sábado, 1 de outubro de 2016

A basílica arranha-céus e a sagração dos crocodilos

O país designa-se Côte d'Ivoire e a Constituição
proíbe a tradução do nome
Costa do Marfim, pelo nosso enviado João Paulo Guerra
O Diário, 23 Dezembro 1989

Um crocodilo devora uma galinha em dois tempos rápidos: abocanha-a, tritura-a e acabou-se a galinha. Ao terceiro tempo há apenas o bolo alimentar do crocodilo, um paté de penas, carne, ossos, vísceras, amassado em cabidela.
O número da refeição dos crocodilos, servido a meio da tarde, faz parte do cartaz turístico de Yamoussoukro, capital administrativa da Costa do Marfim. A ementa consta de galinhas vivas e o espectáculo consiste na luta desigual entre uma dúzia de galinhas tontas e dezenas de vorazes e possantes sáurios. O número termina em apoteose de cacarejos aflitos, esguichos de sangue e voltear de penas. Os visitantes de Yamoussoukro veem e ouvem o espectáculo e depois, eventualmente com pena das galinhas, vão recolher-se na Basílica de Nossa Senhora da Paz, que se ergue na savana e capricha por ter uns centímetros mais que a Basílica de S. Pedro.


O espectáculo começa com a prestação do tratador dos crocodilos a cacarejar à beira do canal que rodeia o perímetro do Palácio Presidencial em Yamoussoukro. O tratador é um indivíduo alto e esquálido, andrajoso, desgrenhado e sinistro que, por um qualquer estranho fenómeno de mimetismo, imita na perfeição o cacarejar das galinhas e tem mãos e gestos tão fatais e decisivos como as fauces dos crocodilos. Agarra meia dúzia de galinhas em cada mão, de cada vez, e dali as galinhas já não saem, a não ser para o fosso dos crocodilos.
Os crocodilos ouvem o cacarejar do tratador, lá no fundo das águas lodosas do canal, e sobem pelas margens levantados sobre as patas curtas, arqueadas e possantes. Depois, baixam a suspensão, assentam o bojo no chão, abrem as bocarras e esperam pelo número que se segue no programa. O tratador aguarda que todos os visitantes ocupem lugares de onde possam dominar a cena e começa então a lançar as galinhas, duas ou três de cada vez, para fazer render o espectáculo.
As galinhas são mais rápidas e ágeis que os crocodilos e voam. Baixinho, mas voam. Porém, não têm saída. A emoção do espectáculo consiste em saber quanto tempo uma galinha consegue escapar a um crocodilo, para ir acabar abocanhada por outro. O crocodilo mastiga a presa por duas vezes. Com frequência, na primeira vez deixa de fora da bocarra a cabeça, ou as patas, ou uma asa, ao mesmo tempo que o sangue da vítima espirra em todas as direcções. O som que se segue ao do definitivo cacarejo da galinha é de tonalidades cavas: a trituração dos ossos é abafada pela mastigação de carnes macias e penas fofas.
É um espectáculo cruel. Mas isso é do ponto de vista das galinhas e das almas sensíveis. Ora, como se sabe, o ponto de vista dominante é o dos crocodilos e afins, mesmo num país moderado e pró-ocidental, de inspiração cristã, como é a Costa do Marfim. O espectáculo é exibido à entrada ou à saída da área presidencial de Yamoussoukro.

Crocodilos sagrados
Na Costa do Marfim, país da África ocidental, ex-colónia francesa, independente desde 1960, os crocodilos são animais sagrados, como sagrada é a função que 
desempenham em Yamoussoukro, onde constituem a primeira linha da segurança presidencial. Com tão temíveis e discretos vigilantes, povoando o canal que cerca o vastíssimo perímetro da residência e do palácio, não há opositor, manifestante ou sindicalista que se aproxime.
A residência presidencial e o palácio dos convidados estão localizados no interior de um imenso parque murado, onde as construções se recortam num cenário de jardins franceses. Versailles a trinta e tal graus de temperatura, entre a região da savana e a da floresta tropical.
Para além da zona dos palácios, Yamoussoukro ostenta as sedes da Fundação Boigny e do Partido de Boigny, o Partido Democrático da Costa do Marfim, escolas superiores de obras públicas, de formação pedagógica, de ensino técnico e de agronomia, hotéis, uma mesquita e a Basílica. Avenidas largas e arranha-céus marcam uma cidade sem alma, numa área ajardinada e assética de 4.000 hectares. A população vive arredada em bairros suburbanos, fora da vista dos visitantes.
Em 1962, dois anos após a independência, no local havia uma aldeia. Chamou-se, sucessivamente, Kami, N’Gokro e Yamousso. N’Gkro vinha de Kouassi N’Ggo, filho de N’Dri, chefe ilustre dos baoulés, e Yamousso era o nome da sobrinha de N’Ggo, sendo o sufixo kro a designação de cidade. Yamousso, a sobrinha de N’Ggo, foi a tia-avó de Félix Houphouet. O nome da tia-avó do presidente e o sufixo kro deram nome à capital do país. No seu primeiro governo, Félix Houphouët-Boigny mudou a capital de Abidjan para a aldeia onde nasceu. E ali está a cidade, sumptuosa, magnífica e inesperada. Mas África tem outros e mais vastos horizontes.

A Basílica arranha-céus
A Basílica de Nossa senhora da Paz é o ex-libris da cidade, erguida para Deus por Félix Houphouët-Boigny. Deus e Boigny são, aliás, as figuras centrais de um dos vitrais de 28 metros da Basílica: Deus e, logo a seguir, Boigny. Um pouco mais atrás, no cortejo de anjos e arcanjos, está o senhor Cesareo, engenheiro francês, director das obras da Basílica e super-ministro na hierarquia da Costa do Marfim.
A Basílica começou a ser construída em 1985 e o Papa presidiu à colocação da primeira pedra. A construção ocupou dois mil técnicos e operários e um número considerável de empresas francesas que executaram o projecto do arquitecto libanês Pierre Fakouri: 8.000 metros de vitrais fabricados em Bordéus, 128 colunas de 21 metros de altura por 2 metros e 20 centímetros de diâmetro, uma nave central de 190 por 150 metros, um complexo nas traseiras que compreende aposentos papais, uma estação para a Rádio Vaticano, uma escola, um orfanato, um asilo para pobres e outro para cegos.
Postal da Basílica
A Basílica tem uma lotação de 7.000 cadeirões e 11.000 lugares em pé mas os católicos são apenas 10 por cento da população de 20 milhões de habitantes da Costa do Marfim, enquanto os muçulmanos, que constituem 23 por cento da população, dispõem em Yamoussoukro de uma mesquita com 2.000 lugares.
O presidente Boigny tranquilizou a população, num discurso de estado, garantindo que os 200 milhões de dólares que custou a construção da Basílica vieram de fundos privados, seus e de outros membros da família Boigny, para a glória de Deus. Mas Deus, por vezes, é ingrato. E assim, o seu embaixador na Terra, João Paulo II, não incluiu a Costa do Marfim na visita papal a África durante a qual se esperava que inaugurasse a Basílica.
Em Yamoussoukro diz-se que o Vaticano encara a Basílica como um presente envenenado, com os seus custos anuais de manutenção de 750 mil dólares e que só um milagre poderia realizar o sonho de Boigny de fazer de Yamoussoukro um centro internacional de peregrinações.

84 anos, idade oficial
Foto oficial
Félix Houphouët entrou para a vida pública aos cinco anos de idade como chefe dos baoulés, quando morreu a rainha Yamoousso, sua tia-avó, e o respectivo sucessor direito, primo de Félix, foi assassinado. Dada a tenra idade do segundo sucessor, o viúvo da rainha ficou como regente. Teriam passado 79 anos que, juntando aos cinco que Félix tinha à data da sucessão, daria a soma de 84 anos. Mas essa é simplesmente a «idade oficial» do Presidente, segundo se diz na Costa do Marfim, onde se admite que Boigny tenha mais cinco ou seis anos.
 Com 84 anos de idade oficial, Félix Houphouët-Boigny tem os seguintes cargos: Presidente da República, chefe de Estado, símbolo da unidade nacional, garante da continuidade do Estado e da independência nacional, detentor exclusivo do poder executivo, presidente do Conselho de Ministros, chefe das Forças Armadas e da administração; detém o poder de nomear e demitir os funcionários civis e militares do Estado, tem a iniciativa legislativa, promulga as leis e assegura a sua execução, detém ainda a iniciativa de revisão da Constituição, garante a independência do poder judicial, negoceia e ratifica os tratados internacionais, é presidente do partido único e perfila-se como eventual sucessor de si próprio. Mas a questão da sucessão é assunto para mudar de conversa neste país que inclui os funerais dos chefes políticos e tradicionais no seu cartaz de espectáculos.

See you latter, alligator
Boigny e boigny (boigny significa carneiro em língua baoulé,
exemplar de ouro maciço à porta do Palácio)
A situação económica, num país que viveu o «milagre do cacau», é um foco de instabilidade. A quebra dos preços internacionais do cacau na última década trouxe consigo os empréstimos e as receitas de austeridade do FMI. Para satisfazer a classe média, Boigny começou a subsidiar os produtores de cacau e a recorrer, de forma crescente, à mão-de-obra barata de quatro milhões de nacionais dos países vizinhos.
Entretanto, a dívida externa disparou para 14 mil milhões de dólares [1989]. Empresas francesas – omnipresentes na antiga colónia – compraram ao desbarato a produção de cacau do ano passado. Boigny tem no entanto outros amigos, para além do FMI: grandes empresas francesas e a Nestlé, o poder mais consolidado no país, logo abaixo de Deus e de Boigny.
O repórter estava lá
Em Outubro passado [1989], Félix Houphouët Boigny promoveu as chamadas Jornadas de Diálogo, cinco dias de desabafo contra a corrupção, a burocracia, a degradação da economia. Como consequência das Jornadas, Boigny reduziu o Conselho de 39 para 29 ministros. A Constituição fala em partidos, no plural, assegurando que «exercem a sua actividade livremente». Mas quando se fala com qualquer interlocutor sobre eventuais opositores ou dissidentes, ou mesmo sobre simples candidatos a um cargo, a resposta invariável é que quem sabe desses assuntos são os serviços secretos. Se a conversa se adianta, há então quem sugira que os crocodilos também saberão alguma coisa sobre dissidentes, opositores, candidatos e sindicalistas.
No ano em que Abidjan perdeu o estatuto de capital, ocorreu ali a maior vaga de lutas populares contra a corrupção e o imobilismo jamais registada no país. É em Abidjan que reside ainda a alma do país, é ali que corre o rio humano da vida entre as margens da baixa e do Plateau. Em Abidjan a vida real continua e caminha inexoravelmente para o dobrar de uma época. Mas à cautela, na Cabane de Bambou, um grande bar popular de Abidjan, o disc-jockey despede-se ao fim da noite, pondo a rodar um velho tema de Bill Haley: See you latter alligator.

Na noite de Abidjan, após um jantar no Tout Va Bien ou em La Paillot – djoungblé akoué regado com champanhe de ananás – o programa segue, por exemplo, no Kotou ou no Klin Kpli, clubes que prometem uma noite com galinhas de sobra para todos os crocodilos.




Félix Houphouet Boigny faleceu em 1993 no exercício do sétimo mandato com Presidente da Costa do Marfim. Foi sepultado um mês após o falecimento. 
Esta reportagem não respeitou a lei costamarfinense que proíbe traduzir o nome do país. 

Reportagem de João Paulo Guerra, O Diário, 23 Dezembro 1989, 
à margem da reportagem da visita do Presidente Mário Soares à Costa do Marfim. 

1 comentário:

Mário Reis disse...

Prezado JPG

Muito bom.
Cumprimentos