sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Luiz Pacheco: Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor …


Entrevista de João Paulo Guerra
TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas

Da autoria do escritor Luiz Pacheco sai hoje [Maio de 1992] a reedição de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Um acontecimento num país que também nas letras é geralmente de brandos costumes.


O Libertino etc., foi escrito em 1961 e publicado em 1970 provocando muito escândalo. É a narrativa de um dia passado numa Braga lúbrica. E logo Braga, a cidade dos arcebispos. O próprio autor filiou a narrativa numa corrente neo-abjeccionista.
Com 67 anos de uma vida airada, Luiz Pacheco vive actualmente em Setúbal. E é de lá, em directo, que aceita conversar sobre a reedição – para a qual deu uns retoques no texto de O Libertino… –, sobre a actualidade que, seja onde for, acompanha com atenção: a reforma da PAC ou a reserva dos coronéis, o pacote Delors 2 ou o Evangelho segundo Sousa Lara, o Tratado de Maastricht ou a nova Ponte sobre o Tejo, numa conversa de ida e volta ao mundo, com partida da Europa.

Luiz Pacheco – Europa? Qual Europa?


JPG – A Europa.
Luiz Pacheco – Ah nós, a Europa!
JPG – Sim. E então?
Luiz Pacheco – Cada vez pior.
JPG – Então porquê?
Luiz Pacheco – Olha, a PAC, água. Era o que dizia o Barreto aqui há dias no Público. Portanto, a PAC, água. Lá o acordo de não sei quê…
JPG – De Maastricht…
Luiz Pacheco – Água.
JPG – O pacote Delors 2?
Luiz Pacheco – Água. A Bósnia Herzegovina, água. E depois teremos o encerramento com um balanço do senhor primeiro-ministro.
JPG - A presidência portuguesa?
Luiz Pacheco – Óptima. Recheada de montes de dinheiro em viagens.
JPG – O secretário de Estado da Cultura?
Luiz Pacheco – Eu gosto imenso. Não te esqueças que eu vivo à base do secretário de Estado da Cultura.
JPG – E o subsecretário?
Luiz Pacheco – Aquele, o baixinho? Não vale nada. É um otário. Nem sabe ser inquisidor.
JPG – E Setúbal?
Luiz Pacheco – Setúbal, olha, está cada vez mais linda.
JPG – E está idolátrica?
Luiz Pacheco – Não, não, não. Muito composta. Muito hetero…
JPG – E o Sado?
Luiz Pacheco – O Sado não está tão poluído como o Tejo. Eu tenho ido muitas vezes a Setúbal… É o problema da luz. Vivo num quarto às escuras porque não há luz na casa. O estupor da senhoria não pagou a luz em 91…
JPG – E ao menos tens uma janela?
Luiz Pacheco – Há janela e com vista para a linha do comboio. Quando eu me quiser suicidar é limpinho.
JPG – Não tens vista para o rio?
Luiz Pacheco – Não porque é um bairro periférico. É um bairro até muito bem situado, o bairro de São Gabriel, mas é um bairro periférico, quase fora de Setúbal.
JPG – Vamos mais longe: o mundo?
Luiz Pacheco – Eu estou-me a aproximar do além. Fiz 67 no dia 7 deste mês. E estou com três hérnias e enfizemas. Mas estou muito bem-disposto. Estou a gostar de chegar amanhã e estar vivo ainda. 
JPG – Mais casos da actualidade: a concessão de reformas aos pides?
Luiz Pacheco – Isso é uma vergonha. Um nojo.
JPG – O caso da reforma dos coronéis?
Luiz Pacheco – Isso acho graça. É a brigada do reumático. E o caso dos generais ainda acho mais graça. Para que é que nós precisamos de tantos coronéis e de tantos generais? Basta um sargento. O sargento Nogueira, por exemplo, não é? Eu reformava o Exército todo. A não ser que fosse para substituir os bombeiros, que era uma tarefa útil e bonita. Todos os magalas a substituir os bombeiros…
JPG – E o que é que faziam os capitães, os majores, os coronéis, os generais?
Luiz Pacheco – Iam para o Ultramar. Esses rapazes têm sempre maneira de safar a onça, quer dizer, o dinheirinho deles. São muitos coronéis e muitos generais para um exército que, no final de contas, não serve para nada. Temos aquelas fragatas Meko, um dinheirão, para quê? Para o Mário Soares ir apanhar ar de vez em quando?
JPG – E o ambiente?
Luiz Pacheco – O ambiente acho imensa graça. Agora há um slogan na Emissora Nacional que é assim: “Veja se a sua torneira está a pingar. Poupe água porque em África há muita falta de água.” Parece que as nossas torneiras é que vão dar um aqueduto para Angola.
JPG – E a localização da futura ponte sobre o Tejo?
Luiz Pacheco – Eu aprovo o Montijo. Fica aqui mais perto do Pinhal Novo.
JPG – Mas ainda não há nada como um cacilheiro?
Luiz Pacheco – Sim, sim. Um cacilheiro com radar, claro. Mas em dias de calmaria. E os barcos do Barreiro são bonzinhos. Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor. E temos aquela fábula do Voltaire que é “cada um cuida do seu jardim”. Já não é mau, não chateia os outros.
JPG – Luiz Pacheco: reedição de O Libertino. O Libertino, com 30 anos, está velho?
Luiz Pacheco – Ó pá, isso é uma coisa que se vai ver agora. Eu pessoalmente estou muito velho. Estou velho, reformado e já fora da corrida. Agora o texto, eu dei-lhe assim uns toquezitos… O Rodrigues da Silva dizia que gostava de textos com rugas. Mas há sempre coisas que a gente, perante um texto de há 30 anos, está a ver aquilo como se fosse um texto de outro. De maneira que dei-lhe uma coisa mínima, uns ligeiros toquezinhos…
JPG – Esses toques foram para disfarçar as rugas ou para acentuar as rugas?
Luiz Pacheco – Isso agora não sei. Sabes como é com aquelas velhas que se pintam todas e ainda é pior… Agora, o texto é aquele e já não há nada a fazer. O que havia era isto: houve uma reportagem de um rapaz de O Jornal, que é o Francisco Valle, e uma reportagem do Torquato Sepúlveda, que diziam que havia um deslize da Idolátrica para o lado dos bares, das boîtes, da grande rebaldaria heterossexual. E eu atrasei um bocadinho o texto, este, porque pensei assim: afinal de contas, este texto, em Braga, vai provocar de facto é o riso. Agora, a opinião é das pessoas.
JPG – Mas esses pequenos toques no texto foram conferidos com essa realidade actual?
Luiz Pacheco – Não, não, nem pensar nisso. Eu acho que por detrás daquilo que eles lá viram há outras coisas que eles não viram. Porque apenas se encontra aquilo que se procura. Porque se forem à procura em Braga de boîtes, boas jantaradas, encontram. Se forem à procura de outra coisa também encontram.
JPG – Qual coisa?
Luiz Pacheco – Coisas que não se dizem em público.
JPG – Não se dizem porquê? Quem é que não deixa? Algum subsecretário de Estado?
Luiz Pacheco – Não, não, ainda não chegámos a isso. Nem eu quero o prémio europeu para o meu texto. Eu queria era dedicar o meu texto a Sua Reverendíssima o Arcebispo Primaz de Braga. Vou-lhe mandar o exemplar número 1, com uma dedicatória especial. Porque aí dizem que não há cortes, mas há, aí houve…
JPG – Quem cortou o quê?
Luiz Pacheco – A tipografia receou imprimir a dedicatória porque receou que Sua Excelência Dom Eurico Nogueira ficasse indignado. Eu queria dedicar-lhe o livro. Agora vou mandar-lhe o exemplar nº 1 com uma dedicatória.
JPG – E o exemplar nº 2 é para o cónego Melo?
Luiz Pacheco – Exactamente. Acertaste, pá. Era mesmo para o cónego Melo, esse bombista… Bom, acho que já disse tudo. Queres mais conversa?

Luiz Pacheco, O Libertino passeia a sua visão do mundo na antena da rádio. Há uma nova versão do texto O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor,  e assim houve uma conversa com Luiz Pacheco, o autor, sobre tudo e, acima de tudo, sobre mais algumas coisas.
 
João Paulo Guerra, TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas.

Luiz Pacheco (Lisboa, 7 de Maio de 1925 — Montijo, 5 de Janeiro de 2008)


4 comentários:

Rui F Santos disse...

pérola preciosa!
bem haja

Anónimo disse...

Isto é do tempo em que a rádio transmitia coisas surpreendentes. Isto é do tempo em que se ouviam na rádio coisas inesperadas. Isto é do tempo da rádio.

Anónimo disse...

Eram Os Dias da Rádio. Mas acabaram, como tudo o que é bom, para dar lugar à fancaria.
Sobrestimado Ouvinte

Anónimo disse...

Anda Pacheco! Estejas onde estiveres.