quinta-feira, 23 de abril de 2015

Os 25 anos que mudaram Portugal

Por João Paulo Guerra, Diário Económico, 14 de Abril de 1999

Nos meses que se seguiram a Abril de 1974, quando alguma coisa corria mal costumava dizer-se: «Não foi para isto que se fez o 25 de Abril». Os capitães tinham entrado na cena política com o Programa dos três Dês: Descolonizar, Democratizar e Desenvolver. Nem tudo terá corrido como estava nas intenções dos militares que derrubaram a ditadura. Mas, bem ou mal, para o melhor ou para o pior, Portugal descolonizou, democratizou-se e com o correr dos anos desenvolveu-se.



Passados 25 anos, quem compare os indicadores encontra um país irreconhecível. Claro que nem todas as mudanças têm uma relação directa de causa e efeito com o 25 de Abril e com o processo revolucionário que se lhe seguiu. Mas nenhuma mudança – dos indicadores macro-económicos e de conforto, à alteração das mentalidades e dos hábitos – teria sido possível sem a instauração em Portugal de um regime democrático e sem a integração de Portugal no concerto das nações democráticas e no espaço de desenvolvimento económico e social da Europa, o que exigia a democracia como condição.
É certo que a democracia portuguesa tem as suas nódoas negras: a corrupção, o clientelismo, a excessiva partidarização da vida política e social, o desenvolvimento desigual e injusto, o trabalho infantil, o trabalho precário,  a exclusão e outros sinais do «horror económico», a desertificação dos campos e a desumanização das cidades, as cicatrizes da descolonização, o stress de uma sociedade de consumo e ultra-competitiva.  Também é certo que Troikas, Governos e interesses revertram  muitos destes sinais de progresso.
«Não foi para isto que se fez o 25 de Abril». Mas também foi para que se falasse livremente de tudo isto – que antes existia escondido aos olhos dos portugueses pelo lápis da Censura –, que em 25 de Abril de 1974 um capitão de 29 anos, Fernando José Salgueiro Maia, avançou sobre Lisboa a partir das ruínas do Convento de S. Francisco, em Santarém, para derrubar outras ruínas. 


25 anos de mudança


1973 1997
População 8.630.500 9.957.300
Menores de 20 anos 36,70% 28,00%
Maiores de 65 anos 10,20% 15,00%
Taxa de natalidade 20,2 por mil 11,3 por mil
Casamentos 77.325 65.770
Divórcios 509 14.078
Alojamento com água canalizada 69% 93,20%
Alojamento com WC e/ou duche 60% 89,10%
Alojamento com cozinha  67,60% 99,30%
Analfabetismo 29% 10%
Estudantes universitários 58.605 319.525 (a)
Universidades públicas 4 14
Universidades privadas 1 9
Institutos politécnicos e escolas superiores 0 45
Aparelhos de TV 542.846
Aparelhos de rádio 1.505.782
Bilhetes de cinema vendidos 28.065.000 10.447.000 (a)
Salas de espectáculos 505 347 (a)
Bibliotecas 301 1.621
Jornais e revistas 1316 1.334 (a)
População activa 36,60% 49,70%
Desemprego 7,50% 4,80%
Reservas de ouro 773 ton. 499,7 ton.
Cobertura das import p/ export  60% 71,90%
Inflação 10,50% 2,80%
PIB per capita 32,6 contos 1.800,4 contos
Produção de trigo 533.000 ton. 325.000 ton.
Pesca de bacalhau 46.704 ton. 0
Médicos por mil habitantes 1,2 3,1
Mortalidade infantil 37,9 por mil 6,4 por mil 
Óbitos por cancro 11.978 19.171
Óbitos por doença cardíaca 21.301 51.750
Acidentes de viação 36.638 51.360
Mortos na estrada 1.307 1.999
Automóveis 947.977 5.668.326
Km de auto-estradas 44 1.400
Magistrados 443 1.231 (a)
População prisional 5.008 12955 (a)
Telefones 948.003 4.002.000
Tráfego postal 372.000 volumes 1.089.359.000
Camas de hotel 39.646 211.315
Entradas de estrangeiros 4.079.712 24.120.000
 1999
Fontes - INE, PT,
Agência Lusa







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