terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Almeida Santos: memória de elefante


António Almeida Santos, que agora faleceu à beira de completar noventa anos, percorreu publicamente toda a política portuguesa nos últimos quarenta e dois anos. Ocupou quase todos os altos cargos, no Estado e no PS. Mas a intervenção e participação políticas já vinham de trás. Em entrevista para a série de reportagens O Regresso das Caravelas [TSF 12 de Fevereiro de 1993], o chamado ministro da descolonização puxou pela memória. E a memória respondeu.

Por João Paulo Guerra


A questão colonial, que fez cair o regime da ditadura, abalou seriamente a democracia em Portugal. Houve mesmo momentos em que era legítimo duvidar se a democracia portuguesa ia sobreviver à descolonização. A ditadura, pela sua própria natureza, recusou-se a enveredar pela reforma do colonialismo atrás do slogan: O Ultramar não se discute. E assim se perderam treze anos de guerra, em trânsito de Salazar para Marcelo Caetano.
Em 1962, o próprio Marcelo Caetano propôs uma solução política para a questão colonial, semelhante à que veio a ser perfilhada, doze anos mais tarde, pelo general Spínola: a substituição de um Estado unitário por um Estado federal. Salazar nem sequer respondeu ao parecer de Marcelo Caetano. E o que viria, seis anos mais tarde, a ser o sucessor de Salazar, virou-se então para os lados da oposição, em busca de apoios para uma solução federativa.
António Almeida Santos, advogado em Lourenço Marques, que viria a ser o ministro da descolonização, foi um dos seus interlocutores:
              
- Eu tive acesso a esse parecer - recorda hoje [1993] Almeida Santos - e mais tarde, quando ele saiu de reitor da Universidade de Lisboa e estava numa espécie de oposição ao regime, tive vários contactos com ele, troquei impressões com ele sobre isso. Na altura, eu próprio defendia uma solução federativa, embora convicto de que os laços federativos eram para cortar. Era uma espécie de fazer um parto sem dor, um processo desinflamatório. Marcelo Caetano fez, em palavras, a apologia dessa solução, em conversas comigo. Fez juízos bastante depreciativos, na altura, sobre os responsáveis políticos do regime que estavam à frente da política colonial. Mais tarde, quando foi primeiro-ministro, esqueceu-se disso tudo e veio até a nomear alguns desses indivíduos para cargos de responsabilidade em relação ao Ultramar.
               Pergunta - Esqueceu-se? Ou não teve meios, nem forças, para aplicar esse projecto?
               A. S. - Foi um esquecimento táctico. Não lhe fugiu da memória. É verdade que ele encontrou da parte da direita militar uma impossibilidade de aceitação daquelas ideias. Simplesmente, ele quando visitou o Ultramar [Abril de 1969] e veio de lá depois de ter recebido recepções bastante afectuosas, porque se esperava dele alguma mudança, se ele tem batido com a porta e tem decidido fazer eleições, ninguém o impediria de fazê-las. E talvez na altura as ganhasse, porque nessa altura tinha-se a esperança que ele fizesse a abertura. Por outro lado, esqueceu-se de uma coisa que é sempre o último recurso, quando se não concorda em consciência com o futuro da evolução das coisas: pede-se a demissão. E tinha ficado um herói nacional. Assim, não ficou.

         Mais tarde, já em plena guerra e face aos revezes da aventura militar, mesmo dentro do regime houve quem advogasse e quem tomasse a iniciativa de negociar com os movimentos de guerrilha.
Em Moçambique, à revelia dos generais da guerra, houve quem negociasse com a FRELIMO. Em Setembro de 1973, o engenheiro Jorge Jardim firmou um acordo, em Lusaka, com o presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda, e com a Frente de Libertação de Moçambique - FRELIMO. Almeida Santos acompanhou e estimulou a negociação:

               - Eu tive a felicidade de ir tendo notícias desse acordo - conta Almeida Santos - e até de o estimular, como calcula.
                Pergunta - Mas o Acordo de Lusaka foi negociado com o presidente Kaunda ou com a FRELIMO?
                 A. S. - Negociado com a FRELIMO. O presidente Kaunda serviu apenas de hospedeiro e de intermediário.
                 Pergunta - Com a direcção da FRELIMO? Com Samora Machel?
                 A. S. - Com Samora Machel, claro que sim. Era impossível fazer-se o que quer que fosse, nessa altura, sem o beneplácito de Samora Machel que, nessa altura, tinha uma posição muitíssimo mais razoável, porque a deterioração da situação no terreno e nas Forças Armadas, a seguir ao 25 de Abril, é que lhe deu um reforço de exigências e de agressividade, mesmo militar. Teria sido bom que Marcelo Caetano tivesse aceitado esse acordo [Caetano rejeitou o acordo firmado por Jardim em 17 de Abril de 74]. Eu penso que a descolonização de Moçambique teria servido de paradigma para outras descolonizações de outros territórios e teria sido a saída para soluções políticas em vez de bravatas militares.

         A descolonização chegou tarde ao calendário portuguesa, atrasada por treze anos de guerra. E chegou com feridas de combate e de sequelas da guerra.
Almeida Santos, ministro da Coordenação Interterritorial, o membro dos governos provisórios que mais de perto acompanhou no terreno todo o processo de descolonização, considera que a exaustão dos militares, a radicalização e a indisciplina das tropas comprometeram a condução política do processo:
               - Criou-se uma situação - recorda Almeida Santos - que, no terreno, se traduziu em pressões e exigências de vária ordem, plenários, indisciplina e até ultimatos. Isto não foi revelado durante muitos anos. Eu próprio silenciei, sobretudo isso, na medida em que era necessário salvaguardar o prestígio das instituições e a serenidade política que se impunha. Mas, a partir de certa altura, a verdade histórica tem de vir à tona. E, pelo menos em Moçambique e em Cabo Verde, houve ultimatos...
               Pergunta - Ultimatos da parte de quem?
               A. S. - Ultimatos das  Forças Armadas. Não vale a pena falar em nomes. Nem sequer seria agora capaz de recordá-los. Mas ultimatos deste género: Ou vocês entregam aí o poder ou nós entregamo-lo aqui.
               Pergunta - Insisto em perguntar-lhe de quem e de onde vinham tais ultimatos?
               A. S. - Nós devemos fazer guerra aos factos negativos mas não aos homens. Porque os homens também tiveram razões históricas para fazer o que fizeram. É muito fácil julgá-los quando se está de fora, sentado numa cadeira, à lareira, a ver televisão. Na altura, os acontecimentos tinham a sua própria dinâmica, a sua própria força. Acho que não tem interesse estar a responsabilizar individualmente ninguém. Eram, evidentemente, de um modo geral, elementos da Esquerda do MFA, como é evidente, que eram os elementos mais activos, mais responsáveis e que estavam nos lugares de comando e de chefia."


A descolonização teve o seu enquadramento legal em 27 de Julho de 1974, quando a Lei Constitucional Nº 7 reconheceu o direito dos povos ultramarinos à independência e permitiu aos órgãos de soberania iniciar o processo de transferência de poderes.
     Mas aqueles eram tempos conturbados. E a Lei Constitucional que alterava, nada mais nada menos que a definição e território do país, terá saído sem conhecimento quer do Presidente da República, general Spínola, quer do ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos:
               - Fiquei furioso - confessa Almeida Santos -. Fui ter com o Presidente da República pedir-lhe a minha demissão. Primeiro, porque não concordava  com o texto e, em segundo lugar, porque achava que deveria ser ouvido. O Presidente, com surpresa minha, diz-me: Lei sobre descolonização? Não assinei lei nenhuma. Como não assinou? Está publicada no "Diário da República". Mandou-se vir o dossier da Imprensa Nacional e, de facto, não estava lá a assinatura do Presidente da República. O que se passou não sei, não me pergunte. Mas dá-me ideia que foi, uma vez mais, a criação de factos políticos antes que eles pudessem acontecer, factos políticos para depois sermos prisioneiros deles. Lá se deu uma alteração à Lei, lá veio a ser publicada, então já com a assinatura do Presidente. E foi ao abrigo dela que se fizeram as coisas.

         O general Spínola quis reservar para si os dossiês da descolonização. E nem os mais próximos dos seus colaboradores tinham acesso ao andamento das conversações internacionais. Foi assim na Base das Lajes, Açores, no encontro com Richard Nixon, em 18 e 19 de Junho de 1974; foi assim na ilha do Sal, no encontro com Mobutu, em 14 de Setembro.  
Na ilha do Sal, no encontro com o presidente do Zaire, Spínola fez-se acompanhar por Firmino Miguel e Almeida Santos. Mas, tal como nas Lajes, os acompanhantes do general ficaram à porta da reunião:
               - Nós íamos também à Cidade da Praia - conta Almeida Santos -. Nessa medida é que acompanhei o Presidente da República. Era uma visita a Cabo Verde, dentro daquela ideia de salvar o que se pudesse salvar das relações culturais e das relações económicas. O Presidente da República aproveitou para se encontrar com o presidente Mobutu, na ilha do Sal. Também ía o general Firmino Miguel. Mas nem eu nem o Firmino Miguel assistimos às conversações.
               Pergunta - E o general Spínola não lhe revelou, nem sequer na viagem de regresso, o que se passou no encontro com Mobutu?
               A. S. - Não, não. Eu penso que se tratou de conversações de carácter sigiloso e secreto. E nessa altura não se deve forçar a confidência.

E era por estas e outras que Almeida Santos reconhece que houve figurantes do processo da descolonização que desempenharam um papel mais decisivo que os protagonistas portugueses:
               - Por detrás de cada movimento de libertação - diz o então ministro da Coordenação Interterritorial - estava uma potência estrangeira, com os seus interesses próprios, no quadro multipolar dessa época. Por detrás do MPLA e do PAIGC estava a União Soviética; por detrás do Holden estavam os Estados Unidos; por detrás da UNITA estavam também os Estados Unidos e, de algum modo, a África do Sul. Portanto, naquele tabuleiro que eram as nossas ex-colónias, por último já não lutavam portugueses, já não comandavam portugueses. Quem comandava as operações era quem negociava e traficava interesses, eram grandes potências internacionais que se serviam daquele tabuleiro para lutarem entre si por hegemonias. Era um tabuleiro onde as forças internacionais jogavam o seu joguinho de xadrez, esquecidas de que estava a morrer gente e de que havia seres humanos a serem jogados naquele jogo. Em vez de pedras, eram pessoas.

A descolonização foi uma tragédia comparável a Alcácer-Quibir, para uns, para outros terá sido uma descolonização exemplar. Para o então ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, a descolonização foi simplesmente a possível. Mas ficou longe de ser a desejável:
            
   - Teria sido desejável - considera Almeida Santos - que a descolonização se fizesse com tempo, com serenidade e com suporte militar suficiente. Teria sido desejável que, tal como estava previsto implicitamente no Programa do Movimento das Forças Armadas, a descolonização fosse precedida de uma consulta popular. Acontece que, a seguir ao 25 de Abril, Portugal sofreu uma evolução vertiginosa no sentido da aceleração de tudo. Exigia-se tudo, já. 'Já' era a palavra mais gasta nessa altura. Recorria-se a plenários que exerciam pressões sobre as autoridades políticas e não políticas, sobre a própria comunicação social. Ela própria, comunicação social, se transformou num instrumento de pressão política. E a situação no terreno colonial agravou-se nessa medida. As nossas forças consideravam que tinha terminado a sua função e que tinham dado treze anos às autoridades políticas para poderem fazer uma descolonização por meios políticos e não militares. Julgavam-se quites, digamos assim, com o seu dever militar. Passaram a abraçar os seus adversários da véspera e passaram, cada vez mais, a recusar-se a novos combates e a permanecer na situação de guerra. Naturalmente que, da parte dos movimentos de libertação, foi o contrário. Quem se prepara para negociar quer sempre negociar em posição de força. Eles sentiram que havia fraqueza da parte do adversário e intensificaram os esforços de guerra. Resultado: perdemos o controlo da situação no terreno e a descolonização foi, nessa medida, a possível.
               Pergunta - Na complexa organização do poder que existia em Portugal quem dirigia a descolonização? O Dr. Almeida Santos, como ministro da Coordenação Interterritorial?
               A. S. - Eu não fui o ministro da descolonização, ao contrário do que se possa julgar. Eu fui o ministro da administração transitória dos territórios e lá os administrei conforme pude. E devo dizer que se conseguiram alguns êxitos. Por exemplo, na integração em Portugal dos portugueses que vieram de África, eu penso que nós tivemos um resultado altamente positivo.
               Pergunta - Mas ao nível do governo, quem dirigia?
               A. S. - O governo, praticamente, não quis ter nada a ver com a descolonização. Digamos que os únicos elementos que tinham ligação com o fenómeno da descolonização eram o ministro dos Negócios Estrangeiros, que era o Dr. Mário Soares, e era eu próprio, que era ministro da Coordenação Interterritorial. De resto, o governo pôs-se de fora. Percebeu que aquilo era um pouco escaldante e, portanto, de algum modo delegou no Presidente da República.
               Pergunta - Com uma descolonização que passava pelo fim de três guerras, também os militares tiveram um papel de primeira linha. O facto da situação militar em Angola ser mais favorável aos portugueses não teria permitido uma solução mais fácil?
               A. S. - Não. Apesar da nossa situação militar em Angola ser a melhor em relação aos três cenários de guerra, eu diria que era ali que estava a maior dificuldade. Porque precisamente era naquele tabuleiro que jogavam a América, por um lado, a Rússia, por outro, e a África do Sul, por outro ainda.
              Pergunta - Era um processo comandado, como já chegou a dizer, por diversos serviços secretos?
               A. S. - Sim, sim. A CIA, o KGB, os serviços secretos sul-africanos. Aliás, o John Stockwell [chefe da 'antena' da CIA nas operações para Angola em 1974-76] diz isso mesmo naquele livro "A CIA contra Angola".
               
               Pergunta - Olhando hoje para o drama de Angola e de Moçambique [entrevista em 1994], considera que a raiz dessas situações está na descolonização?
               A. S. - Claro que também está na descolonização. Mas não só nela. Por exemplo, Moçambique, com a saída dos brancos, ficou automaticamente vazio de administração e de circuitos económicos. Daí a miséria e também a circunstância de ter surgido a própria RENAMO. A RENAMO não existia à data do 25 de Abril, ao contrário da UNITA, em Angola, que já estava no terreno em luta contra o MPLA. A RENAMO surge como reacção da África do Sul, com receio de ter um país marxista à ilharga, e também como retaliação de alguns imigrados portugueses que se juntaram na Rodésia e criaram a RENAMO, que depois contribuiu para a criação da situação de hoje, de total destruição da economia e da riqueza moçambicana. Por outro lado, não se tinham preparado os africanos para o exercício do poder. Não se tinham preparado, nomeadamente, quadros técnicos nem burguesias, digamos assim, que pudessem elas próprias já ter um significado no quadro da economia dos territórios. Portanto, eu diria que a impreparação vem antes e o vazio vem depois.
               Pergunta - Que sobrou para Portugal de todo este processo: remorsos, cicatrizes, sentimentos de culpa?
               A. S. - Eu acho que isto agora deve ser encarado sem sentimentos de culpa. Acho que deve ser encarado como o apuramento da verdade histórica, que deve ser feito. Nós não temos que nos envergonhar da nossa história, no que ela tem de negativo e no que tem de positivo. Acho sinceramente, e sem falar como homem da oposição, que a grande responsabilidade vem do regime anterior, que criou uma situação que levou à explosão do 25 de Abril, à explosão militar, à explosão das consciências, das mentalidades, das pessoas, e que condicionou tudo o que veio a passar-se depois. Mas também depois do 25 de Abril há culpas. Talvez, apesar de tudo, as coisas pudessem ter-se passado um pouco melhor do que passaram.
               Pergunta - O 25 de Abril foi motivado pela necessidade de pôr fim às guerras coloniais. Concluído o processo de descolonização encerrou-se também o período revolucionário, com o 25 de Novembro. Quer isto dizer que, feita e descolonização, a Esquerda perdeu o interesse em fazer a revolução?
              A. S. - Eu diria que da parte de algumas forças de esquerda a motivação para se aproximarem do poder, e exercerem de algum modo uma influência forte na zona do poder, diminuiu muito quando terminou o processo de descolonização, que era uma das razões porque interessava ter o poder em Portugal. E quando terminou, em termos de negociação, essa motivação desapareceu, embora pudessem continuar outras."

Guiné
O encontro de Paris, no primeiro 1º de Maio de 1974, entre Leopold Senghor e o major Carlos Fabião, enviado de Spínola, não era ainda o encerramento do dossier da Guiné. Almeida Santos admite que Spínola tinha relutância em reconhecer particularmente a independência da Guiné:
               A.S. - O general Spínola - diz Almeida Santos - nunca aceitou bem, de bom grado, a independência de um território pelo qual ele tinha lutado.
               Pergunta - O factor Spínola criou desconfianças nas negociações com o PAIGC?
               "A. S. - Eu diria que havia um duplo sentimento. Ele era um homem respeitado pelos seus adversários, na medida em que era um general corajoso e que tentara fazer uma política de abertura social. Foi o adversário que eles mais temeram. Mas reconheço que em relação ao PAIGC possa ter havido alguma animosidade em relação a ele. Mas a recíproca também era verdadeira.
                  Cabo Verde
Cabo Verde foi a votos antes de mudar de bandeira. Votou cerca de 85 por cento do eleitorado e a lista única, proposta pelo PAIGC, alcançou 92 por cento dos votos, elegendo os 56 deputados. O então ministro da Coordenação Interterritorial, Almeida Santos, considera que as eleições foram sérias, embora não totalmente livres:
               A.S. - Eu diria que fraude não houve - diz Almeida Santos -. Mas também diria que a esperança num resultado diferente do que se verificou era quase insustentável. Em parte, porque a época era essa, de entusiasmo pela independência. Mas, em parte também, porque houve a utilização de alguma intimidação. E, portanto, não tenhamos ilusões: as eleições foram sérias, mas o voto não foi inteiramente livre.
               Pergunta - A consulta foi possível em Cabo Verde, como em São Tomé, por se tratar de territórios que não estavam em guerra e onde não havia, por isso, que negociar previamente um cessar-fogo com partidos armados?
               A. S. - Exacto. Em São Tomé, em todo o caso, estivemos próximo de ter conflitos internos, não de guerra, obviamente. Mas a realização dessas consultas foi a nota de diferença, que eu reivindico para mim: pude impor uma consulta popular, com alguma sorte e alguma habilidade, uma consulta local, popular, testemunhada por observadores da ONU e por jornalistas internacionais, nos casos de Cabo Verde e de São Tomé."

                  Angola
Em Abril de 1974, o fogo da guerra estava em lume brando em Angola, com a FNLA confinada à fronteira Norte, a UNITA a Leste, empenhada na luta contra o MPLA, e o MPLA partido e repartido por conflitos internos. As tropas portuguesas não tinham ganho a guerra, mas estavam a ganhar tempo. A paz, no entanto, não estava ali ao virar da esquina. E o ministro da Coordenação Interterritorial em 1974, Almeida Santos, reconhece que Angola era o osso mais duro de roer da descolonização:
               A.S. - Angola é uma presa cobiçada - diz Almeida Santos -. Tem petróleo, tem diamantes, tem ferro, tem uma riqueza potencial espantosa. E quando há petróleo, há luta. Petróleo é um equivalente à palavra guerra. E como havia um equilíbrio instável, bipolar, entre as duas grandes potências, nós tínhamos a sensação de que não mandávamos nada, de que a nossa capacidade de interferir naquele conflito era quase nula.

                   Moçambique
Pergunta - Passemos a Moçambique, onde o Dr. Almeida Santos vivia, antes do 25 de Abril, e dirigia os "Democratas de Moçambique", e onde o engenheiro Jorge Jardim alimentou, durante alguns anos, a chamada "tentação rodesiana" com vista a uma declaração unilateral da independência. Jorge Jardim teve contactos formais consigo a esse respeito?
               A. S. - Formais não. Teve contactos de amizade comigo. E eu desaconselhei-o a enveredar por essa aventura. Ele considerava que a solução rodesiana e sul-africana era uma solução sólida para o Sul de África. Eu disse-lhe que nem a África do Sul nem nada seria sólido sem a emancipação dos povos africanos.
               Pergunta - Foi essa "tentação rodesiana" que se manifestou nos acontecimentos de 7 de Setembro de 1974, em Lourenço Marques?
               A. S. - Isso teve uma causalidade e uma explicação imediata. Pretende-se que isso teria tido como origem o facto de, na véspera, um jipe da FRELIMO ter arrastado na baixa a bandeira portuguesa, sem nenhuma reacção da parte das nossas forças militares. Pode ter sido o rastilho, a faísca. Mas eu diria que já havia da parte dos elementos que ocuparam o Rádio Clube uma atitude de básica repulsa, de repúdio, pelo processo de descolonização que estávamos a fazer. Esses é que tinham de facto advogado uma 'independência branca', um movimento de tipo rodesiano, que punha no engenheiro Jorge Jardim todas as suas esperanças. E foi ele que não quis aceitar liderar esse movimento.
          Pergunta - Jorge Jardim não esteve envolvido no 7 de Setembro?
A.S. - Não. No 7 de Setembro ele nem estava lá. Mas eram elementos de um modo geral simpáticos às suas posições anteriores. Não às últimas, porque nenhum deles terá tido conhecimento do acordo, de que já lhe falei, que ele negociou com a FRELIMO através do Kaunda.
Almeida Santos desaconselhou Jorge Jardim de seguir o caminho de Ian Smith na Rodésia. Mas quando o engenheiro alargou o Plano de Lusaka à FRELIMO, Almeida Santos esteve de acordo:
A.S. - O engenheiro Jorge Jardim - conta Almeida Santos - que era um homem do regime e que lutou em Moçambique à frente de milícias próprias, aliás nunca percebi bem qual era a natureza legal daquele exército privativo que ele comandava, apercebeu-se que a solução militar não era possível e negociou ele próprio um acordo de descolonização de Moçambique com a FRELIMO, com o apoio dos presidentes da Zâmbia e do Malawi. E como nós, embora adversários, éramos pessoalmente amigos, ele foi-me dando conta dos passos dessa negociação e eu pude verificar que ele tinha feito uma evolução enorme no sentido da abertura a soluções políticas. Devo dizer-lhe que o acordo que ele negociou não era substancialmente diferente daquele que veio a ser negociado depois, apesar de ele ter uma mentalidade conservadora e de ser um dos arautos do anterior regime. Apenas o prazo transitório definido era de três anos e, nessa altura, o suporte militar para a negociação estava intacto. Mas o professor Marcelo Caetano declarou-lhe claramente que preferia uma derrota militar e não aceitou o acordo. E assim tivemos que ir para uma solução, a seguir ao 25 de Abril, já com as condições deterioradas do ponto de vista militar e até de opinião pública."

                   Timor
Quando estalou a guerra em Timor, com a Indonésia a apoiar no terreno dois dos três beligerantes, Almeida Santos deixara já a pasta da Coordenação Interterritorial. Mesmo assim, foi ao antigo ministro que Costa Gomes pediu que deitasse a mão ao escaldante dossiê:
               A.S. - Fui solicitado pelo Presidente da República - recorda Almeida Santos - para ir numa missão a Timor, em Agosto, tentar pacificar aquela gente. Passei pela ONU, consegui que o Kurt Waldheim me facultasse disponibilidade para mobilizar um grupo de 'capacetes
azuis' e parti para a Indonésia e para a Austrália para conseguir uma força, portuguesa, multinacional, da ONU, para poder ir pacificar Timor. Tudo de acordo, menos a Indonésia, que já então alimentava o desejo de ficar sozinha em Timor.
               Pergunta - Era inevitável?
               A. S. - Não, não era. Tinha sido negociado um acordo que previa um longo período de transição, uma consulta popular, a possibilidade de prorrogação do prazo transitório para que pudéssemos garantir a Timor a independência económica sem a qual não haveria independência política. Mas entretanto, as forças políticas iam criando um foco de animosidade, até que deflagrou a guerra."

                  Retorno
Ao fim de cinco séculos, os portugueses deixaram o vazio, como diz Almeida Santos, ele próprio "retornado" de Moçambique:
Foto de Alfredo Cunha, capa da primeira edição
 de O Regresso das Caravelas
               A.S. - Quando os portugueses saíram dos territórios ultramarinos - diz Almeida Santos - deixaram de facto o vazio. O vazio administrativo, porque em geral os quadros eram portugueses, e o vazio económico, na medida em que as infra-estruturas, comunicações, empresas, ficou tudo abandonado. E, por outro lado, não se tinham preparado os africanos para o exercício do poder."
O retorno, em 1975, constituiu um impacto brutal sobre uma economia frágil e vulnerável e uma situação política e social explosiva. Almeida Santos considera que a integração foi, mesmo assim, um sucesso:
               A.S. - Isso para mim - diz Almeida Santos - é um pequeno milagre, porque Portugal recebeu, no espaço de meses, quase 10 por cento da sua população. Foi um êxito que teve aspectos dramáticos e de grande sofrimento para muita gente, o que eu lamento. Mas quer os retornados, quer os portugueses que cá estavam, portaram-se heroicamente. Os retornados encarando o fenómeno com grande coragem e espírito de resignação. Os de cá pondo a funcionar as instituições tradicionais da família, da amizade, da solidariedade, que hoje não sei se seria possível porque o mundo está cada vez mais egoísta. Mas nessa altura a solidariedade funcionou.
               Pergunta - E quanto ao apoio do Estado?
               A. S. - Criámos o Quadro de Adidos para os funcionários, que foram imediatamente integrados nesse quadro ou colocados em novos postos de trabalho sem perda de direitos. E para aqueles que não eram funcionários, criámos o IARN, que teve a coragem de instalar os retornados em hotéis durante longo tempo, e que lhes deu meios para poderem tomar iniciativas que, na altura, foram muito úteis para a recuperação da economia portuguesa. Na altura, em dinheiro de 74, nós despendemos com o IARN qualquer coisa como 12 milhões de contos, dinheiro que quase não tínhamos.
               Pergunta - Não teve conhecimento de casos de fraude e corrupção com fundos do IARN?
               A. S. - Devo dizer-lhe que, com raras excepções, ninguém acusou a gestão desses meios de desonestidade, como hoje se acusa quando se trata dos fundos estruturais europeus. Havia um caso ou outro participado às autoridades judiciais, mas perfeitamente pontuais e não creio que tenha sido preso alguém. Aí sim, foi um processo quase exemplar.
               Pergunta - E quanto aos direitos perdidos, nos novos países independentes, por esses portugueses?
                A. S. - Relativamente a direitos, propriedades e bens, eles estavam salvaguardados nos acordos que negociámos. Mas não puderam ser salvaguardados na realidade, pela simples razão que os factos ultrapassaram todas as previsões e o ressentimento, ao fim de treze anos de guerra, foi superior a todas as boas palavras e boas intenções. Acredito que mesmo alguns africanos responsáveis terão desejado que não fosse assim, porque sabiam que estavam a destruir os seus próprios países e a criar um vazio irresponsável. Mas não tinham capacidade de vencer o entusiasmo, os slogans que, na altura, comandavam a realidade quer continental quer ultramarina.

João Paulo Guerra, O Regresso das Caravelas
TSF, entrevista gravada em 12 de Fevereiro de 1993


A série de reportagens O Regresso das Caravelas foi posteriormente passada a escrito e publicada em 1996 (Dom Quixote), 2000 (Circulo de Leitores) e 2010 (Oficina do Livro)

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