sábado, 28 de abril de 2018

Timor-Leste 1999: VIAGEM AO FIM DO IMPÉRIO



Reportagem
 João Paulo Guerra, Setembro e Outubro, 1999, 
Diário Económico 

Uma coluna de fumo indica a direcção do centro da cidade.
«São os armazéns da Intendência» – diz-me, no caminho entre o aeroporto de Comoro e o centro de Díli, Francisco Leão, antigo corneteiro do Exército português, noutros tempos camarada de outras armas do furriel José Ramos-Horta e do 1º cabo Xanana Gusmão. E esclarece que os indonésios pegam fogo a cada edifício que abandonam na administração de Timor-Leste.
«Ontem durante o dia ardeu a sede do Departamento de Educação. À noite começaram a arder os armazéns da antiga Intendência, mesmo ao lado do Palácio do Governo», acrescenta. 


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Faz de conta que é a mina

Reportagem de João Paulo Guerra, TSF, sonorização de Paulo Castanheiro, no original áudio,
9 de Julho de 1993.
Fotos de António Cruz, datadas de 2012, cedidas pelo autor para ilustrar a transcrição da reportagem radiofónica


O quadro fixa um tempo e um lugar parados no tempo, à esquina dos anos 60 para a década de 70. Freguesia do Barco, local da Recheira, perto da nascente do Zézere, à boca das minas.
- Apolinária Fernandes: Lá está o marteleiro a furar, não é? Faz de conta que é a mina. O do outro lado está com a escada, que era o ajudante, e aqui estes, faz de conta que são os senhores engenheiros. E por cima lá estão os passarinhos, os coelhos, as árvores…

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Salgueiro Maia: "Implicado" no 25 de Abril



          O capitão Salgueiro Maia tinha 29 anos e todas as ilusões da sua geração quando, em 25 de Abril de 1974, veio de Santarém a Lisboa à frente de 240 homens numa coluna de 10 carros de combate. Em cerca de 12 horas derrubou um regime de 48 anos. Fez o que tinha a fazer e regressou á Escola Prática de Cavalaria.
       Licenciado em Ciências Sociais e Políticas e em Antropologia, Fernando José Salgueiro Maia, 47 anos [em 1992], tenente-coronel de Cavalaria, comanda o Grupo de Comando e Serviços da Escola Prática de Santarém e dirige o Museu da Cavalaria. Não quis, como capitão de Abril, as estrelas da Revolução, tal como não quer a baixa ao Hospital Militar que a doença grave de que padece justificaria. Mantém-se no activo e não se queixa por si mesmo, mas por toda uma geração de “implicados no 25 de Abril”.

Texto João Paulo Guerra, Fotos de Luís Silva, para a agência CNTV,

entrevista editada no Público e TSF, em 17 de Janeiro de 1992.


24 / 25 de Abril: O princípio era o fim da história

«E a partir de certa altura deixámos de ter dúvidas
sobre qual seria o fim da história»
Salgueiro Maia

Em 1961, esmagadas as incertezas e hesitações dos chefes militares, Salazar mandou avançar para Angola, assumindo ele próprio a pasta da Defesa Nacional. E foi com Salazar à Defesa que o Império perdeu a jóia da coroa, a Índia.

Por João Paulo Guerra, III episódio de O Regresso das Caravelas, TSF, Abril 1994


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Cores felizes na paleta de Malangatana


Por João Paulo Guerra,
TSF, Outubro 1994

Moçambique está em Festa, uma festa com muitas cores. Nesta quadra de eleições multipartidárias, Moçambique está multicolor.
Estou na cidade de Maputo, no Bairro do Aeroporto, no atelier do pintor Malangatana Valente Ngwenya, moçambicano, 58 anos, um artista do mundo e da paz. Este homem que esteve preso três vezes pelo regime colonial, uma das quais por motivo de um quadro que pintou, o quadro “25 de Setembro”, a data do início, em 1964, da luta armada pela libertação, e que depois da independência do seu país esteve de novo detido, dessa vez num campo de reeducação, como castigo pelo seu comportamento na época colonial, este homem está também em Festa, agora que Moçambique tem eleições multicolores.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

A clara idade assombrada da poesia de Cabo Verde

João Paulo Guerra, TSF,
9 de Janeiro de 1991, Cidade da Praia

Oswaldo Osório
Inesperadamente, calou-se a algazarra da campanha eleitoral na Cidade da Praia, para ouvir a voz de um poeta. A homenagem ao poeta Oswaldo Osório marcou a abertura de um centro cultural que procura ser um ponto de encontro para os escritores cabo-verdianos.
Oswaldo Osório – pseudónimo literário de Osvaldo Alcântara Medina Custódio – nasceu na cidade do Mindelo, Ilha de São Vicente, em 25 de Novembro de 1937. Clar(a)idade Assombrada, publicada em 1987,  é o seu terceiro e mais recente volume de poesia, sucedendo a Caboverdeanamente Construção Meu Amor (1975), Cântico do habitante. Precedido de Duas Gestas (1977).
A poesia de Oswaldo Osório saiu impressa com a liberdade. Anteriormente, o poeta estivera preso duas vezes por razões políticas.

JPG - Ouvi-o referir-se, na homenagem que aqui lhe foi prestada, à língua cabo-verdiana. O que é a língua cabo-verdiana e o que é Cabo Verde em termos literários ao cabo de dezasseis anos de independência?
Oswaldo Osório – A língua cabo-verdiana é a nossa língua materna. E a língua portuguesa, sem ser para nós uma língua estrangeira, é uma língua segunda, mas é também a língua oficial. A língua cabo-verdiana tem passado por vários tratamentos de natureza linguística de modo a torná-la mais plástica na literatura escrita. E tem sido feito um grande esforço no sentido da modernização da língua, estabelecimento de regras, etc., que certos jovens, como por exemplo Tomé Varela, têm vindo a investigar no campo da oralidade e escrevendo totalmente em língua cabo-verdiana.

António Macedo: Quero estar outra vez feliz na rádio


Estou muito descontente com a rádio que estou a fazer, com a forma como a rádio está a ser feita, com tudo aquilo que me rodeia (...) Quero estar outra vez feliz na rádio

António Macedo

Por João Paulo Guerra 
Entrevista editada em 15 de Outubro de 2016, data da homenagem a António Macedo, promovida pelo 
1º Acto – Clube de Teatro e Intervalo – Grupo de Teatro.

"A voz da rádio tem uma personalidade amiga e íntima, como a de um velho camarada de confiança"
Erskine Caldwell, Vagueando pela América, Editora Ulisseia 1963

"A rádio tem uma distinta personalidade humana, devida ao seu amigável e íntimo tu cá tu lá"
 Caldwell, ob. cit.

Nome?
António José Macedo Monteiro de Oliveira.
Idade?
Sessenta a cinco anos. Sessenta e seis a 4 de
Novembro, sou de cinquenta.
Nascido onde?
Lisboa, São Sebastião da Pedreira, Maternidade Alfredo da Costa.
E onde residiam os teus pais?
Na Rua do Salitre, 55, 4º Direito, onde vivi os primeiros anos de vida.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Wiriamu passados que foram vinte anos

Por João Paulo Guerra,
com Manuel Vilas Boas e Fernando Alves
TSF, 16 de Dezembro de 1992

Houve um grupo de soldados que chegou lá na aldeia, juntou a gente e depois fuzilou toda a gente, por fim pôs capim em cima dos corpos e pôs fogo. E alguns que recuperaram os sentidos e com feridas de balas nos braços e queimaduras conseguiram fugir. Entre esses estava o António Michone, que fugiu e veio aqui para o hospital, contou o que aconteceu e curou-se.”

         Terá sido assim, há vinte anos, em Wiriamu, Tete, Moçambique.
         É pelo menos o que conta o padre Domingos Ferrão, ao tempo missionário português, nos arredores de Tete, hoje [Dezembro de 1992] moçambicano e vigário-geral da diocese. 


quinta-feira, 12 de abril de 2018

A basílica arranha-céus e a sagração dos crocodilos

O país designa-se Côte d'Ivoire e a Constituição
proíbe a tradução do nome
Costa do Marfim, pelo nosso enviado João Paulo Guerra
O Diário, 23 Dezembro 1989

Um crocodilo devora uma galinha em dois tempos rápidos: abocanha-a, tritura-a e acabou-se a galinha. Ao terceiro tempo há apenas o bolo alimentar do crocodilo, um paté de penas, carne, ossos, vísceras, amassado em cabidela.
O número da refeição dos crocodilos, servido a meio da tarde, faz parte do cartaz turístico de Yamoussoukro, capital administrativa da Costa do Marfim. A ementa consta de galinhas vivas e o espectáculo consiste na luta desigual entre uma dúzia de galinhas tontas e dezenas de vorazes e possantes sáurios. O número termina em apoteose de cacarejos aflitos, esguichos de sangue e voltear de penas. Os visitantes de Yamoussoukro veem e ouvem o espectáculo e depois, eventualmente com pena das galinhas, vão recolher-se na Basílica de Nossa Senhora da Paz, que se ergue na savana e capricha por ter uns centímetros mais que a Basílica de S. Pedro.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Os Olhos Azuis do cinema na Guiné-Bissau

Entrevista com o realizador guineense Flora Gomes.

João Paulo Guerra, TSF, 26 de Janeiro de 1991,
Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, Bissau


No regresso a Lisboa, após a reportagem de um processo político que culminou com a introdução do multipartidarismo na Guiné-Bissau, o repórter cruzou-se no aeroporto com o realizador de cinema Flora Gomes. Nascido em 1949 em Cadique, tabanca a sul de Bissau, uma das principais povoações produtoras de arroz no tempo colonial, Florentino Gomes foi levado pela guerrilha guineense para estudar em Conakry e mais tarde em Cuba. Voltou formado em cinema. Filmou os últimos anos de guerra e depois da independência começou a filmar histórias para o futuro do seu país.
Foi muito bem empregue o tempo de espera naquele dia de Janeiro de 1991, no aeroporto de Bissau.

Pergunta – Como é que um guineense chega a realizador de cinema?
Flora Gomes – Bom, no meu caso foi muito simples. Eu fui dos jovens que a guerrilha, quando passou pela minha aldeia, levou para Conakry para receberem instrução. Fiz a escola primária, a secundária e estudos pré-universitários…


segunda-feira, 9 de abril de 2018

A emoção não está prevista no manual de jornalismno

Por João Paulo Guerra, em Moçambique, O Diário, 7 de Maio de 1988


O Luís Lázaro é três anos de gente e tem um braço, o direito, com fracturas múltiplas e expostas. Nos olhos, o Luís Lázaro tem o espanto de todas as perguntas sem resposta, porque o Luís Lázaro não faz as perguntas que fazem os miúdos de três anos e porque não há respostas para as perguntas dos olhos deste miúdo de fraldas, ligaduras e aparelho de gesso. Porquê?

domingo, 8 de abril de 2018

Luiz Pacheco: Eu acho mesmo que o mundo está cada vez melhor …


Entrevista de João Paulo Guerra
TSF, 19 de Maio de 1992, 19 horas

Da autoria do escritor Luiz Pacheco sai hoje [Maio de 1992] a reedição de O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Um acontecimento num país que também nas letras é geralmente de brandos costumes.


O Libertino etc., foi escrito em 1961 e publicado em 1970 provocando muito escândalo. É a narrativa de um dia passado numa Braga lúbrica. E logo Braga, a cidade dos arcebispos. O próprio autor filiou a narrativa numa corrente neo-abjeccionista.
Com 67 anos de uma vida airada, Luiz Pacheco vive actualmente em Setúbal. E é de lá, em directo, que aceita conversar sobre a reedição – para a qual deu uns retoques no texto de O Libertino… –, sobre a actualidade que, seja onde for, acompanha com atenção: a reforma da PAC ou a reserva dos coronéis, o pacote Delors 2 ou o Evangelho segundo Sousa Lara, o Tratado de Maastricht ou a nova Ponte sobre o Tejo, numa conversa de ida e volta ao mundo, com partida da Europa.

Luiz Pacheco – Europa? Qual Europa?

quinta-feira, 5 de abril de 2018

... FP-25 disputam share com o Papa

EM CIMA DO ACONTECIMENTO ..
Por João Paulo Guerra
10 de Maio de 1991


Naquele dia de Maio de 1991, o acontecimento era a chegada do Papa e Lisboa. E ninguém previa que pudesse acontecer alguma coisa em cima de tal acontecimento. 

       Mas aconteceu. 

O Cenáculo da Marquesa



Por João Paulo Guerra, 
Telefonia de Lisboa, Janeiro de 1987

          O tempo parou ali há muito tempo como que imobilizado num daguerreótipo antiquíssimo, amarelecido nos cantos, esbatido no centro do plano de conjunto. Mesmo assim, distingue-se o conjunto: onze figuras de cera em redor de uma mesa, todos eles voltados ligeiramente sobre o lado direito, fixando a posteridade.
Ilumina-se a cena e distinguem-se então as cores, tons de cinza e violeta, esmaiados sobre o fundo austero de uma estante de mogno onde jazem livros encadernados pelo pó, o bafio, o esquecimento. Reposteiros pesados coam os sons da vida e tornam mais íntimos os sussurros das conversas, por onde passam, em ladainha, os nomes de legiões de fantasmas, a memória de irremediavelmente perdidos tempos de grandeza, sonorizados pelo tilintar das porcelanas e das dentaduras postiças, o ronronar dos catarros. 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Coveiro de Santa Comba na paz dos cemitérios

Dois anos após a morte de Salazar, dois jornalistas, Adelino Gomes e João Paulo Guerra, passaram pelo cemitério de Santa Cruz do Vimieiro e, à conversa com o Sr. Vicente, o respectivo coveiro, ficaram a conhecer melhor a realidade de um país mergulhado na ordem e na paz dos cemitérios. A mentalidade da ditadura rural que atrasou Portugal ao longo de meio século estava ali, ao vivo, no cemitério do Vimieiro, debaixo daquelas pedras tumulares. O Sr. Vicente tinha conhecido Salazar em vida. Recordava-se dos seus passeios, sozinho entre os pinhais.
- João Paulo Guerra - Ele costumava passear sozinho?
-         Coveiro - Sozinho, pela estrada fora, sozinho. Mas a polícia ia longe dele, lá nos pinhais, uns do lado e outros do outro.

Entrevista de Adelino Gomes e João Paulo Guerra, Julho 1972

A Censura, que por vezes andava distraída, deixou passar a entrevista que foi para o ar na Rádio Renascença, em Julho de 1972. 
Porém, por acaso ou não, menos de um mês depois, os programas da RR para os quais trabalhavam os dois jornalistas, Página Um e Tempo Zip, foram suspensos pela Secretaria de Estado da Informação.  

Entre milhafres e Açores

Por João Paulo Guerra,
o diário, 
20 de Dezembro 
de 1986

Naquele tempo, João Bosco Mota Amaral reuniu-se com os jornalistas e disse: «Este ano tive algumas derrotas. Assumo-as mas, no entanto, considero-as injustas. Foi um ano difícil».

terça-feira, 3 de abril de 2018

ANGOLA: Nos intervalos de uma reportagem de guerra


Crónicas à margem de uma reportagem na guerra em Angola

Por João Paulo Guerra, suplemento de O Diário, Junho de 1985


Kuilo-Kuango 1985
Na última semana de Abril [1985], saímos da cidade do Lubango a caminho da fronteira no Cunene, iniciando a viagem a bordo de um helicóptero Mig 15 que transportava, para além de dois jornalistas, um bidão atestado com 500 litros de gasolina. Indesejável companhia. Voávamos para sul da Cahama, Môngua e Xangongo, tínhamos passado os cenários de terríveis batalhas entre as tropas cubano-angolanas e as sul-africanas, seguíamos com destino ao que restava de Onjiva, onde talvez apanhássemos um camião para Namacunde e depois seria a pé, dali até à fronteira, em Ochikango, seguindo o trilho por entre campos de minas.

Éramos dois jornalistas, um angolano e um português. Quem me acompanhava era o David Mestre, jornalista da Angop e poeta. David Mestre era o pseudónimo de um homem de uma coerência à prova da maior coragem e despojamento, que trocara um sonante apelido português, e consequentes benesses, pela condição de cidadão de Angola. Para além disso era poeta e eu levava na bagagem o livro do David publicado no ano anterior pela Ulmeiro e intitulado "Nas barbas do bando". Ainda mais além de tudo isto o David era um grande companheiro de viagem. 
Tínhamos desenrascado boleia a bordo de um transporte militar para chegar à fronteira com a Namíbia, onde queríamos verificar se os sul-africanos, como diziam e tinha sido anunciado ao mundo, se teriam retirado do território de Angola. E a verdade é que não tinham, ao contrário do que os jornais publicavam. O grosso das tropas sul-africanas estava, à vista, do outro lado da fronteira de Angola com a Namíbia, ocupada ilegalmente pelos sul-africanos. Mas havia destacamentos de tropas sul-africanas em território de Angola, nas barragens de Ruacaná e Calueque, 12 km para o interior da linha de fronteira. E essa era uma notícia mundial em primeira mão, um scoop, como dizem os ingleses. 
Desta vez percorri Angola, verdadeiramente de Cabinda ao Cunene, como reza a palavra de ordem do Governo do MPLA, sempre a "desenrascar" boleias aéreas. Não sei se o momento mais dramático de toda esta digressão aérea foi o risco do voo de helicóptero com 500 litros de gasolina a bordo sobre cenários reais de um país em guerra; se foi a tempestade que apanhou o voo nocturno do Lubango para Luanda, com o avião aos tombos, carga a rolar pela cabina, adultos aos gritos, crianças a chorar; se foi o voo numa serena manhã de Abril de Luanda para Kuilo Kuango, um lugar que não vem nos mapas, localizado no Nordeste da província do Uíge, na linha de fronteira com o Zaire, e nos tempos da guerra colonial uma base inexpugnável da FNLA. Admito que o momento mais perigoso tenha sido este.
Viajámos então à boleia do ministro da Segurança, Dino Matross, a bordo de um helicóptero com tripulação soviética, e a viagem, que nos disseram que duraria menos de uma hora, já ia em hora e meia quando, subitamente, a inquietação se instalou a bordo. Era apenas isto: os pilotos soviéticos tinham-se perdido e pelo tempo e a direcção do voo estaríamos nesse momento violando em profundidade o espaço aéreo do Zaire. Ora um helicóptero tripulado por soviéticos, transportando um ministro angolano, em violação flagrante do espaço aéreo do Zaire, seria um belo pretexto para represálias do regime de Mobutu Sese Seko, sempre à procura de motivos para manter-se em guerra com Angola. Em pleno conflito bipolar, éramos passageiros de um transporte aéreo do Leste, aliado de Luanda, a violar o espaço aéreo de um protegido pelo Oeste, armado com mísseis terrar-ar Stinger capazes de abater o helicóptero…
Foi uma crise dos mísseis à minha pequeniníssima dimensão…

Ochikango, a última fronteira
Beber no Lubango

Ao contrário de Luanda, onde neste ano de 1985 não é possível sair de casa e comprar uma garrafa ou beber um copo de água em nenhum estabelecimento, no Lubango há cervejarias abertas e até uma fábrica de cervejas que, como quase tudo no Sul de Angola, pertence a Venâncio Guimarães Sobrinho, o sogro do empresário português Cardoso e Cunha.
Propus-me fazer uma reportagem na Fábrica da Cerveja Ngola e lá fui, ao volante de um jipe que tínhamos desenrascado, até à Fábrica, nos subúrbios do Lubango. Falei com os directores e com trabalhadores da Fábrica, observei o processo de produção, provei a cerveja gelada que pinga no termo da linha da filtragem e preparava-me para me vir embora quando o director me perguntou:
«Como veio até cá?»
Respondi-lhe que tinha um jipe à porta e ele retorquiu:
«Ponha-o cá dentro».
Assim fiz e o director deu ordem para carregarem 300 garrafas de cerveja no jipe. Não sei se isto pode ser considerado um suborno, mas garanto que a gentileza, que é um uso da terra de Angola, nestes tempos, em nada se intrometeu com a reportagem.
Voltei ao Hotel mas sabia que não podia deixar o jipe nem um minuto, sob pena de ficar sem uma única garrafa. Buzinei, veio o porteiro e pedi-lhe para mandar chamar o David Mestre que estava a dormir a sesta no quarto número tal. Chegou ensonado mas despertou num ápice quando lhe falei de 300 garrafas de cerveja a bordo.
«Vamos beber para casa do Zé Pequeno», alvitrou.
E lá iniciámos a marcha. Acontece que o David conhecia mesmo toda a gente no Lubango, onde tinha sido correspondente da Angop, e pelo caminho cumprimentava os amigos com um convite:
«Temos 300 cervejas e vamos para casa do Zé Pequeno».
Cada um que se juntava á caravana chamava, por sua vez, outros amigos.
«Temos 300 cervejas e vamos para casa do Zé Pequeno».
Chegámos a casa do Zé Pequeno com uma multidão a seguir o jipe em passo de corrida. Não cabíamos todos em casa do Zé Pequeno e as 300 cervejas não davam grande coisa a dividir por tanta gente.
Dias depois, fui com o David Mestre a outra unidade de produção a laborar na cidade, neste caso uma fábrica de destilados. Nunca mais vamos esquecer a declinação da linha de produção da fábrica, que vai dos fermentados caseiros filtrados em capim, aos destilados industriais: Rum, Blunga, Macau, Gorgorinho, Bicoacho e Aguardante Tempestade. 
Passámos a usar entre nós, como senha e contra-senha, esta ordem crescente na sucessão das bebidas explosivas do Lubango. Dizia-se que à Aguardente Tempestade bastava tirar a rolha para cair para o lado.
Mas foi o que nos valeu, foi a garrafa de aguardente que trouxemos como recordação na fábrica de destilados do Lubango, quando no regresso muito turbulento para Luanda, num voo nocturno, o avião foi apanhado por uma tremenda e verdadeira tempestade. Sinceramente, toda a gente a bordo estava a admitir que não chegaria a Luanda. Era pois a derradeira ocasião para abrir a garrafa. Abrimos, bebemos, e os tripulantes não entendiam por que razão se ria tanto um par de jornalistas brancos mesmo quando o avião estava em vias de se despenhar.
Avião? Mas qual avião? Naquela noite, do Lubango para Luanda, nós viajámos transportados nas asas da Tempestade

Noites do Lubango

Numa das noites no Lubango, durante o périplo por Angola, na companhia do jornalista angolano David Mestre, fomos despejados do Hotel, pois tínhamos excedido o prazo da nossa marcação e havia outros hóspedes a chegar. Mudámo-nos então para uma pensão.
Não havia de ser nada. Na primeira noite no Lubango, ainda sem marcação no Hotel, ficáramos numa casa da juventude, onde costumam hospedar-se equipas desportivas que visitam a cidade. As casas de banho não têm luz e o chão apresenta uma consistência viscosa, dormimos em tarimbas, cobertos por mantas encardidas, e de manhã eu acordei sentindo qualquer coisa a passear por cima da minha manta. Pareceu-me ser uma galinha mas não me atrevi a olhar e decidi pedir o parecer do David. Chamei-o e quando consegui que ele respondesse perguntei:
«David: anda alguma galinha a passear por cima de mim na minha manta?».
Ele abriu um olho, olhou e respondeu:
«Anda».
E virou-se para o outro lado.
Ondjiva
Quanto à primeira dormida na pensão recolhemos tarde, depois de muito trabalho e de muita conversa em casa de amigos do David. Acordei estremunhado, manhã cedo, com alguém a bater insistentemente à porta do quarto. E como estava num país estrangeiro achei melhor que fosse o angolano a ver quem era. Chamei por ele, insisti, até que o David acordou e foi abrir. Eram sete da manhã e quem batia à porta do quarto eram umas miúdas. Na pensão estava hospedado um cantor angolano de intervenção muito em voga, que cantava grandes arrazoados políticos e usava o sugestivo nome artístico de Proletário.

David Mestre
(1948 - 1998)




E perguntaram as miúdas que batiam à porta do quarto:
«É aqui que está o Proletário?».
E o David Mestre, impassível, sonolento mas de resposta imediata:
«Não. Aqui só está a pequena burguesia».


Por João Paulo Guerra, suplemento de O Diário, Junho de 1985


«O arcebispo de Braga absolveu-nos»

Sanches Osório,
 ex-major do MFA 
ex-dirigente  MDLP


Entrevista de João Paulo Guerra / Abril 1999

José Eduardo de Sanches Osório era major de Engenharia em 1974 e fez parte do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, no quartel da Pontinha, na madrugada de 25 de Abril. De formação monárquica e católica e pertencendo à casta dos oficiais do Corpo de Estado-Maior, Sanches Osório aderiu ao Movimento dos Capitães em 1973 para derrubar Marcelo Caetano. Ministro da Comunicação Social no II Governo Provisório, o primeiro de Vasco Gonçalves, entrou em ruptura com a revolução por alturas do 28 de Setembro. E na sequência do 11 de Março foi expulso do Exército e deixou o país clandestinamente para fugir a um mandado de captura. No exílio participou na fundação do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), liderado por Spínola e chefiado por Alpoim Calvão. Desempenhou funções de embaixador itinerante da contrarrevolução, mas diz que não levava a sério o plano do general para invadir Portugal e reconquistar o poder.


segunda-feira, 2 de abril de 2018

Maria Carlota Álvares da Guerra, por João Paulo Guerra


FARIAS HOJE, 13 MARÇO 2020, 99 ANOS Estou a olhar as tuas velhas fotografias, mãe, e parece que estou a ouvir-te. Tinhas uma voz fresca, timbrada e bem colocada, com a qual em pequeno me embalavas cantando fados dolentes e, mais crescido, me ensinavas a dizer poemas. A questão, mãe, é que me pediram que falasse de ti e eu vim visitar a memória ao álbum das recordações a preto e branco.


Siza Vieira: «Os arquitectos não inventam, transformam»

Bairro da Bouça, SAAL, Porto
Álvaro Siza Vieira 
entrevistado por João Paulo Guerra,
o diário, 13 de Abril de 1981

         Álvaro Siza Vieira, português, arquitecto, 48 anos de idade [em 1981], é considerado lá fora como «um dos dez arquitectos mundiais da sua geração capazes de transformar a arquitectura numa forma de expressão autêntica», como «um homem acima da moda», cuja obra «não se situa em nenhuma das correntes contemporâneas».
         «Os arquitectos não inventam coisa alguma. Transformam de acordo com as circunstâncias», diz, à conversa com “o diário”, este homem socialmente preocupado e politicamente empenhado na transformação da cidade e que considera a intervenção popular como a base justa e sólida dessa transformação.