sábado, 17 de junho de 2017

Álvaro Belo Marques 1931 - 2017

Morreu o Álvaro Belo Marques, deixou-nos pelas 23 e 20 de sexta-feira, 16 de Junho.
Estou a vê-lo, em Maputo, segunda metade dos anos 80, de guarda-pó vestido, a conduzir uma motoreta, depressa, muito depressa para chegar a tempo de salvar o mundo. E no céu, sob o comando do grande capitão da generosidade e da imaginação, voavam papagaios de papel lançados pelas crianças dos bairros para lá do alcatrão. Deixa duas filhas, Vera e Alexandra, um filho, Dario, e um neto, Tiago, deixa também muitos e grandes amigos.
APRESENTAÇÃO DE 3 NOVELAS DE ÁLVARO BELO MARQUES, LANÇADAS EM SIMULTÂNEO E EM LISBOA EM 19 DE SETEMBRO DE 2016, CONSTITUINDO RECORDE NACIONAL DO LANÇAMENTO DO LIVRO. 
Não é corrente um autor lançar três livros de uma assentada. O lançamento do disco é bem mais antigo. Quanto à modalidade do lançamento do livro, um arremesso de três volumes é obra e grande proeza do autor.  

Mas quem é o autor? – ED. B. Silverman diz o convite. Vejamos quem é quem. 
Em carta ao editor, o autor Silverman lamenta não poder fornecer-lhe uma biografia. E acrescenta:
«Invente você uma [biografia] para mim, fazendo-me passar pela redacção de um grande jornal diário, aos 24 anos de idade (o que é quase verdade), e descubra-me uma vida atribulada em várias partes do mundo (o que é quase mentira).»
Convenhamos que o autor não colabora. Mas dá pistas.
Mas a dúvida mantém-se: quem é Ed B Silverman, o autor?
Prevendo que me fizessem a pergunta, escalpelizei todas as notas prefaciais e pós-laborais, de pé de página, em rodapé, como em roda livre, todas as anotações coligidas na correspondência trocada entre o editor e o autor e cheguei a algumas inferências.
A primeira e essencial dedução é que o autor da trilogia, cujo lançamento aqui nos reúne, das duas, uma:
Ou é Ed. B. Silverman. Ou… então não é. Senão vejamos.
Nos termos da vasta anotação compulsada, Ed. B. Silverman terá publicado diversas obras na área da Antropologia, antes de enveredar pela ficção, com a primeira das três novelas da trilogia. Ora em correspondência para o editor, datada - embora sem data - de Austin, Texas, o autor reconhece que, ao contrário da novelística, na ensaística assinou e publicou «sem pseudónimo».
Quer isto dizer que a assinatura das novelas da trilogia é um pseudónimo?
E sendo um pseudónimo, Ed. B. Silverman oculta o nome de quem? Mais um pseudónimo do homem do baú? Não me parece.
E se o autor viesse da rádio, em vez de pseudónimo teria um éter… ónimo?
A minha investigação foi tão exaustiva como infrutuosa.
O mais longe que cheguei foi à última página do terceiro e último volume da trilogia. E foi aí que tropecei numa decisiva nótula, assinada esta por um agente literário que apenas se manifesta ao dobrar a derradeira página e após a apostilha: Fim.
Reza a nota pós-final:
Por indicação do tradutor, este livro não se rege pelo último acordo ortográfico.
Quem será então este tradutor que assume a responsabilidade de resgatar as consoantes mudas?
A nota do tradutor é assinada pelas iniciais: A.B.M. 
Penso que lendo com a atenção que merecem ser lidas as três novelas desta trilogia - 1 - O Caso da Mulher Com Um Olho de Vidro; The Case of the Glass Eyed Woman, na língua de Shakespeare… e de Bob Dylan; 2 - Crime Cracker; 3 - O Papagaio Assassino -… teremos a resposta a esta questão.
O autor, em carta ao editor, define as três novelas como anti-policiais, com situações estereotipadas, e/ou satíricas.
Álvaro Belo Marques com as filhas, Alexandra e Vera
E eu reconheço alguns estereótipos e alguma veia satírica na prosa das três novelas. Como também julgo encontrar nestes divertidíssimos textos alguns traços da imaginação e da vida de um A.B.M. que bem conheço: Á de Álvaro, BM de Belo Marques.
Eis o autor: Álvaro Belo Marques.

E ANTES QUE ME ESQUEÇA, TRAGO-TE UM RECADO:
Ao Álvaro, um grande abraço. Estarei presente porque, convosco, sempre estamos juntos. Ainda guardo os velhos policiais que me ofereceste em tempos que já lá vão. Fico aguardando que um amigo vá a Lisboa pra me trazer os novos policiais. Renovo o meu abraço. Zé . Jose Luis Cabaco

Privei mais de perto com o Álvaro no período mais criativo e festivo da sociedade portuguesa: em 1974 / 75. Quando ele foi o primeiro director de Programas da resgatada Emissora Nacional.
Mas depois a revanche cortou-nos as pernas e a vida afastou-nos. No entanto fui sabendo do meu amigo. E até bebi com ele, na sua casa em Maputo, a garrafa que levei de Lisboa para esse efeito. 
E fui lendo a sua prosa, em livros – como “O Barco encalhado” (publicado e premiado em Itália), ou “Quem matou Samora Machel?”
Li-o também em jornais, depois na Internet. Por exemplo, nos blogues Folha de Couve ou Lendo Livros.
Neste último, Álvaro Belo Marques identifica os seus interesses: Música, livros e papagaios (kites). É tudo.
Lendo a terceira novela da Trilogia, recordei-me necessariamente do caso dos Papagaios de Álvaro Belo Marques,  em Moçambique, nos primeiros anos da independência, quando ainda havia crença e confiança no novo país.
No dia 1 de Agosto de 1980, os céus de Maputo iluminaram-se com uma simples ideia do Álvaro: sem outros meios disponíveis, pôs centenas de crianças de escolas de Maputo a fazer e a lançar nos ares papagaios de papel. Foi uma grande festa e um enorme espectáculo para as câmaras da Televisão Experimental de Moçambique, da qual o Álvaro foi fundador e primeiro director.
E agora, na terceira das novelas, lá se cruzam papagaios de papel e Moçambique numa novela.
A cena dos papagaios na novela já não é de festa, nada disso; mas a fisionomia de Moçambique também mudou. Os papagaios agora são assassinos enquanto em Moçambique alguém matou a crença e a confiança e mudou a história. “Quem matou Samora Machel?”, Interrogou-se Álvaro Belo Marques em 1987?
E ninguém terá estado tão perto da resposta como ele.

Álvaro com o filho, Dario. 
Mas deixemos por agora o autor. E mãos à obra.
Esta trilogia tem uma particularidade: no momento do respectivo lançamento já tem críticas azedas à primeira das três novelas por parte de um colérico crítico, de seu nome Henry Dalsdale, que publica periodicamente uma coluna de crítica literária no Washington Times, um título lançado pela seita Moon, para fazer frente ao liberalismo – digamos assim - do Washington Post.
É o próprio autor que anuncia, numa espécie de prefácio da segunda novela, a artilharia pesada despejada por Dalsdale sobre a novela O Caso da Mulher com um Olho de Vidro:
As personagens estão mal retratadas fisicamente; O autor não sabe descrever cenários; O autor nunca fala do estado do tempo.
O autor conhecia o crítico da Faculdade e recordava-se dele: Um “menino de família” gordinho, anafadinho, bem vestidinho e cheio de borbulhas na cara.
Não pode porém dizer-se que o autor rejeite a crítica em geral. Na verdade, o próprio autor, que já foi crítico, é agora autocrítico, quando reconhece que na primeira parte da primeira novela haverá… sangue a mais e consumo de whisky a menos
Dando ouvidos à autocrítica, o autor corrige na segunda parte, obedecendo a uma regra básica: em cada novela policial, deve haver um consumo mínimo de 18 garrafas de whisky.
Engarrafadas as críticas, vamos às novelas.
Álvaro Belo Marques define a primeira das novelas como antipolicial. A segunda e a terceira não o serão menos.
E no entanto, por estas novelas circulam personagens, desempenhando o papel de si próprias, chamadas Nero Wolf, Miss Marple, Hércule Poirot, detective Columbo… Assim como há personagens denominadas Freud, Ofélia, Hamlet, Bing Crosby, Errol Flinn, Betty Grable, Guilherme Tell…
- Guilherme Tell, que nome – rosna o inspector Rockfeller.
A primeira novela gira em redor de dois nomes: Maureen, a bela do olho de vidro; e O’Hara, o chefe da polícia, um bandido de perna de pau para fazer pendant com o olho de vidro da bela.
De passagem por Nova Iorque – o centro nevrálgico dos cenários da trilogia – Hércule Poirot, o próprio, aceita receber o chefe O’Hara. Ouve-o com alguma impaciência e despacha-o com um consabido conselho, em francês da Valónia:
- Cherchez la femme.
Na terceira novela, O Papagaio Assassino, Miss Jane Marple atende o telefone e delicadamente dá seguimento à conversa de um americano recém-chegado a Londres que a quer conhecer, marcando-lhe encontro em St. Mary Mead, Redforshire.
- É jornalista? – Pergunta Miss Marple, intrigada com o interesse do americano.
- Não, Miss Marple. Sou detective particular.
- Ó, não!
Álvaro com o apresentador do livro
O detective, o anti-herói das três novelas, é Vale, Bronco Vale, e no primeiro caso está nas lonas – praticamente falido, deprimido como os heróis das novelas de Chandler ou de Hammett -, há quase um mês sem um único cliente, a dosear o consumo de whisky. E é nesse preciso momento que entra no escritório decadente a garota mais gira que Bronco vira nos dias da sua vida.
A garota chama-se Linda, de apelido Marlowe, e é ela quem abona ao detective em pré-falência 250 dólares por cinco dias de investigação mais despesas. E Bronco Vale investiga assim o caso das vítimas que explodem por dentro.
Na segunda novela, Crime Cracker, Bronco Vale está bem instalado na vida: está casado com Linda, agora viúva do agente Marlowe, que o contrata para investigar a morte do ex-marido.
Vale, além de Bronco, é agora rico, ocioso, vive numa mansão, veste um roupão de seda para ouvir música e folhear as páginas dos jornais, para seguir de longe as notícias que pingam sangue.
Mas, tal como os criminosos, Bronco Vale não resiste ao apelo e volta sempre aos locais dos crimes. Será que a ignição do MG descapotável de Miss Janet é a chave do Crime Cracker?
Na terceira novela, O Papagaio Assassino, o detective privado continua bem instalado na vida, dirige a Bronco Vale Investigações.
Constituição da equipa: secretária Betty Grable; polícia reformado: Errol Flinn; estagiário, expulso da Academia de Polícia: David Copperfield.
A história de O Papagaio Assassino começa em Londres, com um papagaio a descer em voo picado até espetar-se na barriga de alguém que simplesmente acabara de chegar ao parque. Sabe-se depois que a vítima era um comerciante indiano nascido em Moçambique, e que só não morreu por acaso.
As coisas precipitam-se: Flinn leva um tiro no tornozelo; Bronco leva mais um tiro, desta vez no rabo e de raspão; encontram-se no Hospital St. James, ao cuidado do Dr. Kildare.
- Estou farto de levar tiros - Desabafa Bronco Vale.
- Não quero estar casada com um homem que leva tiros – Decide Linda.
Apesar de estarem de acordo, separam-se por isso mesmo.
Sem Linda, Bronco Vale assenta arraiais no 4 de Espadas.
O bar é um ninho de espiões, agentes secretos, etc., é ali que Bronco Vale encontra as pontas soltas do caso do Papagaio Assassino e resolve o mistério.
Estão a comemorar a resolução do caso e os largos proventos daí resultantes, quando toca o telefone. Betty Grable atende. 
- Quem era? – Pergunta Bronco Vale, quando Betty desliga.
- Um possível cliente – responde. – Mandei-o ligar amanhã. Hoje estamos a comemorar O Dia de São Detective Particular.

Recapitulemos: Estereótipos nas personagens e sátira no enredo, nas situações e nos diálogos são o que mais há nas três novelas de Álvaro Belo Marques, editadas pela Chiado Editora. 
E também um sentido e um exercício de humor irresistível, uma cultura sólida que sustenta uma narrativa líquida, fluente, enquadrando a construção de cada uma e do conjunto das três novelas, escritas num português primoroso, oral e malandro.
Tudo isto em assumido desacordo ortográfico. Bem-haja.
Álvaro Belo Marques tem todas estas e muitas outras qualidades, em cima de uma vasta cultura e de larguíssima experiência de vida, de escrita, de oralidade na rádio, de cor e movimento na tv – recordemos os papagaios de Maputo.
É com essas qualidades, com um grande talento, um fremente desejo de comunicar – coarctados em tantos regimes e latitudes e tantas e tantas vezes – que Álvaro Belo Marques tece esta obra surpreendente: mirabolantes histórias que gozam com o arco de padrões e preconceitos numa irreverência que desafia o ideário e os modelos dos anafadinhos, bem vestidinhos e borbulhentos que ditam a moda e os paradigmas… também nas letras e nas artes.
E na comunicação. Moçambique – onde Álvaro Belo Marques viveu de 1977 a 1988 - e ensinou as futuras gerações de jornalistas –… Moçambique fez o que não fez a imprensa portuguesa: deu notícia do lançamento das três novelas do Álvaro Belo Marques.
Deixemos cada um com a sua glória ou as suas vilezas e voltemos ao bom do Álvaro Belo Marques e às três novelas em boa hora lançadas pela Chiado Editora.
Eu que conheço o Álvaro Belo Marques, que trabalhei sob a direcção do seu entusiasmo, dinamismo, criatividade, eu que ouvi as suas histórias na rádio, que li agora as novelas, eu, se mandasse, dava um prémio por esta obra ao Álvaro Belo Marques. 
A este autor que lança três livros de uma penada, aos 84 anos feitos, eu dava um prémio Revelação.
Há um Belo Marques no céu das colcheias e das semifusas com razão para ter orgulho no nome com que o filho assina: Álvaro Belo Marques.
Muito obrigado Álvaro.
        João Paulo Guerra / 19 de Setembro de 2016 

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