quarta-feira, 15 de junho de 2016

As feridas da guerra que nunca saram

Por Fernando Sobral, 
Jornal de Negócios, 4 de Março de 2016

João Paulo Guerra traz-nos uma história que é a de muitos portugueses perdidos no seu passado e no seu presente. Nunca se livraram dos ecos da guerra colonial. E essa memória ficou ali, sempre, à espera de um epílogo.

Muitas guerras ficaram escondidas no coração e na cabeça daqueles que fizeram as guerras de África. São guerras que nunca acabaram com o fim do tempo de permanência em Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau, nem foram apagadas pela retirada portuguesa, terminando uma luta sem sentido. São guerras que ficaram marcadas a ferro e fogo, como tatuagens que nunca mais é possível retirar da pele. Porque surgem sempre como fantasmas diurnos e nocturnos que esvoaçam dentro da cabeça dos que viveram esses dias.
João Paulo Guerra, neste romance de uma beleza serena mas cortante, evoca essa guerra de guerrilha que cada antigo soldado traz consigo só. 


Muito depois de terminadas as hostilidades. “Corações Irritáveis” é um romance sobre esse Portugal silencioso, que se encontra ainda em muitos recantos deste país, e que cada um tenta pacificar à sua maneira. Se é que consegue.
        “Corações Irritáveis” centra-se na vida (e morte) de Henrique e na forma como a sua mulher, Adélia, vai abrindo o jogo da sua existência e a inspectora da Brigada de Homicídios, Diamantina de Jesus, vai penetrando na densa selva que foi a passagem do falecido pela Terra. Encontrado no Rio Jamor, Henrique é um mistério que vagueia como um fantasma, entre os anos da guerra (em Moçambique, entre 1967 e 1969) e a ressaca dela, trabalhando no sector da publicidade, como Diamantina vai percebendo quando fala com os seus “amigos”. A vida de Henrique é percorrida por Diamantina: os seus anos pós-25 de Abril, na “dinamização cultural”, nos sonhos de um país mais justo, no fim de uma ambição colectiva que se esvaiu nas noites de Lisboa, ao som dos Doors no Jamaica. Adélia mostra o outro lado de Henrique: as feridas da guerra nunca cicatrizadas, que resultam em insónias, crescente ansiedade, incapacidade de concentração. E Diamantina vai descobrindo os homens sue têm agora uma outra guerra para combater, como lhe explica uma psiquiatra: “Esses homens foram treinados para matar os inimigos (…) Mas, na guerra que travam agora, os inimigos são eles próprios. “Alguns usam botas da tropa, os apanhados”, como recorda um colega de Henrique.

        Tudo aqui circula à volta da guerra e dos despojos dela. Não aqueles que trazem riqueza, mas sim os que causam danos irreparáveis que apenas vão crescendo com o tempo. Como explica um dos colegas de Henrique:
“O Henrique tinha, como todos nós, uma experiência na guerra. Nós falamos muito dessas coisas, mas não passamos alguns limites. Controlamos a situação até onde for possível sem nos magoarmos. Falar faz bem, deita cá para fora o que nos anda a moer a cabeça mas cada um fica com muita coisa por contar. Mas se vamos para lá dos limites… entramos em parafuso, perdemos o controlo”. Por vezes, a barragem cede e os danos são colaterais e sem fim. A pista da vida que Diamantina segue, a de Henrique, é isso mesmo. E é o retrato de milhares de portugueses que por aí andam, ainda a controlar a dor da guerra.
E é por isso que este livro é ainda mais belo na forma como nos fala de uma ferida que nunca cicatrizou.
Fernando Sobral, Jornal de Negócios, 4 de Março de 2016

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