quinta-feira, 9 de junho de 2016

As 170 e tal Guerras do Tio Sam *


         Os Estados Unidos da América declararam agora [Setembro de 2001] uma guerra contra incertos. Seja qual for o visado na declaração do presidente George W. Bush, o Afeganistão é a face mais visível do inimigo e o campo de batalha. A maior potência económica, tecnológica e militar do mundo vai enfrentar um dos mais pobres e dependentes países onde, no entanto, já soçobrou militarmente a União Soviética, uma antiga super-potência. 
           Em 225 anos de existência, os EUA estão a participar na 170ª guerra da sua história. Apenas um dos 44 presidentes, Grover Cleveland, na segunda passagem pela Casa Branca  (1893-1897), cumpriu o mandato em paz.

         João Paulo Guerra, Diário Económico, 21 Setembro de 2001
 * Contagem de 2001
A lista dos conflitos armados em que os EUA se envolveram está publicada pela Federation of American Scientists (FAS) e vem da guerra revolucionária do final da década de 70 do século XVIII, que foi o berço da grande nação americana, até aos nossos dias, com as intervenções no Iraque e na antiga Jugoslávia. No total, são 169 guerras, intervenções e operações militares, 93 por cento das quais fora das fronteiras dos EUA. Nos últimos dois séculos, tropas norte-americanas intervieram e combateram em todos os continentes e quase todos os oceanos e, sem contar com as duas grandes guerras mundiais do século passado, nos territórios de 67 diferentes países. A lista da FAS não inclui as operações secretas da CIA, como no Chile 1973, em Angola 1975/76 ou no Afeganistão nos anos 80, onde os serviços secretos norte-americanos formaram, armaram e promoveram os actuais dirigentes dos Taliban e o próprio Osama bin Laden.



Os Estados Unidos da América proclamaram a independência em 4 de Julho de 1776, cerca de um ano após o início da guerra das 13 colónias americanas  contra a dominação britânica. A guerra da independência haveria de durar mais cinco anos, até que, em Outubro de 1781, as derradeiras tropas britânicas se renderam a George Washington e deixaram o território entoando uma canção popular da época intitulada «The World Turned Upside Down». Haveriam de voltar para enfrentar, e perder, uma segunda guerra pela independência travada pelos americanos em 1812. Cerca de um século após a proclamação da independência a América iria estar envolvida na Guerra Civil (1861–1865), entre tropas da União e onze estados rebeldes associados numa Confederação que se opunha à abolição da escravatura preconizada pelo presidente Abraham Loncoln.
Mas o primeiro século da história da nova nação não foi vivido em paz. As guerras de submissão dos índios prolongaram-se entre 1790 e 1891, culminando com o massacre dos Sioux em Wounded Knee. Coincidindo parcialmente no tempo decorreu entretanto a guerra de fronteiras do Texas com o México (1846-47), antecedendo a guerra com Espanha pelo domínio de Cuba e das Filipinas e a intervenção para esmagar a insurreição neste território.

Guerra sem fronteiras
As primeiras incursões militares de tropas dos EUA fora das fronteiras da União registaram-se na Líbia (1815), no Canadá (1837), na Nicarágua (1855), em Samoa (1889), em Cuba (1898), nas Filipinas (1899) e na China (1900), onde um regimento de Cavalaria e um batalhão de Marines participaram na força aliada que combateu a rebelião dos Boxers. Na I Guerra Mundial (1914-1918), os EUA só entraram em 1917, com 4.700.000 efectivos, aliando-se à Grã-Bretanha, França e Rússia para combater e derrotar, nos campos da Europa, a Alemanha e a Áustria-Hungria. A Guerra de 1914-18 foi designada por Grande Guerra. Mas outra, maior, estava para vir. Na II Guerra Mundial (1939-1945), os EUA entraram em Dezembro de 1941, após o bombardeamento de Pearl Harbor pelos japoneses do Eixo. Mais de 16 milhões de norte-americanos participaram em operações na Ásia, no Atlântico e no Pacífico e na Europa, colaborando decisivamente na derrota do nazi-fascismo europeu e submetendo o Japão com os únicos bombardeamentos atómicos da história, em Hiroshima e Nagazaqui.
Já durante a Revolução Russa, Marines norte-americanos tinham sido desembarcados em Vladivostok, integrando uma força de ocupação que procurou opor-se à revolução bolchevique. Após a II Guerra Mundial, a aliança entre as quatro potências vencedoras iria durar pouco. Liderados pelos EUA, os estados ocidentais iriam opor-se à URSS ao longo de 45 anos da chamada Guerra Fria. Numa imensa sucessão de guerras e conflitos regionais, as duas super-potências, USA e URSS, enfrentaram-se indirectamente sustentando, ao mesmo tempo, o equilíbrio do terror pela ameaça do recurso às armas nucleares. E o equilíbrio nunca esteve tão perto da ruptura como durante a Crise dos Misseis, envolvendo os EUA, a URSS e Cuba, entre Outubro de 1962 e Junho de 1963.
A par da Guerra Fria, o mundo foi assistindo e participando em sucessivas guerras quentes, a primeira das quais foi a Guerra da Coreia (1950-53), entre os dois estados coreanos, a Norte e a Sul do paralelo 38, consagrados pela divisão do mundo estabelecida na Conferência de Yalta. Os EUA entraram na guerra, em apoio do Sul, pró-ocidental, enfrentando o Norte, comunista. A mesma lógica levou os EUA a envolverem-se no Congo (1960-1962) e na mais dramática e desastrosa das suas guerras, no Vietnam, e também no Laos e no Cambodja, de 1962 até à humilhante evacuação de Saigão, em Abril de 1975.
Combatendo lá longe, no Sueste Asiático, a América entrou também em guerra consigo própria, enfrentando nos anos 60 e 70 do século XX a maior e mais generalizada contestação interna desde a Guerra Civil do século XIX. Forças militares especiais chegaram a ser deslocadas de Fort Bragg, em Abril de 1972,  para suster a contestação civil em diversos pontos do território. O facto nem sequer foi um caso isolado na história do EUA. Em Abril de 1992, cerca de 5.000 militares dos batalhões de infantaria e dos Marines foram mobilizados para Los Angeles, em reforço da Guarda Nacional, para combater numa guerra doméstica dos EUA.

          Derrota no Vietnam
Derrotados no Vietnam por um exército de camponeses de sandálias, os EUA envolveram-se, entretanto, em diversos outros conflitos militares, designadamente no Congo (1964), na República Dominicana (1965), de novo na Coreia (1968-69 e 1976), no Zaire, na Somália e Etiópia, no Irão e no Iemen (1978). Até que, em Outubro de 1983, compraram uma guerra no minúsculo estado de Granada. Batalhões de Rangers e de Marines, tropas aerotransportadas e anfíbias num total de cerca de 5.000 militares, invadiram Granada, assassinaram o primeiro-ministro, Maurice Bishop, e removeram o Governo Revolucionário pró-cubano.

Após intervenções militares no Suez, na Líbia, Bolívia e Golfo Pérsico, a invasão seguinte foi a do Panamá (Dezembro de 1989), com o objectivo de apear do poder e prender Manuel Noriega, um general panamiano que iniciou a sua carreira política pela mão da CIA e terminou-a acusado de tráfico de droga pela Administração dos EUA. Outras operações contra o tráfico de droga levaram tropas norte-americanas a participarem em intervenções na Bolívia (1980), na América Central (1991) e na Colômbia (1995), mas também em acções militares no Hawai, Califórnia, Oregon e Kentucky (1990). A invasão do Haiti (Setembro de 1994), autorizada por uma resolução das Nações Unidas, destinou-se a «restaurar a democracia», três anos após o presidente eleito, Jean-Bertrand Aristides, ter sido deposto pelos militares.
Também com mandatos da ONU, tropas dos EUA intervieram na Libéria, República Centro Africana, Zaire e Ruanda (1996), Serra Leoa (1997), Quénia, Eritreia e Sudão (1998). Na Somália (1992-93 e 1995) a intervenção armada dos EUA saldou-se por um fracasso humilhante. A imagem de um piloto norte-americano morto pelos «Senhores da Guerra» e arrastado pelas ruas de Mogadiscio reacendeu na América os traumas do Vietnam.
        Entretanto, em Janeiro de 1991, os Estados Unidos lideraram a formação da maior coligação militar da história, até à época, destinada a desalojar as tropas ocupantes do Iraque de Saddam Hussein do Kuwait. Mais de meio milhão de militares americanos participaram na Guerra do Golfo. A «Tempestade no Deserto» iniciou-se por bombardeamentos aéreos, transmitidos em directo pela televisão, seguindo-se uma ofensiva terrestre que destroçou as forças  iraquianas em 100 horas, desalojando-as, perseguindo-as e exterminando-as  na retirada.

As guerras seguintes com envolvimento norte-americano travaram-se na Europa, nos territórios dos Balcãs, nomeadamente na Bósnia-Herzegovina (1992 a 1996), na Albânia (1995 e 1998), no Kosovo e na República da Jugoslávia (1998-99), com bombardeamento de alvos militares e civis em  Belgrado. 
A 170º guerra do Tio Sam começou agora. Ninguém sabe dizer como e quando vai terminar.

    Guerras secretas 
     
Para além dos conflitos internacionais em que intervieram com tropas regulares, aberta e publicamente, os EUA envolveram-se durante a Guerra Fria num sem número de operações secretas, designadamente através do financiamento, armamento, formação militar e acompanhamento por conselheiros a um dos lados de cada guerra. Na época não tinha nada que saber. Os EUA estavam do lado contrário ao da URSS e dos respectivos aliados e satélites.
Com a II Guerra Mundial ainda a quente, em 1945, os EUA participaram indirectamente na guerra civil na China, ao lado de Chiang Kai-Shek e contra Mao Tsé Tung, armando e comandando unidades de soldados japoneses. Conta o investigador norte-americano William Blum que, ainda antes do termo da guerra civil na China, já os serviços secretos norte-americanos estavam envolvidos em acções na Itália e na Grécia com o objectivo de impedir o acesso das esquerdas ao poder.
Nos anos 50, a CIA operou designadamente no Irão (1953), ajudando a derrubar o governo eleito de Mossadegh e a repor o Xá no poder. O pretexto que serviu para combater Mossadegh, a nacionalização de empresas petrolíferas, foi idêntico ao que levou, nesse mesmo ano, a CIA à Guatemala, onde o governo eleito de Jacob Arbenz ousou nacionalizar a United Fruit Company.
O derrube de dirigentes políticos de algum modo incomodativos para os interesses norte-americanos tornou-se prática vulgar da CIA nas décadas de 50, 60 e 70. Hoje, todas essas intervenções estão a descoberto até mesmo em documentos oficiais e confirmam a mão invisível que comandou a queda de Patrice Lumumba, no Congo (1961), de João Goulart, no Brasil (1964), de Sukarno, na Indonésia (1965), de George Papandreou, na Grécia (1967), de Salvador Allende, no Chile (1973). Como testemunhos diversos, designadamente de dissidentes da CIA e de jornalistas como Bob Woodward, esclareceram o papel dos EUA no apoio aos «Contras», na Nicarágua, à UNITA, em Angola, aos invasores indonésios de Timor-Leste (1975).
Frequentemente, a história veio a provar que a Administração norte-americana e a CIA se enganaram nas apostas que então fizeram. Ditadores como Mobutu Sese Seko, Augusto Pinochet, Suharto, os coronéis da Grécia e os generais da América Latina, tornaram-se fardos pesados e incómodos para os próprios EUA. Dirigentes como Manuel Noriega, Saddam Hussein, os Taliban do Afeganistão e o próprio Osama bin Laden, entre outros, revelaram-se amigos de ocasião e inimigos para o futuro.

  Mais do dobro do PIB português

Os EUA têm o maior orçamento militar do planeta. Para o ano que vem, e antes mesmo do início de mais uma guerra, o presidente George W. Bush tinha proposto, em Junho passado, um orçamento de 329 mil milhões de US dólares para o Departamento de Defesa. Em relação ao ano em curso, trata-se de um aumento de 9%, o maior desde 1982, e a astronómica verba é a mais elevada desde o fim da Guerra Fria.

Os gastos militares norte-americanos ultrapassam largamente, por regra, as verbas atribuídas ao Departamento de Defesa. Basta saber que os gastos com equipamento nuclear não fazem parte da verba orçamentada. Seguindo a tendência dos últimos anos, e sem incluir os gastos imprevistos com a guerra agora em curso, os gastos militares dos EUA deveriam ser da ordem dos 344 mil milhões de US dólares. Há um termo de comparação para se entender uma verba desta grandeza. Trata-se de cerca de duas vezes e meia o PIB português.
No ano fiscal de 2001, que termina no fim deste mês de Setembro, os gastos militares da Administração dos EUA atingiram os 305 mil milhões de dólares. A verba ultrapassa a soma dos gastos da Administração federal com a educação, saúde, justiça, habitação, recursos naturais e ambiente, assuntos internacionais, ciência, emprego e formação profissional, transportes e desenvolvimento económico. Este facto está na origem da criação do movimento cívico National Priorities Project que propõe, nos EUA, um debate aberto e participado sobre o orçamento militar, para além da discussão e aprovação no Congresso.
Os activistas do movimento sublinham o facto extraordinário do Congresso ter aprovado, nos últimos anos, gastos militares superiores aos que o próprio Pentágono pediu aos congressistas e atribui tal situação ao poder dos lobbies do complexo militar industrial. 

Onde fica a guerra?


       A guerra baptizada provisoriamente de «Justiça Infinita» pretende responder aos atentados terroristas do passado dia 11, em Nova Iorque e Washington, cuja autoria foi atribuída pelos EUA a Osama bin Laden. É a primeira guerra declarada contra um só homem e visa, por tabela, o regime que o acolhe e protege, os Taliban, os mais fundamentalistas dos Moujahedin, que os EUA ajudaram a subir ao poder no Afeganistão.
Nos anos 80, os rebeldes afegãos ajudaram a cavar a sepultura do regime soviético e do sistema comunista. Guerrilheiros de um país miserável derrotaram as tropas de uma das maiores potências militares do mundo de então. A Administração norte-americana e os serviços secretos paquistaneses equiparam e treinaram os rebeldes, levando-os ao poder. Certamente que estes aprendizes de feiticeiros não sabiam que estavam a instalar em Cabul uma bomba ao retardador. Os Taliban, Movimento dos Estudantes Religiosos, impuseram-se aos outros Moujahedin, em Setembro de 1996, instaurando no Afeganistão um regime despótico, fanático, apenas tolerante com o tráfico de ópio, que mergulhou o país na mais extrema pobreza e na mais intolerante repressão. O país não tem constituição, nem administração central, nem poder legislativo. A lei que vigora é a interpretação mais radical, arbitrária e abusiva do Islão. O poder está nas mãos de um líder religioso, Mulah Mohahammed Omar, que ostenta o título de Comandante da Fé.


       O cenário previsível da guerra – se a guerra se desenrolar num único campo de batalha – é o território inóspito, montanhoso e desértico do Afeganistão, que foi o Vietnam do Exército Vermelho. Um antigo general soviético, que comandou tropas no território, disse em entrevista à CNN que as armas mais modernas e sofisticadas se tornam inúteis nas montanhas afegãs e lamentou a sorte dos que vão combater em tal teatro de guerra. O general acrescentou que os guerrilheiros, que combatem há cerca de 20 anos, conhecem cada rocha e cada gruta das montanhas, que nenhum mapa nem nenhum computador registam, e recorrem tanto às emboscadas como aos ataques suicidas e dispõem de armamento herdado da URSS e dos EUA.

       É neste cenário que se esconde Osama bin Laden, que a Administração norte-americana e o FBI acusam da autoria dos atentados terroristas de 11 de Setembro. Com data do dia anterior, um relatório de 36 páginas do Congresso – Terrorism: Near Eastern Groups and State Sponsors, 2001 - elaborava o rol dos terroristas mais perigosos e procurados e dos estados que os apoiavam. Bin Laden e o Afeganistão vinham já à cabeça da lista. E o relator sublinhava que «os Estados Unidos, mais que os seus aliados europeus», estavam «mais inclinados a acções militares», para «isolar e punir» os terroristas e reduzir a ameaça do terrorismo. Quanto à localização de células terroristas da organização de Bin Laden, o relatório citava um considerável número de países, entre os quais o Egipto, Argélia, Libia, Iraque, Sudão, Eritreia, Quénia, Tanzânia, Somália, Arábia Saudita, Uzebequistão, Tadjiquistão, Paquistão, Filipinas, Bangladeh, Malásia, Qatar, Iemen, Líbano, Jordânia, Palestina, Siria, Bósnia, Kosovo, Albânia, o que poderá alargar o traçado da «Justiça Infinita» ao mapa de uma III Guerra Mundial.

João Paulo Guerra, Diário Económico, 21 Setembro de 2001

Sem comentários: