Era uma vez um miúdo que tinha quatro para
cinco anos no Verão Quente de 1975;
Fez 5 anos no dia 25 de Novembro de 1975 e
nesse dia, para celebrar o aniversário do pequeno Miguel, a televisão passou um
filme cómico com Danny Kaye.
A TV portuguesa não passava filmes cómicos
desde o dia 12 desse mês de Novembro de 1975; nessa data, um almirante sem papas
nem tento na língua rompera um cerco a São Bento disparando uma salva de
impropérios.
Nos trinta e um dias do mês de Janeiro de
1976 – ia o Miguel a caminho, mas ainda distante, dos seis anos – registaram-se
em Portugal 55 sessões de pirotecnia política; em Fevereiro, mais 21 sessões; e
em Abril de 1976, a data da aprovação da Constituição, o mês começou com a
morte do Padre Max e da estudante Maria de Lurdes, à bomba.
E assim foi crescendo o jovem Miguel
Carvalho: o Verão de 1976 aqueceu com as prisões dos primeiros elementos da rede
bombista, entre os quais o alegado mandante Joaquim Ferreira Torres,
industrial, autarca e cacique, libertado duas semanas antes do 25 de Novembro
desse ano.
E
em Agosto de 1979, faltavam 3 meses para que o Miguel completasse 9 anos,
Ferreira Torres tornou-se sujeito de todas as primeiras páginas na manhã de 21
de Agosto. Naquela manhã, como era costume, Joaquim Ferreira Torres arrancou de
Paredes cinco minutos depois das oito, com os matutinos do Porto no banco
traseiro do Porsche vermelho. Mas o empresário nem sequer chegou a ler as gordas
do último dia.
- Um Governo para 100 dias. Pintasilgo passou no Parlamento.
-
Greve total de médicos, decretada pela
Ordem.
-
Batata desapareceu do mercado.
-
Serra da Freita continua a arder.
No
dia seguinte, seria ele próprio, Joaquim Ferreira Torres, o sujeito de todas as
primeiras páginas.
Dez
minutos depois de sair de Paredes, o Porsche do empresário estava imobilizado
em contramão, no sítio do Barro Branco. Crivado de balas, o corpo de Ferreira
Torres caíra para o banco do lado direito do Porsche, isto é, ocupava o lugar
do morto.
O
empresário tinha sido abatido após o Porsche ter sido imobilizado. Foi abatido
de frente. Era a emboscada como vem nos manuais militares: o empresário caiu na
zona de morte.
O
miúdo nascido a 25 de Novembro de 1970 veio a tornar-se jornalista em 1989/90.
E na edição de 20 de Agosto de 2009 – 30 anos depois dos acontecimentos – Miguel
Carvalho publicou na Visão a
investigação dos Mistérios do Barro
Branco.
Escreveu:
“Joaquim Ferreira Torres tinha 54 anos,
negócios menos claros, fortuna invejável e ligações íntimas a meios políticos,
económicos e militares. Aguardava, em liberdade condicional, a repetição do
julgamento da rede bombista de extrema-direita. Garantira que «abriria o saco»
sobre os segredos e cumplicidades desse tempo. A morte ficou conhecida como «o
crime do Barro Branco», lugar onde o calaram para sempre.”
A
reportagem do Miguel Carvalho foi muito justamente distinguida com o Grande Prémio Gazeta de Reportagem 2009,
entregue em 2010.
Nesse
mesmo ano, eu próprio recebi o Prémio
Gazeta de Mérito, um prémio de fim de
carreira. A cerimónia juntou-nos na Culturgest; mas nós já nos correspondíamos
sobre histórias de Portugal.
Eu,
Gazeta de Mérito, orgulho-me da
amizade com um jornalista 30 anos mais novo, Grande Prémio Gazeta de Reportagem, de quem sou admirador.
Para
lá dos prémios Gazeta e da carteira
de jornalista, temos em comum o facto de nos tratarmos um ao outro por camarada. Que é assim o tratamento entre
jornalistas, excepto para aqueles que têm mais preconceitos do que espírito de
camaradagem.
O
convite do Miguel Carvalho para apresentar este seu livro – Quando Portugal Ardeu - Histórias e Segredos
da Violência Política no pós-25 de Abril, editado pela Oficina do Livro – é uma honra, que cresceu à medida que fui lendo
o livro.
E,
enquanto lia o livro Quando Portugal
Ardeu, algumas interrogações tomaram conta de mim: Como é que o Miguel
despertou para estes temas? Como é que o Miguel, entrou nestes enredos de
terror, como é que ficou, à distância de três décadas, tão familiarizado com
estes nomes, estas siglas, estes cenários, estes tempos?
E
perante tantas e tão densas dúvidas, fiz o que deve fazer um jornalista: fiz
perguntas, procurei respostas.
- Pergunta:
Miguel, qual é a memória mais antiga que tens das histórias do teu livro?
E o
Miguel respondeu-me por escrito - A memória mais antiga é,
sem dúvida, ter ouvido falar, em casa, com 5/6 anos, do Ramiro Moreira, por
diversas vezes. Não só por causa das notícias abundantes da época a propósito
dos atentados bombistas, mas também porque uma das bombas que ele colocou foi
no carro de um tio meu. É desse tempo, também, a memória de uma agressão do
Ramiro e de outros elementos da rede ao meu avô paterno, que o deixou numa poça
de sangue. De certo modo, tenho uma memória sensorial do fim da ditadura e dos
primeiros anos de democracia. Em casa dos meus pais faziam-se jornais
clandestinos – entre os quais o boletim A
Terra – e antes e depois do 25 de Abril eu era, muitas vezes, acordado a
meio da noite, embrulhado num cobertor, e levado para casa de outros
familiares, onde pudesse estar mais seguro. Ainda hoje parece que sinto, na
pele, aquele friozinho que sentia quando me acordavam de madrugada e
embrulhavam num cobertor, entre ruído de vozes apressadas e sussurradas.
- Pergunta: Miguel, ouvias então, muito
próximo de ti, falar destas histórias, em miúdo?
- E
o Miguel respondeu - Ouvi sempre. Cresci nesse tempo de
grandes esperanças e sonhos, de excessos, de radicalismos, e isso foi sempre
assunto de conversa nas várias casas de familiares. A família paterna, de fortes
tradições republicanas, estava ligada ao PCP desde os tempos da ditadura e
tenho uma tia que esteve dois anos na clandestinidade. Do lado materno, o
envolvimento político era menor, mas dividia-se entre o PS e o PPD. Tudo isso
me influenciou, como é óbvio. Familiares relativamente afastados, ligados ao
PS, chegaram a ameaçar o meu pai, com cintos e catanas, por causa de
simples colagens de cartazes. Um tio do lado materno teve um carneiro a quem
chamava Cunhal e, quando o bicho morreu, pendurou a cabeça dele na parede como
se fosse um troféu. J “Estás a ver o que acontece aos comunas como o teu pai?”,
dizia-me ele. No hard feelings - Comenta o Miguel.
Tive também um tio, do lado materno, a quem
devo o facto de hoje ser adepto do FC Porto (ele tinha camarote nas Antas). Ele
era também devoto do Sá Carneiro. Lembro-me perfeitamente de ver esse meu tio
aparecer em casa dos meus pais e passar longas noites em conversa com o meu
pai, sem nunca se chatearem e irem ao ponto de se admirarem. Fazia-me muita
confusão e lembro-me de ter pensado: “Então isto anda tudo à bulha, eles são de
partidos tão diferentes e dão-se bem?”
- Pergunta difícil de responder – responde o Miguel Carvalho. – Vamos
lá... em miúdo era conhecido por ser um bocadinho Tom Sawyer. Tudo o que fosse
desconhecido, diferente, inóspito, perigoso, me atraia de forma vertiginosa.
Daí o rol de feridas, rasganços, tombos e afins que coleccionei, com
reprimendas a condizer. Talvez venha daí. De subir às árvores, de brincar nos
sítios mais perigosos das bouças, de passar um dia inteiro fora de casa, com
amigos, entre poços, casas abandonadas, riachos, etc., nos arredores rurais do
Grande Porto, ou de querer formar clubes de detectives com os amigos. Pelos 6/7
anos começou o fascínio dos jornais (mais tarde viriam os livros do Sherlock Holmes).
Havia muitos jornais lá em casa – as respostas também passam por aqui,
digo eu –, havia muitos livros, sempre, mas nunca eram suficientes. Queria
ler tudo, tocá-los, cheirá-los. Pegava em folhas A4 e tentava reproduzir
manchetes, notícias, etc., uma maluqueira! Já com 9/10 anos, quando aos fins-de-semana
ia para casa da minha avó materna, roubava dos quiosques os jornais a que não
tinha acesso (o dinheiro era contadinho lá em casa) e também trazia para casa
os jornais que a vizinhança abandonava, em pilhas, no lixo (O Jornal, Tempo,
etc...). Na escola fartei-me de fazer
fan zines que
depois vendia aos colegas e aos professores. Um ou outro texto sobre as
condições ou algum problema da escola valeram-me chamadas ao conselho directivo
ou advertências de professores.
As semanadas da minha avó eram todas gastas
em jornais. Ao sábado, esperava horas infindas nos quiosques pela chegada, ao
Porto, dos vespertinos, e comprava sempre o que viesse mais volumoso. Daí, que
ainda hoje, às vezes do nada, me venham à memória personagens, episódios e
acontecimentos que, na altura, não tinha maturidade para compreender. Hoje, a
minha casa é a casa típica de um farrapeiro: caixas de arquivos, dossiês,
jornais antigos, papelada que nunca mais acaba.
Às
histórias que passaram ao lado da sua infância, o Miguel Carvalho acrescentou
uma grande capacidade de pesquisar, de seleccionar, de organizar e relacionar
dados, de tirar conclusões, cultivar e manter fontes muito bem informadas, de
consultar com método e espírito crítico muitas e diferentes fontes documentais,
de identificar o fio e o enquadramento das histórias e, por fim, o Miguel
Carvalho acrescentou a todo este trabalho exaustivo a arte de saber contar bem
as histórias.
Estes
episódios de Quanto Portugal Ardeu
estão muito bem escritos e muito bem organizados, cada um de per si e no
conjunto do volume.
O
formato muito original e muito conseguido do livro sobre os sucessivos Verões Quentes que fizeram arder o País
consiste no relato em episódios sobre a ofensiva organizada, financiada,
enquadrada estrategicamente, dirigida no terreno, contra o período mais rico,
criativo, participado, generoso e fraterno da história recente de Portugal.
Cada
um dos 18 episódios do livro do Miguel Carvalho é uma história, uma história
que vive por si mas que é também uma peça de um puzzle, uma história com os
seus quês de tragédia e / ou de comédia, e que faz parte de uma história mais
geral: é a história de uma festa que foi bonita, pá… mas que azedou.
Morre-se neste livro; morre-se de sair à rua,
uma rua banhada de cravos e de palavras de esperança, porque o revanchismo
respondeu a tiro, no 25 de Abril, e à bomba, um ano depois; também se conspira,
se trai, se faz negócio, nos enredos deste livro: conspiram diplomatas,
políticos, caciques, civis e militares, laicos e eclesiásticos; também se
rouba, se contrabandeia, se trafica, se intruja, se rapina.
Houve
muitos criminosos envolvidos nestas histórias, mas houve também muitos mais
cúmplices. A prova disso é que estas histórias acabam com numerosas vítimas mas
sem culpados.
Os
cromos destas 18 histórias, que somadas contam a crónica de um Portugal a Arder, num Verão Quente como
não houve outro, são figuras patéticas de uma banda-desenhada de terror:
mataram pessoas mas, eles próprios, viram-se a contas com a crónica de uma
morte anunciada.
O
Miguel escolheu bem as suas 18 histórias e a ordem pela qual as publicou em
livro. E foi meticuloso ao colocar a história de Os segredos Barro Branco – isto é, a história do assassínio do
cacique Joaquim Ferreira Torres a encerrar a série de episódios de mm País a
arder. Hoje dir-se-ia que o assassínio de Ferreira Torres é a história
estruturante deste romance de terror, que é afinal simplesmente um repositório
de reportagens de investigação de um grande jornalista.
Eu
escrevi sobre este e outros assuntos daquele tempo em que Portugal ardia, nas
páginas do jornal O Diário, a partir
da delegação do Porto. Depois, senti
necessidade, tal como penso que aconteceu com o Miguel, de fixar algumas
daquelas histórias de modo mais perdurável do que uma mera página de jornal que
se lê um dia e se deita fora antes que chegue o dia seguinte.
E
num livreco intitulado Polícias e Ladrões,
publicado pela Caminho em 1983,
reproduzi e acrescentei algo ao que havia escrito no jornal, sobre o caso de Uma Meada com Muitas Pontas, na qual se
cruzava O Caso Torres, com uma Teia da Extrema-Direita, com delitos
comuns, uma e outra a darem-se cobertura política e a financiarem-se,
culminando tudo num estranho caso de crimes perfeitos, na medida em que, sendo
crimes, compensaram. Ninguém acusou, ninguém foi condenado. E eu perguntava em
1983: quem os protege? Ninguém respondeu.
A
não ser eu próprio, que respondi em tribunal.
O
Miguel Carvalho pega em algumas destas e em diversas outras histórias e
personagens com muito mais metier do
que eu lhes peguei, com mais método, mais técnica e mais ciência, com mais
pesquisa, mais fontes e mais documentos. Embora conheça e me recorde de algumas
das fontes citadas pelo Miguel.
Nos
tempos em que as coisas aconteceram, eu pesquisei e redigi as reportagens que
deram origem ao livro Polícias e Ladrões,
que o Miguel Carvalho inclui na sua bibliografia de consulta. Nesses
tempos, escrevia-se talvez com muita emoção mas seguramente com menos rigor do
que o Miguel escreve sobre os tempos destas Histórias
e Segredos da Violência Política no pós-25 de Abril.
Digo-o
sem excesso de humildade nem sobras de altivez.
O
livro do Miguel Carvalho tem o tempo a seu favor. O tempo arrefeceu as cinzas e
as histórias, à distância, vêem-se com distanciamento, coisa que não havia no
meio das labaredas.
É
muito importante que alguém conte estas histórias quarenta anos após os
acontecimentos. E é muito importante que esse alguém seja um jornalista como é
o Miguel Carvalho.
No
final do mês de Março, um camarada nosso da rádio, camarada cujo ofício é dar
notícias, anunciou-me com entusiasmo que o livro do Miguel Carvalho Quanto Portugal Ardeu figurava num TOP de
vendas, bem à frente das Memórias de
Cavaco Silva.
Fiquei
muito satisfeito, pelo Miguel e pelos leitores que procuram esta leitura. E que
certamente encontram no livro Quando
Portugal Ardeu mais do que aquilo de que vão á procura.
Cada
linha destas histórias, neste livro de mais de 550 páginas, custou certamente
ao Miguel Carvalho muitas e muitas horas a cultivar contactos e a consultar
fontes, a vasculhar papéis e a conferir testemunhos, a sondar a história e a
cruzar informações, a seguir e a segurar perfis fugidios. E provavelmente, pese
embora o tempo que passou, custou-lhe também enfrentar algum risco.
Não
nos esqueçamos que houve um tempo em que este País ardeu, porque houve quem lhe
pegasse fogo; e houve os que deixaram arder.
O
livro do Miguel Carvalho não deixa que esqueçamos que ninguém matou João
Arruda, na Rua António Maria Cardoso, no dia 25 de Abril de 1974; ninguém matou
Vítor Bernardes, em 14 de Agosto de 1974, quando passou pela PSP no Rossio para
ir à farmácia de serviço comprar um medicamento para o filho; ninguém matou o
Padre Max nem a estudante Maria de Lurdes, em 2 de Abril de 1976, data da
Constituição da República; ninguém matou Rosinda Teixeira, nos escombros da sua
casa, em São Martinho do Campo; como também ninguém calou a boca ao cacique de
Murça, no sítio do Barro Branco, assim como ninguém matou à bomba Adriana
Corcho e Efrén Monteagudo, na Embaixada de Cuba em Lisboa, 1976.
Ninguém
os matou; certo é que eles morreram. Lembrem-se disto. Esta democracia não
assenta propriamente em brandos costumes.
João Paulo Guerra
João Paulo Guerra
Lisboa, bar do Cinearte, Teatro A Barraca, 12 de Abril de 2017












2 comentários:
Apesar de estares num Bar estavas bastante lucido Vou comprar
Grande Abraço
Paiva de Andrade
Sou fã desta obra "Quando Portugal Ardeu". Terminada a sua leitura e feitas algumas releituras, pesquisei no Google sobre este magnífico livro de Miguel Carvalho.
E vim parar a um fabuloso artigo de alguém de quem sou fã incondicional: João Paulo Guerra, que oiço diariamente na Antena 2.
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