sábado, 31 de janeiro de 2015

Fátima made in China


Fátima é uma imensa montra de ícones religiosos e quinquilharia diversa. «Há muito concorrência», diz uma lojista da Cruz Alta. E quem levante dúvidas recebe como resposta uma citação do Papa:
Rezem, rezem e não perguntem mais nada...

João Paulo Guerra,
Diário Económico, 12 Maio 2000

Os comerciantes das pequenas lojas de recordações que pagam renda ao Santuário de Fátima queixam-se que não há mercadoria alusiva à visita do Papa e à beatificação dos pastorinhos. E têm razão. Percorrendo os quiosques anexos ao Santuário, encontra-se toda a sorte de bugigangas. Mas quanto ao Papa só está disponível impresso sobre um prato de barro, uma imagem do tempo da primeira peregrinação à Cova da Iria, apresentando João Paulo II com menos dezoito anos de idade. Um milagre. E quanto aos pastorinhos só existe a imagem tradicional: Lúcia de Jesus, Jacinta e Francisco Marto de joelhos aos pés de Nossa Senhora, em todos os materiais, formatos e cores imagináveis, com mais ou menos adornos, com ou sem efeitos musicais e de iluminação.


Os comerciantes atribuem esta falta de sensibilidade para corresponder à procura do mercado ao facto de a generalidade dos artigos disponíveis serem actualmente fabricados na China. Em Fátima existe um único fabricante, com oficina na Rua de Santo António, e de resto toda a produção é importada da China comunista ou da anticomunista: «Made in China». 

A arrendatária da Loja 10 ainda esperava, no fim da semana passada, uma remessa de imagens actuais do Santo Padre, gravadas em estanho. Mas já desesperava que a encomenda chegasse a tempo da peregrinação. «O negócio nos últimos tempos está mau. Há muita gente a passear, a ver, mas poucos são os que compram», lamentava-se. Com o poder de compra não há milagres. E acrescentava que a crise do sector é agravada pelo grande número de roubos. No Comando da PSP, não havia estatísticas disponíveis sobre furtos participados em peregrinações anteriores, mas admitia-se que o maior problema de Fátima, em matéria de crimes contra a propriedade, são os que resultam da actuação de carteiristas. «Muitos peregrinos trazem todo o dinheiro que têm, para não o deixarem debaixo do colchão, com medo dos ladrões, e depois são roubados aqui pelos carteiristas», relata uma comerciante da zona do Santuário.
Em Fátima multiplicam-se os estabelecimentos comerciais de recordações, não apenas junto ao Santuário. Toda a cidade é uma imensa montra de imagens, terços, santinhos e quinquilharia diversa. «Há muito concorrência», diz uma lojista da Cruz Alta. Também em Fátima já se instalaram as ‘lojas dos 300’ para venda de lembranças religiosas.

Para atrair os clientes, e corresponder à diversidade da procura, as lojas não se limitam a comercializar artigos religiosos e similares. Os grandes grupos de consumidores merecem particular atenção do comércio de Fátima. Há iconografia variada para os adeptos do futebol, em muitos casos associando o Milagre de Fátima ao emblema do clube, como há vinho do Porto para os turistas e brinquedos para as crianças. Mas também aqui a oferta peca por falta de novidade. O Pokémon não chegou às lojas de Fátima onde ainda imperam os Teletubbies e as Barbies.
Quanto aos pagadores de promessas, esses têm uma oferta completa. «O que sai mais são pernas», diz uma empregada da Loja 33. Mas a gama de artigos produzidos na Fábrica de Ceras, da Eira da Pedra, é vasta: pernas, pés, braços, cabeças, corações, intestinos, estômagos, fígados e outras vísceras, há de quase tudo no vasto mercado da anatomia da cera.

8000 camas
Na cidade de Fátima estão recenseados cerca de 30 hotéis, pensões e estalagens, com uma capacidade aproximada de quatro mil camas: do Hotel Três Pastorinhos à Pensão 13 de Outubro, do Solar da Marta à Casa Beato Nuno. Mas calcula-se que o mercado paralelo de hospedarias, partes de casa, quartos e alojamentos improvisados represente outras tantas camas. Esperando-se este ano uma afluência de mais de meio milhão de peregrinos, a oferta só cobre, assim, menos de dois por cento da procura.
No Hotel Verbo Divino, com capacidade para albergar 550 pessoas, a lotação está esgotada desde o ano passado. Propriedade de uma congregação alemã, o Verbo Divino, Hotel de três estrelas, financia a actividade missionária em vários países do Terceiro Mundo. «O lucro não é para nenhum patrão comprar Mercedes. Vai para Roma, onde está o general da Congregação», esclarece o gerente.
Quanto à restauração, a cidade oferece cerca de duas dezenas de estabelecimentos, para todos os preços e paladares. No Restaurante João Paulo II, por exemplo, serve-se o prato do dia a partir de 850 escudos (4,24 euros). Mas também o mapa da verdadeira e melhor gastronomia portuguesa passa obrigatoriamente por Fátima, de preferência fora da época das peregrinações, onde a Tia Alice serve um bacalhau ou um arroz de pato que são, estes sim, um verdadeiro segredo e um autêntico milagre.

          Fátima 2000
Entre o fim do dia de hoje e a tarde de amanhã, o espaço aéreo da zona de Fátima estará sob controlo da Força Aérea e reservado às forças de segurança, da Protecção Civil e a um restrito número de meios da comunicação social. A visita de João Paulo II impõe rigorosas medidas de segurança e de prevenção para qualquer emergência, disse ao Diário Económico o governador do Distrito de Santarém.

As previsões da Meteorologia apontam para que, ao fim de semanas sucessivas de mau tempo, se repita este ano em Fátima o milagre do sol. Ou seja, o tempo deverá contribuir para mais um sucesso do turismo religioso, principal atracção da região, superando largamente a concorrência da Jazida paleontológica das pegadas de dinossáurios da Serra d`Aire, a 10 quilómetros de Fátima.

O governador do Distrito, Carlos Carvalho Cunha, que coordena no local a Operação Fátima 2000, espera que se desloquem a Fátima, entre hoje e amanhã, 500 a 600.000 peregrinos, ou seja, o dobro de uma peregrinação sem as atracções do Papa e da beatificação dos pastorinhos. E a primeira das suas preocupações é que os peregrinos cheguem todos ao local da peregrinação, mas que os 200.000 veículos esperados não entrem na cidade.
Assim, o trânsito para Fátima, que se soma ao tráfego normal de um fim-de-semana, será regulado não só por agentes da Brigada de Trânsito mas também por painéis electrónicos na autoestrada, indicando as saídas para a Cova da Iria e o acesso a 36 parques de estacionamento fora do perímetro de Fátima. Uma rádio local, funcionando na frequência 103.7 FM, dará permanentes informações sobre a situação do trânsito, acessos e estacionamentos.
A segurança é outra das preocupações do governador. Cerca de 1.300 graduados e agentes da PSP e GNR estão mobilizados, aos quais se soma um número indeterminado de operacionais do departamento de Protecção a Personalidades, da pessoal da Judiciária e do SIS, que garantem a segurança pessoal de João Paulo II. Centenas de bombeiros, 80 ambulâncias, três postos de saúde, mais cinco hospitais de segunda linha de prevenção, completam o quadro para a segurança e apoio aos peregrinos em geral e, em particular, ao primeiro de todos eles, Karol Józef Wojtyła, mais conhecido por João Paulo II.
O Papa, que chega hoje a Figo Maduro e viajará de helicóptero para Fátima, circulará entre o campo de futebol local e o Santuário por um corredor vedado à circulação e ao público. Para além das suas dificuldades de locomoção, motivos de segurança determinam que João Paulo II não dê um passo sem a rigorosa cobertura dos seus guarda-costas e outros acompanhantes mais próximos.
No perímetro de Fátima funcionarão também um Ponto de Encontro e um Centro de Acolhimento a Perdidos, destinados a pessoas desencontradas ou roubadas, com assistência a cargo de técnicos da segurança social, e parques infantis para crianças perdidas. A previsível saturação das redes de telemóveis agrava as preocupações quanto a pessoas desencontradas numa área onde se movimentarão centenas de milhares de peregrinos.
Perante toda esta situação, o governador do Distrito avança algumas recomendações aos peregrinos, as primeiras das quais são a antecedência na deslocação para Fátima e o acatamento das orientações das forças de segurança. Sem o respeito por estas condições, o mais certo é não chegar à Cova da Iria ou, chegando, ir a Fátima e não ver o Papa.

A fumaça de Satanás
O Museu das Aparições revela, por apenas 400 escudos (2 euros), os segredos e a mensagem profética de Fátima, anunciados por um Anjo, entre a Primavera e o Outono de 1916, e transmitidos a três pastorinhos – Francisco, Marta e Lúcia, de 7, 9 e 10 anos de idade - nas Aparições de Nossa Senhora entre Maio e Outubro de 1917, na Cova da Iria.
Através de figuras articuladas e animadas, em tamanho natural, o Museu reconstitui as aparições do Mensageiro Celeste e da Senhora, bem como o Milagre do Sol, e transmite o conteúdo do fenómeno, oficialmente reconhecido pela Igreja em 1930: a Salvação, através da devoção ao Imaculado Coração de Maria, e a visão do Inferno.
«Vimos, mergulhados num mar de chamas, os demónios e as almas, entre gritos e gemidos que horrorizavam…», relatou Lúcia de Jesus. A imagem horripilante também está reconstituída no Museu, acentuada por efeitos sonoros e luminosos.   
No Museu estão reconstituídos todos os passos do mistério de Fátima. As aparições do Anjo, atrás de um poço, na Loca do Cabeço, e as sucessivas aparições da Senhora «mais brilhante que o Sol», no local onde pastavam as ovelhas e hoje se ergue a Capelinha, em terreno pertencente ao pai de Lúcia negociado com o Patriarcado de Lisboa em 1919. «Entreguem metade do dinheiro que têm recebido para a construção de uma capela», recomendou a Senhora numa das aparições. E para que o recado não caísse no esquecimento, na derradeira aparição, em Outubro de 1917, explicou: «Façam aqui uma capela em minha honra».
Os efeitos especiais seguem toda a visita guiada à reconstituição das aparições. Trovões e relâmpagos para anunciar o milagre: «Já vem aí Nossa Senhora. Já deu o relâmpago», diz Jacinta aos outros pastorinhos. Chove no cenário mas, com efeitos psicadélicos, dá-se o Milagre do Sol, «fenómeno que nenhum observatório astronómico registou», mas que foi observado no local por setenta mil testemunhas.  
O percurso não chega ao Terceiro Segredo, que só Lúcia e o Papado conhecem por enquanto. Fugas de informação do Vaticano têm adiantado que se refere ao aborto, às uniões homossexuais, à presença divina na Eucaristia, à conversão da Rússia, à influência satânica na própria Igreja, «a fumaça de Satanás», como lhe chamou Paulo VI. O Papa actual, interrogado por jornalistas durante uma viagem em 1981, não confirmou nem desmentiu. «Rezem, rezem e não perguntem mais nada», disse João Paulo II.
Ordenado para ser lido e publicado em 1960, o Terceiro Segredo continua sob embargo, embora circulem na Internet versões não autorizadas pela Igreja.

A reportagem publicada no Diário Económico, em 12 de Maio de 2000, tinha fotografias originais de João Paulo Dias

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