segunda-feira, 13 de junho de 2016

A GUERRA QUE OS MEUS FILHOS JÁ NÃO FIZERAM *

Moçambique no mapa de África
João Paulo Guerra
Revista Antena, propriedade do Rádio Clube Português,
Lisboa, 1 de Dezembro de 1967

O oficial ia expondo a situação. Seguíamos-lhe os gestos com que apontava na carta o que seria o nosso percurso: cerca de 200 quilómetros através do Niassa. Ficámos com uma ideia do que acontecera antes e daquilo com que poderíamos contar. Tudo fora pensado. A solução dos imprevistos dependeria de nós. A missão consistia em ocupar e defender o Posto Administrativo de Olivença.
Os últimos dias foram ocupados com os derradeiros preparativos. Ouviram-se uma vez ainda os conselhos dos mais experimentados. Dissimulávamos um natural nervosismo arvorando sorrisos que sentíamos falsos. A distribuição do penso individual do combatente, feita por elementos do Serviço de Saúde, ou a elaboração da cadeia de comando, para o caso de baixas entre os elementos mais responsáveis, eram tarefas para fazer da confiança uma rotina. Depois, tudo a postos, a coluna pôs-se em marcha.

O Niassa no mapa de Moçambique
Agora o sol abatia-se sobre nós, impiedoso. O suor colava-nos ao corpo o “camuflado”, a água aquecia nos cantis. Seguíamos no entanto em relativa segurança. As pesadas autometralhadoras da escolta de Cavalaria davam-nos garantias contra as minas e o terreno não era propício a emboscadas. Em breve, porém, deixaríamos a savana para entrarmos na zona de floresta do Norte.
Ao princípio da tarde alcançámos Maniamba, oásis para a sede e para o calor que nos atormentavam. Durante uma breve paragem à sombra repousante das acácias, tomámos conhecimento da actividade operacional na região: Maniamba havia sido flagelada na noite anterior. Depois a coluna retomou a marcha, deixando para trás a escolta de Cavalaria.


Reconhecíamos in loco os acidentes do terreno, estudados na carta. Devíamos atingir Nova Coimbra ao cair da tarde. Antes, porém, teríamos que passar um ponto habitualmente difícil, ao qual, pela sua configuração, se dera o nome de Caracol. A época era-nos propícia. O capim, seco, arderia com facilidade, garantindo-nos a segurança própria de um campo aberto. Apesar disso, tomámos precauções… Feita uma batida pelos arredores, garantimos a segurança da coluna.
Abandonávamos o planalto, as grandes altitudes que culminam no Litunde, em Vila Cabral e Maniamba. Daí ao Lago Niassa em Metangula, desceríamos por um declive de 30 por cento. Não chegaríamos, porém, às margens do Lago: cerca de 20 quilómetros antes derivaríamos para o interior, rumo a Nova Coimbra.
Lago Niassa
Cumprido, sem incidentes, o primeiro dia de viagem, teríamos que aguardar vinte e quatro horas, antes de seguirmos mais para Norte. Os nossos movimentos estavam coordenados com os de outras unidades. Dessa coordenação dependia, em parte, o êxito da operação [e a segurança da pesadíssima coluna que avançava: 150 homens mais um destacamento de Engenharia, máquinas e viaturas pesadas, materiais de construção, mantimentos]. Nova Coimbra era o último estacionamento por onde passávamos; a partir daí e até ao nosso destino, apenas o mato, a picada onde dificilmente passavam as viaturas da coluna, as pontes que teríamos de construir [ou reconstruir], os perigos inerentes à selva e a uma guerra sem frente.
(…)
Saímos de Nova Coimbra para Norte pouco depois. Para esse dia teríamos que transpor um obstáculo difícil, o rio Lunho. Seco na altura, pois não haviam começado ainda as chuvas, a coluna desceria ao leito e subiria a outra margem, mergulhando num leito de capim com quatro metros de profundidade.
Na testa da coluna as metralhadoras varriam o mato tentando neutralizar eventuais emboscadas. Mesmo assim, a emboscada deu-se… A reacção foi rápida e nisso residiu a nossa vantagem. O terreno dificultava qualquer manobra de envolvimento; quando cercámos o ponto de onde fôramos alvejados deparámos com um abrigo deserto onde, na precipitação da fuga haviam sido abandonadas uma metralhadora Brenn e uma pistola-metralhadora Matt… E trilhos de retirada confundidos, baralhando as pistas e sem saída.
"AS NT - NOSSAS TROPAS", general João Carrasco,
mais conhecido por John Killer
Baptizados pelo fogo seguimos viagem. Sabíamos que o pior estava para vir. No dia seguinte seríamos de novo flagelados, à saída de Mecuela; na região de Miandica accionámos duas minas no espaço de 200 metros. Mas continuámos a saber que o pior estava para vir. A nossa progressão seria ascendente não só em latitude mas sobretudo em emoção. Atingiríamos um clímax, decerto. Mas quando? E Onde?
No cruzamento das picadas do Cobué e de Olivença a coluna foi imobilizada pelo rebentamento de uma mina reforçada com grande quantidade de trotil. Caía a noite e embora o local não fosse o mais indicado para estacionarmos, dado que ficaríamos cercados por montanhas, não houve outra alternativa. O efeito moral do rebentamento fazia sentir-se. Juntava-se ao cansaço físico e psíquico de vários dias de marcha e agravava o somatório das emoções vividas. Foi quando os vimos.
Ao longe, do cimo das montanhas, observavam-nos também [parecia um filme]. Quando utilizámos o morteiro, para bater a contra-encosta, tínhamos já deixado de os ver. Mas agora sabíamos que voltariam.
(…)
"O IN - INIMIGO", a Frelimo
«O sítio onde nos encontrávamos – escreveria mais tarde no relatório da operação o comandante da coluna, capitão V. V. – era realmente muito perigoso, ladeado por montanhas enormes em duas frentes. Como já começasse a escurecer montámos rapidamente um sistema defensivo de largo perímetro, em duas semi-elipses, de um e de outro lado da estrada, com os quatro grupos de combate. Constituiu-se uma reserva móvel pronta a acorrer a qualquer ponto onde o fogo inimigo fosse mais intenso. Duas metralhadoras batiam para um e outro lado o enfiamento da estrada, enquanto os morteiros 60 ficavam ao meio, em condições de fazer fogo em todas as direcções. As viaturas também foram dispostas para um e outro lado da estrada, com os faróis voltados para fora… [prontos para serem acesos e iluminarem eventuais atacantes].
«Às 2.45 horas da madrugada – prossegue o capitão V. V. no relatório da operação – numeroso grupo terrorista desceu das montanhas e cercou completamente toda a nossa posição. Porém, ou porque o dispositivo de defesa fosse ainda mais amplo do que o normal, ou porque o segredo da sua montagem tivesse sido conseguido à custa de uma disciplina de luzes e ruídos, já a coberto da escuridão, ou ainda porque o pessoal, colado ao terreno, atrás das árvores, se tivesse mantido no maior silêncio e vigilância, ou talvez por todos estes motivos, os terroristas, que já vinham progredindo com a máxima cautela, foram surpreendido e alvejados, ao que responderam com fogo de armas automáticas de cadência notoriamente mais lenta. Ao contrário do que aconteceu em Mecuela, revelaram uma certa organização, boa coordenação entre os diversos grupos e acção de comando, produto talvez de um pormenorizado plano de ataque concebido durante a noite, pois não bateram logo em retirada como é habitual, mas só ao fim de uma hora, depois de termos disparado cinco tiros de morteiro nas direcções onde a concentração de fogo era maior.»

A fronteira do Niassa com a Tanzânia
(…)
Sabíamos agora… que estávamos entregues a nós próprios. Não teríamos contacto com qualquer outra unidade até atingirmos Xitete, onde uma companhia de caçadores pára-quedistas nos aguardava. As precauções redobraram; as batidas ao terreno eram agora mais frequentes; o avanço era mais lento. À frente da coluna deslocava-se apeado, batendo as bermas, um grupo de combate. Avançámos assim dezenas de quilómetros. O desgaste físico era enorme mas garantíamos mais segurança.
O dispositivo usado surtiu efeito na detecção de minas. Foi O Dinis, beirão radicado no Limpopo, forte, granítico, sempre voluntário na frente da coluna, carregando nos ombros rijos o tubo do morteiro, quem viu o terreno mexido, afastou a terra com a ponta da faca de mato e descobriu a mina. Para a levantar, porém, já não chegavam os seus conhecimentos de soldado raso. Avançou o alferes S. V., com conhecimentos em minas e armadilhas e com muita coragem. Só, no meio da picada, com as mãos firmes, tirou o detonador, levantou o engenho e os cinco quilos de trotil que o reforçavam. Um pouco afastados, todos observámos o desenrolar da operação, a firmeza dos seus gestos, a expressão concentrada, numa face em que o suor lavava a poeira de vários dias. Por fim, ergueu-se. Respirámos com ele. O seu sorriso contagiou-nos.
Os últimos dias decorreram monótonos, exaustivos mas sem incidentes. [Tínhamos a sensação de que chegáramos às traseiras da guerra]. E chegámos, por fim. Todos. Tínhamos à nossa frente Olivença… o posto mais avançado junto à fronteira terrestre com a Tanzânia, o que seria o cenário de parte da nossa comissão.
Olivença: três casas, do posto administrativo, e uma pequena povoação nativa, descendentes de nyanjas e ajáuas. O resto faríamos nós: construção de um aquartelamento para a companhia e de uma pista de pouso de 1.200 metros para o bimotor C 47, o Dakota. 
Reserva Nacional do Niassa
O primeiro Dornier DO-27 a aterrar no terraplano, onde depois iríamos construir a pista de aterragem, trouxe-nos o nosso capitão. E foi já com o capitão Verdasca que deitámos mãos às obras e estabelecemos relações de boa vizinhança com os habitantes da povoação nativa.  

Nota posterior à publicação:
O autor, noticiarista do Rádio Clube Português, reporta uma operação militar em que participou como alferes miliciano de Infantaria, em Outubro de 1965. O texto, escrito e editado após a passagem do autor à disponibilidade e citando um relatório oficial, apesar de todas as cautelas para não infringir regras de segredo militar – quanto a designação de unidades envolvidas, efectivos, identidade de militares, etc. – foi totalmente cortado pela Censura, com o argumento de que era inconveniente e inoportuno do ponto de vista da defesa nacional. De opinião absolutamente contrária à da Censura foram as chefias militares – e nomeadamente o coronel Pedro Cardoso, da Divisão de Informações, recém-chegado de Moçambique -, para as quais o autor recorreu. Na imediata sequência do recurso, o corte da reportagem foi levantado sem explicações da Censura.
Revista Antena, RCP
Hoje, é possível escrever que a unidade era a Companhia de Caçadores nº 73, da Região Militar de Moçambique. O autor, alferes miliciano colocado em Nampula, no Centro de Instrução de Infantaria, foi destacado para integrar a Companhia. Apanhou o comboio – propriamente dito – em Nampula, dali a unidade seguiu para Catur, depois em coluna por estrada para Vila Cabral, onde aguardou a formação da coluna que seguiria para Olivença e que integrava um destacamento de Engenharia. O Comandante da Companhia era o capitão José Verdasca que à chegada a Vila Cabral foi acometido de apendicite aguda que obrigou a internamento hospitalar e intervenção cirúrgica. A coluna de Vila Cabral a Olivença foi comandada pelo capitão V.V. (mantenho a designação por iniciais que consta do relatório). Dos quatro alferes, dois eram de incorporação metropolitana, Vieira e o autor, outros dois, Fonseca e Ramalho, eram de incorporação local, tendo sido repescados para uma segunda chamada às fileiras. Enquanto aguardaram a formação da coluna, em Vila Cabral, os quatro pelotões da Companhia 73 foram destacados para reforçar unidades do sector do Niassa em operações, designadamente em Cantina Dias, Litunde e Muembe. Com a Companhia seguiu também o tenente médico Jana.
Revista Antena, RCP
José Verdasca dos Santos, o “nosso capitão”, foi colocado na CCaç73, com destino a Olivença, na sequência de uma punição em Cabo Delgado por desobedecer a uma ordem que considerou incompetente e reveladora de incapacidade para o comando por parte de alguns dos seus superiores; saiu de Olivença com um louvor. No final da comissão, com 30 anos de idade, o capitão apresentou a demissão de oficial do Quadro Permanente, que veio a ser aceite nos últimos meses de 1967. José Verdasca é, desde então, empresário na região de São Paulo, Brasil.

João Paulo Guerra, revista Antena, Lisboa, 1 de Dezembro de 1967
*Título original da reportagem: “Uma guerra sem frente / O Norte de Moçambique in loco”.
O título agora usado "A GUERRA QUE OS MEUS FILHOS JÁ NÃO FIZERAM" é dedicado ao Paulo - que nasceu quando o pai estava em Moçambique - ao João Nuno, ao Manuel e ao Francisco. E naturalmente ao 25 de Abril, que libertou os nossos filhos da guerra, e a tudo o mais que lhe devemos. 

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