terça-feira, 21 de abril de 2015

24 / 25 de Abril: Portugal dos pequeninos cresceu

O regime anterior tinha uma ideologia e valores: Deus, Pátria, Família, Autoridade. Depois, palavras de José Afonso deram o mote para a revolução: na «terra da fraternidade», «o povo é quem mais ordena». Depois, veio o Estado plural

Por João Paulo Guerra, 
Diário Económico, Abril 1999

O Portugal do Estado Novo tinha um passado – mistura de «fanfarronice e humildade», disse Eduardo Lourenço – e um destino: a expansão ultramarina. 



Portugal atribuía-se uma missão no mundo: levar a todos os continentes a doutrina católica e os valores da família. Contemporâneo de Hitler e de Mussolini, Salazar criou uma ideologia para consumo caseiro – a «Ordem natural das cousas», 1933 – e fez de António Ferro o seu profeta. Raúl Lino traçou a casa portuguesa, com certeza, e ergueu o andar modelo do país no «Portugal dos Pequeninos».
«O Livro da Primeira Classe», editado e reeditado ao longo de várias gerações pela Livraria Didáctica, com a chancela do Ministério da Educação Nacional, era o Bê-á-bá do regime, as primeiras letras da forma de ser e de estar no Portugal de Salazar: um paraíso bucólico, a que não faltava o tilintar das campainhas dos rebanhos, homens trabalhadores e mulheres donas de casa, modestos e felizes, com respeito às autoridades por ordenação divina e o destino controlado pelo Estado Novo. Exemplos:

Os anjos do lar

«Emilita é muito esperta e desembaraçada, e gosta de ajudar a mãe.
Minha mãe: Já sei varrer a cozinha, arrumar as cadeiras e limpar o pó. Deixe-me pôr hoje a mesa para o jantar.
 – Está bem minha filha. Quando fores grande, hás-de ser boa dona de casa.
«Quando a Isabel fez anos, a tia Maria deu-lhe de prenda um fogão para as bonecas (...) Nesse dia, foram visitá-la algumas meninas suas amigas. E a Isabel pediu à mãe que lhe deixasse fazer no fogão o arroz-doce para a merenda. A mãe deu licença, e todas, a cantar, trabalharam de cozinheiras»

Deus, Estado Novo e Autoridade
 – Gostei tanto de ir hoje à escola, minha mãe! A senhora professora estava muito contente, porque inaugurou uma cantina, onde os meninos pobres podem almoçar de graça. Se visse, Mãezinha! As mesas muito asseadas, os pratos branquinhos, jarras floridas e tudo tão alegre! (...)
- Perguntei à senhora professora quem tinha feito tanto bem à nossa escola e ela respondeu-me:
– Foi o Estado Novo, que gosta muito das crianças...»

«O pai é a autoridade na família. Os filhos são obrigados a ter-lhe amor, respeito e obediência.
«O professor é a autoridade na escola. Todos os meninos devem obedecer às suas ordens e estar com atenção às suas lições.
«É Deus quem nos manda respeitar os superiores e obedecer às autoridades.»

Aquém e além-mar

«O Manuel e o Fernando foram brincar para o jardim da casa duns amigos, seis irmãos espertos e alegres. Fazendo projectos de futuro, o Manuel declara aos companheiros:
– Eu, quando for grande, quero ser aviador. Hei-de voar como os passarinhos e ainda mais alto.


O José:
– Pois eu hei-de ser médico. Quero descobrir remédios para curar a minha avó, que está entrevada.
O Carlos:
– Isso é bom. Mas eu antes queria ser padre, ter uma igreja, um altar, dizer missa e pregar sermões.
 – Eu então, disse o Fernando, quero ser lavrador como o meu pai (...)
 – E tu Beatriz, que queres ser quando fores grande?
 – Quero ser professora (...)
– E eu, disse a Clarinha, gostava de ser missionária, ir para muito longe ensinar doutrina aos pretinhos.
 – Pois eu, gritou a Filomena batendo as palmas, quero ser dona de casa como a minha mãe!

O país não sabe ou não responde
Um estudo do Instituto Português de Opinião Pública e Estudos de Mercado (IPOPE) datado de 1973, publicado em livro pela Moraes Editores, revela o Portugal cinzento daquele tempo: em ano de eleições para a Assembleia Nacional, a esmagadora maioria dos entrevistados abstinha-se de dar qualquer resposta às mais elementares questões da vida colectiva.
«Tudo corre bem enquanto se pergunta ao entrevistado a idade, o lugar onde nasceu, os seus estudos, etc. Porém, no momento em que as perguntas tocam em temas de opinião, deixa-se de obter resposta às mesmas», assinalava o texto de análise do inquérito, acrescentando: «E não é porque os temas das perguntas sejam comprometidas ou comprometedoras. Trata-se de perguntas deste género: por exemplo, se o entrevistado julga que as ruas da própria cidade estão ou não bem cuidadas».
A realidade era que mais de 70% dos inquiridos não sabia ou não respondia quando à necessidade de mais ou menos parques de estacionamento, bibliotecas, centros de recreio e cultura ou zonas verdes; cerca de 60% não queria pronunciar-se sobre as canalizações da água e 99,9% não sabia ou não respondia sobre o estado do abastecimento de electricidade ou eventuais problemas com a iluminação pública. «Deparamos - concluiam desanimados os autores do inquérito - com uma sociedade sem opinião».
Analisando o painel de entrevistados, o estudo revelava que «a mulher carece de opinião em muito maior grau do que o homem» e que as respostas escasseavam «com o aumento da idade do entrevistado». Mais afoitos, cerca de 17% dos jovens inquiridos permitia-se responder que o serviço militar era o principal problema da juventude. Para 26% dos inquiridos com mais de 62 anos, no entanto, o mais preocupante problema dos jovens era o «excesso de liberdade» e a «desordem».
Do conjunto dos inquiridos, mais de 70% admitia prestar pouca ou nenhuma atenção à vida política e designadamente às campanhas eleitorais. A maioria entendia mesmo, em relação à política, que o desejável era «um homem competente» que assumisse «a autoridade» e decidisse por todos. De um modo geral, os entrevistados afirmavam-se orgulhosos do «passado histórico», das «qualidades do povo português» e da beleza da «paisagem».

A mística da terra
«Eu sou um rural. Independentemente do que se possa chamar a poesia campestre que atrai os sorrisos um tanto desdenhosos da economia industrial, por mim, e se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria, mas se quereis ser ricos não chegareis lá pela agricultura, ainda que progressiva e industrializada (...) Somos um país pobre que não pode aspirar a mais que à dignidade de uma vida modesta».
A sentença do ditador traçava o cenário da ditadura: mística da terra e vocação da pobreza. José Cardoso Pires, na «Cartilha do Marialva», observava a paisagem: «Numa estrutura feudal-agrária o camponês aceita temerosamente a ordem cósmica como temerosamente aceita a ordem terrestre (divinização do chefe), ambas de poderes misteriosos».
O salazarismo na agricultura traduziu-se por uma filosofia de hortas e quintais para o consumo doméstico e de grandes e ancestrais projectos para o abastecimento: o Alentejo como «celeiro de Portugal», através das «campanhas do cereais», e o Centro e Norte como adega do país – «Beber vinho é dar pão a um milhão de portugueses». No plano social, os camponeses e assalariados rurais não passariam da cepa torta. As «praças de jornas» eram aviltantes formas de contratação do trabalho que abundante literatura neorealista comparou aos mercados de escravos do século passado.
No topo da pirâmide social, os senhores da terra eram também os suseranos que faziam girar a roda da fortuna. Em Abril de 1974, 1% dos proprietários detinha 80% da superfície agrícola útil do Alentejo.

Fontes de informação e de formação
A RTP, a Emissora Nacional (EN) e o «Diário de Notícias» eram as principais fontes de informação e de formação da opinião dos inquiridos: 70% via diariamente o Telejornal, 65% ouvia habitualmente os noticiários da EN e 32% os do Rádio Clube Português, cerca de 20% lia com frequência o «DN», o «Jornal de Notícias» ou o «Diário Popular». Dos semanários, o «Século Ilustrado» (21,1%), a «Flama» (12,8%), a «Vida Mundial» (9,6%), o «Observador» (8,7%) e o «Expresso» (7,4%) reuniam as preferências, enquanto que cerca de 8% dos inquiridos com hábitos de leitura se repartia por publicações de «esquerda» como a «Seara Nova», o «Comércio do Funchal», o «Tempo e o Modo» ou o «Notícias da Amadora». Embora com menor audiência, os jornais mereciam dos seus leitores maior credibilidade que a rádio aos seus ouvintes e esta mais que a televisão aos seus espectadores. 
Neste quadro, não eram apenas os limites estreitos do direito de voto e do carácter das chamadas eleições que condicionavam a participação dos cidadãos na vida pública. Cerca de 62% dos inquiridos não estavam recenseados, o que nem sequer traduzia a verdadeira situação no país: no território do continente, o número de inscritos no recenseamento eleitoral ficava-se por 1.698.109, o que representava 20,4% da população, percentagem que descia para a ordem dos 11 a 13% em distritos como Faro, Beja e Setúbal. Na eleição de 28 de Outubro, segundo dados oficiais não fiscalizados, terão votado 65% dos eleitores recenseados, o que correspondia a 13,2% da população.
Eleições de 1975

Cerca de um ano depois, em Dezembro de 1974, abriu o recenseamento democrático para a eleição da Assembleia Constituinte que veio a apurar 6.231.372 eleitores, ou seja, 75,3% da população. É certo que o recenseamento baixou dos 21 para os 18 anos. Mas de certo teve mais peso o facto de o povo acreditar no verso da cantiga que servira de senha à revolução: «O povo é quem mais ordena».

A partir de então, os cidadãos votam. Embora, desde então, a abstenção tenha aumentado constante e consideravelmente. Em 25 de Abril de 1975, a fome de votos levou às urnas 93% dos recenseados, deixando a percentagem de abstenção pelos 7%, valores que não mais se repetiram.
João Paulo Guerra, Diário Económico, Abril 1999

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