terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Presidenciais

Um general sem medo enfrentou Salazar


Por João Paulo Guerra,
Diário Económico, 
Maio de 1998, nos 40 anos
da campanha 
de Humberto Delgado


Há perto de quarenta anos, em 10 de Maio de 1958, uma simples frase abalou um regime já então com 32 anos de poder. O general Humberto Delgado, respondendo à pergunta de um jornalista sobre o destino de Salazar caso viesse a ser eleito, declarou: 
«Obviamente demito-o». 
As hostes do regime reagiram com um coro orquestrado de protestos de uma imprensa censurada e domesticada. Mas a frase não ficou sufocada pelos títulos e prosas de desagravo ao regime e ao seu líder. A frase representou a maior pedrada no charco do regime, despertou toda uma geração para a luta política e constituiu o início da derrocada do poder erguido por Salazar. Quanto ao «general sem medo» pagou com a vida esta e muitas outras ousadias: foi assassinado pela polícia política do regime antes do seu rival nas eleições de 1958 terminar o mandato.




Raul Rego, que veio a ser assessor de imprensa da campanha de Humberto Delgado, conheceu-o durante uma viagem aos Estados Unidos, onde o general desempenhava o cargo de adido militar da Embaixada portuguesa. Republicano e antimilitarista, Rego desconfiou quando lhe apresentaram um oficial general português, da confiança do regime, que defendia valores próximos dos da oposição tradicional portuguesa. Chegou a dizer-lhe que, pensando daquele modo, o general estaria brevemente nas hostes do «reviralho». E a verdade é que acertou em cheio. Poucos anos depois do encontro em Washington, Raul Rego trabalhava na candidatura do general à Presidência da República.
Foi na qualidade de assessor de imprensa da candidatura que Raul Rego convocou e ajudou a preparar a conferência de imprensa de 10 de Maio, no primeiro andar do café Chave d'Ouro, em Lisboa. Na véspera, a direcção da campanha submeteu o general a uma sabatina, prevendo perguntas dos jornalistas e ajudando-o a encontrar as respostas politicamente correctas. E a questão das intenções de Delgado, se viesse a ser eleito, em relação a Salazar foi uma das que se colocaram como mais previsíveis. A Comissão Central de Apoio à candidatura (Vieira de Almeida, António Sérgio, Jaime Cortesão, Azevedo Gomes, Adão e Silva, Mário Soares e outros) aconselhou vivamente o general a dar uma resposta evasiva.
Humberto Delgado, no entanto, retribuía aos oposicionistas tradicionais as desconfianças e reservas que estes lhe votavam. Chamava aos velhos e novos republicanos a «Oposição dos papéis» e afirmava-se como um homem de acção e, acima de tudo, «sem medo». Na conferência de imprensa de apresentação da candidatura, em resposta à pergunta do correspondente da France Press sobre as suas intenções em relação a Salazar ­­­­­­­- «Se for eleito Presidente da República, o que fará do Sr. Presidente do Conselho?» -, o general disparou, ao arrepio de todos os seus conselheiros: «Obviamente, demito-o».
O «Diário de Notícias», dirigido por Augusto de Castro, deu a notícia na edição do dia seguinte, um domingo, no canto inferior da primeira página. A manchete da edição foi para os «Milhares de telegramas recebidos na Presidência do Conselho manifestando agradecimento e confiança em Salazar e protestando contra as afirmações do general Humberto Delgado».

Um vendaval varre o país
A campanha de Humberto Delgado varreu o país como um vendaval, arrastando multidões e revelando um Portugal desconhecido que aderia publicamente à contestação ao regime, enfrentando a repressão. O primeiro dos grandes «banhos de multidão» que marcaram a campanha registou-se no Porto, com cerca de metade da população da cidade a vitoriar o candidato nas ruas. À noite, no comício do Coliseu, Cal Brandão referiu-se a Delgado como «o general sem medo», epíteto que ficou até hoje.
No regresso de Delgado a Lisboa, o regime tomou medidas. Uma imensa multidão esperava o general, de Santa Apolónia ao Terreiro do Paço, mantida à distância pela cavalaria da GNR. A caravana de Humberto Delgado foi desviada pela PIDE, para a zona oriental da cidade, e escoltada por motociclistas da polícia, enquanto a Guarda perseguia e espancava os apoiantes do general pelo Terreiro do Paço, Rossio, Restauradores e ruas da baixa. Cenas de violência que voltaram a verificar-se dias mais tarde, após o comício de Humberto Delgado no Liceu Camões.
Mas a imagem de um general, fardado e condecorado, ao qual as próprias forças repressivas batiam a continência antes de carregarem sobre os seus adeptos, convenceu milhares de portugueses de que a mudança era possível e aquele era o momento. Mário Soares é de opinião que o general poderia mesmo, no dia do regresso a Lisboa após a jornada do Porto, ter apeado Salazar do poder. «Se ele se tem posto à cabeça daquela manifestação e tem rumado a S. Bento, derrubava o Salazar. Não havia força humana que impedisse a multidão de entrar em S. Bento, o Salazar demitia-se. Foi assim que caiu o ditador Marcos, nas Filipinas, muitos anos mais tarde».

Tomás abstem-se
O candidato do regime apresentou-se publicamente no dia 20 de Maio, declarando que não seria, a partir da eleição, «o chefe de uns tantos, mas de todos, mesmo daqueles que o não hajam designado» (textualmente). A conferência de imprensa revelou, de resto, no curtíssimo período de perguntas e respostas, um homem menos tolerante para com os adversários que a sua declaração deixaria admitir e em conflito insanável com a retórica.
«- Pergunta: A que atribui V. Exª os acontecimentos verificados nas ruas?
«- Resposta: A responsabilidade dos acontecimentos é geralmente de quem os provoca. E a forma como eles se verificaram dá a impressão de que estavam preparados de antemão.
«- Pergunta: Como justifica V. Exª o facto de, ao ser convidado para se candidatar, ter começado por escusar-se por não se julgar com as qualidades necessárias?
«- Resposta: Quem não é tolo não se julga com todas as qualidades necessárias para desempenhar um alto cargo».
A campanha de Américo Tomás foi discreta, à medida do próprio candidato e de uma corrida eleitoral com vencedor anunciado. Nas suas memórias, («Últimas Décadas de Portugal» - Volume III, página 12 e seguintes), o almirante sublinha que a campanha eleitoral, por motivo do temperamento e formação pró-americana de Humberto Delgado, foi marcada por «exageros e tropelias», «não só cada vez maiores, mas até contagiosos». Mas Tomás conclui, escrevendo na terceira pessoa do singular, que «não se deixou contagiar o candidato proposto pela Comissão Central da União Nacional, limitando-se na sua actuação à elaboração de algumas saudações e das respostas às que ia recebendo».  
Américo Tomás revela que se absteve no acto eleitoral de 8 de Junho de 1958. «O candidato da União Nacional - escreve no seu estilo peculiar - absteve-se de votar, apesar das pressões nele exercidas em sentido contrário, mediante tenaz argumentação: é que entendeu, por uma questão de princípio, que não devendo votar no seu opositor, não devia votar em si mesmo, e dessa sua determinação, ninguém o conseguiu demover».
Tomás foi declarado vencedor. Mas Marcelo Caetano escreveu anos mais tarde que aquela foi uma vitória com sabor a derrota. A Censura encarregou-se aliás de moderar a euforia dos escribas do regime. E na primeira oportunidade, Salazar mudou a lei eleitoral.   


O «general sem medo» contra
e o almirante «polícia de trânsito»
O regime dividiu-se quanto ao candidato a apresentar e o maior factor de divisão girou em torno do ministro da Defesa, coronel Santos Costa, um «ultra» que desconfiava do próprio Presidente da República, Craveiro Lopes, e das suas ligações na área militar, considerando «gravíssima» a hipótese da sua reeleição, segundo relata Franco Nogueira. Do outro lado situava-se a chamada ala moderada do regime, com Marcelo Caetano à cabeça, defendendo a recondução do Presidente que sucedera a Carmona em 1951. Na biografia de chefe do regime («Salazar», volume IV, página 448 e seguintes), Franco Nogueira dá conta dos factores de alegada «impopularidade» que determinaram o afastamento de Craveiro Lopes: «a sua identificação, real ou imaginária, com as esquerdas» e «a hostilidade que suscita da parte dos militares, ou de alguns destes». Leia-se Santos Costa, um oficial que «subiu de capitão a coronel sem um dia de quartel», como o definia Delgado, mas com largo currículo nos bastidores do poder.
Salazar situava-se acima das intrigas e divisões sem tomar partido e, no momento certo, depois de ganhar tempo, decidia. Em 1958 decidiu afastar Craveiro Lopes substituindo-o por alguém que aceitasse o papel meramente decorativo de um Chefe de Estado comandado pelo Presidente do Conselho.
«Tudo se simplificaria - escreve Franco Nogueira - se Craveiro Lopes escrevesse uma carta declarando que não era candidato às eleições; mas o presidente, além de pronto a continuar nas funções, está convicto de que possui para o efeito o apoio de Salazar».  
Neste quadro, e gorada a tentativa de personalidades do regime para levar o próprio Salazar a candidatar-se, «a tendência geral pende para a escolha de uma figura militar», acrescenta o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros. Quem? Ora se Carmona pertencia ao Exército e Craveiro Lopes à Força Aérea, a lógica militarista do regime impunha que o Presidente seguinte viesse da Marinha. A escolha recaiu assim no contra-almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás (mais tarde, Thomaz), ao tempo ministro da Marinha.  
Craveiro Lopes ficou obviamente magoado, ressentido. Santos Costa, temendo manifestações de solidariedade para com o Presidente afastado à traição da Presidência, apressou-se a tentar desacreditá-lo, fazendo circular que o general manteria «discretos contactos» com militares descrentes do regime.
Américo Tomás, obviamente, veio a ser declarado vencedor da eleição. Mas o nome do escolhido em 8 de Junho de 1958 era o que menos contava. Ao dar a notícia do resultado da eleição, na edição de 10 de Junho, o «New York Times» escreveu que «o nome do vencedor» não tinha «qualquer importância», acrescentando: «Ele nunca terá qualquer poder e o Dr. Salazar poderia ter até escolhido o primeiro polícia de trânsito que lhe surgisse no caminho».

Oposições
Há um momento nas divisões e hesitações do regime que se cruza com as divisões e hesitações das oposições. O general Humberto Delgado chegou a ser contactado por altos comandos militares que lhe propuseram o adiamento das eleições e a reconsideração das candidaturas, num quadro que tinha a montante um pronunciamento militar e a jusante uma abertura do regime com a adopção de reformas na sociedade e no Estado. E Delgado chegou a admitir renunciar à sua candidatura desde que Craveiro Lopes fosse o candidato de um regime disposto, finalmente, a abrir-se a novas realidades. Ao tirar o tapete a Craveiro Lopes, Salazar deu afinal um empurrão decisivo à candidatura do que viria a ser designado como o «general sem medo».
O nome do general Humberto Delgado foi lançado para a cena, em Outubro de 1957, pelo capitão Henrique Galvão, um dissidente do regime que viria a ser preso antes do arranque da campanha eleitoral. E o nome e a personalidade do general confundiram os projectos das oposições. O PCP, que no V Congresso, em Setembro de 57, aderira à tese da «transição pacífica» e à via eleitoral para o derrube do regime, não via mesmo assim com bons olhos que a oposição fosse representada por um «adepto de Salazar e defensor do regime fascista». O Directório Democrato-Social, representando a velha oposição republicana, tinha em vista promover a candidatura de Jaime Cortesão. A área socialista das oposições, à falta de um candidato próprio, aderiu, em certos casos com relutância, à candidatura do general.  
Humberto Delgado registou assim a primeira vitória ao impor a sua candidatura à componente mais hesitante e timorata do Directório, para o que contribuiu decisivamente o apoio inequívoco e desde a primeira hora de António Sérgio e de um núcleo de anti-salazaristas do Porto. Apoiado pelos republicanos tradicionais, por dissidentes do regime e pela área social-democrata, Delgado só teve que arrancar. Os comunistas viriam atrás, arrastados na onda avassaladora de uma de uma campanha que despertou e mobilizou o país.
Delgado, um militar do 28 de Maio, ex-comandante da Legião e ex-comissário da Mocidade Portuguesa, oficial de confiança nos círculos mais íntimos da NATO, avançou como «candidato independente» com o apoio de republicanos liberais, monárquicos dissidentes, ressentidos, como ele próprio, do regime. O seu programa propunha aos portugueses «uma pátria livre, antitotalitária, cristã, alicerçada na família e desassombradamente equiparada às potências do mundo ocidental e da civilização a que pertencemos», que adoptasse «progressiva e tão rapidamente quanto possível os hábitos correntes nos países democráticos». Na ordem económica e social, Delgado preconizava o controlo dos «desmandos oligárquicos» e a elevação do «nível de vida das classes desprotegidas», e quanto à política ultramarina propunha-se actualizá-la «na unidade de aquém e além-mar».
No extremo esquerdo do quadrante das oposições, Arlindo Vicente, com o apoio dos comunistas e na qualidade de «candidato da oposição democrática», apresentava como programa a restauração das liberdades democráticas, a elevação do nível de vida, o combate ao «domínio dos monopólios» e uma política agrária de «limitação aos latifúndios». Quanto à política colonial, o advogado lisboeta defendia a coordenação entre «os sectores económicos da metrópole e das diversas parcelas do território ultramarino, em bases igualitárias».
Quando Arlindo Vicente desistiu a favor de Humberto Delgado, o general não alterou o seu programa. Limitou-se a assumir a promessa de convocar eleições gerais no prazo de um ano, caso fosse eleito em 8 de Junho de 1958.   

Quando os comunistas
bradaram: «Ó céus!»
O general Humberto Delgado, em 1958, terá sido o primeiro «sapo-vivo» que o PCP teve que engolir em matéria de candidaturas à Presidência da República. Perante a vaga de fundo que a campanha do general levantou no país, e face às sucessivas desistências dos candidatos Cunha Leal e Arlindo Vicente e à indisponibilidade de Manuel João da Palma Carlos, o PCP acabou por aderir à candidatura. Mas, em Abril de 1958, menos de um mês antes da abertura da campanha, ainda os comunistas consideravam que o general «foi sempre um adepto e defensor do regime fascista de Salazar e até hoje não há um só facto que mostre que ele mudou de ideias». O documento é datado de 6 de Abril de 1958 e assinado pela Comissão Política do Comité Central do Partido Comunista Português.  
Quarenta anos mais tarde, Octávio Pato considera ainda que as reservas do PCP ao nome do general eram «completamente legítimas». Em declarações ao «Diário Económico», Pato reafirmou que a figura de Delgado «não tinha qualquer crédito nas forças democráticas» e «as próprias pessoas que promoviam a candidatura também não mereciam confiança».
Por essa altura, o PCP apoiava ainda a candidatura do engenheiro Francisco Cunha Leal, anunciada pela Direcção da Organização Regional do Sul do partido, em 20 de Março: «A oposição tem um candidato».  
«Não andávamos à procura de um candidato comunista», diz hoje Octávio Pato aludindo ao anticomunismo de Cunha Leal, mas de alguém que merecesse «apoio consensual de forças muito diversificadas da oposição, um candidato que reunisse o apoio das forças democráticas».
Cunha Leal, um ferrenho anti-comunista, aceitara o apoio do PCP mas requeria que outras forças, em particular o Directório Democrato-Social, se lhe juntassem. Os comunistas procuraram que a candidatura fosse um facto consumado que arrastasse o apoio de outras formações, embora o leque de apoiantes contasse já com personalidades como Tito de Morais, Câmara Reis, Aquilino Ribeiro e Vasco da Gama Fernandes. O lançamento do nome de Humberto Delgado baralhou todas as pistas. Cunha Leal veio a desistir, alegando motivos de saúde. Os comunistas procuraram ainda lançar a candidatura de Manuel João da Palma Carlos mas, perante a recusa do advogado, transferiram então o seu apoio para Arlindo Vicente. Uma terceira escolha. «Palma Carlos era um comunista - revela Octávio Pato - o que limitava a abrangência de apoios. O que não era o caso de Arlindo Vicente, que reunia o consenso das forças democráticas de esquerda».
Em 2 de Maio, as conclusões de uma reunião do Comité Central proclamavam que «os princípios e objectivos que informam a candidatura do Sr. Dr. Arlindo Vicente são os que correspondem às aspirações das mais largas camadas da população, desde a classe operária à burguesia nacional. (...) Por isso o Partido manifesta a sua concordância com esta candidatura». A táctica era flexível e ia respondendo às circunstâncias.

Cunhal critica o PCP
Com Álvaro Cunhal na cadeia, o PCP era então dirigido, entre outros, por Américo de Sousa, Dias Lourenço, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Pires Jorge, Júlio Fogaça, Octávio Pato e Sérgio Vilarigues. Após a fuga de Peniche, em Janeiro de 60, Cunhal iria rotular a orientação destes seus camaradas com o carimbo de «desvio de direita».
Octávio Pato, um dos alvos das críticas de Cunhal divulgadas como «auto-crítica do PCP», atribui tal «desvio» à «influência do XX Congresso do PCUS» (1956), que levou o V Congresso do PCP (1957) a transferir para a ordem interna as teses de Moscovo sobre «a possibilidade da solução pacífica dos problemas mundiais, transportando para os problemas nacionais a possibilidade de uma via pacífica para o derrubamento do fascismo». Pato não se sente pessoalmente atingido pela crítica de «desvio de direita»: «Analisámos, criticámos e corrigimos», diz.
O que Cunhal criticou na orientação do partido vinha com efeito da linha estratégica adoptada no V Congresso, em 14 de Setembro de 57, e constava então de um documento assinado nominalmente, contra todos os hábitos conspirativos, pelos dirigentes citados em nome do Comité Central do PCP, com data de 19 de Maio de 1958. Pato e os seus camaradas declaravam que «será possível através das actuais eleições presidenciais, conquistar liberdades até hoje não alcançadas, inclusivamente uma vitória eleitoral». E na perspectiva da «vitória eleitoral», os dirigentes comunistas apressaram-se a declarar que não deixariam de «apoiar condicionalmente um Governo de homens honrados que, substituindo a camarilha salazarista no poder, se proponha restabelecer as liberdades fundamentais».
Ainda hoje, a direcção do PCP considera que foi justo lançar a candidatura de Arlindo Vicente e negociar depois a desistência com Humberto Delgado. Assim, diz Octávio Pato, «não ficámos a reboque da burguesia liberal».
          Colocado perante o inevitável, o PCP procurou adaptar-se, engolindo o «sapo vivo». Mas quando o nome do general começara a ser falado como possível candidato, os comunistas tinham uma opinião definida e definitiva sobre Humberto Delgado. Em Novembro de 1957, em documento publicado em separata ao «Avante» desse mês sob o título «Pela escolha imediata de um candidato à Presidência da República», o nome do general despertava nos comunistas um inesperado brado de indignação: «Ó céus!».  
Arrastados pelo fulgor da campanha de Delgado, os comunistas vieram a acreditar na vitória eleitoral e colaram-se à candidatura nessa perspectiva. Octávio Pato diz hoje, no entanto, que «a direcção do partido nunca acreditou na hipótese do fascismo aceitar uma derrota eleitoral». Mas admite que «alguns camaradas acreditaram».  
Após fugir da cadeia de Peniche, Álvaro Cunhal zurziu os seus camaradas que dirigiram interinamente o PCP. «Atravessámos uma situação pré-insurreccional sem nos apercebermos disso», escreveu o líder comunista, criticando o partido por difundir a ideia de que a questão fundamental era a eleição de Delgado e não o derrube do regime. Como criticou, de igual modo, o apoio do PCP a acções militares posteriores inspiradas pelo general, como a fracassada Revolta da Sé (Março de 1959), classificando-as como «conspirações putschistas pequeno-burguesas». Para Cunhal, em suma, o que faltou ao PCP em 1958 foi ele próprio.         



Humberto Delgado venceu
onde houve fiscalização
Humberto Delgado venceu a eleição de 8 de Junho em cerca de 400 freguesias e assembleias de voto do país, tanto no continente como nas colónias. De comum entre si todas essas freguesias e assembleias tinham o facto de aí se ter verificado a fiscalização da votação e contagem dos votos por parte de delegados da candidatura oposicionista.
Mas essa foi a excepção à regra. No próprio dia da eleição o Governo publicou um decreto-lei proibindo formalmente a oposição de fiscalizar o funcionamento das assembleias de voto.
Delgado e os seus apoiantes mais directos, embora denunciando o carácter fraudulento de todo o processo eleitoral, chegaram ao dia da eleição acreditando que podia «suceder qualquer coisa». Iva Delgado, filha do general, disse ao «Diário Económico» que as notícias que foram chegando ao longo do dia à sede da candidatura, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, deram conta no entanto de «uma fraude consumada, sistemática, invencível».
«Não se tratava de fraudes localizadas, como uma assembleia com 80 eleitores que registou 600 votos a favor de Américo Tomás. A fraude era global e pré-determinada. Havia uma faixa de votação estabelecida a partir da qual o sistema não admitia mais votos para Humberto Delgado. E o regime deu ordens expressas nesse sentido. Mesmo assim, teve que lhe atribuir 23% da votação», recorda a filha do general.   
Para a eleição presidencial de 1958, o Conselho de Estado aceitou as candidaturas de Américo Tomás, Arlindo Vicente - que desistira já formalmente da corrida - e Humberto Delgado. Mas permitiu-se acrescentar o parecer de que «somente o almirante Américo Tomás oferece garantias de respeito e fidelidade à ordem política e social consignada na Constituição». Mas esse foi o menor dos males numa eleição marcada por profundas discriminações.
A absoluta falta de isenção do Estado em relação às candidaturas teve a sua expressão mais visível e brutal na actuação do ministro da Defesa, Santos Costa. O coronel - que na despedida de Américo Tomás do Ministério da Marinha garantiu publicamente ao candidato da União Nacional que «a Força Armada, toda a Força Armada de Portugal, está, estará e ficará sempre ao lado de Vossa Excelência» -, chamou a si, durante a campanha, o comando directo da tropa e também da GNR e da PSP. E sob o comando de Santos Costa, a tropa, a GNR e a PSP tomaram posições nas ruas e carregaram com a máxima violência sobre os apoiantes de Delgado. E como as estrelas e a farda do general constrangiam a actuação das forças repressivas, Santos Costa determinou que Humberto Delgado não se poderia apresentar fardado até ao final da campanha. Delgado passou a andar com a farda dentro de uma mala de mão, «para o que desse e viesse». Até porque o general, embora envolvido em campanha eleitoral, nunca deixou de admitir que a própria dinâmica da campanha quebrasse a unidade do mais sólido esteio do regime, o meio militar.

Boletins de voto
A eleição fazia-se por voto secreto, mas cada boletim tinha apenas inscrito o nome de um candidato. Às candidaturas competia fazer imprimir e distribuir pelos eleitores os boletins. A União Nacional, a única candidatura que tinha acesso aos cadernos eleitorais, recorria aos correios, às polícias e a outros serviços do Estado para fazer chegar os respectivos boletins aos eleitores. A oposição imprimia os boletins por sua conta e risco e distribuía-os porta a porta, com a polícia no encalce. À candidatura oposicionista não foi permitido recorrer a qualquer das novas tecnologias da época, a fotocopiadora ou o dictafone, para copiar os cadernos eleitorais. E nas filas de espera para os copiar à mão, nas juntas de freguesia, alinhavam-se por sistema dezenas de legionários que alegadamente pretendiam consultar os cadernos. Quando chegava a vez dos oposicionistas terminava a hora do expediente.
Por mais de uma vez, apoiantes do general foram interceptados pela PIDE e viram os boletins de voto apreendidos pela polícia. Na Madeira e Açores, os votos em nome do general Humberto Delgado ficaram retidos por ordem do poder até à véspera da eleição. A polícia exigia o pagamento de direitos alfandegários para que os boletins entrassem nas ilhas adjacentes.
Por forma a assegurar um mínimo de sigilo do voto, a candidatura do general Humberto Delgado conseguiu que os boletins com o nome do candidato fossem impressos na mesma tipografia de onde saiam os votos para o almirante da União Nacional. Em 19 de Maio, a candidatura do general depositou na Companhia Nacional Editora a soma de 60 mil escudos, para custear a encomenda de um milhão e novecentos mil boletins de voto com o nome do candidato. A empresa garantia, no recibo da obra, que os boletins seriam impressos em papel e tipo de letra idênticos aos usados para o candidato da União Nacional e comprometia-se a ir entregando os boletins, à medida que fossem impressos e contados, até ao dia 6 de Junho, a antevéspera da eleição.
Américo Tomás foi proclamado vencedor, mas Salazar não quis voltar a passar pelo susto que apanhou em 1958 e mudou as leis do país, por forma a evitar o que designou por um «golpe de Estado constitucional». Na eleição presidencial seguinte, em 1965, o general tinha sido assassinado e o universo de votantes foi reduzido drasticamente a um colégio eleitoral no qual tinha acento a nata do regime, em substituição do sufrágio directo.    



João Paulo Guerra, Diário Económico, Maio de 1998

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