quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Cores felizes na paleta de Malangatana


Por João Paulo Guerra,
TSF, Outubro 1994

Moçambique está em Festa, uma festa com muitas cores. Nesta quadra de eleições multipartidárias, Moçambique está multicolor.
Estou na cidade de Maputo, no Bairro do Aeroporto, no atelier do pintor Malangatana Valente Ngwenya, moçambicano, 58 anos, um artista do mundo e da paz. Este homem que esteve preso três vezes pelo regime colonial, uma das quais por motivo de um quadro que pintou, o quadro “25 de Setembro”, a data do início, em 1964, da luta armada pela libertação, e que depois da independência do seu país esteve de novo detido, dessa vez num campo de reeducação, como castigo pelo seu comportamento na época colonial, este homem está também em Festa, agora que Moçambique tem eleições multicolores.


JPG - Malangatana, quais são hoje as cores para pintar Moçambique?
Malangatana – São as cores mais felizes, os amarelos, os verdes, os azuis….
JPG – Essas são as cores da democracia?
Malangatana - Sim sim, sim. E eu sinto-me muito feliz porque democracia não é uma coisa fácil. Não é a mesma coisa que levantarmo-nos de manhã e pisar o amendoim. Ou tocar o tambor. É uma coisa um pouco mais complexa. Mas felizmente, não se dada a situação de guerra que nós passámos, há uma certa politização que nós tivemos desde 1974-75, logo após a independência, que as populações mesmo das regiões mais recônditas entendem mais ou menos o que é a democracia. Pode haver confusão, isso não tenho dúvidas, mas há uma compreensão. E essa compreensão é saber o que é que eu quero, o que é que nós queremos.
JPG – E isso tem representação em cores. Uma cor ou cores para a liberdade?
Malangatana – As cores garridas de que homens e mulheres se têm vestido e revestido, principalmente nos últimos 30 dias, é uma manifestação de liberdade. Porque depois da guerra fatigante entre moçambicanos e portugueses, nós entrámos depois numa guerra ainda mais dura. Nós acusávamos o regime português de colonialismo e de fascismo. Mas depois ainda tivemos algo mais terrível, com massacres perpetrados por grupos que também diziam que queriam libertar Moçambique. Não entendo porquê. Foi a guerra da Rodésia, de Ian Smith, contra Moçambique e com utilização de moçambicanos, depois com participação da África do Sul e de outras potências de fora e longe de Moçambique. Isso criou uma tensão permanente. Eu não entendo que um coração de um homem possa aceitar a chacina. Eu não sou rancoroso, não quero ficar a repisar nestas coisas. Mas isto é importante que se diga para os seus ouvintes entenderem bem a complexidade deste país. Acreditem que nós hoje em Moçambique temos uma grande parte da população mutilada: cortaram-lhes membros, sexos, orelhas, narizes. Mas os moçambicanos não são rancorosos. Podem pedir que devolvam o gado que lhes roubaram, as manchambas que lhes destruíram. Mas não guardou rancor ao ponto de dizer: Aqueles que fizeram isto vão-se haver comigo.
JPG – Picasso representou a Paz por uma pomba. Se tivesse que representar a paz em moçambique como o faria?
Malangatana – Eu estou a preparar uma exposição que bem poderia ter sido preparada para mostrar agora, para inaugurar depois das eleições e comemorar uma nova República, seja ela governada por quem for, resultando de eleições justas, como espero que sejam. Essa exposição tem telas com títulos como “Bailado em Outubro”, “Canção de amor em Outubro”, são pinturas de um tempo de paz e de liberdade. E o mesmo está a acontecer com trabalhos de outros pintores, escritores, músicos, artistas de teatro moçambicanos, neste momento felizes por ter acabado a guerra e termos ganho a democracia. A cultura, que é uma área muito sensível, está a começar a dar-se muito bem com a paz e a liberdade.


JPG – Estamos aqui em frente do quadro “Bailado em Outubro de 1994”. Deve ser mais fácil para si transmitir estas ideias e sentimentos pintando o quadro do que descrevendo-o. Mas lanço o desafio.
Malangatana - Todas as figuras deste quadro têm uma característica comum: estão a dançar – é o “Bailado em Outubro” - mas como que a voar. E em fundo está um astro, um sol ou uma lua, completamente branco, onde se destacam estas figuras verdes, azuis, violetas. É um bailado, uma festa.
JPG – A grande diferença que vejo neste quadro em relação à maior parte da sua pintura, é que neste não existem grandes olhos espantados, como que a interrogar quem olha para eles.
Malangatana – Pois, é isso. Aqui não é o caso. É uma festa. É o que eu tenho sentido. Tenho andado muito por aí, tenho falado com muita gente, e há uma alegria, uma festa. Eu transmito isso. Aqui neste outro quadro, também está representado esse sentimento. Este aqui: “Canto à paz – A Primavera de Outubro”, é uma tela quase toda ela pintada de verdes e azuis, com umas folhas que vão caindo sobre as pessoas, como se desprendessem de uma árvore.
JPG – Olhando estas paredes temos aqui muitas telas que são a marca do pintor Malangatana durante muitos anos: estas figuras passaram a ser a representação do sofrimento.
Malangatana – Sim, eu comecei a pintar e da pintura da paisagem saltei logo para esta forma de pintar o homem e o seu sofrimento. Foi como se pegasse numa câmara do coração e saísse para a rua a fotografar sem traição, o homem e o seu sofrimento. É uma época. Oxalá que não se repita. Não apenas em Moçambique. Eu não vivo só os problemas de Moçambique. Este desenho a preto e branco, aqui à nossa frente, fi-lo em Portugal, quando foram os Acordos de Bicesse e eu nessa ocasião senti-me angolano. Desenhei os cadáveres da guerra terrível em Angola a saírem dos túmulos e a irem para casa. Eu sou moçambicano mas perante uma situação de guerra, de fome, de sofrimento, sou angolano, jugoslavo, português.



Malangatana Valente Ngwenya nasceu na localidade moçambicana de Matalana, em Junho de 1936 e faleceu em Matosinhos, Portugal, em Janeiro de 2011. Na juventude foi pastor, aprendiz de curandeiro, mainato e apanha-bolas num clube de ténis em Lourenço Marques. 
Frequentou a escola, começou a pintar, foi pintor, escultor, poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural. Expôs pintura e está representado em museus e coleções em Moçambique, Portugal, Alemanha, Áustria e Bulgária, Chile, Brasil, Angola e Cuba, Estados Unidos, Índia, África do Sul, Suazilândia, Colômbia e Suécia.

Entrevista em Outubro de 1994, na reportagem para a TSF da campanha para as primeiras eleições multipartidárias em Moçambique.
As fotos foram tiradas pelo autor durante a entrevista e visita ao atelier de Malangatana. 

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