi então que o PAIGC começou a usar mísseis terra-ar, acabando com a
supremacia aérea das tropas portuguesas. A partir desse momento, já nem era
possível ao general pedir aos seus oficiais que se limitassem a não lhe perder
a guerra.
E quando os «Heróis do Mar» perderam a supremacia
aérea que ficou traçado o destino da guerra na Guiné. Os primeiros aviões foram
abatidos em Março de 1973; em Agosto, o general Spínola regressou a Lisboa,
antecipando o fim do mandato. De visita à Guiné, por essa altura, o então chefe
do Estado-Maior General das Forças Armadas, Costa Gomes, voltou com a sentença
sobre a situação militar no território:
«Estávamos à beira
da derrota militar. A situação na Guiné, na altura, era muito grave. O PAIGC
atacava no Norte e no Sul, com grande fúria, causando-nos muitas baixas.»
E foi com uma
derrota militar no horizonte, reavivando os traumas da derrota na Índia, 12
anos antes, que os militares deixaram de acertar o passo pela ordem unida do
regime.

Mas
os combatentes das matas de Angola, da Guiné e de Moçambique, não só não
responderam à chamada do Congresso, como se organizaram para contestar a
iniciativa dos combatentes da retaguarda. Da comissão que promoveu a
contestação ao Congresso faziam parte, entre outros, Firmino Miguel, Ramalho
Eanes, Carlos Fabião:
«Como pode
imaginar, quando nós, oficiais do Quadro Permanente, nós combatentes,
aparecemos a dizer que não aderíamos ao Congresso e que não reconhecíamos
idoneidade aos organizadores, aquilo foi um nado-morto. O general Kaúlza ainda
mandou um telegrama de felicitações e de incitamento ao Congresso, mas nenhum
dos outros generais das frentes de combate tomou posição. E aquilo acabou por
ser presidido por um general na reserva e não teve representatividade nenhuma.
- «O facto de essa
contestação ter nascido na Guiné foi acidental?
«Os oficiais que
estavam na Guiné tinham capacidade de conspirar à vontade, sabendo que não
havia perseguições contra eles, porque tinham a grande capa do governador a
tapá-los. Para além da disposição, havia possibilidades de se poder conspirar
com relativa segurança e até com determinado apoio para estas questões.
- «E isso porque
o general Spínola era tolerante ou porque também ele conspirava?
«O general era
tolerante e conspirava.»
A contestação ao
Congresso dos Combatentes, em Maio e Junho de 1973, deu aos oficiais a base de
organização para novas contestações. Quando o governo decretou sobre as
carreiras militares, em Julho desse ano, os capitães ainda estavam organizados,
alerta e em pé-de-guerra:
«Depois do
Congresso - acrescentava Carlos Fabião - o Vasco
Lourenço pressionou o Eanes, o Eanes falou comigo, para que mantivéssemos unido
aquele bloco de oficiais. Mas nós estávamos espalhados pelo Império português e
era muito difícil uma organização de tipo conspirativo com indivíduos que hoje
estão na Guiné, amanhã em Macau, depois em Angola, Moçambique ou em Cabo Verde.
Mas quando isto estava ainda em ebulição, apareceram os decretos sobre as
promoções.»
A contestação ao
Congresso dos Combatentes e aos decretos sobre promoções foram as causas
próximas da formação do Movimento dos Capitães. O general António Ramalho Eanes
considera, no entanto, que havia outras razões, de fundo, para o
descontentamento e a movimentação dos militares:
«Uma das causas
remotas - considera o general Ramalho Eanes - é a Índia.
Quando o poder político deixou cair o Estado da Índia por incapacidade
política, e depois fez dos militares bodes expiatórios, a partir daí
estabeleceu-se uma ruptura entre a instituição militar e o poder político, que
nunca mais foi colmatada. E quando as coisas se começaram a complicar na Guiné,
ouvia-se com muita frequência dizer, entre os militares, que se chegássemos a
uma situação de colapso o poder político faria outra vez a mesma coisa: lavava
as mãos, à Pôncio Pilatos, e crucificava os militares.»
A revolta dos
oficiais manifestou-se através da contestação aos decretos que abriam o Quadro
Permanente aos milicianos. A partir de 21 de Agosto, capitães do Exército
começaram a promover reuniões para discutir os decretos do governo. A 25 de
Agosto, uma reunião de capitães, em Bissau, aprovou um documento contestando os
decretos governamentais.
Enquanto a questão
foi meramente corporativa, até o general Kaúlza de Arriaga dava razão aos
capitães:
«Eles tinham toda a
razão. Os capitães tinham razão. Não sei se tiveram razão nas formas de actuar.
Mas tinham razão.»
Logo nas primeiras
reuniões do Movimento, os capitães começaram a discutir se era possível
resolver a questão corporativa sem resolver a questão da guerra e se era
possível resolver a questão da guerra sem resolver a questão do regime. Numa
das primeiras reuniões do Movimento em Angola, o então major Pedro Pezarat
Correia pôs o dedo nas feridas da guerra e do regime:
«Participei numa
reunião de capitães - recorda o general Pezarat
Correia - e disse-lhes que o que eles estavam a discutir não me atingia
directamente, uma vez que já era oficial superior. Mas que gostava de os
alertar para o seguinte: a solução do problema tinha a ver com a implantação e
prestígio dos militares na sociedade portuguesa. E o problema do prestígio dos
militares na sociedade portuguesa não se resolvia enquanto os militares fossem
olhados como o suporte armado de um regime político que a sociedade portuguesa
abominava, que não escolhera e que a oprimia.»
No final desse ano
de 1973, com uma derrota militar no horizonte na Guiné, também alguns generais
conspiravam contra o regime. Procurando apanhar o comboio do Movimento dos Capitães,
o general Kaúlza de Arriaga, cabeça de lista da conspiração dos generais,
mandou-lhes um recado:
«Entrei em contacto
com os capitães, através de um dos meus chefes de gabinete, e disse-lhes: Os
generais assumirão as suas responsabilidades, desde que nas Forças Armadas se
mantenha a disciplina e o respeito pela hierarquia. E a resposta dos capitães
foi positiva: Sim senhor, nós aceitamos isso, os generais façam o que puderem
fazer. Mas os generais não fizeram aquilo que deviam, porque houve uma cisão. O
Spínola, que estava connosco, desapareceu.
- «Quando diz “os
generais assumirão as suas responsabilidades”, isso era um pronunciamento
militar, um golpe de Estado?
«Claro que para
salvar o país eu não tinha escrúpulos nenhuns em promover um golpe de Estado.»
Kaúlza de Arriaga
ainda chegou a recolher votos numa reunião de capitães para liderar o
Movimento, embora a grande distância dos votos obtidos por Spínola ou Costa
Gomes. E nas paredes de Lisboa, por essa altura, apareceu pintada, em profusão,
a letra K. Mas a maioria dos oficiais contestatários não se guiava pelas
estrelas do general K. Em Dezembro de 1973, durante uma aula no Instituto de
Altos Estudos Militares, o tenente-coronel Carlos Fabião alertou os futuros
majores para a conspiração dos generais:
«Disse simplesmente
- recordava Carlos Fabião - que os generais
Kaúlza, Silvério Marques, Troni e Luz Cunha estavam a preparar um golpe de
Estado que passava pela neutralização dos generais Costa Gomes e António de
Spínola. E disse também que estava a dar a informação, mas para não se
especular com ela. Claro que, logo no primeiro intervalo, eles saíram da sala e
foram contar a toda a gente.»
A denúncia do golpe
dos generais chegou assim às páginas de The
Guardian, na edição de 31 de Dezembro de 1973. Dizia o jornal que os
generais conspiravam para substituir Marcelo Caetano por Adriano Moreira.
O general Kaúlza de
Arriaga terminara nesse ano a comissão como comandante militar de Moçambique,
logo após a denúncia internacional sobre os massacres de Wiriyamu, e o mandato
não tinha sido renovado pelo governo.
A denúncia dos
massacres de Wiriyamu pelo padre Adrian Hastings, nas páginas de The Times, em 10 de Julho de 1973, agudizara
ao extremo as relações entre o Estado português e a Igreja. Entre a hierarquia
eclesiástica, a voz que mais alto se fez ouvir foi a D. Manuel Vieira Pinto,
bispo de Nampula:
«Era uma exigência
fundamental do próprio anúncio do Evangelho - dizia D. Manuel Vieira Pinto -. Por outras palavras: o
Evangelho que devia anunciar não podia deixar de contemplar esta vertente da
liberdade de cada homem, da liberdade a que cada homem tem direito. E cada
povo. E por isso não podia calar a situação. Não estava contra pessoas, mas
estava contra sistemas. Mas o sistema colonial, como todos nós sabemos, é um
sistema que assenta numa base de desigualdade, seja jurídica, seja política,
seja económica, seja social.
«Não foram uma
invenção do padre Hastings. Infelizmente foram uma realidade e muitas foram as
vítimas. Naturalmente que podemos dizer que são guerras. Mas as guerras não são
irresponsáveis. Alguém deve responder por elas. E esses massacres, alguém deve
responder por eles. Na altura, examinámos e denunciámos. Não foi o padre
Hastings que denunciou. Antes do padre Hastings, já nós tínhamos denunciado.»
Nos dias seguintes
ao dos massacres, nas páginas da imprensa portuguesa visada pela Censura, não
havia vestígios de sangue. Mas quando as marcas do massacre chegaram à opinião
pública o próprio Vaticano condenou os excessos da guerra.
Não foi essa a
primeira vez que Paulo VI afrontou o regime de Lisboa. Em Julho de 1970, o Papa
recebera em audiência Agostinho Neto, Amilcar Cabral e Marcelino dos Santos. «Eu rezo por vós», dissera o
representante de Cristo aos líderes da guerrilha. Lisboa perdeu a paciência e a
cabeça. «O sucessor de S. Pedro conversou
com terroristas», escreveu em editorial o Diário de Notícias. E um dos chefes de fila dos «ultras» do regime, o general Santos
Costa, chegou a sugerir a Marcelo Caetano que a «Nação portuguesa» desse ao Papa «o pontapé no traseiro que bem diligenciou merecer». A diplomacia do
Vaticano deitou água na fervura. Mas quando a guerra passou das marcas, em
Wiriyamu, a Igreja católica voltou a condenar o regime colonial. Da denúncia
dos massacres de guerra à denúncia do sistema colonial, também pela falta de fé
se ia perdendo o Império.
Contestado pelos
militares e pela Igreja, o ciclo do Império tinha o fim à vista. As
divergências e contradições no próprio seio do regime e dos sectores que sempre
o apoiaram se acentuaram face ao fim iminente do Império. Por essa altura, o
regime estava paralisado, na opinião do então ministro Veiga Simão:
«Durante os anos em
que fui ministro de Marcelo Caetano - recorda Veiga Simão
- o problema da guerra no Ultramar condicionava a maioria dos actos
governativos. Marcelo Caetano, antes de ser presidente do Conselho, havia
apontado, como base de uma solução para o Ultramar, uma tese evolutiva, a tese
federativa. Todos devemos reconhecer que a última década antes do 25 de Abril
foi de intenso desenvolvimento social e económico, traduzido em índices
reveladores de políticas de forte aposta na agricultura, na indústria e na
melhoria da administração. Marcelo Caetano, porém, hesitou com medo natural de
um futuro a ser traçado em plena guerra. A revisão constitucional [1971]
é um exemplo dessa hesitação. As vicissitudes da Ala Liberal do regime
constituem outro exemplo. Resolver o problema do Ultramar e abrir em seguida
para a democracia? Abrir para a democracia e resolver de seguida o problema do
Ultramar? Não era fácil o caminho. Mas a estagnação, com aberturas limitadas,
paralisou o regime.»

«O livro Portugal e
o Futuro – declarava o general Spínola - representa uma evolução da política
ultramarina que, acima de tudo, proclamava que a guerra do Ultramar não tinha
uma solução militar global, mas antes e só uma solução política. Os militares
tinham conseguido criar uma situação de equilíbrio de forças de grande
oportunidade para o governo central desencadear acções a nível externo que
possibilitassem uma evolução de acordo com as melhores tradições políticas
portuguesas. O Portugal e o Futuro deu essa oportunidade a Marcelo Caetano, a
qual lhe foi oferecida pelos próprios militares que, naturalmente, a apoiariam
se enveredasse por uma abertura que associasse a democracia à consagração de
uma Comunidade Lusíada.
– «Marcelo
Caetano também tinha apoiado teses próximas da sua…
«E precisamente porque
Marcelo Caetano também havia apoiado teses federativas, o livro Portugal e o
Futuro reforçaria a sua posição perante as forças mais conservadoras.
Infelizmente, o primeiro-ministro deixou-se dominar pelas forças conservadoras
que, no fundo, lhe eram hostis, e as conversas que tive com ele, graças aos
esforços do professor Veiga Simão, acabaram por não ter consequências na
procura de uma solução positiva.
«Os acontecimentos
sucederam-se, tendo sido exonerado de vice-chefe do Estado-Maior General das
Forças Armadas [14 de Março de 1974] por não ter
comparecido a uma reunião de comandos militares com o governo que tinha, no meu
entendimento, um significado vexatório. O primeiro-ministro, em vez de
aproveitar uma oportunidade a seu favor, acabou por fomentar um sentimento de
revolta nas Forças Armadas. O 16 de Março não tardou e foi reprimido. Mas o 25
de Abril surgiu vitorioso.»
O labirinto do general
Spínola era uma frase do historiador Arnold Toynbee: «Portugal foi o primeiro império colonial. Na segunda metade do século
XX era o último». Um labirinto a que o general havia sido conduzido pela
guerra na Guiné: não havia solução militar e o regime recusava-se a adoptar uma
solução política.
Com a ajuda de
oficiais do seu estado-maior, o general redigiu a sua crónica dos efeitos da
Guiné e negociou a publicação com várias editoras, entre as quais a Arcádia. O
editor, Waldemar Paradela de Abreu, viajou para Bissau. Falou com Spínola e
voltou a Lisboa com a decisão de publicar um livro cujo conteúdo desconheciam
em absoluto.
«O general nunca disse de que género de livro
se tratava. Era um livro. E eu devo dizer-lhe que imaginei tudo, menos que
fosse aquele livro.
«Voltou
a Lisboa com uma decisão mas sem o original?
«Voltei a Lisboa com a indicação de que seria
contactado por um irmão do general. E assim foi. Percebi então que ele estava a
negociar com várias editoras, haveria já umas seis ou sete interessadas. E sem
conhecer o livro, ofereci 20 por cento sobre o preço de capa, quando o normal em
Portugal seriam uns 8 a 10 por cento, e com uma garantia bancária. Só depois de
assinar o contrato recebi o original. Li-o nessa noite e no dia seguinte entreguei
o original do livro, para uma revisão literária, ao António Valdemar. E
disse-lhe: “António Valdemar, este livro é a revolução”».
Era o «livro esperado», como era apresentado na
campanha publicitária. Proibidos os ‘spots’ na televisão, a campanha da agência
Ciesa baseou-se em pequenos cartazes a preto e branco, centrados no perfil do
general, de monóculo. O livro saiu a 22 de Fevereiro de 1974. Chamaram-lhe «a bomba de papel». Fez cinco edições, em
meia dúzia de meses, num total de 230 mil exemplares vendidos. Mas, acima de
tudo, o livro emprestou uma doutrina e ergueu uma bandeira para a revolta dos
capitães.
Cansados
da guerra os militares apearam o poder ao qual tinham dado 13 anos de
oportunidade para negociar a paz. Menos de dois anos após ter condenado os
militares à derrota na Guiné, o poder depôs as armas aos pés de um capitão,
Fernando José Salgueiro Maia, 29 anos, capitão de Cavalaria:

«Acabou por ser Marcelo Caetano a participar na escolha, ou a escolha de
Spínola foi do Movimento?
«Nós tínhamos, por uma votação,
designado o general Costa Gomes. Só que, no próprio dia 25 de Abril, ele não
estava em casa. Posteriormente soubemos que se encontrava no Hospital Militar.
Mas como o Posto de Comando não encontrava o general Costa Gomes entrou em
contacto com o general Spínola a dizer-lhe o que se passava. Que o homem, para
se render, queria um general. Então que avançasse o general Spínola. Foi isso
que aconteceu.
«Foi uma revolução um pouco bizarra…

Águas a correr?
«Quando disparámos para o telhado para os levar a renderem-se tínhamos
rebentado com os depósitos de água… E então ouvia barulho das águas a correrem
e a multidão, cá fora, a cantar o Hino Nacional. E por acaso até nem
desafinava.»
«Heróis do mar,
nobre povo…», Portugal virou a página da História em 25 de Abril de 1974. Nem
tudo foram rosas na revolução dos cravos. Dos três Dês do Programa da revolução
dos militares, o Dê da Descolonização «foi o possível», o Dê de Desenvolvimento
nem com os milhões de Bruxelas lá se chegou, o Dê da Democracia é simplesmente
formal. Seja como for, nada é como antes. E a flor da democracia continua a ser
regada por milhares de portugueses, para que um dia a festa volte a ser bonita.
Por João Paulo Guerra, III episódio de O Regresso das Caravelas,
TSF, Abril 1994
TSF, Abril 1994
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